segunda-feira, 5 de novembro de 2012

À espera do pior, por Ricardo Noblat



O medo e o ranger de dentes parecem ter cedido lugar à cautela e à sensatez como atitudes mais indicadas para orientar o comportamento do PT diante do que está por vir – a cadeia, destino certo de alguns dos seus festejados ex-dirigentes, e a possível, embora ainda incerta, investigação sobre o papel desempenhado por Lula no esquema do mensalão.
O PT estava pintado para a guerra. Guardou as armas. Fez bem.
Deu-se, por exemplo, como definida a ausência da presidente Dilma Rousseff na posse do ministro Joaquim Barbosa, o novo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF).
Lula não queria vê-la por lá nem com manto, cetro e coroa. Está furioso com o rigor que tem pautado as intervenções de Joaquim durante o julgamento do mensalão.
Imperdoável, por suposto.
E pensar que Joaquim deve a Lula o cargo que ocupa... E pensar que seu nome foi selecionado por Frei Betto, assessor especial de Lula no primeiro governo dele.
Ingrato!
Afinal, prevaleceu a moderação. Dilma viajará à Espanha. Mas voltará às vésperas da posse de Joaquim na vaga a ser aberta com a aposentadoria do ministro Carlos Ayres de Britto.
Trata-se de um rito de Estado a presença do presidente da República na posse do chefe do Judiciário. Pelo menos assim entende Dilma.
O contrário seria no mínimo um desaforo. Ou para ser exato: um ato de provocação.
Presidente da República pode muito, mas não pode tudo.
A condenação do deputado João Paulo Cunha (PT-SP), um dos envolvidos no crime do mensalão, desatou no PT uma onda de ataques duros e inconsequentes ao STF.
Como se aquela corte fosse composta por homens fracos, covardes, que cedem à pressão de uma imprensa supostamente ávida por cabeças e de uma opinião pública bobinha movida a manchetes e artigos.
O barulho provocado pelo julgamento talvez fosse capaz de influenciar o resultado de uma eleição nacional. Mas a que tivemos há pouco foi local.
O PT saiu dela celebrando alguns prodígios – o único de fato retumbante, a reconquista da prefeitura de São Paulo.
É o terceiro partido em número de prefeitos. Mas é o primeiro em número de pessoas que governa.
O PMDB e o PSDB perderam prefeituras.
O PSB foi o partido que mais cresceu – 40%. Embora tenha obtido vitórias em Minas, Rio de Janeiro e São Paulo, se mantém um partido basicamente regional. Nordestino. Deixou de ser satélite do PT – e isso não foi pouco.
Alguém deve ter-se dado conta de que a rebelião do PT contra o STF poderia agravar a situação do partido aos olhos do distinto público e na reta final do julgamento.
Aconselhado pelo ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, Lula reuniu-se com José Dirceu e José Genoino e ordenou que baixassem a bola. A ordem foi repassada ao deputado Ruy Falcão, presidente do PT.
Nada de nota oficial para censurar o STF. Nem de manifestações hostis promovidas pela Central Única dos Trabalhadores.
A hora é de esperar para ver no que vai dar.
O PT imaginou que o STF absolveria algumas de suas estrelas – Dirceu e Genoino com certeza. Foram condenadas.
O PT imaginou que, se condenadas, elas acabariam poupadas de cumprir pena atrás de grades. Tudo sugere que não serão.
Para completar, o ex-publicitário Marcos Valério, um dos operadores do mensalão, pediu para ser ouvido pelo Procurador Geral da República e, em depoimento assinado, disse que tem muito a revelar.


Reza o PT para que Valério não tenha como provar o que a VEJA e o jornal O Estado de S. Paulo publicaram nas últimas semanas – que Lula era o chefe do mensalão; que Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda, participou do esquema da compra de apoios políticos; e que ele, Valério, enviou para o exterior dinheiro destinado ao PT.
Terá Valério abastecido ou tido acesso à caixa-mãe de todos os Caixas 2 onde o PT esconde dinheiro obtido irregularmente? Será trágico para o partido se isso tiver ocorrido.
Valério quer contar o que diz saber em troca de menos anos de cadeia. O Procurador Geral da República poderá ou não aceitar sua proposta.
Mas caso Valério formalize uma denúncia contra quem quer que seja, e desde que ela seja minimamente fundamentada, o Procurador não poderá ignorá-la. É sua obrigação providenciar para que uma denúncia de crime seja apurada.
Então talvez saberemos se Lula foi de fato apenas um idiota, um panaca, feito de trouxa por seus acólitos, alheio ao que se passava a poucos metros do seu gabinete no Palácio do Planalto.
Ou então se Lula mente ao país até hoje.

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