quarta-feira, 30 de julho de 2014

Cidade subterrânea do Hamas desafia Exército


Operação já destruiu 31 túneis, mas extensão de rede pode ser bem maior que o esperado

Por Daniela Kresch/Especial para o Globo

TEL AVIV — "Gaza de baixo", "cidade subterrânea", "metrô de Gaza". É assim que o emaranhado de túneis subterrâneos escavados pelo Hamas e por outros grupos islâmicos da Faixa de Gaza é chamado pelos israelenses, que, ao que tudo indica, se espantaram com o labirinto de escavações que estão encontrando na região. Os militares revelam ter descoberto 31 túneis desde o começo da fase terrestre da operação "Limite Protetor", no dia 17 de julho. Mas especialistas apontam para um número bem maior, no que consideram ser um dos maiores esforços de construção do Hamas nos últimos anos.

Cada túnel tem várias entradas e ramificações, que os israelenses chamam de "artérias". A maioria tem paredes de concreto, eletricidade, telefonia, comida e fontes d'água, além de arsenais de armamentos, uniformes e até mesmo algemas e seringas com tranquilizantes (que seriam usados em tentativas de sequestro). Um dos túneis, de mais de um quilômetro e meio de extensão a 18 metros abaixo da terra, descoberto em 2013, utilizou mais de 500 toneladas de concreto a um custo estimado de US$ 10 milhões, suficientes para a construção de um prédio de três andares. Outras escavações têm até 2 quilômetros, mas a média de extensão é de 400 metros. Segundo o governo israelense, o dinheiro para as obras vem, atualmente, do Qatar.

Para não serem detectados, os construtores desenvolveram seus próprios métodos. Quase todas as entradas para os túneis clandestinos ficam dentro de prédios, incluindo casas de civis, repartições públicas ou estufas, o que facilita a retirada de terra sem que os israelenses detectem por via aérea.

- Temos que entrar em áreas urbanas para proteger nossas tropas que procuram por esses túneis - alega o general Gadi Shamni a jornalistas numa entrevista sobre as construções, admitindo que Israel não tem tecnologia, atualmente, para detectar essas obras.

Os túneis também são usados como depósitos de armamentos e esconderijos de militantes, o maior objetivo é ações de infiltração em Israel. Foi o que admitiu o porta-voz do Hamas, Abu Obeida em entrevista à rede de TV Alj-azeera.

- Os túneis são apenas uma arma usada pela resistência. Eles podem ser usados como posições de defesa, mas são transformados em posições de ofensiva a qualquer momento.

Os túneis começaram a ser construídos há décadas, mas tinham como objetivo primordial o contrabando de armas. Em 2007, no entanto, o Hamas tomou o controle da região, levando Egito e Israel a fecharem as fronteiras. Os túneis, então, se transformaram em meio de entrada de todo e qualquer produto a Gaza, de comida a carros. Em seu auge, entre 2007 e 2010, mais de 1,5 mil túneis movimentavam US$ 800 milhões e empregavam 7 mil pessoas.

De acordo com um relatório divulgado em 2012, o esforço de construção fez pelo menos 160 crianças como vítimas fatais. Isso porque muitos dos "ratos de túneis", como são chamados os trabalhadores dessas construções, são crianças. Segundo o documento "O fenômeno túnel de Gaza: A dinâmica involuntária do cerco de Israel", do Instituto de Estudos Palestinos, as autoridades locais não agiram para impedir o trabalho infantil.

Mas as escavações passariam por outra transformação a partir de 2011, depois que o Egito destruiu quase todos os túneis em sua fronteira: a infiltração de militantes em Israel para ações terroristas ou de sequestro A maior vitória do Hamas e de outros grupos islâmicos é justamente o fato de que israelenses foram pegos de surpresa. No dia 17 de julho, 13 militantes do Hamas conseguiram se infiltrar em Israel por um desses túneis, emergindo do outro lado a menos de 100 metros do Kibutz Sufa. Outras cinco tentativas aconteceram.

- A operação Limite Protetor é um milagre, uma campainha de alerta que ecoou e revelou o que estava sendo construído do nosso lado, em baixo dos nossos narizes – diz Ban Caspit, colunista do jornal Maariv.

Para Caspit, trata-se de uma negligência histórica israelense, até porque, em 2006, o soldado Gilad Shalit, sequestrado por islamistas, foi levado para a região por um desses túneis. Moradores das comunidades em torno da fronteira há anos afirmam escutar escavações debaixo da terra. Já se fala da instauração de uma comissão de inquérito em Israel para investigar o assunto.

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