quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Golpe de aluguel globalizado



O Globo -

Novo tipo de estelionato chega ao Rio: oferta de imóvel barato demais
O aviso chegou pelo e-mail de uma amiga: num site de classificados, havia oferta de uma cobertura na Lagoa, com dois quartos, salões, piscina. Todos os ambientes mobiliados. O aluguel: R$ 900, com condomínio incluído. Tão bom que dava para desconfiar. E Maria Lopes desconfiou, quando viu o anúncio:

— Era bom demais para ser verdade.

Era mesmo. A oferta é uma isca para um golpe que vem sendo aplicado via internet em várias cidades do mundo e, desde o ano passado, chegou ao Brasil. Primeiro por São Paulo, e agora no Rio. Os apartamentos ficam sempre em áreas nobres, e os aluguéis pedidos estão muito abaixo dos valores praticados no mercado. E apesar dos endereços anunciados serem reais, as fotos mostradas não são daqueles imóveis.

No prédio em questão, na Rua Sacopã, por exemplo, há duas coberturas de três quartos e 120 metros quadrados (o anúncio falava em 80 metros quadrados). Uma delas teria sido alugada ano passado por R$ 7 mil. Fora a taxa de condomínio, ou seja, mais mil reais.

Vítimas na Espanha, Inglaterra, Finlândia...

Na internet, descobre-se que os mesmos R$ 900 já foram pedidos por outra cobertura, na Rua das Laranjeiras. Na Barata Ribeiro, em Copacabana, foi anunciado um valor um pouco mais alto: mil reais, tudo incluído também.

Mesmo desconfiada de algo errado em aluguel tão barato, Maria resolveu mandar mensagem para o anunciante. A resposta chegou poucos dias depois. Por e-mail e em inglês. A pessoa, que se identificou como Nicole Gullman, designer gráfica, disse morar em Manchester, na Inglaterra, que comprara a cobertura anos antes para a filha, que viera estudar no Rio e agora voltara para casa. O aluguel baixo era uma maneira de ocupar o imóvel vazio. Para concretizar o negócio, de forma segura para ambas, Nicole queria receber o equivalente a dois meses de aluguel, através do Moneybookers (site que realiza transferências de dinheiro on-line) e explicava que, após o pagamento, Maria receberia as chaves. E teria, então, dois dias para responder se queria ficar com o imóvel ou não. Durante o período, o dinheiro ficaria bloqueado.

No Moneybookers, entretanto, há um aviso dos tipos de fraudes mais comuns usando seu nome — o site foi contatado pela reportagem, mas até o fim da edição, não havia retornado. Entre as fraudes, está lá: aluguel barato oferecido por pessoa de outro país. O golpe é concretizado, segundo o site, quando alguém, se dizendo funcionário de seu escritório local, envia e-mail para o pretendente a locatário, dando a conta para o depósito. Na internet, é possível encontrar relatos de vítimas que dizem ter pago o aluguel em países como Suíça, Espanha, Inglaterra e Finlândia.

Mais antenada que alguns europeus, Maria foi até o prédio na Rua Sacopã para se certificar de que o imóvel realmente existia. Um funcionário deu o serviço: em 15 dias, cerca de dez pessoas já haviam passado por ali, querendo saber sobre o imóvel. Mas nenhuma das duas coberturas do prédio estava vazia ou sendo alugada.

— O que mais me chamou atenção é que o inglês da “Nicole” é relativamente bom, e ela fala sobre a família da mesma forma que fazem proprietários de imóveis na Inglaterra — conta Maria, que já morou naquele país, onde chegou a alugar apartamentos.

Procurados, os proprietários de uma das coberturas do prédio na Lagoa disseram que ainda não sabiam da história e que iam estudar o que fazer. Na delegacia de Defesa do Consumidor, não houve qualquer registro do golpe. Assim como na 15ª DP, na Gávea, a mais próxima ao local. A falta de registros impede que a polícia do Rio investigue o assunto e torna ainda mais difícil que os estelionatários sejam descobertos.

Tem que ver para crer

Estelionatos envolvendo ofertas de aluguel não são exatamente novidade. Em prédios com muita locação por temporada, por exemplo, onde o entra e sai é grande, já houve registros de pessoas que trocaram a chave de um apartamento que estava fechado e alugaram o imóvel, sem ter qualquer relação com seus proprietários. Os donos só descobriram o golpe quando tentaram abrir a porta.

Para o advogado Hamilton Quirino, especialista em direito imobiliário, é preciso tomar alguns cuidados na hora de alugar um imóvel, seja por temporada ou para morar. Principalmente, antes de efetuar o pagamento:

— Não se deve pagar nada antes de ter as chaves em mãos. Se for indispensável fazer uma reserva, o valor deve ser simbólico. Nunca um aluguel completo e jamais em nome de pessoa física.

Até porque, a cobrança antecipada de aluguel só é permitida em temporada. De outra forma, é proibida por lei.

Segundo Quirino, também há outras medidas que podem ser tomadas para se certificar de que não se trata de um golpe, como pedir para ver uma cópia do contrato e fotos do local (prédio e interior) com a descrição dos objetos.

— As fotografias até podem ser montadas, mas dá mais trabalho. E, dificilmente, golpistas têm contratos prontos para enviar — acredita Quirino.

No caso do aluguel de veraneio, é bom pedir a algum parente ou conhecido que se certifique da existência do imóvel. No mais, é preciso tentar conhecer o prédio e conversar com o porteiro ou morador, para pedir informações, antes de qualquer pagamento.

Confira trechos dos e-mails trocados

Nicole: “O único inconveniente é que meu trabalho não me permite deixar Manchester, mas isso não será um problema pois eu posso fazer a negociação de aluguel daqui de Manchester”.

Maria: “Eu gostaria de ver o apartamento. Como podemos combinar?”

Nicole: “Como eu já disse, estou em Manchester. Mas encontrei uma maneira para que o pagamento só caia, após você receber as chaves. A solução é o site que vai realizar o pagamento e enviar as chaves”.

Maria: “Você deve entender que não posso enviar nenhum dinheiro antes de ver o apartamento. Talvez você possa enviar as chaves para o prédio. Tenho certeza que eles devem ter um porteiro ou administrador que possa guardá-la para você. Aguardo sua resposta”.

A resposta, claro, nunca chegou.

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