segunda-feira, 25 de março de 2013

Câmara gasta o que economizou



24 de março de 2013 | 2h 06
O Estado de S.Paulo
Três semanas após ter anunciado a moralizadora redução do pagamento de 14.º e 15.º salários para deputados federais, a Mesa Diretora da Câmara encaminhou a seu plenário projetos que criam a Corregedoria Autônoma e o Centro de Estudos e Debates Estratégicos e mais 59 cargos.
Em 26 de fevereiro passado, ainda sob o impacto da eleição com margem folgada, dos presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Henrique Eduardo Alves, ambos do PMDB e sob suspeitas de irregularidades incompatíveis com os cargos, a Casa aprovou, em votação simbólica, projeto do Senado que reduz o pagamento do 14.º e 15.º salários dos parlamentares. No fundo, a solução encontrada foi uma satisfação à opinião pública, mas também um passa-moleque, pois o texto aprovado não acabou definitivamente com o benefício e manteve o pagamento tanto no primeiro quanto no último ano de cada legislatura. Ainda assim, ao final da votação, o presidente da Câmara usou o Twitter para festejar o resultado: "Parabéns a este Plenário, que resgata a altivez e a dignidade do Parlamento brasileiro".
A oposição também exagerou na comemoração. "O pagamento do 14.º e 15.º salários é uma vergonha nacional, é inaceitável. Será o fim imediato desse privilégio", festejou o líder do PSDB, Carlos Sampaio (SP), que pressionou por essa aprovação. Apenas um deputado protestou contra o fim do benefício - o ex-governador mineiro Newton Cardoso, do PMDB. "Estão votando com medo da imprensa, é uma deslealdade com deputados que precisam (do dinheiro)", disse.
Os projetos que criaram os novos órgãos e funções comissionadas representarão um impacto de R$ 7 milhões este ano e de R$ 8,9 milhões em 2014. O reajuste dos valores do chamado "cotão", verba que cobre gastos dos 513 deputados federais com passagens aéreas, telefone e correios, entre outros benefícios, definido pela assessoria técnica da Câmara, será de 12,7%. Hoje, a Casa gasta R$ 170 milhões por ano com o generoso "cotão". Com a decisão de repor a inflação a partir de abril, a despesa aumentará para R$ 38 mil por deputado, o que implica um adicional de despesa de R$ 22,6 milhões. Somente a soma desse aumento com a remuneração do novo trem da alegria chegará a R$ 29,6 milhões, mais do que o dobro dos R$ 12,6 milhões de economia prometida com a redução dos 14.º e 15.º salários.
As decisões da Mesa Diretora só entrarão em vigor depois da aprovação do plenário, mas ninguém em sã consciência espera que os deputados, que engoliram a seco a redução dos dois salários extras anuais, as desautorizem. Afinal, foram os líderes de bancadas que pressionaram Henrique Alves para reajustar o "cotão". Em contrapartida, será reduzido o que se paga de horas extras aos funcionários. Em 2012, a Câmara gastou R$ 47,1 milhões em horas extras noturnas e a intenção manifesta da atual direção é reduzir esse gasto à metade. Hoje os funcionários assinam a presença em folha e o ponto biométrico, ora usado apenas para o controle das horas extras noturnas, passará a ter uso generalizado após adotadas as medidas.
Os novos cargos contemplarão, principalmente, a liderança do PSD, partido criado em 2011 pelo ex-prefeito paulistano Gilberto Kassab, que importou deputados de outros partidos, especialmente o DEM, e ficará com 20 cargos de natureza especial (CNEs) e 10 funções comissionadas (FCs). Há dois anos o PSD já tinha ficado com 66 cargos e funções para sua liderança, mas Henrique Alves cumpriu o acordo que previa a criação de outros mais. A presidência da recém-criada Corregedoria Autônoma também está reservada para o PSD: será ocupada pelo amazonense Átila Lins. O Centro de Debates foi o prêmio de consolação dado ao deputado Inocêncio Oliveira (PR-PE), em troca de sua desistência de concorrer ao cargo de presidente da Casa, que já ocupara antes, para apoiar a candidatura vitoriosa de Henrique Alves.
Ante as evidências de que o economizado em fevereiro passou a ser gasto em março e de que barganhas são "honradas" à custa do erário, conclui-se que a Câmara segue fiel à versão distorcida do lema atribuído a São Francisco, que deu nome ao novo papa: "É dando que se recebe".

A charge de Amarildo



 

Confirmado: Lula levou diretor da Odebrecht em viagem oficial à África



(do jornal O Tempo)
Na única viagem internacional em que o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva foi designado representante oficial do governo Dilma Rousseff, o petista pôs, entre os membros da delegação, o diretor da empreiteira Odebrecht, Alexandrino Alencar.
A relação de Lula com empreiteiras é próxima: elas pagaram quase a metade de suas viagens internacionais como ex-presidente.
O pedido para a inclusão do diretor da construtora na delegação que iria a Guiné Equatorial foi feito ao Itamaraty em 2011. A Odebrecht entrou no país após a visita de Lula, sendo favorita para obras na parte continental do país, onde está sendo construída uma capital administrativa.
O pedido de Lula causou estranhamento no Itamaraty, que cobrou, em 27 de junho de 2011, informações sobre o caso à assessoria do ex-presidente. A assessoria de Lula disse que ele é acompanhado em suas viagens por “diretores do Instituto Lula, lideranças políticas, sindicalistas, empresários e intelectuais”.
Segundo a construtora, “assuntos de interesse da Odebrecht não constaram da pauta dos encontros e das reuniões das quais o ex-presidente Lula participou”.

Só no Brasil, mesmo



Percival Puggina
Convivemos no Brasil com uma extraordinária e inconcebível contradição. No mundo inteiro, a esquerda sempre teve alergia, palpitações e dispneia ao ouvir falar em democracia, liberdade de expressão e direitos humanos.
Que essa aversão persiste é algo que fica evidente quando: 1º) observamos onde recaem os grandes afetos do governo petista em suas relações externas; e 2º) no fato de que jamais vemos nem veremos o PT ou o PCdoB e assemelhados tecerem louvores a uma democracia liberal.
No entanto, aqui no Brasil, a esquerda, que pegou em armas para impor uma ditadura do proletariado, com seus ferrolhos e paredones, faz poses de defensora da democracia, da liberdade de expressão e dos direitos humanos. E de tanto afirmarem essa fraude, as pessoas acabaram acreditando.
(do Blog do Puggina)

O apodrecimento do homem público brasileiro



Almério Nunes
O empobrecimento da vida pública brasileira é nítido e indiscutível. Mas, isto decorre de todo um universo, que alcança a Vida como um todo: o empobrecimento da pessoa, do ser humano (algo que, com exatidão, jamais saberei ou saberemos o que é), em todos os quadrantes deste sempre inquieto mundo.
O materialismo assumiu proporções impensáveis, e levou tudo de roldão. É claro que todos queremos uma fatia do progresso, do desenvolvimento tecnológico, das coisas que nos tragam bem-estar e às nossas famílias. E… surgem as vozes que prometem de tudo, para todos, sem qualquer escrúpulo ou responsabilidade. Acontece no Brasil e em todos os lugares. Apenas uns poucos, entretanto, desfrutam destes avanços formidáveis que a tecnologia traz. “Fazer sonhar” com um amanhã melhor é o discurso de sempre.
Há quem aplauda as políticas mais hediondas, considerando que “o pobre nasceu pobre e como pobre morrerá” e… que “os ricos se fizeram ricos e como ricos morrerão”. Isto é novo? Claro que não. Nem a mentalidade doentia dos que aplaudem tais políticas. Para estes, não há salvação.
LEVANDO VANTAGEM
O empobrecimento da vida pública brasileira deve-se ao fato de que a Lei de Gerson, na qual devemos levar vantagem em tudo, parece ser a única, institucionalizada que é. Nos países nórdicos o Estado administra tudo e… os resultados que obtém são por demais conhecidos: são líderes em quase todos os índices de desenvolvimento humano.
E quais são os líderes populares, os homens que comandam a massa, lá? Eles não atentam para isto, e sim para as políticas sociais em vigor. Um deputado na Suécia mora num pequeno apartamento, anda de ônibus, lava e passa sua roupa, não tem empregados pagos pelo Estado e por aí vai. Aqui, os “legisladores”, os “juízes”, os “executivos” são do nível que conhecemos e sabemos como agem.
O empobrecimento das pessoas nem chega a ser um fenômeno sociológico: é um desdobramento de toda uma situação, na qual vence quem é amigo de alguém, consegue uma indicação de alguém, e rapidamente se acumplicia com o status quo vigente. Quem está na parte de baixo da pirâmide que trate de (bem) sustentar quem está em cima.
Eu trocaria a palavra empobrecimento para apodrecimento do homem público do Brasil e de muuuitos outros países. Enquanto escrevo, ouço gargalhadas dos que conseguem êxito na vida, sempre ou quase sempre às custas dos que nunca terão uma justa oportunidade para crescer e ter acesso a uma vida digna.
Dinheiro para investir no povo, há. Mas as aves de rapina nunca estão dispostas a dividir nada com ninguém, é da natureza delas.

Mais concorrência, menos carro 1.0 básico



O número de montadoras instaladas no Brasil passou de 15 para 49 desde 2000. Com mais concorrência, cada vez menos gente topa dirigir um carro 1.0 básico — e quem não se adapta perde mercado


Silvio Gioia/Quatro Rodas
Hyundai apresenta o novo HB20X no Salão do Automóvel de São Paulo
HB20 (Hyundai, 2012): com itens de série como air bag, ar-condicionado, computador de bordo e direção hidráulica, é o quarto carro mais vendido do país 
São Paulo - Há pouco mais de 20 anos, uma frase dita pelo então presidente da República, Fernando Collor de Mello, marcou a indústria automotiva nacional.
Durante uma viagem à Europa, depois de dirigir os carros do Velho Continente, Collor tascou: “Comparados com os carros do mundo desenvolvido, os carros brasileiros são verdadeiras carroças”. A frase de Collor deixou empresários do setor enfurecidos. Mas fazia muito sentido.
Na época, o Brasil era apenas o 12o maior mercado de automóveis do mundo e estava longe de ser prioridade para as multinacionais do setor.
O mercado doméstico era abastecido exclusivamente por  um punhado de companhias instaladas por aqui, como Autolatina (uma sociedade entre a Volkswagen e a Ford), General Motors e Fiat.
Nesse ambiente, algumas inovações da indústria, como o câmbio automático, levavam mais de 30 anos para chegar ao país.
Com a abertura do mercado para a importação de veículos, conduzida pelo próprio Collor no início da década de 90, os brasileiros começaram a se dar conta de que, em termos automotivos, não haviam saído dos anos 70.
As coisas começaram a melhorar, mas em marcha lenta. Nas décadas seguintes, o grande símbolo da indústria automotiva nacional foi o carro “popular”, com motor 1.0 e sem opcionais como ar-condicionado e direção hidráulica.
Uma carroça, portanto — alguns desses modelos saíam da fábrica sem mesmo o retrovisor direito. Mas o brutal aumento da competição na última década está transformando o mercado brasileiro. Há 20 anos, existiam seis marcas no país. Em 2000, o número aumentou para 15, e atualmente 49 montadoras vendem seus carros por aqui.
Hoje, os brasileiros têm um leque de opções que inclui mais de 1 000 modelos. As carroças continuam aí, mas cada vez menos gente topa levá-las para casa. 
O brasileiro está mais exigente. Segundo uma pesquisa do setor automotivo da empresa global GfK, 93% dos consumidores brasileiros priorizam o conforto na hora de escolher um carro e 71% desejam um veículo com tecnologia inovadora. São percentuais mais elevados do que no exterior. A média global mostra que 80% têm o conforto como prioridade e 64% não abrem mão da inovação. É normal que seja assim.
Nossa percepção do que é luxo é distorcida pelo efeito carroça. Lá fora, os consumidores dão como certo que seu carro virá completo. Portanto, quando pensam em inovação, têm na cabeça produtos distantes, como carros elétricos ou que dirigem sozinhos.
Aqui, inovador ainda é ter câmbio automático e vidro elétrico. E, hoje, todos querem ter carros com esses itens. Passamos tantos anos dirigindo velharias que ter um primeiro carro com direção hidráulica é uma descoberta, e a percepção de conforto ao dirigir vai às alturas.
Depois, ninguém cogita voltar a suar a camisa para estacionar. O número de carros vendidos no Brasil com direção hidráulica de série aumentou de 39%, em 2000, para 62%, no ano passado. Os motores 1.0, que já representaram mais de 60% do mercado nos anos 2000, perderam espaço: representam hoje apenas um terço das vendas. 
O que ajudou o Brasil
Muita coisa conspirou a favor do desenvolvimento do mercado brasileiro. A crise de 2008, que abalou os Estados Unidos, e a recessão que ainda atinge a Europa derrubaram as vendas de carros nesses mercados em até 25%. Para continuar a crescer, as montadorasforam obrigadas a tratar com mais carinho os países emergentes. E o Brasil, hoje o quarto maior mercado de automóveis, virou a bola da vez da indústria.
A expansão da renda e o acesso ao crédito fizeram a venda de carros crescer 37% no país nos últimos cinco anos. Com um mercado crescendo desse jeito, não há montadora no mundo que não queira estar aqui.
E os novos entrantes estão bagunçando as coisas para os tradicionais líderes. A chinesa JAC Motors, que chegou ao Brasil em 2010 com carros que custavam a partir de 35 000 reais, decidiu que todos os seus modelos sairiam de fábrica com os “opcionais” incluídos — de ar-condicionado e direção hidráulica a air bag.  
Em nenhum nicho essa transformação é tão nítida quanto no segmento de compactos, que responde por 66% das vendas de carros no país. O Gol, da Volkswagen, e o Uno, da Fiat, os dois vendidos a partir de 28 000 reais, brigam pela liderança há mais de duas décadas.
Mas novos lançamentos estão mudando a percepção do que é um carro popular no Brasil. Os mais bem-sucedidos, invariavelmente, são aqueles que saem da fábrica do jeito que o novo consumidor brasileiro gosta.
O maior símbolo dessa nova fase é o lançamento do hatch HB20, da coreana Hyundai, em outubro do ano passado. Mais de 41 000 unidades foram emplacadas de lá para cá: é o quarto carro mais vendido no Brasil hoje. Com air bag, direção hidráulica, computador de bordo e outros itens tecnológicos de série, o carro se tornou um fenômeno no mercado nacional.
É vendido a partir de 33 000 reais, cerca de 20% mais do que os 1.0 básicos. “O segredo está em não subestimar o consumidor. Os coreanos estão entendendo o recado”, diz Letícia Costa, sócia-diretora da Prada Consultoria, especializada no setor automotivo.
 A Toyota, por outro lado, sentiu como está difícil empurrar os modelos mais basicões no mercado brasileiro. Em setembro, a japonesa lançou no país o compacto Etios, cujo modelo mais simples sai da fábrica com ar-condicionado e direção hidráulica. Até agora, foi um fiasco. Apesar de o carro partir de versões com motor 1.3 e ser 10% mais barato do que o HB20, o modelo vendeu 65% menos.
“O mercado nem sempre responde como a gente deseja”, diz Luiz Carlos Andrade Júnior, vice-presidente da Toyota Mercosul. Líder do segmento de sedãs de luxo por oito anos no país, com o Corolla, a Toyota estava convicta de que iria abocanhar boa parte da categoria de compactos. Mas o resultado não apareceu, e a montadora está repensando a estratégia para o Etios.
Segundo a Toyota, o carro vendeu pouco por falhas na distribuição. A ideia é aumentar o número de unidades disponíveis para o consumidor. “Ainda estamos aprendendo como o segmento funciona e estamos aumentando os estoques”, diz Andrade Júnior.
Segundo a consultora Letícia Costa, os concorrentes diretos do Etios — HB20, da Hyundai, e Onix, da GM — têm mais itens de série e um acabamento percebido pelo consumidor como melhor. 
Apesar de o atraso nas versões disponíveis no Brasil estar diminuindo na comparação com os carros vendidos na Europa e nos Estados Unidos, a distância ainda é grande.
Enquanto os brasileiros só agora começam a se acostumar com itens tidos como básicos no resto do mundo há décadas, americanos e europeus têm acesso a mimos como controle de voz ou estacionamento automático. Um dos limitadores para a chegada dessas tecnologias ao Brasil é o preço. Aqui, o volume de impostos equivale a 30% do preço final de um carro.
Enquanto isso, países como México (18%), Alemanha (16%), Japão (9%) e Estados Unidos (5,7%) convivem com taxas mais normais. Esse é, por exemplo, um dos desafios da Ford, que adotou uma estratégia global de lançamentos simultâneos nos países onde tem operação. O novo sedã Fusion, que vem de fábrica com oito air bags e computador de bordo com tela de 8 polegadas, custa a partir de 93 000 reais no Brasil.
Nos Estados Unidos, o mesmo carro pode ser comprado por menos da metade disso. “Temos necessidade de adicionar tecnologia aos carros brasileiros, mas não podemos aumentar muito o preço porque a competição está acirrada e 500 reais já fazem diferença.
Esse é o grande desafio da indústria”, diz Rogelio Golfarb, vice-presidente de assuntos corporativos para a Ford América do Sul. A disputa entre as montadoras tem sido tão apertada que nos últimos oito anos o preço dos carros diminuiu.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) evoluiu 51,5%, enquanto o IPCA de veículos caiu 8,2% no período. O governo federal também não ajuda. Em 2011, o aumento da taxação para a entrada de veículos importados no país — que respondem por cerca de 25% do mercado — soou como retrocesso.
Sob a alegação de proteger a indústria nacional, o governo fez com que os carros importados ficassem até 30% mais caros, e a venda de veículos em algumas marcas, como Kia e JAC Motors, que saem de fábrica com todos os opcionais incluídos, caiu pela metade.
Parecia um sinal do retorno das carroças — afinal, por mais exigente que esteja o consumidor brasileiro, ninguém está disposto a pagar fortunas para não sentir calor dentro do carro. Em 2012, o governo condicionou o fim das barreiras à instalação de fábricas no Brasil. Quem topar produzir no país ganha o direito de importar uma cota de veículos até que a fábrica esteja funcionando.
Até agora, quatro montadoras já anunciaram sua intenção de ter fábricas no Brasil — entre as que estudam fazer o mesmo estão a alemã Mercedes-Benz e a indiana Jaguar Land Rover, duas das mais conceituadas empresas do setor. Mais um sinal de que o tempo das carroças está ficando para trás.

A TOMADA DO BRASIL



            Percival Puggina


            A nação está com as mãos erguidas e não é para rezar. Ninguém escapa à sanha dos bandidos aos quais o Estado, miseravelmente, se rendeu. Era previsível. Foi prenunciado por uns poucos, entre os quais eu mesmo. Agora está aí e todos percebem. Num país com 200 milhões de habitantes, a atividade contra o patrimônio alheio, por exemplo, tornou-se tão intensa que, do pirulito da criancinha à minguada pensão mensal da vovozinha, tudo já foi levado e todos já foram assaltados. Alguns, muitas vezes.

            Tenho nostalgia, já falei antes, do tempo dos trombadinhas. Eram meninos. Quase digo que eram meninos de boa formação, que sabiam estar fazendo coisa errada. Esbarravam na vítima, tomavam-lhe algo e saíam correndo. Tinham medo da vítima, da polícia, e de que outros transeuntes os detivessem. De uns tempos para cá, o ladrão é bandido que ataca, ofende, maltrata e mata, motivada ou imotivadamente.

            Por uma dessas coisas da memória, vem-me à lembrança a descrição da Queda de Constantinopla, que o grande Daniel-Rops fez em sua História da Renascença e da Reforma. Após oito séculos da jihad contra a Roma do Oriente, Maomé II comandara a arremetida final. Quando a orgulhosa cidade caiu, o sultão entregou-a aos seus janízaros por três dias e três noites, conforme prometera. Sobrou pouca gente para contar a história. Encerrado o prazo, sangue escorria pelas calhas das ruas e era impossível encontrar, em Bizâncio, um simples pires de porcelana.

            Pois é isso que está acontecendo no Brasil, com a diferença de que o prazo é mais elástico. Sirvam-se os vitoriosos pelo tempo que quiserem! O que nos estão tomando são despojos de uma nação derrotada pelo que de pior nela existe. É a prerrogativa dos vencedores, quando os vencedores são criminosos. Sempre foi assim na história. A vitória dos bandidos representa estupro, morte e pilhagem. Coube-nos a fatalidade de viver nestes anos da Tomada do Brasil pelos maus brasileiros.

***

            Ensinaram ao trombadinha de ontem que ele é a vítima. Sopraram-lhe uma ideologia de boca de fumo, que fala aos "manos" de seus direitos humanos. Vivendo, ele aprendeu que o crime compensa. Percebeu, com fartura de exemplos, que roubar é direito de todos e dever do Estado - mão grande e hábil para cobrar impostos, miúda e inábil para as tarefas que lhe cabem. À sociedade, esse Estado confessou, por inúmeros modos, sua rendição. Num dia, a polícia fecha pela quarta vez um desmanche de automóveis e prende o mesmo sujeito. No outro, o bandido sai da delegacia antes de o lesado preencher o BO. Não faz muito, um exército de policiais foi mobilizado para prender bandidos que ... estavam presos. Deveriam estar, mas o semiaberto, sabe como é. Num assalto a mão armada, a ação do Poder Público começa e termina em burocrático "registro no sistema". É crime de baixa lesividade, sabe? E volta e meia a pistola dispara sem quê nem porquê e matam. Soltam-se presos porque os presídios estão superlotados. Por excesso de presos? Não. Por excessiva falta de presídios, que diabo! As vítimas, antes de mais nada, são vítimas da inutilidade do Estado. Do Estado que quer desarmar os cidadãos de bem, não move palha pelos lesados e enlutados, mas lastima a morte de cada bandido em confronto com sua polícia. E veja, leitor, eu apenas falei do submundo. Não disse uma palavra sobre o grand monde.

Zero Hora, 24 de março de 2013