segunda-feira, 24 de junho de 2013

Se Joaquim Barbosa participar, sucessão de Dilma pode ser a mais sensacional de todos os tempos


Carlos Newton
Muito importante a pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha entre os manifestantes em São Paulo, na última quinta-feira, mostrando que, apesar de não figurar na lista de pré-candidatos ao Palácio do Planalto, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, aparece como o preferido para suceder Dilma Rousseff.
De acordo com o instituto, Barbosa foi mencionado por 30% dos entrevistados, contra 22% da ex-senadora Marina Silva, que tenta montar a Rede Sustentabilidade para concorrer ao Planalto em 2014. E a presidente Dilma (PT) aparece em terceiro na lista, com 10% das menções. O senador Aécio Neves (PSDB-MG), com 5%, e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), com apenas 1%, vêm logo a seguir.
A margem de erro da pesquisa, que entrevistou 551 manifestantes, é de 4 pontos percentuais para mais ou para menos. No limite, Barbosa e Marina poderiam ter 26% das preferências, mas, segundo o Datafolha, a probabilidade de que esse cenário seja real é muito pequena. Barbosa realmente lidera nessa importante faixa de público, que é formadora de opinião.
ROMARIA
A verdade é que já se formou uma romaria de partidos atrás de Joaquim Barbosa, para convencê-lo a sair candidato. Por sua postura nos últimos meses, dando entrevistas consecutivas e procurando os holofotes da mídia, tudo leva a crer que o presidente do Supremo realmente sairá candidato. Ele tem até o início de outubro para se filiar a algum partido.
O problema para candidatos como Barbosa e Marina, é o pequeno tempo no horário eleitoral, mas essa lacuna poderá ser compensada com a exposição nos telejornais, que os dois terão, com toda certeza. E o falecido Eneas Carneiro já provou que pouco tempo no horário eleitoral também pode ser uma boa arma.
Como ainda falta muito tempo para a eleição e nem a própria Dilma Rousseff sabe se será mesmo candidata, pois Lula está cada vez mais animado a concorrer,  pode-se imaginar muita coisa, como o lançamento de uma chapa Joaquim Barbosa-Marina Silva, que verdadeiramente abalaria a República.
De concreto, a única coisa que se pode dizer hoje com certeza é que vai ser uma eleição sensacional e eletrizante, sobretudo se Joaquim Barbosa concorrer.

O problema é essa memória fraca brasileira


Chico Maia(O Tempo)
Com a triste informação de um morto nas manifestações em São Paulo, as TVs de Portugal iniciaram seus noticiários sobre o Brasil. Imagens de Ronaldo tentando explicar o inexplicável da bobagem que falou: “Para uma Copa, se constrói estádios e não hospitais”. Fenômeno de imbecilidade!
Gravações de brasileiros se posicionando via internet eram aproveitadas, inclusive a de um pai mostrando a filha na cadeira de rodas e dizendo ao Ronaldo que, se o país tivesse serviço público de saúde decente, ela não estaria naquela situação.
Pelé fala mais uma bobagem ao dizer que o que “importa é o amor à seleção” e que a seleção “é a pátria”, “que os protestos deveriam ser deixados de lado”. Montou palanque para Romário arrebentar com ele e fazer discurso político, oportunista como era dentro da área adversária.
Na campanha que a CBF e o então governo faziam para levar a Copa para o Brasil, Ricardo Teixeira (de péssima memória) e Lula diziam que teríamos uma organização 100% da iniciativa privada!
Pois bem: até transporte de graça para estrangeiros, várias prefeituras e governos estaduais estão dando. Não é possível que, depois de tudo, vão querer dar também na Copa 2014!
ABSURDO
Nunca, nenhum país que organizou um Mundial de futebol fez isso, nem ricos, como a Alemanha. No máximo, criaram facilidades e linhas especiais, que continuam servindo à sua própria população. Menos mal que justamente o transporte foi o estopim desse momento histórico.
OLHO NOS VOTOS
Os jornais portugueses informam que Dilma Roussef cancelou a viagem que faria ao Japão, e que há grande preocupação do governo com as eleições presidenciais que ocorrerão daqui a “seis meses”. Uai, os portugas anteciparam o pleito de 2014!
PARA NÃO ESQUECER
Frases marcantes estampadas em cartazes mostradas pelas TVs e capas de jornais em toda a Europa: “Se o seu filho passar mal, leve-o a um estádio”; “Se quiser uma escola melhor e acessível, leve-o ao estádio”; “Queremos estradas ‘Padrão Fifa”; “Queremos transportes públicos ‘Padrão Fifa”; “Queremos segurança ‘Padrão Fifa”.
Impressionantes as imagens que mostram o despreparo de um policial do Rio, que atirou nas costas de um manifestante que estava a um metro dele, correndo. Depois, meio desesperado porque outros manifestantes, revoltados, partiam pra cima dele, desandou a dar mais tiros. Não importa que sejam balas de borracha; machucam e, dependendo da distância e do lugar onde atingem, podem matar.
PARA REFLETIR
Igualmente impressionantes as cenas da Polícia Militar de São Paulo, que parou a repressão em determinado ponto da cidade e atendeu aos manifestantes, se sentando junto com todos. Também aquela imagem do policial da tropa de choque paulista que se recusou a usar a violência, teve a arma recolhida pelo superior e mandado “pra fora”!
São imagens que fizeram lembrar a queda do regime soviético e as consequências no mundo todo, com a queda do muro de Berlim e o fim de tantos regimes de força mundo afora. De repente, o futebol está prestando um grande serviço ao país, ao mostrar que a democracia exige que se reivindique direitos. Ainda que para isso seja preciso recorrer às ruas.

O que não pode é haver acomodação e achar que tudo ficou bom da noite para o dia. Jornais de Portugal estão dizendo que o “carismático” Lula ordenou que o PT vá para as ruas também e se una aos manifestantes.
Uai, mas é a turma dele que está no poder, e foi ele quem brigou por essa farra de Copa no Brasil, junto com Ricardo Teixeira.

Charge do Duke


Charge O Tempo 24/06

Mais um ESCÂNDALO com as aposentadorias petistas de até R$ 80 mil mensais no BB


Marcos Gomes
A Previc, superintendência que regula os fundos de pensão de previdência complementar, através do despacho n° 10/2013, disponível na íntegra em www.ccfbb.com.br/prev.pdf, , após um malabarismo técnico que ora vai para um lado ora para outro, conclui, no parágrafo 18, transcrito a seguir, o seguinte em relação ao complemento de aposentadoria que os diretores, vice-presidentes e presidentes do BB e suas subsidiárias se autoconcederam:
“Caso o patrocinador assuma a responsabilidade pelos valores excedentes e o pagamento ocorra por meio da Previ/BB, poderá o patrocinador, se for de sua vontade, utilizar os fundos registrados em seu nome na entidade fechada de previdência complementar para fazer frente aos pagamentos. A parcela adicional ao beneficio regulamentar previsto no Plano de Benefícios 1 deverá constar em rubrica própria, separada do beneficio, não se confundindo com aquele.”
Inicialmente a Previc foi dizendo “não”, mas conclui, abrindo uma brecha às maiores aposentadorias estatais do planeta, dizendo “sim”. Impressionante, é a Previc quem abre o caminho para se usurpar um fundo de pensão. Agora entendo porque o Aerus quebrou!
Estamos falando de benefícios que vão de R$ 45 mil a R$ 80 mil mensais.  A Previc sequer menciona cálculos atuariais e tábua de expectativa de vida, fundamentos de qualquer plano de benefícios de fundo de pensão. Hoje são apenas centenas, logo serão milhares os beneficiados. Não há entidade que suporte isso, pois foram afastados os pressupostos de equilíbrio financeiro.
DESVIRTUAMENTO
O fato é que os petistas desvirtuam um fundo de pensão, a Previ, que passa a conceder benefícios milionários sem a constituição de um plano de benefícios específico para tal, autorizando que se avance em recursos apartados oriundos do plano de benefícios dos funcionários celetistas, afinal os “fundos registrados em seu nome” (do BB, no caso) apontado pela Previc tem origem nas contribuições e excedentes financeiros do plano 1.
É um caso estranho, pois quem decidiu elevar as aposentadorias (BB) e quem aceitou pagar (Previ) se confundem nas mesmas pessoas contempladas pela benesse, já que os dirigentes da Previ também são alcançados pela aposentadoria maravilhosa. Sem contar que é o presidente do BB quem indica o presidente da Previ, logo…
De maneira impressionante, os poderosos sindicatos dos bancários, ligados ao PT e à CUT em sua  maioria, não se manifestaram contra essa tunga no fundo de pensão de seus representados ( tunga também em um banco público), talvez porque alguns dos beneficiados sejam pessoas vinculados aquelas entidades.
SEM RESISTÊNCIA
O governo também não ignora o assunto. As aposentadorias nababescas passaram pelo Conselho de Administração do BB (orgão que regula a remuneração de seus dirigentes), onde todos os membros, direta ou indiretamente, são indicados pelo Ministério da Fazenda. A direção da Previ também não mostra qualquer resistência quanto à questão, embora haja diretores eleitos pelos funcionários no comando da Previ, oriundos justamente do sindicalismo bancário.
Aposentadoria de R$ 80 mil, que maná! E contribui com o mantra do governo “país rico é país sem pobreza”. Ô, nesse caso os contemplados e seus dependentes vão ficar longe da pobreza por muitas gerações. Pena que seja à custa de um fundo de pensão de simples trabalhadores.

Livre pensar é só pensar (Millôr Fernandes)


domingo, 23 de junho de 2013

E agora, galera? por Gaudêncio Torquato


Ante a provável baixa da tarifa de ônibus nas capitais que sediaram as maiores manifestações populares dos últimos tempos, a indagação aguça a curiosidade de todos: qual será o próximo foco?
O primeiro round da guerra que tem, de um lado, exércitos compostos por variados conjuntos da sociedade, e, de outro, guerreiros defensores do establishment, deve terminar com evidente vitória dos primeiros.
O atendimento da demanda por executivos estaduais e municipais (até o alcaide paulistano cedeu) será o jorro d’água para apagar faíscas que ameaçam multiplicar fogueiras acesas nas principais regiões do território.
Urge atentar para o sinal amarelo aceso no farol dos governantes e suas múltiplas significações: o som barulhento das ruas não mais carece de maestros de grandes orquestras, sejam políticos ou lideranças sindicais; não é preciso muito tempo para as massas afluírem às ruas; a tuba de ressonância desses tempos efervescentes é o conjunto das redes eletrônicas da internet.
Se a reivindicação concreta das turbas for acolhida, como governantes de algumas capitais e Estados já o fizeram (gerando o efeito dominó), permanecerá a dúvida sobre os próximos passos da ampla movimentação social, eis que as palavras de ordem tentam expressar a amálgama de carências que compõem o Produto Nacional Bruto da Insatisfação, agrupando, entre outras, os estrangulamentos do sistema de transportes, a precária estrutura de saúde, as deficiências nas frentes educacionais e a crescente insegurança pública ante a avalanche de atos de extrema violência nas grandes cidades.
E agora, galera, as batalhas continuarão? Haverá questões específicas a serem proclamadas? Os administradores públicos, por sua vez, ficarão entre a cruz e a caldeirinha: atenderão as demandas ou farão ouvidos de mercador.
A questão abre um leque de abordagens. A primeira diz respeito à natureza das reivindicações. O pleito da redução da tarifa de ônibus posicionou na linha de vanguarda a esfera estudantil.
Os jovens encontraram na vertente dos transportes uma causa próxima aos seus interesses, sem deixar de avocar outras demandas. Vale registrar a energia de um universo de quem se reclamava inércia, desinteresse, apatia.
Desde os “caras pintadas” da era Collor não se via tanta disposição, a demonstrar que os exércitos estudantis são os primeiros a usar a musculatura e a entrar no palco de guerra, caso tenham motivo para tanto.
A mobilização estudantil ganha expressão diante de uma paisagem urbana tradicionalmente ocupada por soldados comandados por Centrais Sindicais.
Nas últimas décadas, vale lembrar, infiltraram-se elas nas entranhas do Estado, em conluio que deixa transparecer preocupação com os cofres. (Basta anotar as grandes concentrações de massas a cargo das Centrais nas festas do 1º de maio, animadas por sorteios de casas e carros).
É saudável, portanto, enxergar grupamentos jovens voltando às passeatas, empunhando bandeiras e fazendo ecoar demandas e palavras de ordem. Ocorre que, para ser eficaz, a locução cívica dos estudantes carecerá, doravante, de clarificação de metas, sob pena de suas vozes se perderem na polifonia de uma Torre de Babel.
Não se quer dizer que tenham de esquecer o discurso que clama por mudanças em muitas frentes, como este que costurou o pano de fundo da reivindicação da tarifa zero para as passagens de ônibus.
Governantes e atores políticos de todas as instâncias precisam ser monitorados, avaliados, cobrados e, assim, perceber que há vigilantes cívicos fazendo ronda no entorno de palácios, sedes de governo, cúpulas congressuais, assembleias e câmaras.
Mas, para efeito de resultados imediatos, as manifestações de caráter massivo necessitam abrigar metas, de acordo com parâmetros de bom senso e capazes de abrir diálogo entre partes.
Nessa trilha e por conexão com a redução de tarifas, seria razoável que, nesse momento, os entes municipais e estaduais se debruçassem sobre os meios de mobilidade urbana, refazendo programas, reordenando cronogramas, com vistas à expansão dos sistemas e melhoria de qualidade dos serviços. Dessa forma, a movimentação adensará seu escopo e poderá obter mais vitórias.
O recado das ruas serve também de alerta para que gestores públicos passem a lupa sobre os serviços precários em todos os setores da vida cotidiana.
Afinal, aguda dissonância fere a sensibilidade tanto de plateias das cadeiras numeradas quanto de galeras das gerais: de um lado, a estética exuberante dos estádios de futebol, emoldurada por formas e traços futuristas, a denotar a absorção de avançados parâmetros tecnológicos; de outro, a acanhada e esburacada estrutura de serviços, cuja estética é pontilhada por corredores de hospitais locupletados de macas, filas quilométricas em postos de atendimento, superpopulação nos meios de transporte, vielas e becos apinhados de jovens drogados, chacinas seriadas nas periferias.
Para completar o cenário de contrastes, a falta de ônibus para acesso rápido aos majestosos estádios e a indignação por se cobrar de torcedores 8 reais por um cachorro quente. A imagem que se tem é a do reizinho que tenta esconder doenças nas habitações de seu reino com paredes folheadas de ouro.
Chama atenção o fato de que as manifestações se desenvolvem sob o empuxo de integrantes de grupamentos centrais: estudantes de curso superior (e seus pais), simpatizantes de partidos de esquerda, punks, ativistas em defesa de igualdade de gêneros e minorias, funcionários públicos, profissionais liberais etc.
Os exércitos periféricos não formam os maiores volumes dos contingentes. Sabendo-se que as correntes centrais influenciam as margens (a pedra jogada no centro faz marolas que chegam à beira do lago), pode-se imaginar desdobramento perigoso caso bolsões miseráveis sejam afetados em sua parte mais sensível, o bolso. Nesse caso (Deus nos livre dessa ameaça), a fome se juntaria com a vontade de comer.

Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP é consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato

BLUES DE PESO - VALE A PENA OUVIR - Eric Clapton - BB King -Crossroads 2010 - Live