terça-feira, 8 de maio de 2012

O erótico Pato Donald


Enviado por Rádio do Moreno - 
7.5.2012
 | 
13h41m
COLUNA


Hélio Pólvora 

Pato Donald nunca foi de chercher la femme, perdão, chercher la cane. Sua sexualidade sempre me pareceu normal, calma, discreta, da espécie que não discute fêmeas em bares nem alardeia atléticas proezas amorosas. Para ele, a pata do vizinho nunca está mais gorda e tenra do que a sua. Em suma, Donald Duck não é de pular a cerca nem urinar fora do caco. 
O mesmo não se diria do Pato Donald do Parque Epcot, no Disney World, em Miami, destino turístico de muitos brasileiros. Queixa-se uma frequentadora americana, portanto menos imune a suspeitas, que, em 2008, ele, o pato, agarrou-lhe os seios. Ignoro se neles tocou intencionalmente, com intuitos eróticos, se apenas os roçou ou premiu por acidente. O jornal The Sun, de onde partiu a notícia, não dá pormenores — ou então o tradutor em português suprimiu-os. Mas há um agravante: Pato Donald, que devia ter tomado umas e outras, ou sentia-se em estado de abandono afetivo, teria atacado a queixosa quando esta se fazia acompanhar do noivo e do filho. 
Caso de privação de sentidos, se não tiver inspiração alcoólica. O Donald que conhecemos, dos desenhos animados, das tirinhas de jornais, tem voz rouca, é neurótico, vive permanentemente angustiado por pequenos problemas do cotidiano — mas não é agressivo com patas, muito menos com mulheres. É em geral bem educado, paciente com os sobrinhos, useiros e vezeiros em causar-lhe transtornos, e suporta o mau humor, a avareza, o exibicionismo de tio Patinhas — único ricaço na família. 
A mulher sexualmente assediada por Donald, no Parque Epcot, chama-se April Mogolon, tinha 27 anos, provavelmente é charmosa, de busto cheio, e levou Disney à barra dos tribunais. Queria indenização de 88 mil dólares. Até que não exige muito, tendo em vista a gravidade do assédio. Está no seu direito, embora um aspecto do caso me preocupe: somente mais de dois anos depois resolveu pedir compensação por danos morais. Segundo afirma, continua traumatizada até hoje, sofre de ansiedade, a cabeça não para de doer, está sujeita a pesadelos constantes, insônia, suores frios, problemas digestivos. As últimas férias da família foram definitivamente estragadas, a Sra. Mogolon não consegue mais concentrar-se nas atividades domésticas. Um horror. 
Esse Pato Donald da Disneylândia merece um corretivo. Se eu fosse parente do Donald verdadeiro, o dos gibis e dos filmes de Walt Disney, aconselharia um segundo processo por danos morais. Afinal, estão a infamar o Pato original, a macular-lhe a imagem, a impingir-lhe má fama. Com certeza tio Patinhas é da mesma opinião. Suou, embora não se saiba como, para acumular uma montanha de ouro e passar as horas mais felizes da vida a surfar sobre as moedas. Até a penúltima crise financeira internacional ele era o símbolo do triunfante capitalismo americano. Hoje, com o PIB baixo, o crescimento lento e empregos escassos, a economia americana arquivou tio Patinhas como sinal de abastança. 
Ainda assim, Patinhas é personagem forte. Herdou o apego ao erroneamente chamado vil metal dos avarentos criados por Shakespeare e Balzac. Arrancar uma moeda ao velho Patinhas dos gibis é tarefa hercúlea que os sobrinhos de Donald, imaginosos e arteiros como são, e ancorados numa infância perene, jamais concluíram. Nesse capítulo, certos parlamentares brasileiros lhes dariam lições preciosas. 
Quanto a Donald, este, de tão atormentado por um cotidiano cheio de armadilhas, vive de acordo com as circunstâncias. É um pato enredado, emaranhado, de nervos à flor da pele — ou das penas. É certo que tem uma companheira — qualquer pato tem—, e que esta, a Margarida, se não o resgata e o redime, pelo menos não o afunda mais, nem o leva ao açougue de aves. Margarida é pata cobradora, às vezes encrenqueira. Mas há piores. A Patalógica, por exemplo. Ou a Patacoada que tanto povoa o Brasil de hoje. 
Volto ao The Sun. Não seria a primeira, nem provavelmente a última vez que personagens de gibis atacam na Disney. Em 2004, um funcionário fantasiado de Tigrão tocou de maneira inadequada e insólita numa menina de 13 anos. A Lei Maria da Penha precisa pegar de verdade no Brasil, para que, juntamente com o etanol, o carnaval e o fisiologismo político possamos exportá-la para os Estados Unidos. Pois é, míster: os tempos mudam. Antes, o que era bom para os Estados Unidos era bom para o Brasil; hoje, é o contrário. Menos, é claro, os títulos de doutor “horrores causa” do ex-presidente Lula.
* Hélio Pólvora é escritor e colaborador da Rádio do Moreno.

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