segunda-feira, 5 de novembro de 2012

CRÔNICA Cartas de Londres: eu, o único gringo numa classe britânica



São 49 britânicos no mestrado para jornalistas. Vêm de famílias de advogados, médicos e até políticos. Muitos levam nomes de reis e rainhas, o que aqui significa cartões de Natal do Palácio de Buckingham e parentes com caquéticos títulos de nobreza. Mas eu, que andei numa Brasília azul calcinha até os 16 anos, formado em escola pública e filho de ex-faxineira, sou o único gringo. Engole essa, príncipe William.
Apesar das origens pomposas, os meus colegas são generosos -- sabem que meu destino é voltar ao Brasil, e não brigar por emprego aqui. Perdoam meus exageros e a dificuldade de entender os seus difíceis sotaques. No bar, alguns bebem muito até me abordarem -- para falarem de política e futebol. No dia seguinte, just in case, desculpam-se por eventuais excessos.
Ser o único gringo da classe me colocou na inesperada posição de intérprete estrangeiro sobre como os britânicos são vistos. A maioria se choca quando digo que nós os achamos tão frios quanto os alemães. "Fazemos piadas com os alemães porque eles são assim! Não somos como eles!", me disse um dos mais contidos. Pode ser. Mas pergunte a um estrangeiro em Londres se tem amigos locais. A resposta quase sempre será “não”.
Na mesma faculdade, num prédio centenário no centro, há uma turma com 86 jornalistas gringos. Querem ser correspondentes internacionais. Como brasileiro, tento cumprir minha vocação e organizar a agenda social, servir de ponte. Até funciona, mas o convívio ainda é frágil: meias horas no boteco (foto abaixo) não anulam os estereótipos dos estrangeiros nem a cautela dos colegas de classe. As únicas pessoas dignas de simpatia imediata, principalmente para os rapazes, são as alunas do Leste Europeu. Muito justo.

The Blacksmith and the Toffeemaker: o pub candidato a 'boteco'

Já esperava ser minoria neste ano, mas não em viver uma experiência mais britânica que multinacional. Pelos relatos de amigos que aqui estudaram, sairia com convites de férias com ex-colegas no Havaí, na Alemanha, no Egito, na China, na Bósnia, na Sibéria, onde quer que não houvesse memória de fish and chips ou de feijão no café da manhã. Terei uma experiência rara, mas menos global. Efeitos da crise econômica e do aumento das mensalidades.
Dez anos atrás também era minoria. Eu e mais um, entre 45 universitários, nunca tínhamos sequer viajado de avião. Agora, às portas da elite, assim como o Brasil, noto o quanto falta para entrar. Neste mês, sendo gringo entre os gringos, me sinto na biblioteca infinita de Jorge Luis Borges, onde o acesso garante a certeza de cada vez mais desconhecimento.

Maurício Savarese é mestrando em Jornalismo Interativo pela City University London. Foi repórter da agência Reuters e do site UOL. Freelancer da revista britânica FourFourTwo e autor do blog A Brazilian Operating in This Area No Twitter: msavarese. Email: savarese.mauricio@gmail.com. Maurício estará aqui no Blog todas as segundas, com a difícil tarefa de suceder à nossa Mariana Caminha...

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