sábado, 27 de julho de 2013

Blue com Buddy Guy: Fever

André Rieu - And The Waltz Goes On (composed by: Anthony Hopkins)

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Cartas de Seattle: Cães distraem passageiros à espera do voo


Melissa de Andrade
Basta uma indicação clara “Me afague” para dissipar qualquer hesitação. Sim, pode agradar o cachorro, tocar o pelo macio, chamar pra ver se vem. Ele está ali para isso mesmo. Essa atenção genuína que um cãozinho oferece, a alegria espontânea e a presteza em interagir estão à disposição em alguns aeroportos dos Estados Unidos.
É um programa para ajudar a aliviar o estresse muitas vezes associado a viagens. As filas longas, a espera, o desconforto, a preocupação com o problema pendente, a ansiedade provocada pelo medo de avião, a viagem de última hora para uma emergência, a vida que vai mudar depois de um divórcio ou da perda de um ente querido e, até, o medo de um ataque terrorista. Sim, estamos nos Estados Unidos.
Os “cães de terapia” fazem amigos e deixam lembranças em quem se distraiu uns minutinhos dos próprios pensamentos e acabou saindo de sorriso no rosto e alma mais leve. Estudos indicam o quanto o contato com animais pode reduzir os níveis de estresse e melhorar a condição geral da saúde. Esses efeitos poderiam ser sentidos durante uma convivência rápida, como numa espera por um voo?


Meu ambiente de trabalho é uma prova que sim. Eu tenho a sorte de trabalhar em uma empresa que não só aceita que seus funcionários levem os cães para o trabalho, como estimula esse hábito. Um dos prédios leva o nome do primeiro cão que “trabalhou” lá. Os mascotes acabam virando o xodó da equipe toda. O ambiente fica mais leve. O dono, certamente, é um funcionário mais feliz. E, juro, nunca vi nenhuma bagunça por eles ficarem por lá o dia inteiro.
E os cachorros não atrapalham em nada. A não ser pra quem tem alergia. Ou pra quem caminha em direção à mesa do chefe sem prestar muito atenção. Abre parênteses: como é que alguém coloca uma cama cinza prum cão cinza em cima de um carpete cinza? Não chutei o bicho por pouco. Isso poderia muito bem ser resolvido com a veste usada nos aeroportos para indicar que ali está um cachorro amigável e feliz de receber atenção.
No aeroporto, nas empresas ou nas ruas, animal de estimação facilita o convívio social. Principalmente numa cidade muitas vezes sisuda como Seattle.

Melissa de Andrade é jornalista com mestrado em Negócios Digitais no Reino Unido. Ama teatro, gérberas cor de laranja e seus três gatinhos. Atua como estrategista de Conteúdo e de Mídias Sociais em Seattle, de onde mantém o blog Preview e, às sextas, escreve para o Blog do Noblat.

PSICANÁLISE DA VIDA COTIDIANA - Realidades


CARLOS VIEIRA
Gritos, sussurros e agonia. Vinte e duas horas, embaixo de um viaduto, Maria ecoa um clamor de ajuda. Seu útero não espera, se contrai e movimenta o feto para fora. Outros gritos, agudíssimos, atingindo uma sonoridade do registro agudo de um clarinete, em dó quatro, o mais agudo que o instrumento consegue. Automóveis passam na avenida, ninguém enxerga nem ouve a urgência de um parto a acontecer. Mais gritos e por fim alguém aparece. Maria geme, chora, berra, pede para ser atendida, e que a leve para alguma maternidade. O jovem com extrema dificuldade a coloca no carro. Ato contínuo, não há vagas no hospital. As contrações uterinas, a criança lá dentro quase soterrada, a força do músculo, os berros da mãe, o sangue. Começa a hemorragia. O rapaz não sabe o que fazer; Maria pede pelo amor de Deus que faça o parto. Mais outro hospital: Maria é carregada para o corredor, a criança se introduz no mundo, nasce, e Maria desmaia. A criança é salva e Maria morre. Segundo os médicos a causa da morte foi hemorragia uterina e choque(?). 
“Este é tempo de divisas,/ tempo de gente cortada./ De mãos viajando sem braços,/ obscenos gestos avulsos”, escreve Carlos Drummond em seu poema “Nosso Tempo”. 
O menino é pequeno, magro, magro não, raquítico. Raquítico, tossindo com sonoridade estridente, o baço e o fígado aumentados. Verminose, endemia de verminoses múltiplas. Bactérias, bactérias, sempre presentes nos alimentos, na água de beber. Diarreias profusas, desidratações, anemias, às vezes morte. O palco é uma cidade do Nordeste. Uma cidade onde óbitos acontecem por condições precárias de saúde e alimentação. Educação? João Antônio e seus seis amigos ainda não sabem ler. Analfabetos, como se diz, de pai e mãe. 
“Calo-me, espero, decifro./ As coisas talvez melhorem./ São fortes as coisas!/ Mas eu não sou as coisas e me revolto./ Tenho palavras em mim buscando canal,/ são roucas e duras,/ irritadas, enérgicas,/ comprimidas há tanto tempo,/ perderam o sentido, apenas querem explodir.”, continua o Poeta em seus versos de Nosso Tempo. 
Odete, professora primária, vinte e sete anos de magistério numa cidade do interior das Minas Gerais. Salário? Trezentos e cinquenta reais. Um jogador de futebol vale mais do que um professor? A educação sempre foi temida porque ela ensina, esclarece, politiza, informa, acultura e faz gerar conflitos sadios no sentido do crescimento individual e social. 
“Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos/ para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,/ dores de classe, de sangrenta fúria?/ e plácido rosto. E há mínimos/ bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,/ lesões que nenhum governo autoriza,/ não obstante doem,/ melancolias insubornáveis,/ ira, reprovação, desgosto...” , volta a cantar o Poeta Gauche. 
Saiu de casa pela manhã. Antônio ia para a escola. Na esquina, um tiroteio, gente pra lá, gente correndo em todos os sentidos, balas perdidas, balas assassinas atingem Antônio. Ferido, gritaram:” Não, já está morto, aos 16 anos de idade”. No outro dia, sua mãe aos gritos pedia justiça, segurança, civilidade. Um enterro a mais entre vários velórios, consequência de balas perdidas, de perdidas seguranças. 
“Sozinho no escuro/ qual bicho-do-mato,/ sem teogonia/ sem parede nua/ para se encostar,/ sem cavalo preto/ que fuja a galope,/ você marcha, José!/ José, para onde?”, fragmentos de poesia, ainda do nosso Drummond – “José”.
Carlos.A.Vieira, médico, psicanalista, Membro Efetivo da Sociedade de Psicanálise de Brasília e de Recife. Membro da FEBRAPSI e da I.P.A - London.

'Mais Médicos': intransigência ou mercenários?

HÉLIO CHAVES


Imagem extraída da internetO grande foco dos debates atualmente na mídia e nas redes sociais tem sido, fora as reivindicações das ruas e a visita do Papa, a questão da saúde pública e o imbróglio causado pelo programa “Mais Médicos”, lançado pela presidente Dilma Rousseff, dias atrás. O governo federal defende a proposta com unhas e dentes e a dmite que o sistema de saúde pública está longe do desejável, principalmente nas periferias e no interior do país.
Segundo o governo, a falta de estrutura é um fator, mas a contratação de profissionais de saúde para suprir carências nas periferias e nas cidades interioranas não pode esperar. Ela é crucial para a melhoraria do sistema público. O fato é que muitos médicos brasileiros se recusam a trabalhar nessas localidades.
Já as entidades representantes dos médicos querem impedir de todas as formas a contratação de estrangeiros para atuarem nessas áreas. Questionam a possibilidade de profissionais formados no exterior trabalharem sem revalidar o diploma e a falta de fluência da língua portuguesa, entre outras coisas. A queda de braço mantém pacientes sem assistência e a categoria batendo na tecla da falta de estrutura, de equipamentos, de segurança, condições mínimas de trabalho e de salários dignos, como a verdadeira causa de tudo.
Num programa de TV esta semana, o tema foi debatido com representantes dos médicos contrários ao “Mais Médicos”. Eles repetiam exaustivamente que há médicos suficientes para atender a população brasileira. Os dados apresentados dão conta de que no Brasil há cerca de 1,8 médicos para cada 10 mil habitantes, segundo eles, número suficiente, já que no Japão e EUA a média é de 2,2 médicos para cada 10 mil.
“A falta de atendimento não ocorre por falta de médicos, mas sim, pela má gestão e distribuição dos profissionais existentes no país” afirmam. Se existem, onde estão? Se faltam médicos, porque isso ocorre somente ou exclusivamente na rede pública de todo o país.
A resposta pode estar numa reportagem exibida no mesmo programa. A gravação mostrou um hospital público em situação precária de um lado da rua e do outro lado da mesma rua diversas clínicas particulares explorando a falta de atendimento no vizinho. As consultas partiam dos R$ 100,00 e os exames mais simples dos R$ 17,00. Médicos não sei, mas mercenários do outro lado da rua...
Todos sabem que o sistema de “saúde publica” brasileiro está na UTI. Agora, negar que diversos profissionais preferem trabalhar nos grandes centros em seus consultórios, clínicas ou hospitais particulares é afrontar a inteligência alheia. Profissionais devem ser livres nas suas escolhas, mas tentar impedir que outros exerçam a profissão e salvem vidas em lugares inóspitos, com pouca ou quase nenhuma estrutura, é uma prática corporativa-radical inaceitável.
“Brasília está no centro do poder. Os hospitais públicos daqui não são padrão primeiro mundo e não estão caindo aos pedaços, mas o atendimento e desumano. Uma jovem quebrou a perna em meados de junho, mas só conseguiu fazer a cirurgia para correção um mês depois. Foram várias marcações e remarcações, mas a proeza de conseguir a tão esperada cirurgia só foi possível devido a muita pressão de familiares e denúncias feitas à mídia local.”
Os familiares não tinham como pagar pela cirurgia na rede particular, que cobrava em média R$ 15 mil pelo ato. Durante o calvário a direção do hospital público dizia num dia não ter cirurgião, no outro falta do anestesista. Haja paciência, pois, pacientes sem "Mais Médicos" e sem dinheiro no Brasil é que não faltam!
Hélio Chaves é jornalista colaborador da Rádio do Moreno.

O Brasil tem o número de médicos de que precisa?

UMA COISA E A OUTRA


LUIZ GARCIA
O Brasil tem o número de médicos de que precisa? É uma boa pergunta, já que o governo federal está empenhado em aumentar o número de faculdades de medicina, enquanto o Conselho Federal de Medicina afirma exatamente o contrário. O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, oferece vantagens às faculdades particulares que façam doações ao Sistema Único de Saúde, por meio de investimentos em prédios ou equipamentos. Terão vantagens na escolha das instituições interessadas em abrir novas escolas.
O preço das mensalidades também influirá na disputa. Os nossos futuros médicos agradecem.
Mercadante também terá a gratidão dos estudantes com a promessa de transformar em residência médica os dois anos que os estudantes terão de trabalhar em unidades do SUS. Ou seja, já terão o status de profissionais, e não mais de estudantes.
Outro plano é mudar o sistema de criação de escolas de medicina: haverá consulta pública para a escolha das cidades que ganharão novas escolas.
O projeto é ambicioso: propõe criar mais de 11 mil vagas para futuros médicos em 60 municípios.
Hoje, a escolha é das próprias escolas, que obviamente — o que não é difícil de compreender — pensam mais nos seus próprios interesses do que nas necessidades locais. Pelo projeto do ministro, pesará na balança a demanda por serviços médicos e a infraestrutura de saúde já oferecida.
Uma novidade que pode não agradar às empresas particulares é a exigência de doações ao SUS para melhorar a rede pública de postos de saúde e hospitais. Mas ela se justifica — pelo menos na opinião do ministro Mercadante — pelo fato de seus alunos têm sua formação prática na rede pública de saúde. E é de óbvio interesse público.
Mesmo assim, há a já mencionada oposição aos planos de Mercadante. O Conselho Federal de Medicina, segundo o seu vice-presidente, Carlos Vital, acha que o Brasil já tem número suficiente de médicos, e o governo deveria se preocupar com outra meta: melhorar a formação profissional.
Um observador poderia argumentar, talvez ingenuamente, que uma coisa não impede a outra.
O Brasil tem o número de médicos de que precisa?
Publicado no Globo de hoje.

O grito calado dos que foram excluídos dos estádios de futebol


O grito dos ausentes
Laura Medioli (O Tempo)
Desconheço os critérios usados para definir o preço dos ingressos no Mineirão, mas sejam lá quais forem, a meu ver, são equivocados. Ingressos que vão de R$ 100 a R$ 600 e ainda camarotes chegando a R$ 2.000 por pessoa são demasiadamente salgados para o bolso do torcedor. Mas, como torcedores são movidos pela paixão e paixão não tem limite, para eles é preferível se comprometer com dívidas ou deixar de adquirir algum outro bem somente para ter suas entradas garantidas em uma final.
Pagamos por 90 minutos de pânico, descargas de adrenalina, coração acelerado e gritos sem censuras. Pagamos para sair vitoriosos, numa alegria contagiante, ou… na pior das hipóteses, para sair cabisbaixos, mudos, sem rumo e sem vontade de nada, afinal, o mundo acabara de cair!!!
Pois é, sou daquelas que pagam pra ver. Espero, sinceramente, sair enlouquecida, gritando a plenos pulmões o que há anos está sufocado dentro de nós, atleticanos: o grito de “campeão”.
Iniciei este texto falando dos preços dos ingressos porque acho uma crueldade negar à grande maioria de nossa torcida a possibilidade de estar no Mineirão. Falo do operário da obra, do zelador do prédio, do gari, da menina da locadora, do caixa do sacolão… Falo do torcedor mais humilde, assalariado, que, por mais que deseje, não consegue arcar com tamanho dispêndio, ou então, movido pela paixão, acaba comprometendo seu orçamento, endividando-se, apenas para estar lá, vendo seu time ganhar ou perder.
Desde os 14 anos frequento o Mineirão. Sinceramente, tenho saudades do tempo em que arquibancadas eram arquibancadas mesmo. Não tão confortáveis feito as atuais cadeiras, mas que nos permitiam uma maior mobilidade e uma maior facilidade para marcar encontros.
“Vou estar atrás do gol do América!”, dizia aos meus amigos. Ou então, “nos encontramos embaixo da charanga!”. Quando chegavam, bastava um empurrãozinho na hora de se sentar e pronto. Nenhum problema, assistíamos todos juntos à partida. Hoje, isso é impossível. As cadeiras são numeradas, o amigo que foi sozinho não consegue mais sentar-se ao seu lado. Isso para não dizer que a capacidade de público pagante reduziu-se à metade. O Mineirão, de 110 mil torcedores, hoje comporta pouco mais de 60 mil.
O QUE O TORCEDOR PREFERE?
E me pergunto: o torcedor prefere ter acesso ao jogo, sentado numa arquibancada de cimento, ou ter que enfrentar filas gigantescas para adquirir (quando consegue) um disputadíssimo lugar nas 60 mil cadeiras disponíveis? Torcedores não ligam pra conforto, o importante é ter seu lugar garantido, seja numa arquibancada, numa geral ou numa cadeira numerada.
A cada ano, percebo a elitização das torcidas, naturalmente, devido aos preços salgados dos ingressos. E aquele torcedor mais simples, folclórico, que tem no time talvez a sua única grande paixão, aquele que grita mais alto, que sabe o hino de trás pra frente, que conhece a escalação de cor, que veste a camisa já surrada, que xinga o juiz sem piedade, que vibra mais, que sofre mais, que torce mais, infelizmente, e contra a sua vontade, vem se distanciando cada vez mais dos gramados.
Sei que jogadores são caros. Para se ter um Ronaldinho, além dos patrocínios, muitos ingressos devem ser vendidos e com valores elevados, pois manter jogadores do nível dos nossos times Atlético e Cruzeiro não é fácil.
Segundo reportagem deste jornal, a renda do jogo entre Atlético e Olimpia foi a maior da história do Mineirão, assim também como a de todos os registros do futebol brasileiro. Todos os ingressos esgotados, apesar do preço. Ótimo! Concordo que dará uma boa ajuda ao orçamento do time, mas, por outro lado, fico pensando: será que vale a pena?