sexta-feira, 5 de julho de 2013

O lar de Helena Rizzo e Daniel Redondo


Casal de chefs do Maní monta recanto despojado

05/07/2013 | POR ALEXANDRA FORBES; PRODUÇÃO ANA MONTENEGRO; FOTOS GUI GOMES

|
|
  (Foto: Gui Gomes)
Perto de seu marido, Daniel Redondo, parceiríssimo de trabalho no Maní, Helena Rizzo pode até parecer extrovertida. Mas, como ele, a gaúcha faz a linha low profile. “Ah, vocês vão querer mesmo fotografar? Não tem nada para mostrar aqui”, diz, com sua habitual reserva, enquanto oferece um curto tour pela despojada sala de estar. Juntos, Helena e Daniel criaram seu refúgio particular a poucos metros do restaurante que comandam, no Jardim Paulistano, em São Paulo, recentemente incluído no seleto grupo dos 50 melhores do mundo pela revista inglesa Restaurant, que o classificou em 46º lugar.
Sempre superocupados, os dois se revezam na cozinha do Maní, onde passam muitas e muitas horas se dedicando a manter o restaurante no altíssimo nível a que chegou. Badalam pouco e, quando podem, correm para casa no meio do dia – as fugidinhas, providenciais, são usadas para sestas vespertinas, ouvir música e ler. “Desde que nos mudamos de um apartamento para cá, eu nunca mais mexi na casa, ficou tudo do mesmo jeito”, conta ela. Um jeito alegre, colorido e misturado, em que peças de família garantem o tom acolhedor da decoração.
  (Foto: Gui Gomes)
Helena vem de uma família de artistas. A mãe, Ivone Rizzo Bins, pintou o tríptico que pende acima do sofá. A avó paterna compôs o poema que ladeia a porta de entrada, publicado há anos no jornal Correio do Povo, de Porto Alegre – e o avô fez a ilustração que o acompanha. Donos de um antiquário na capital gaúcha, eles presentearam à neta o belo aparador que dá as boas-vindas a quem chega e o grande armário da sala de jantar, entre outras peças. O pai, que ela define como “engenheiro, arquiteto e artesão”, fez com as próprias mãos os abajures da suíte do casal e a mesa de centro com tampo de vidro da sala.

No pequeno pátio à frente da casa, a dupla plantou ervas e verduras, inclusive o manjericão cujas florzinhas são usadas em pratos do Maní. Mas a eles aplica-se o ditado “casa de ferreiro, espeto de pau”: a cozinha é minúscula, e o tempo, apertado. Quando ela não prepara uma massa (“pedida simples e rápida”), os dois acabam comendo no restaurante, com os funcionários. E está bom assim: para Helena e Daniel, casa é lugar de descanso. “Um sofá confortável para assistir a um filme e ouvir música, uma cama gostosa e está ótimo”, garante ela. Ah, os pequenos prazeres da vida...
Daniel deixou Girona, ao norte de Barcelona (onde conheceu a mulher, na cozinha do célebre restaurante El Celler de Can Roca) para abrir, com Helena, o Maní. Na mala vieram a bicicleta dobrável, uma camisa do amado Real Madrid, devidamente autografada por Ronaldo Fenômeno e emoldurada, e pouco mais. “Eu já tinha o principal, então saímos juntos e, de uma vez só, compramos o que faltava: cadeiras, o sofá e um móvel para a TV”, lembra Helena, que ganhou do marido o toca-discos de ar retrô, disposto ao lado dos CDs. Aqui e ali, objetos revelam mais detalhes da história e da personalidade do casal. O enorme tecido com estampa de batique que decora a parede atrás da cama, por exemplo, foi comprado em um antiquário no Japão. E foi de Daniel a ideia de pendurar pôsteres de cinema e uma foto do ator Robert de Niro no living. “Ele é louco pelo de Niro”, conta a chef.
* Matéria publicada em Casa Vogue #335 (assinantes têm acesso à edição digital da revista)
  (Foto: Gui Gomes)

  (Foto: Gui Gomes)

  (Foto: Gui Gomes)

  (Foto: Gui Gomes)

  (Foto: Gui Gomes)

  (Foto: Gui Gomes)

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Não entenderam, por Merval Pereira


MERVAL PEREIRA4.7.2013 10h30m

 Nada ilustra mais exemplarmente o que as ruas estão criticando do que o uso de um avião da FAB para trazer ao Rio no último fim de semana parentes e amigos do presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves para assistirem ao jogo do Brasil na final da Copa das Confederações. Ele desculpou-se, admitindo que errara ao dar carona a parentes, mas alegando ter direito a avião da FAB por que teria um almoço de trabalho com o Prefeito do Rio Eduardo Paes.

Ora, Eduardo Alves não precisava de avião da FAB para vir ao Rio, pois tem direito a passagens pela Câmara e, sobretudo, é um homem rico. Admitir o erro já é um avanço, e restituir o dinheiro uma necessidade. Mas o fato de a viagem ter se realizado em meio à convulsão das ruas agrava o desvio, mostrando que políticos como o presidente da Câmara não entenderam nada do que está acontecendo no país.

Mais do que reformas políticas, mais do que plebiscitos ou constituintes, o que o clamor das ruas pede é uma nova postura de nossos homens públicos, uma nova maneira de se relacionar com a coisa pública. Em vez de uma reforma política proposta como a solução mágica para os problemas, o que o povo quer é mais eficiência e transparência no gasto público de todos os que têm mandato
O presidente do Senado, Renan Calheiros, depois de se fazer de cego diante de um abaixo assinado com mais de 1,5 milhão de assinaturas que pediam a sua saída da presidência, diz que ê preciso ouvir o povo nas ruas . E chegou a propor que se o povo quisesse, o prazo de um ano antes das eleições para fazer mudanças nas regras eleitorais poderia ser alterado. Uma posição irresponsável para conseguir o apoio daqueles que o querem fora do poder.
Os novos meios de comunicação, como as redes sociais, estão demonstrando outras utilidades além de promover manifestações nas ruas do país. É através deles que temos sido notificados das falcatruas que nossos homens públicos praticam, e isso não apenas por denúncias de fatos testemunhados, mas também pelo exibicionismo que esses meios incentivam.
Foi através de uma foto no Instagram que se descobriu que a família Alves estava no Maracanã, assim como, anos atrás, foi pelo Orkut que em 2004 soube-se que o filho do então presidente Lula, Luís Cláudio Lula da Silva, organizou uma excursão de amigos ao Palácio do Alvorada, com direito a uso de um avião da FAB para transportá-los a Brasília e passeio de lancha oficial pelo Lago do Paranoá. Várias mensagens foram postadas nos blogs com fotos posadas ao lado do avião e na lancha.
No governo Fernando Henrique Cardoso, longe ainda dos Facebooks da vida, a farra com jatos da FAB foi um dos principais escândalos, denunciado pelos jornais. Pelo menos seis ministros, um procurador-geral da República e um deputado usaram aeronaves da Força Aérea Brasileira para ir com as famílias, de férias, para o paradisíaco arquipélago de Fernando de Noronha. A "farra dos jatinhos'', como ficou conhecido o episódio, gerou processos, e os políticos foram condenados a ressarcir os gastos.
É cada vez mais comum entre nós a idéia de que o que é público pode ser usado pela autoridade da ocasião como se seu fosse, sem que se faça a ligação entre os gastos públicos e a falta de investimentos no que realmente importa, como alerta o povo nas ruas: educação, saúde, transportes urbanos, segurança pública.


Erro de poeta
A nota oficial do TSE sobre o plebiscito atribui o verso “Cuidado por onde andas, pois é sobre meus sonhos que caminhas" a Carlos Drummond de Andrade, mas o crítico literário e poeta Antonio Carlos Secchin, da Academia Brasileira de Letras, garante que Drummond, uma de suas especialidades, não é o autor. Na verdade a autoria é do poeta irlandês  W.B. Yeats (1865–1939), como vários leitores me avisaram 

"Espalhei meus sonhos aos seus pés. Caminhe devagar, pois você estará pisando neles".

- I have spread my dreams under your feet; Tread softly because you tread on my dreams.

- Later poems - Página 41, William Butler Yeats - Forgotten Books, 1924,

Em retaliação a Gurgel, 17 senadores derrotam indicado ao conselho do MP


  • Senadores rejeitaram em votação secreta indicação de Vladimir Barros Aras, escolhido pelo procurador-geral para compor colegiado

BRASÍLIA — No momento em que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), responde às manifestações e aprova pacote de transparência com adoção do voto aberto para todas as votações no Congresso, 17 senadores usaram o voto secreto para, em retaliação ao procurador geral da República, Roberto Gurgel, rejeitar a indicação do procurador da República Vladimir Barros Aras, para o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Maior autoridade na investigação de lavagem de dinheiro, o procurador baiano foi escolhido por unanimidade pelo Ministério Público Federal, e indicado pela Procuradoria-Geral da República (PGR). Precisava de 41 votos sim para aprovar no plenário, mas o resultado foi 38 votos sim e 17 não. Foram votados 12 indicações de autoridades, só Aras foi rejeitado.
Após a proclamação do resultado, três outros senadores votaram, mas Renan foi inflexível aos apelos para que reconsiderasse o resultado. Citando precedentes, o senador Pedro Taques (PDT-MT) tentou convencer Renan, que não reconsiderou e o líder do PT, Wellington Dias (PI), apresentou um recurso à Comissão de Constituição e Justiça, onde , na sabatina, a indicação de Aras foi aprovada por 16 votos a dois. Maior inimigo de Gurgel no Parlamento, o senador Fernando Collor de Melo (PTB-AL) ficou na Mesa, ao lado de Renan, depois de articular votos não no plenário.
A rejeição se deu ao final de uma série de discursos elogiosos, principalmente exaltando a especialidade do procurador em investigar crimes de lavagem de dinheiro. O senador Walter Pinheiro (PT-BA) , maior defensor do conterrâneo, ficou transtornado com o resultado e com a resistência de Renan em reconsiderar os votos dos senadores Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), Aécio Neves (PSDB-MG) e do líder do PSDB, Aloysio Nunes Ferreira (SP), que completaria os 41 votos necessários para a aprovação.
— Isso é covardia! Retaliar o Gurgel com um cara que foi indicado por unanimidade por uma corporação inteira? Se querem retaliar porque não enfrentam o Gurgel de frente? Vão lá e batam no Gurgel! Mas retaliar o baiano que não tem nada com isso? Isso é um absurdo, uma piração! — reagiu Pinheiro, aos gritos, depois de tentar, sem sucesso, reverter a decisão de Renan.
Os senadores Pedro Taques (PDT-MT), Lídice da Mata (PSB-BA) e Randolfe Rodrigues fizeram questões de ordem, argumentando que em outras votações tinha sido possível a reconsideração, por decisão da Mesa.
— Eu gostaria muito que houvesse essa reconsideração, mas não podemos colher votos depois de apurado o resultado — respondeu Renan a Lídice, mostrando um ato da Mesa inviabilizando o pedido.
— Mas um ato da Mesa pode ser revogado. A Mesa tem essa prerrogativa — insistiu Walter Pinheiro.
Por fim, Taques citou uma brecha no regimento que poderia ser usada para a revisão da votação. Mas Renan respondeu que isso só foi possível em votação simbólica, antes do resultado anunciado. Restou a Wellington Dias recorrer à CCJ.
— Estão achando que o Aras é um nome do Gurgel. Mas ele só oficializou a indicação do Ministério Público Federal. É a maior autoridade no Brasil em investigação de lavagem de dinheiro — disse Taques.
— Não é justo! Se foi retaliação, atingiram um procurador que não tem nada a ver com isso. Se tem alguém irritado com o Gurgel, não pode fazer vingança em cima de um cara que não tem nada a ver com isso — criticou o senador Romero Jucá (PMDB-RR).

A inteligência engraxa as botas da estupidez


Quem trabalha como assessor de um executivo, de uma autoridade, seja pública, seja privada, em algum momento, cedo ou tarde, terá a sensação de ser mais inteligente do que o chefe. Não raro este sentimento é sufocado pela ideia um tanto lógica de que se o assessor fosse de fato mais inteligente, por certo o assessor seria chefe, e o chefe seria o assessor. E estamos falados. 
E assim o subalterno se recolhe à sua sombra de insignificância e legitima o chefe em seu pedestal. Mesmo quando o assessor seja uma espécie de braço-direito, daqueles que não descuidam de seu assessorado, escrevendo seus discursos, suas palestras, falando por ele nas entrevistas, dizendo-lhe como deve se portar, o que propor, que negócio fechar, que hora entrar, que hora sair de uma situação, daqueles que entregam o parecer finalizado, que levam o despacho pronto para colher assinatura no rodapé do imbróglio mais impermeável. Ainda assim, pela lógica da disposição das coisas, pelas posições no organograma, pelo status do cargo, pelo salário que recebe, o assessor, mesmo percebendo que sua lucidez possa ser maior do que a do assessorado, é levado a crer que alguma coisa do chefe (o músculo de tomar decisão, o tirocínio talvez) seja mesmo superior.
Mas, convenhamos. Como não poderia Nicolau Maquiavel ter a sensação de ser mais inteligente do que Lourenço de Médici. Como não poderia José Bonifácio de Andrada e Silva considerar-se mais inteligente do que D. Pedro de Alcântara? Como não poderia Galileu Galilei sentir-se mais inteligente do que o grão-duque da Toscana? Como poderia Carlos Drummond de Andrade não sentir-se mais inteligente do que o Ministro Gustavo Capanema?
Os exemplos dariam para confeccionar um volume portentoso, do tamanho de uma lista telefônica de uma grande cidade, no tempo em que listas de telefones ainda havia.
De fato não é rara a situação em que o assessor é realmente mais turbinado de arranjos neurais do que o superior hierárquico. A questão que fica a nos intrigar é por que a situação não é logo invertida, rebaixando o mais estúpido e elevando o mais inteligente?
É claro que há casos de poder herdado, de injunções políticas que contrariam a suposta ordem natural das coisas, a ponto de ninguém estranhar quando se depara com um jabuti num galho de árvore. Mesmo assim, com algum espaço de tempo, era de se esperar que a inteligência deveria prevalecer e reverter a situação. Mas isso não acontece corriqueiramente. Portanto, podemos concluir que o “natural” (aquilo que ocorre com maior frequência no mundo dos fenômenos) é mesmo o mais inteligente estar a serviço do mais estúpido.
Podemos, com certa razoabilidade, estender essa noção para além das relações de assessor e assessorado. Na vida social do Homo sapiens, a inteligência é apropriada irremediavelmente pela estupidez, em todo tempo e lugar, em todas as esferas e dimensões, de forma que a estupidez circula com desenvoltura e arrogância, assessorada servilmente pela inteligência.
O que é lamentável em tudo isso é que a inteligência é convidada apenas para desenvolver os meios, a logística do projeto, as táticas operacionais, enquanto os objetivos são determinados mesmo é pela estupidez. A inteligência é um insumo usado para alcançar objetivos estúpidos.
Alguns exemplos de casos em que a estupidez se apropria da inteligência a para chegar a resultados grandiosamente danosos.
Quando, há 105 anos, foi lançado o Ford T nos Estados Unidos, conhecido no Brasil como Ford de Bigode, o primeiro carro user-friendly (facilmente dirigido), consumindo combustível fóssil, muita tecnologia nova foi incorporada, muita inteligência foi mobilizada para levar avante tão auspicioso feito. Em um século de automóvel, surgiu uma nova economia, um novo estilo de vida, uma nova razão de viver. Novas e poderosas companhias multinacionais perfuraram o planeta de canto a canto numa busca frenética pelo caldo preto e pré-histórico, para dar propulsão aos bólidos cada vez mais desejados, populares e irrestritos. Um verdadeiro sucesso de crítica e público.
Com o automóvel puxando a economia, o mundo experimentou uma riqueza sem precedentes, cujo volume e velocidade gananciosos de tempo algum ousaram sonhar. Surgiram da noite para o dia magnatas tão portentosos, cuja riqueza pessoal não seria gasta nem se pudessem levá-la consigo por toda a eternidade. Corporações gigantescas e poderosas afloraram pelo mundo na esteira desse progresso vertiginoso, de tal sorte que muitas empresas, pela primeira vez na história, tornaram-se mais influentes e poderosas do que as cidades-estados do medievo ou dos atuais países soberanos.
Muita inteligência, repita-se, foi mobilizada para que o automóvel dominasse a cena e ocupasse a paisagem da Terra, nestes cento e poucos anos. Esse domínio foi tamanho que se hoje chegasse por aqui um extraterrestre pela primeira vez, anotaria facilmente em sua carta de Pero Vaz de Caminhas que o automóvel é o animal dominante do planeta, aquele que está no topo cadeia alimentar.
Mas não resta dúvida de que esse tempo todo a inteligência esteve no cabresto da estupidez, na execução de seus objetivos mais sórdidos e autodestrutivos. Com a queima inveterada do combustível fóssil, nossa bolha de sobrevivência, mais conhecida como camada de ozônio, foi puída e rasgada a ponto de quase inviabilizar a vida do homo sapiens no planeta, sem ter dado tempo da espécie se preparar para uma possível migração. Sem dar tempo sequer de descobrir um outro planeta azul envolvido igualmente por uma célula de sobrevivência, para onde o animal sinistro pudesse levar sua inteligência puxada pelo cabresto da estupidez.
O Painel do Clima da Organização das Nações Unidas atesta que nestes 100 anos o planeta aqueceu numa velocidade espantosa: num ciclo geológico anterior, sem a presença do homem e suas máquinas tresloucadas, o aquecimento similar teria demorado sete mil anos para transcorrer.
Outro exemplo: A estupidez mobilizou um volume formidável de inteligência para converter o bioma do cerrado em estrume econômico. Em contrapartida ao aumento da produção de alimentos, propiciou o surgimento de desertos, o descontrole do clima, o aparecimento de pragas resistentes cujo controle requer cada vez mais venenos de efeitos paralelos potencialmente letais. E pode-se observar que a estupidez segue firme no controle da situação. Pois não há nenhum pesquisador que se saiba, procurando soluções para recompor o bioma do cerrado. Mas há vários grupos buscando encontrar cultivares que possam resistir e continuar produzindo num ambiente alterado e hostil.
Esquecendo-se de que nós, filhos da Natureza, não podemos prescindir de um ambiente salubre e ameno e que de nada valerão as cultivares resistentes, se o próprio homem será deletado pelo perrengue ambiental que ele mesmo provocou.
Revista Bula

Ser parisiense é..., por Ana Carolina Peliz


Na primeira entrevista com minha orientadora de tese, ela me perguntou desde quando eu era parisiense. Achei engraçado, mas é verdade que os parisienses não são as pessoas que nascem em Paris, você se transforma em parisiense.
Ser parisiense é ficar 45 minutos no metrô para ir a qualquer parte e comemorar quando o trajeto não ultrapassa 30 minutos. Ser parisiense é andar muito rápido, ainda que não se tenha horário marcado ou onde ir. É referir-se às linhas do metrô pelos números e não pelas cores e sorrir ironicamente quando alguém pergunta “Onde fica o centro de Paris?”.
Ser parisiense é saber a diferença entre os bairros, ainda que para um forasteiro “todos pareçam iguais”, é chamar aChamps Élysées de “Champs”, mas nunca colocar os pés lá. É saber onde pagar barato por uma cerveja, mas pelo menos uma vez na vida ser obrigado a pagar mais de 10 euros por ela.
Ser parisiense é saber que o verão pode durar dois dias e o inverno dois anos. É fazer piqueniques em parques, praças, jardins e às margens do rio Sena. Ser parisiense é ver a Torre Eiffel de vários ângulos diferentes, várias vezes por dia, e achar isto normal.
Ser parisiense é pagar quase 1.000 euros para morar no sexto andar de um prédio sem elevador, em um apartamento de 20 m², construído há mais de 100 anos. Ser parisiense é não conhecer seus vizinhos, mas ouvir tudo o que eles fazem através das paredes.
Ser parisiense é ter horror a pombas e aprender a convier com ratos. Ser parisiense é reclamar muito, de tudo, o tempo todo. Ser parisiense é nunca conseguir um táxi depois da meia noite e correr para pegar o último metrô.


Ser parisiense é não ter carro e, muitas vezes, nem carteira de motorista. Ser parisiense é ter uma “carte Navigo” para usar o transporte público, uma “carte Vélib” para as bicicletas de livre serviço e uma “carte Le Pass” para o cinema. Ser parisiense é gostar de Paris no verão, quando a cidade fica vazia.
Ser parisiense é sempre planejar ir embora e ver os amigos partir. Ser parisiense é fazer festas temáticas e convidar 30 pessoas para um apartamento de 30 m² sem se preocupar onde vão se sentar. Ser parisiense é ter os maiores museus do mundo à disposição, as exposições e obras de arte mais importantes da história, milhares de espetáculos e shows em cartaz todas as noites e invejar os turistas que podem aproveitar.
Ser parisiense é conhecer todos os problemas de Paris, mas ainda assim, achar que esta é a cidade mais bonita do mundo.

Ana Carolina Peliz é jornalista, mora em Paris há cinco anos onde faz um doutorado em Ciências da Informação e da Comunicação na Universidade Sorbonne Paris IV. Ela escreve aqui todas as quintas-feiras.

Nada é o que parece


Míriam Leitão, O Globo
A vida é curta para entender tanta confusão que o governo tem feito nas contas públicas. Elas são reveladas diariamente. Em dois dias desta semana se ficou sabendo que o BNDES teve mudança de seu estatuto para transferir mais dividendos para o governo e receberá mais R$ 15 bilhões do Tesouro; a Caixa também receberá mais R$ 8 bilhões. E a Eletrobras terá capital de giro coberto pelo BNDES.
O banco, que é feito para financiar investimento e que nos últimos anos tem entrado em operações polêmicas, agora vai emprestar R$ 2,5 bilhões para a Eletrobras usar como capital de giro, o dinheiro do dia a dia. Isso porque a estatal teve um prejuízo de R$ 6,8 bilhões pela mudança feita às pressas pelo governo no setor elétrico.
O Tesouro tem montado operações financeiras para receber mais dividendos das suas estatais, e, por isso, as financia ou capitaliza com endividamento público. A dívida pública aumenta, mas isso não entra na contabilidade da dívida líquida.
E com essas transferências o governo recebe dos bancos e estatais um volume expressivo de dividendos. Mais expressivos até do que os lucros auferidos pelas instituições. A Caixa pagou dividendos de R$ 7,7 bi e teve lucro de R$ 6,1 bilhões no ano passado. E agora recebe novo aporte de R$ 8 bilhões do Tesouro, a quem tinha pago os dividendos.
A lista das criaturas é enorme. Teve a maneira como foi feita a capitalização da Petrobras, em que o dinheiro passeou tanto que dívida virou receita. Há descontos no superávit primário de gastos feitos. Descontam-se até as desonerações, o que significa contar como tendo entrado no caixa dinheiro do qual se abriu mão.
Mas o mais nefasto é esse mecanismo de endividamento do Tesouro para transferir para os bancos públicos, que assim aumentam e antecipam dividendos. Segundo o “Valor” de ontem, o Tesouro Nacional recebeu R$ 3,6 bi de antecipação de dividendos do BNDES, Caixa e Banco do Brasil, em junho, para fechar as contas do semestre. É circular: o Tesouro se endivida, coloca nos bancos, que antecipam para o Tesouro dividendos.
Essa máquina de fazer dinheiro sem limite pode ser vista no gráfico abaixo, extraído do blog do economista Felipe Salto, da Tendências Consultoria. Ele mostra o total de dinheiro emprestado pelo Tesouro ao BNDES, cerca de R$ 378 bilhões, e o que isso significa em termos de PIB: 8,3%.
Para se ter uma ideia, em dezembro de 2007, havia apenas R$ 6,6 bi emprestados, o que correspondia a 0,2% do PIB. Em 2007, antes de tudo isso começar, o BNDES pagou R$ 924 milhões de dividendo ao Tesouro. Em 2012, foram quase R$ 13 bilhões.
O governo fala em “robustez fiscal” e ninguém mais acredita. Os números são gritantes, não há mais como esconder. O expansionismo do gasto público brasileiro se dá através desses mecanismos, e o governo afirma que tudo isso é “robusto”. Hoje, todo mundo já sabe que os números da contabilidade oficial brasileira não são o que parecem ser. A cada dado divulgado, gasta-se um tempo enorme para entender onde está o truque. Ele sempre está em algum lugar.

Marqueteiro de Dilma garante que ela vai recuperar a popularidade


Vera Rosa  (Estadão)
A equipe de comunicação da presidente Dilma Rousseff avalia que ela levará quatro meses para reconquistar a popularidade perdida, mas não vê abalo irreversível em sua imagem. Em troca de e-mails com ministros e dirigentes do PT, o marqueteiro João Santana garantiu que Dilma tem todas as condições de se recuperar do “terremoto neopolítico” instalado no País com a onda de protestos e o clima de “tensão pré-eleitoral”. 
A estratégia de reação consiste agora no lançamento de projetos em várias frentes, principalmente em saúde e educação. O assunto foi tratado na reunião ministerial de segunda-feira, 02, na Granja do Torto, quando Dilma encomendou uma “força-tarefa” para tirar projetos da gaveta. “Eu quero resultados, coisas concretas. Não adianta só publicidade”, afirmou ela, de acordo com relato de ministros presentes à reunião.
O prazo de quatro meses para curar as feridas tem como base o tempo que projetos levam para ganhar visibilidade nas ruas e também o cenário previsto para a melhora de indicadores econômicos, apesar das dificuldades enfrentadas. O Planalto aposta no avanço de concessões e leilões neste segundo semestre. A avaliação no núcleo político do governo é que a presidente reverterá o desgaste porque encarna o papel de líder forte, que abraça causas coletivas e acena para uma solução negociada. No diagnóstico do Planalto, a proposta do plebiscito sobre reforma política não teria aprovação tão alta nas pesquisas se ela tivesse uma imagem de descrédito. Os últimos levantamentos mostraram que a sugestão da consulta popular tem a simpatia da maioria da população.
Na análise enviada aos ministros, Santana também chamou a atenção para um dado importante: para ele, o caráter difuso das manifestações mostra que o poder central não foi abalado. O marqueteiro escreveu, ainda, que não há líder de oposição capaz de representar as insatisfações populares. Apesar da tentativa de Santana de tranquilizar o PT, o governo admite que a campanha veiculada por partidos de oposição, escancarando na TV a alta de preços e a escalada inflacionária, foi bem sucedida.
Em conversas reservadas, auxiliares de Dilma também dizem que ela fará tudo para recuperar a imagem do combate à corrupção. Em 2011, Dilma demitiu seis ministros envolvidos em suspeitas de desvio de dinheiro público.