terça-feira, 25 de dezembro de 2012

DIA DE NATAL



Magu
Neste dia de Natal, o qual é desculpa para todo o tipo de libações, alcoólicas, de mesa e o escambau, queria contar uma histórinha para os leitores, contada por uma atendente de asilo. Dona Cacilda é uma senhora de 92 anos, miúda, e tão elegante, que todo dia, às 08 da manhã ela já está toda vestida, bem penteada e discretamente maquiada, apesar de sua pouca visão. felicidadeE hoje ela se mudou para uma casa de repouso: o marido, com quem ela viveu 70 anos, morreu recentemente, e não havia outra solução. Depois de esperar pacientemente por duas horas na sala de visitas, ela ainda deu um lindo sorriso quando fui dizer a ela que o quarto estava pronto. Enquanto ela manobrava o andador em direção ao elevador, dei uma descrição do seu minúsculo quartinho, inclusive das cortinas floridas que enfeitavam a janela. Ela me interrompeu com o entusiasmo de uma garotinha que acabou de ganhar um filhote de cachorrinho.–Ah, eu adoro essas cortinas… – Dona Cacilda, a senhora ainda nem viu seu quarto… Espera um pouco… – Isto não tem nada a ver – ela respondeu – felicidade é algo que você decide por princípio. Se eu vou gostar ou não do meu quarto, não depende de como a mobília vai estar arrumada. Vai depender de como eu preparo minha expectativa. E eu já decidi que vou adorar. É uma decisão que tomo todo dia quando acordo.  Sabe, eu posso passar o dia inteiro na cama, contando as dificuldades que tenho em certas partes do meu corpo que não funcionam bem. Ou posso levantar da cama agradecendo pelas outras partes que ainda me obedecem. – Simples assim? – Nem tanto; isto é para quem tem autocontrole e exigiu de mim um certo ‘treino’ pelos anos a fora, mas é bom saber que ainda posso dirigir meus pensamentos e escolher, em conseqüência, os sentimentos.
Calmamente ela continuou: – Cada dia é um presente, e enquanto meus olhos se abrirem, vou focalizar o novo dia, mas também as lembranças alegres que eu guardei para esta época da vida. A velhice é como uma conta bancária: você só retira aquilo que guardou. Então, meu conselho para você é depositar um monte de alegrias e felicidades na sua Conta de Lembranças. E, aliás, obrigada por este seu depósito no meu Banco de lembranças. Como você vê, eu ainda continuo depositando e acredito que, por mais complexa que seja a vida, sábio é quem a simplifica. Depois me pediu para anotar como manter-se jovem: 1. Deixe fora os números que não são essenciais. Isto inclui a idade, o peso e a altura. Deixe que os médicos se preocupem com isso.  2. Mantenha só os amigos divertidos. Os depressivos puxam para baixo. (Lembre-se disto se for um desses depressivos!) 3. Aprenda sempre. Aprenda mais sobre computadores, artes, jardinagem, o que quer que seja. Não deixe que o cérebro se torne preguiçoso. ’Uma mente preguiçosa é oficina do Alemão’. E o nome do Alemão é Al e o sobrenome Zheimer!  4. Aprecie mais as pequenas coisas  5. Ria muitas vezes, durante muito tempo e alto. Ria até lhe faltar o ar.  E se tiver um amigo que o faça rir, passe muito e muito tempo com ele!  6. Quando as lágrimas  aparecerem, agüente, sofra e ultrapasse. A única pessoa que fica conosco toda a nossa vida somos nós  próprios. Viva enquanto estiver vivo. 7. Rodeie-se das coisas que ama: Quer seja a família, animais, plantas, hobbies, o que quer que seja. O seu lar é o seu refugio. 8. Tome cuidado com a sua saúde: Se é boa, mantenha-a. Se é instável, melhore-a. Se não consegue melhorá-la , procure ajuda. 9. Não faça viagens de culpa. Faça uma  viagem ao centro comercial, até a um país diferente, mas NÃO para onde  haja culpa. 10. Diga às pessoas que ama que as ama, a cada oportunidade, porque a vida é muito mutável e pode ser que não haja outra!
Espero que todos os caros leitores, sejam cristãos ou não, passem o dia muito bem…

OBRA-PRIMA DO DIA - PINTURA Giotto: A Capela dos Scrovegni, Pádua, Itália


Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa - 
24.12.2012
 | 12h00m

Não há documentos que comprovem a data exata da execução dos afrescos de Giotto na Capella degli Scrovegni, em Pádua. Há um registro, datado de 1305, no qual os frades Eremitani, da capela ao lado da Scrovegni, enciumados com o sucesso que essa já fazia mesmo antes do término das obras, reclamam junto às autoridades eclesiásticas do barulho que faziam os inúmeros visitantes que perturbavam o silêncio necessário para suas orações.


Portanto, só o que se sabe com certeza é que a Capella degli Scrovegni foi erguida e decorada por volta de 1305.
É um vão livre com 20m80 de comprimento, 8m40 de largura e 12m80 de altura. Giotto deve ter se entusiasmado ao ver que não havia traves nem colunas para impedir que ele desse asas às suas ideias para aquele espaço.
Os afrescos da Capela Scrovegni são considerados como sua obra-prima e um dos momentos mais importantes da História das Artes.
Giotto estava com aproximadamente 40 anos quando começou a decorar a capela que é dedicada à Santa Maria della Carità.
O grande artista da Idade Média (1267-1337, Florença) é considerado o pai da moderna pintura ocidental. Após o longo reinado da escultura gótica e dos mosaicos bizantinos, Giotto eleva a pintura à categoria de Grande Arte.
A técnica empregada por ele nas paredes da capela, afresco, consiste em pintar sobre camada de revestimento recente, fresco, antes que endureça, de modo que a tinta seja embebida pela massa.


São três os temas principais que o grande artista desenvolveu para cobrir inteiramente as paredes laterais da capela: episódios da vida de Joaquim e Ana, pais de Maria; da vida de Maria; e da Vida e Morte de Jesus Cristo.
Na parede ao fundo, cenas do Dia do Juízo Final. Perto do chão, em pequenos espaços monocromáticos, estão as Sete Virtudes e os Sete Pecados. Os quadros são separados por mármore pintado, do qual ainda falaremos.
É notável o modo como ele retrata as figuras humanas, sem a postura hierática que até então era julgada imprescindível para retratar os santos; Giotto as torna humanas, sem no entanto deixar que percam sua intensa qualidade moral. Impressiona a concentração que transparece no olhar de cada uma das personagens principais.
Quase em tamanho natural, o que as aproxima do espectador, elas dão vida às cenas além de propiciar grande unidade ao conjunto. As imagens são de uma força impressionante, apesar da suavidade do colorido e da delicadeza do desenho...

Capella degli Scrovegni, Padova, Italia

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Vamos por partes A picanha vai para a grelha com a gordura para cima ou para baixo? Como preparar a fraldinha? O que é chuleta, afinal? Lombo de porco pode ir à churrasqueira?


Esclareça essas e outras dúvidas cruéis abaixo

texto Mauro Marcelo Alves | ilustrações Nik Neves
Frango 
Asa, coxa e sobrecoxa São os cortes de frango que se adaptam bem às brasas, ganhando um gostoso toque defumado (a receita de asa de frango também pode ser utilizada com os dois outros cortes).

Peito Muito seco, é mais propício aos espetinhos, com seus pedaços intercalados com bacon (principalmente), ameixa seca, pimentão, abobrinha, tomate e outros legumes.
Porco 
Costelinha Ela é incomparável na brasa: simples, só com sal grosso, ou com variados molhos. O mais famoso deles, criado pelos americanos, é o barbecue, com açúcar mascavo, mostarda, molhos inglês e de tomate, com muitas variações a partir dessa mistura básica.

Lombo Também pode ser churrasqueado direto na brasa, mas o ideal é envolvê-lo em papel-alumínio, para não ressecar. Para obter um efeito semelhante ao do molho barbecue, pode ser temperado só com mostarda e mel (receita aqui).

Pernil e paleta Cortes mais indicados para o lento cozimento no forno.
Cordeiro

Carré 
Formado pelo lombo junto com os ossinhos da costela, é a grande estrela do cordeiro, o chamado corte francês. É estético e pode ser servido em forma de coroa. Seccionado a cada um ou dois ossos, transforma-se na costelinha amada pelos gourmets. É excelente no churrasco, temperado com sal grosso, pimenta-do-reino, alho e alecrim. Há quem goste – influência da culinária inglesa – de servi-lo com um molho à base de menta.

Pernil O outro corte consagrado do cordeiro, o pernil (gigot, para os franceses) é mais apropriado ao cozimento no forno.
Boi

Alcatra 
Um dos cortes mais interessantes, com fibras macias e muito sabor. A peça completa da alcatra, localizada no traseiro do boi, compreende o miolo, a picanha e a maminha. Do miolo, extrai-se o famoso baby beef, macio e suculento. Se assar em bifes, é melhor não fazer cortes finos, que provocam seu ressecamento.

Chuleta Uma das preferidas dos gaúchos, faz parte do contrafilé e tem gosto suave de gordura. Em outras regiões brasileiras, como no Sudeste, é chamada de bisteca. Fica melhor em cortes mais espessos, com textura mal passada por dentro e torrada por fora, o que se consegue deixando-a mais próxima às brasas.

Contrafilé É o corte mais longo e pesa cerca de 4 quilos. Cortado em grossos pedaços na parte da frente, mais alta, é o ojo de bife dos argentinos. Com osso, é a bisteca ou chuleta. Rende ótimos assados, graças à capa de gordura lateral, responsável por manter a umidade da carne. O importante é não deixar a peça muito tempo na grelha, para que não endureça. Deve ser colocada primeiro na parte mais baixa da churrasqueira e, depois de 5 minutos, passada para o alto, por mais uns 10 minutos.

Costela Uma das mais saborosas partes do boi, pelos ossos e a gordura, que lhe dão um caráter diferente. Demanda longo tempo de cozimento longe do fogo forte, para que suas fibras se distendam e ela fique macia e suculenta.

Filé-mignon Praticamente sem gordura e muito macio, pode ser grelhado em pedaços maiores ou em medalhões, com o sal grosso colocado 5 minutos antes de ir à grelha. Exige pouco tempo de cozimento. Ao contrário de outras peças, sua maciez permite ser servido bem passado (na maioria das vezes, para desgosto do churrasqueiro).

Fraldinha Em alguns lugares, é chamada de aba de filé ou vazio, um dos cortes que ganham ao ser preparados no espeto, para ficar mais comprimidos. Com fibras longas, é uma carne bastante gostosa, desde que seja colocada bem perto das brasas, por 4-5 minutos de cada lado e, em seguida, deixada na parte mais alta da churrasqueira, em lento cozimento. Sirva em fatias finas.

Maminha da alcatra Com formato triangular, é bastante macia e suculenta.. Deve ser assada na parte alta da churrasqueira, a pelo menos 40 cm da brasa. Comece a servir pela ponta mais fina e, se necessário, volte o restante ao fogo.

Picanha Rainha de todos os churrascos feitos no Brasil, tem seu sabor e suculência acentuados pela capa de gordura que a envolve – e que não deve ser retirada, sob pena de torná-la um corte comum e mais duro. Com uma faca fina, faça cortes em diagonal na gordura, formando um quadriculado. Isso facilita a absorção do sal e favorece o efeito da gordura no gosto e maciez. Esfregue o sal grosso nos dois lados, com o excesso sendo retirado no momento de levá-la à grelha. Detalhe importante: primeiro, coloque o lado da gordura para cima, a uma altura de 40 cm, deixando por cerca de 40 minutos. Vire e deixe o lado da gordura por mais 10 minutos, até que fique dourada. Pode também ser grelhada em grossos pedaços com 3 dedos de largura – nesse caso, na parte mais baixa da churrasqueira e com menos tempo de fogo.

Da água

Camarões lindos e crocantes, lulas no espeto, a famosa sardinha na brasa e peixes inteiros com temperos variados. Churrasquear o que vem do mar ou dos rios é também um gostoso exercício diante do fogo. Podem servir de entrada para as carnes ou até mesmo ser protagonistas de uma tarde à beira-mar ou ao lado da piscina. E sempre é bom lembrar que a carne de peixe tem valor nutricional alto e menos calorias que a carne vermelha. Entre os peixes mais adequados à brasa estão badejo, dourado, pargo, Anchova, pescada, atum, salmão e sardinha, mas a lista vai além, de acordo com a região. Do Rio, o pintado, o pacu, o pirarucu e o tambaqui são especiais. Temperados com sal e pimenta ou recheados, os peixes maiores devem ser envoltos em folha de bananeira, alumínio ou papel-manteiga para preservar e intensificar seu gosto.

Churrasco pantaneiro, Por Eduardo Almeida Reis



Ilustração Adriana Alves
Ilustração Adriana Alves
Nos muitos anos que passei no Pantanal, tanto do MS como do MT, constatei que dois ingredientes nos churrascos de lá discrepam dos outros que comemos no mundo inteiro: abstemia e educação. Abstemia, porque as bebidas alcoólicas são proibidas nas fazendas. Educação, por algum mistério pantaneiro, que não descobri até hoje.

Proibir o álcool tem a seguinte explicação: não raras vezes, a polícia fica a uma hora de avião do local das escaramuças. Houve casos de peões, amigos de infância, companheiros de trabalho, que enfiaram suas facas nas barrigas dos colegas só para ver se estavam amoladas. Quando andei trabalhando por lá, só um caçador convidado teve direito ao puro malte destilado na Escócia. Enfartado, era presidente do Banco do Brasil.
Claro que há pessoas educadas em outros churrascos, mas também há muita gente parecida com aquela que se vê nos jantares de nossa “melhor sociedade”: a abertura do salão de refeições corresponde a um salve-se quem puder, e é gente bem alimentada, que não passa os dias em trabalhos exaustivos.

No Pantanal, temos 45 peões, de três comitivas de 15, que montaram às 2 da madrugada para churrasquear no final da tarde. Durante 14 horas no chamado “trabalho do gado”, cada peão estourou três cavalos e passou o dia inteiro movido a guaraná em pó e pedaços de rapadura. Enquanto isso, no acampamento em que se reúnem ao final do dia, um churrasqueiro assa a metade de uma vaca levada do matadouro da fazenda.
Terminado o dia de trabalho, temos cerca de 50 homens em fila para churrasquear: o sócio-diretor da empresa rural, o assessor da diretoria (meu caso), um ou dois convidados, o capataz que também estourou três cavalos e os 45 peões das comitivas. Aí, só vendo para acreditar. Devo admitir que assisti às cenas um monte de vezes e até hoje fico pasmo.

Depois do diretor, do assessor e dos visitantes, que comeram poeira o dia inteiro no curral de trabalho, o capataz tira seu pedaço de carne, um punhado de farinha e o sal necessário. Pedaço pequeno, educadíssimo. Seguem-se os 45 peões que respeitam – pasme o leitor – a ordem de idade. Não há idosos, que teriam morrido durante o dia, mas há vaqueiros de 35, de 40 anos, que entram na frente da peonada. Cada qual tirando, vale repetir, pequeno pedaço de carne. Os peões mais moços, e alguns podem ter 12 ou 14 aninhos, vão às carnes na maior educação, sempre tirando pequenos pedaços, se possível, com os nacos de gordura fumegante.

Todos transportam suas facas às costas, junto com a chaira, peça de aço com cabo de osso ou de madeira, própria para amolar facas. Chaira e faca presas na guaiaca, cinto largo de couro. Ao cair da noite, diretor, assessor e convidados voltam de jipe para a sede da fazenda e a peonada arrancha nas redes lá mesmo, depois da sessão de mentiras, que também faz parte. Dia seguinte, repeteco, mas tem a vantagem de não começar às 2 horas. Podem acordar às 5, que dormiram no campo de batalha. Cavalos recuperados, arreios, pó de guaraná, rapadura e um novo dia de trabalho. E, assim, durante quatro ou cinco dias, sempre terminando com a vaca assada e a espantosa educação, o respeito pelos chefes e pelos mais velhos.

Eduardo Almeida Reis é jornalista e escritor, membro da Academia Mineira de Letras e não tolera carne bem passada. 

INTERNET BRASILEIRA SEGUE PARCIALMENTE SEM LEI COM ESVAZIAMENTO DO MARCO CIVIL


Legislações criminais sancionadas por Dilma, porém, já podem ser aplicadas

Impasse: Molon, relator do Marco Civil, diz que continuará lutando pelo projeto após recesso

O Brasil adentrará 2013 sem uma legislação definida para a internet. Emperrado no Congresso, o projeto do Marco Civil para a rede só voltará a entrar na pauta de votação em fevereiro. Enquanto isso, já foram sancionadas pela presidente Dilma Rousseff duas leis que tratam de crimes digitais — a lei Carolina Dieckmann (12.737), inspirada pelo vazamento de fotos da atriz nua na internet este ano, e a lei Azeredo (12.735), o que já configura ao menos um passo na direção da regulação on-line no país.
Segundo o relator do Marco Civil, deputado federal Alessandro Molon (PT-RJ), o atraso na votação do projeto de lei é prejudicial à internet brasileira. Ele foi retirado da pauta pelo menos três vezes na Câmara, devido a controvérsias sobre pontos como a neutralidade da rede (que reza que o tráfego de dados se deve dar igualitariamente) e a guarda de informações dos internautas.
— A segurança e a privacidade dos dados dos usuários brasileiros dependem do Marco Civil — defende Molon. — Os provedores de conexão (operadoras) acham que a neutralidade prejudica suas oportunidades de negócios, e também querem guardar os dados de navegação dos internautas. Mas é preciso proteger essa navegação em nome da privacidade do usuário.
De acordo com Bruno Magrani, professor e pesquisador do Centro de Tecnologia e Sociedade (CTS) da Fundação Getulio Vargas, que foi um dos redatores do texto do Marco Civil, a dicotomia no texto sobre quem deve guardar quais dados visa a proteger justamente o usuário:
— O texto do Marco Civil estabelece que os provedores de conteúdo guardem os dados de navegação do usuário, e as teles, o seu endereço IP. É preciso juntar as duas coisas para identificar o internauta.

Neutralidade, mas nem tanto
Presidente do Sinditelebrasil, entidade que representa as operadoras, Eduardo Levy diz que as teles entendem perfeitamente que a internet deve ser neutra em relação ao que nela trafega, mas defendem “a liberdade de oferecer de forma transparente qualquer serviço diferenciado” aos clientes:
— Sem isso, teremos necessidade de um investimento maior — afirma. — Seremos obrigados a oferecer o mesmo pacote a quem só acessa e-mail e a quem baixa muitos vídeos, por exemplo.
Enquanto o Marco Civil não é definido, já podem ser aplicadas as leis Carolina Dieckmann e Azeredo, que tratam de crimes cibernéticos. A primeira altera o Código Penal para tornar crime a violação de e-mail de terceiros, ou o roubo via internet de dados pessoais de outrem. A pena mínima é de detenção de três meses a um ano, mais multa, mas é acrescida de um sexto a um terço, no caso de a violação causar prejuízo econômico à vítima. O texto ainda pune quem divulga dados sigilosos. Outro ponto caracteriza o crime de falsificação ou clonagem de cartão de crédito ou débito, com pena de reclusão de um a cinco anos, mais multa. Já a Lei Azeredo define como crime a utilização de dados de cartões de crédito ou débito de forma indevida ou sem autorização. Prevê ainda que mensagens com conteúdo racista sejam retiradas imediatamente do ar na rede.
Para a advogada especializada em direito digital Patrícia Peck, o Brasil deu um primeiro passo para ter uma lei penal “que trate os novos delitos que ocorrem no ambiente digital”, mas precisa avançar mais.
— É preciso garantir a capacidade de guarda de provas de autoria, para a penalização do infrator (e isso passa pela discussão do Marco Civil) — explica Patrícia. — Não basta só o cárcere físico. É preciso criar controles virtuais e investir na reintegração do criminoso à sociedade, até trabalhando suas habilidades para o combate ao próprio crime digital.

Por André Machado
Fonte O Globo Online

Da série "Virgens com Gonorréia": Senador é réu por pensão e abandono afetivo




deu no Claudio Humberto


Habituado ao ataque, o senador Álvaro Dias (PR), líder do PSDB no Senado, agora está na defensiva: foi condenado na Justiça pelo não pagamento de pensão a uma filha – ainda menor de idade – fruto de seu relacionamento com a funcionária pública Monica Magdalena Alves. O tucano responde a processos, em segredo de justiça, por abandono afetivo e corre risco de ter o seu patrimônio bloqueado.

Pensão paga


Álvaro Dias ficou indignado com a ação judicial contra ele. Conta inclusive que só de pensão paga dez salários mínimos por mês.

Nulidade


Em um dos processos, a filha do senador Álvaro Dias pede anulação da venda de cinco casas dele, no valor de R$ 16 milhões, em Brasília.

Chantagem


Álvaro Dias considera que tem cumprido seu dever de pai “rigorosamente”, o que o leva a concluir: “Isso é chantagem”.

Visão pragmática da problemática, por João Ubaldo Ribeiro



João Ubaldo Ribeiro, O Globo
Há quem acredite que exagero, quando falo nas muitas excelências de Itaparica, tanto as presentes quanto as passadas. Mas é uma impressão falsa, porque, embora não possa ignorar esses grandes predicados, procuro sempre ater-me à imparcialidade e fidelidade aos fatos que devem nortear o bom jornalismo informativo.
Agora mesmo, diante dos acontecimentos nacionais, sou o primeiro a reconhecer que carecemos hoje de juristas capazes de prestar uma contribuição significativa aos debates em curso.
Bem verdade que, se tivessem anel no dedo, Ary de Maninha e Jacob Branco botariam num chinelo muitos desses advogadecos mal-acabados que por aí abundam, mas o fato é que, pelo menos que eu saiba, ninguém na ilha pode alegar notório saber jurídico e pleitear ser ouvido sobre questões constitucionais.
O que não impede, naturalmente, que se registre um pronunciamento marcante ou outro, como o do citado Ary de Maninha, na happy hour das nove da manhã, no Bar de Espanha.
— Os nobres amigos leram? — indagou ele. — Uns porretas aí dizem que a interpretação da Constituição pelo Supremo está errada e que o Supremo não é a única interpretação que vale! A que vale é a deles! Vale a de todo mundo! Cada um chega lá e diz que a Constituição estabelece o que ele quer, pra que Supremo?
Meus caros amigos, Ruy Barbosa acaba de ganhar o apelido de Ruy Carrapeta, de tanto que rola na tumba! Não cumprem a decisão do Supremo e passamos a ter o nome oficial de República Esculhambativa do Brasil, ninguém mais vai cumprir merda nenhuma e as decisões do Supremo doravante serão encaminhadas aos deputados, para ver se eles concordam.
Por que não resolvem logo que pra deputado a Justiça não vale? Por que não acabam logo com juiz, tribunal, essas coisas? Vamos criar a Deputança Judiciária! Vamos criar o Judiciário Cidadão! Cada um é livre para interpretar a lei como quiser.
Eu dou uma dedada no seu traseiro e declaro que, na minha interpretação, a lei me dá direito a isso. Dá direito ao urologista, por que não dá a mim?
Eu digo que meu direito de ir e vir não está sendo respeitado e aí exijo passagens de graça para onde eu quiser, na minha opinião a lei garante! Manolo, eu estou quase morto de sede! Se você não me der uma cerveja de graça pra eu me hidratar, é omissão de socorro!
O sentenciado resolve se aceita a sentença! Oh baderna, baderna, mixordieira deusa do atraso, aqui nos entregamos nós de uma vez por todas, acolhe-nos em teu regaço impudente, afaga-nos com tuas mãos mensaleiras, beija-nos com teus lábios prevaricadores!
Mas, apesar da pungência dessa rendição, a ilha permaneceu irresignada a ficar à margem dos acontecimentos.
Depois de uns três dias de recolhimento, durante os quais quem passava por sua calçada ouvia lá de dentro apenas uma ou outra voz de mulher num momento de alguma exaltação, Zecamunista emergiu na saída da rua dos Patos, sobraçando várias pastas de papelão e, passo firme e queixo empinado, se dirigiu ao Bar de Espanha.
Enganaram-se os mexeriqueiros que haviam atribuído os gritinhos femininos a mais uma reunião do Cialis, não o remédio, mas o Centro Itaparicano de Amor Livre Socialista, de que Zeca é secretário-geral perpétuo e que promove periodicamente o que ele chama de encontros motivacionais e o pessoal despeitado, invejoso e reacionário chama de outras coisas, todas impróprias.
(Aliás, Zeca sustenta que o nome do remédio é plágio e de vez em quando ameaça abrir processo; diz que todas as coroas do Recôncavo testemunhariam a favor dele, pois muitas delas já se beneficiaram do Centro e são sócias atuantes, contribuintes e até sócias atletas).
Os gritinhos eram das voluntárias que se ofereceram para ajudá-lo na formulação de seus planos, ao terminarem alguma tarefa importante.
— Resolvi dar uma mão à burguesia mercantil local, a crise não ajuda ninguém — disse ele, alisando a papelada. — Está tudo detalhado aqui, vou encaminhar à Associação Comercial. As circunstâncias já nos fizeram perder uma oportunidade histórica, mas outras estão se abrindo é só saber enxergar.
Tudo começara com a ideia de oferecerem na ilha acomodações adequadas para a reclusão dos condenados classe A. Essa ideia foi logo encampada por outras cidades Brasil afora, todas sentindo o potencial mercadológico de uma jogada dessas.
A ilha bobeou e vai perder a oportunidade, tinha de ter atirado com todas as armas, era preciso ter unido a Bahia em torno desse manancial turístico incalculável, que iria beneficiar todo o estado, além de elevar sua autoestima, por hospedar tantos nomes nacionais.
Ele já tinha escolhido o sobradão para a nova cadeia, já tinha orçado a reforma, a decoração e as instalações, tudo para inspetor nenhum, nem repórter nenhum, de onde lá fossem, botar defeito.
Mas faltou visão, faltou agilidade, a ilha vai ficar fora dessa. Cadê a classe hoteleira, cadê as agências de turismo?
Infelizmente, a batalha está perdida para competidoras infinitamente mais ricas e poderosas e a vencedora vai ser uma cidade paulista, isso se não abrirem uma concorrência internacional e as Bermudas, Taiti ou Ibiza não ganharem.
Mas o serviço que ele criara, não! A ilha pode sair na frente e a complexa estratégia já estava traçada. A ilha vai oferecer serviços de protestos, passeatas e manifestações diversas com toda a infraestrutura, tudo profissional de alto nível. O freguês especifica a manifestação que quer, faz-se um orçamento e se providencia tudo.
Bastou ele ter dado uma sondada e já tinha sentido a possibilidade de pelo menos duas boas manifestações contra o Supremo, logo no começo do ano. Uma firma de São Paulo telefonou querendo saber datas para o verão, tem muita grana nisso, o mercado está aquecidíssimo.
— Agora é assim — disse Zeca, com aquela risadinha bolchevique. — Não gostou, faz umas boas manifestações e vira o jogo. É a nova democracia.

João Ubaldo Ribeiro é escritor