segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Canção do exilio - Casimiro de Abreu


POEMA DA NOITE


Se eu tenho de morrer na flor dos anos 
       Meu Deus! não seja já; 
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde, 
        Cantar o sabiá!
Meu Deus, eu sinto e tu bem vês que eu morro 
       Respirando este ar; 
Faz que eu viva, Senhor! dá-me de novo 
       Os gozos do meu lar!
O país estrangeiro mais belezas 
       Do que a pátria não tem; 
E este mundo não vale um só dos beijos 
       Tão doces duma mãe!
Dá-me os sítios gentis onde eu brincava 
       Lá na quadra infantil; 
Dá que eu veja uma vez o céu da pátria, 
       O céu do meu Brasil!
Se eu tenho de morrer na flor dos anos 
       Meu Deus! não seja já! 
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde, 
        Cantar o sabiá!
Quero ver esse céu da minha terra 
       Tão lindo e tão azul! 
E a nuvem cor-de-rosa que passava 
       Correndo lá do sul!
Quero dormir à sombra dos coqueiros, 
        As folhas por dossel; 
E ver se apanho a borboleta branca, 
        Que voa no vergel!
Quero sentar-me à beira do riacho 
        Das tardes ao cair, 
E sozinho cismando no crepúsculo 
        Os sonhos do porvir!
Se eu tenho de morrer na flor dos anos, 
        Meu Deus! não seja já; 
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde, 
        A voz do sabiá!
Quero morrer cercado dos perfumes 
        Dum clima tropical, 
E sentir, expirando, as harmonias 
        Do meu berço natal!
Minha campa será entre as mangueiras, 
        Banhada do luar, 
E eu contente dormirei tranqüilo 
        À sombra do meu lar!
As cachoeiras chorarão sentidas 
        Porque cedo morri, 
E eu sonho no sepulcro os meus amores 
        Na terra onde nasci!
Se eu tenho de morrer na flor dos anos, 
        Meu Deus! não seja já; 
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde, 
        Cantar o sabiá!

Casimiro José Marques de Abreu ( Barra de São João, Rio de Janeiro 4 de janeiro de 1839 - Nova Friburgo, Rio de Janeiro 18 de outubro de 1860) - Foi um dos poetas mais populares do Romantismo Brasileiro. Colaborou com as revistas O Espelho, Revista Popular, A Marmota e com o Jornal do Correio Mercantil. Foi escolhido por Teixeira de Melo para patrono da cadeira nº 6 da Academia Brasileira de Letras no momento de sua fundação. 

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