segunda-feira, 19 de dezembro de 2011


A Tenda dos Pequenos Milagres e Câmaras de Mediação

Insônia e solidão deveriam ser sinônimos. Nas noites de insônia, a gente contempla o silêncio e inveja o sono tranquilo daqueles que nos cercam. Nestas horas, gosto de ver as estrelas no céu. Sempre gostei.
Um astrônomo um dia me explicou que o céu que percebemos é na verdade o resultado das luzes de estrelas que estão a distâncias diferentes, mas cujo brilho chega a nossa retina simultaneamente. O céu, da maneira como percebemos, jamais existiu. Alem disso, como nossa visão do céu depende do local e tempo da observação, pessoas diferentes podem ter visões muito diferentes do mesmo céu.
Talvez esta seja uma boa metáfora para ilustrar o que se passa durante uma sessão de mediação de conflitos. As partes sempre chegam convencidas de que elas estão certas e a outra parte, errada. Cada um sempre convencido de que o seu ponto de vista é único e excludente.
O mediador ajuda cada uma das partes a ouvir e compreender os pontos de vista e interesses da outra parte.
Assim, cada uma das partes continua vendo os fatos de maneira distinta, mas percebe, em muito pouco tempo, que existem maneiras alternativas e igualmente legitimas de enxergar as questões em disputa.
Compreendem que nossa percepção dos fatos não somente é incompleta, mas também diferente da maneira como os outros os percebem. Cada um de nós vê um céu diferente que jamais existiu.
Quando isto acontece, as partes passam a se concentrar nas semelhanças, e não nas diferenças entre elas.
Procuram o consenso e focam em seus interesses. Percebem que elas não precisam abandonar suas identidades, seus valores e crenças para resolver uma disputa. Elas dialogam, e negociam uma solução mutuamente satisfatória.
No final, em 70% a 90% dos casos, as partes chegam a um acordo. Invariavelmente, elas saem da câmara de mediação conversando e restaurando o relacionamento entre elas. Ser mediador é gratificante. Assistir, em algumas horas, um conflito se tornar um acordo é, para o mediador, uma grande satisfação.
Quando pessoas entram em disputas, a mediação é uma maneira eficiente de resolvê-las. É a demonstração de que a convivência pacifica não requer igualdade de pontos de vista ou unanimidade de opiniões. Isto não requer grandes milagres, nem mesmo revisão de valores ou identidades. Requer apenas diálogo. Requer ouvir e ser ouvido. Requer apenas compreensão e diálogo.
É na câmara de mediação que isto acontece. A câmara de mediação é a tenda dos pequenos milagres.

Elton Simoes mora no Canada há 2 anos. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FVG); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). Emailesimoes@uvic.ca

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