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sábado, 11 de março de 2017

ESTÁ TUDO ERRADO E JÁ QUEBROU. MAS NÃO MEXE! - por Percival Puggina

 10.03.2017

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Percival Puggina

 Difícil entender a conduta de muitos brasileiros. A parcela mais significativa do eleitorado é, historicamente, sensível às mais demagógicas promessas populistas. A biografia de muitos que entraram para nossa história como líderes benquistos e o catálogo de suas principais realizações não resiste ao crivo da relação benefício-custo e ao escrutínio de suas consequências. O Brasil anda devagar e o futuro é um horizonte que se afasta. De Getúlio para cá, incluindo o próprio, o populismo nos presenteou pela urna Juscelino, Jânio, Collor, Lula e Dilma. Não era outro o ânimo dos vices Jango e Sarney. Escaparam-se, em tempos recentes, o saudoso Itamar Franco e FHC em sua primeira eleição como cavalo do comissário de um governo bem sucedido. Já não se diga o mesmo dele em 1998, pois a reeleição enviou às favas os critérios do primeiro mandato.

 Recordista mundial em número de sindicatos, o Brasil cria 250 novas organizações desse tipo por ano. Segundo a revista Veja, em outubro do ano passado, havia 16.293 deles, prontos para servir de sinecura a dirigentes e de complicador às relações de trabalho. O motivo pelo qual os temos em tal quantidade (125 vezes mais do que os Estados Unidos e 180 vezes mais do que a Argentina) é o mesmo pelo qual são tantos os nossos partidos políticos. Há muito dinheiro fácil para uns e outros.

 “Nenhum direito a menos!”, lia-se em faixa de passeata ocorrida há dois dias em Porto Alegre. “Queremos mais direitos e não menos!” proclamava outra, no mesmo evento. Ora, quem disse que muitos direitos são vantajosos ao trabalhador? Fosse assim, Portugal e Espanha estariam recebendo trabalhadores alemães e ingleses. No entanto, o que acontece é o contrário. Recursos humanos de países super-regulamentados migram para países onde as relações são mais livres. Aqueles têm as economias mais travadas e pagam salários mais baixos; estes são mais ágeis, prósperos e pagam salários mais altos. Li outro dia que na Venezuela, onde a lei proíbe a demissão de quem ganha salário mínimo, os trabalhadores, por motivos óbvios, têm medo de ser promovidos.

 Então, o Brasil preserva instituições irracionais, verdadeiras usinas de crises que promovem cíclica instabilidade da vida social e econômica. Cultua leis incompatíveis com o tempo presente como se fossem preciosidades jurídicas e esplêndidas realizações da generosidade política. Mas ai de quem propuser alteração em estatutos anacrônicos como os da previdência social e das relações de trabalho! Mas e o Brasil, deputado? Ora, o Brasil! Empregado tem nome e CPF. A empregabilidade não rende votos e o desempregado não tem sindicato.

A infeliz combinação de populismo, corrupção e leis erradas produziu a recessão, gerou 12,5 milhões de desempregados e derrubou a renda real dos brasileiros. Essa queda, porém, foi muito assimétrica, proporcionalmente maior para que ganha menos, chegando a 100% para o universo dos desempregados. Isso está muito errado!
Sim, mas não mexe, parecem dizer as próprias vítimas do perverso populismo e os eternos incendiários do circo alheio. Assim, o mero futuro já é uma utopia.

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* Percival Puggina (72), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do sitehttp://www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Sermão Secular e a Corrupção


Padre Antônio Vieira

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Hélio Duque

Mais de três séculos depois, o sermão sobre corrupção do Padre Antonio Vieira é de uma atualidade inacreditável no Brasil contemporâneo. A lembrança do grande pregador decorreu do fato de há algum tempo ter revisitado o inesquecível Colégio Antonio Vieira, em Salvador, primeira instituição de ensino criada no Brasil pelos jesuítas.

Ao longo de séculos, no ginasial e no colegial, gerações recolheram sólidos valores no aprendizado, incorporando a ética como princípio intocável para a vida. No século XVII, era levado para Portugal, por imposição da intolerante e odiosa Santa Inquisição. Foi perseguido político, pelo único delito de nos seus extraordinários sermões condenar o ilícito, a corrupção e a ladroagem dominantes nas terras coloniais.

A elegante e bem elaborada pregação e os seus escritos integram páginas notáveis na literatura brasileira. A obra completa do Padre Vieira, na coleção de 30 volumes acaba de ser publicada pela Edições Loyola, incluindo os textos de história, filosofia, direito, economia, literatura, filologia e, fundamentalmente futurologia. Enfrentou a intolerância, fazendo da palavra a sua arma.
                  
Em Lisboa, desafiando a Inquisição, em 1655, na Igreja da Misericórdia, proferiu histórica pregação, de grande valor nesse século XXI. É o “Sermão do bom ladrão”, que terá aqui alguns dos seus grandes momentos transcritos. O espaço hoje será do Padre Antonio Vieira.
                  
1 – “Bem quisera eu que o que hoje determino pregar chegara a todos os reis. Todos devem imitar ao rei dos reis, e todos têm muito que aprender nesta última ação de sua vida. Pediu o bom ladrão a Cristo que se lembrasse dele no seu reino. E a lembrança que o Senhor teve dele foi que ambos se vissem juntos no paraíso. Esta é a lembrança que devem ter todos os reis. Que se lembrem não só de levar os ladrões ao paraíso, senão de os levar consigo. Nem os reis podem ir ao paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis. Isto é o que hei de pregar.”
                  
2 – “Navegava Alexandre Magno em sua poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia, e como fosse trazido à sua presença um pirata que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício. Porém, ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: - Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muitos faz, os Alexandres. Se o rei da Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata, o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.”
                  
3 – “Ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao inferno. Os que não só vão, mas levam, de quem eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera; os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento distingue muito bem S.Basílio Magno. Diógenes que tudo via com mais aguda vista que outro homem viu que uma grande tropa de varas e ministros da justiça levava a enforcar uns ladrões e começou a bradar: - Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. Ditosa Grécia que tinha tal pregador! Quantas vezes se viu  Roma ir a enforcar um  ladrão por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um Cônsul ou ditador, por ter roubado uma província. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes.”
                  
4 – “Conjugam o verbo rapio por todos os modos. Começam a furtar pelo modo indicativo. Furtam pelo modo imperativo, porque, aplicam despoticamente às execuções da rapina. Furtam pelo modo mandativo, porque aceitam quando lhes mandam. Furtam pelo modo optativo. Furtam pelo modo conjuntivo. Furtam pelo modo potencial. Furtam pelo modo permissivo, porque permitem que outros furtem. Furtam pelo modo infinitivo. Furtam juntamente por todos os tempos, para incluírem no presente o pretérito e o futuro do pretérito desenterram crimes, de que vendem os perdões. Furtam, furtavam, furtaram,  furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse.”
        
Como se vê, o Padre Antonio Vieira, enxergava séculos à frente do seu tempo. Sua atualidade é estonteante.


Hélio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Foi Deputado Federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

ISRAEL – Logo vai ficar difícil para o petismo chamar de “antissionismo” o que tem tudo para ser antissemitismo mesmo!


A quantidade de desaforos que o Brasil produz contra Israel dá o que pensar. Parece que a suposta militância antissionista do governo petista assume tinturas, no fim das contas, de antissemitismo. Aliás, vamos ser claros: o antissemitismo costuma se dizer apenas um antissionismo por delicadeza eufemística, não é mesmo? Qual é o busílis? O governo de Israel decidiu indicar Dani Dayan para embaixador no Brasil. O Palácio do Planalto, sempre por meio de Marco Aurélio Garcia, o ministro oficial dos Desastres Exteriores, fez chegar àquele país o seu descontentamento, já que Dayan, argentino naturalizado israelense, é considerado um representante dos colonos da Cisjordânia e não tem simpatias pela criação do estado palestino, defendido pelo governo brasileiro. Vamos lá. O Palácio do Planalto tem todo o direito de gostar deste ou daquele. E de não gostar também. Mas, salvo engano, o embaixador de Israel no Brasil defenderá os interesses de… Israel em nosso país — que é o que costumam fazer os embaixadores, ora essa! Desde quando o representante de um estado é obrigado a abraçar a pauta daquele país para o qual é enviado? Isso é uma sandice! É claro que há protocolos nessas coisas. Não é raro que dois países tenham dissensões, embora mantenham relações diplomáticas. É evidente que não se vai enviar para o território com o qual há um contencioso importante alguém que seja flagrantemente contrário a qualquer forma de diálogo e que só acredite na linguagem do confronto — que vem a ser o contrário da diplomacia. Mas não é o caso. Ainda que o Brasil tenha as suas opiniões sobre o estado palestino — e tem, claro!, o direito a isso —, o representante de Israel em nosso território não tem de comungar dos mesmos princípios. Considerações dessa natureza expõem o primitivismo que hoje dá as cartas no Itamaraty. Venham cá: o governo petista compartilha todos os pontos de vista do embaixador do Irã no Brasil? As opiniões dos embaixadores de Cuba e da Venezuela coincidem com as do Planalto? Acho que, nos três casos, prefiro nem saber a resposta. Ou melhor: acho que já sei. O governo Dilma estrelou um vexame no ano passado quando, diante da escalada da violência entre israelenses e palestinos, emitiu uma nota em que censurou apenas Israel, ignorando os agressores palestinos e suas vítimas — judeus, é claro! O vazamento das restrições ao nome do embaixador é mais uma das grosserias do governo brasileiro com um país amigo, ao qual os petistas se opõem de maneira sistemática. Dizer o quê? Os “companheiros” tratam aos pontapés a única democracia do Oriente Médio é a pão de ló todas as ditaduras muçulmanas. Isso os define. Por Reinaldo Azevedo

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

OS SAQUEADORES DA LÓGICA - by Fernando Gabeira


GABEIRA
GABEIRA

Se o PT pusesse fogo em Brasília e alguém protestasse, a resposta viria rápida: onde você estava quando Nero incendiou Roma? Por que não protestou? Hipocrisia.

Com toda a paciência do mundo, você escreve que ainda não era nascido, e pode até defender uma ou outra tese sobre a importância histórica de Roma, manifestar simpatia pelos cristãos tornados bodes expiatórios. Mas é inútil.

Você está fazendo, exatamente, o que o governo espera. Ele joga migalhas de nonsense no ar para que todos se distraiam tentando catá-las e integrá-las num campo inteligível.

Vi muitas pessoas rindo da frase de Dilma que definiu a causa do escândalo da Petrobrás: a omissão do PSDB nos anos 1990. Nem o riso nem a indignação parecem ter a mínima importância para o governo.

Depois de trucidar os valores do movimento democrático que os elegeu, os detentores do poder avançaram sobre a língua e arrematam mandando a lógica elementar para o espaço. A tática se estende para o próprio campo de apoio. Protestar contra o dinheiro de Teodoro Obiang, da Guiné Equatorial, no carnaval carioca é hipocrisia: afinal, as escolas de samba sempre foram financiadas pela contravenção.

O intelectual da Guiné Juan Tomás Ávila Laurel escreveu uma carta aos cariocas dizendo que Obiang gastou no ensino médio e superior de seu país, em dez anos, menos o que investiu na apologia da Beija-Flor. E conclui alertando os cariocas para a demência que foi o desfile do carnaval de 2015.

O próprio Ávila afirma que não há números confiáveis na execução do orçamento da Guiné Equatorial. Obiang não deixa espaço para esse tipo de comparação. Tanto ele como Dilma, cada qual na sua esfera, constroem uma versão blindada às análises, comparações numéricas e ao próprio bom senso.

O mundo é um espaço de alegorias, truques e efeitos especiais. Nicolás Maduro e Cristina Kirchner também constroem um universo próprio, impermeável. Se for questionado sobre uma determinada estratégia, Maduro poderá dizer: um passarinho me contou. Cristina se afoga em 140 batidas do Twitter: um dia fala uma coisa, outro dia se desmente.

Numa intensidade menor do que na Guiné Equatorial, em nossa América as cabeças estão caindo. Um promotor morre, misteriosamente em Buenos Aires, o prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, só e indefeso, é arrastado por um pelotão da polícia política bolivariana.

Claro, é preciso denunciar, protestar, como fazem agora os argentinos e os venezuelanos. Mas a tarefa de escrever artigos, de argumentar racionalmente, parece-me, no Brasil de hoje, tão antiga como o ensino do latim ou o canto orfeônico.

Alguma evidência, no entanto, pode e deve sair da narrativa dos próprios bandoleiros. Quase tudo o que sabemos, apesar do excelente trabalho da Polícia Federal, veio das delações premiadas.

Alguns dos autores da trama estão dentro da cadeia. Não escrevem artigos, apenas mandam bilhetes indicando que podem falar o que sabem.

Ao mesmo tempo que rompe com a lógica elementar, o governo prepara sua defesa, organiza suas linhas e busca no fundo do colete um novo juiz do Supremo para aliviar sua carga punitiva. O relator Teori Zavascki, na prática, foi bastante compreensivo, liberando Renato Duque, o único que tinha vínculo direto com o PT.

Todas essas manobras e contramanobras ficarão marcadas na história moderna do Brasil. Essa talvez seja a razão principal para continuar escrevendo.

Dilmas, Obiangs, Maduros e Kirchners podem delirar no seu mundo fantástico. Mas vai chegar para eles o dia do vamos ver, do acabou a brincadeira, a Quarta-Feira de Cinzas do delírio autoritário.

Nesse dia as pessoas, creio, terão alguma complacência conosco que passamos todo esse tempo dizendo que dois e dois são quatro. Constrangidos com a obviedade do nosso discurso, seguimos o nosso caminho lembrando que a opressão da Guiné Equatorial é a história escondida no Sambódromo, que o esquema de corrupção na Petrobrás se tornou sistemático e vertical no governo petista.

Dilma voltou mais magra e diz que seu segredo foi fechar a boca. Talvez fosse melhor levar a tática para o campo político. Melhor do que dizer bobagens, cometer atos falhos.

O último foi confessar que nunca deixou de esconder seus projetos para ampliar o Imposto de Renda. Na Dinamarca (COP 15), foi um pouco mais longe, afirmando que o meio ambiente é um grande obstáculo ao desenvolvimento.

O País oficial parece enlouquecer calmamente. É um pouco redundante lembrar todas as roubalheiras do governo. Além de terem roubado também o espaço usual de argumentação, você tem de criticar politicamente alguém que não é político, lembrar o papel de estadista a uma simples marionete de um partido e de um esquema de marketing.

O governo decidiu fugir para a frente. Olho em torno e vejo muitas pessoas que o apoiam assim mesmo. Chegam a admitir a roubalheira, mas preferem um governo de esquerda. A direita, argumentam, é roubalheira, mas com retrocesso social. Alguns dos que pensam assim são intelectuais. Nem vou discutir a tese, apenas registrar sua grande dose de conformismo e resignação.

Essa resignação vai tornando o País estranho e inquietante, muito diferente dos sonhos de redemocratização. O rei do carnaval carioca é um ditador da Guiné e temos de achar natural porque os bicheiros financiam algumas escolas de samba.

A tática de definir como hipocrisia uma expectativa sincera sobre as possibilidades do Brasil é uma forma de queimar esperanças. Algo como uma introjeção do preconceito colonial que nos condena a um papel secundário.

Não compartilho a euforia de Darcy Ribeiro com uma exuberante civilização tropical. Entre ela e o atual colapso dos valores que o PT nos propõe, certamente, existe um caminho a percorrer.

domingo, 12 de outubro de 2014

O tesoureiro do esquema - ISTO É


João Vaccari Neto, apontado pelo delator como o operador do PT na corrupção da Petrobras, também é acusado pelo MP de São Paulo de lesar uma cooperativa habitacional

Izabelle Torres (izabelle@istoe.com.br)
O secretário nacional de finanças do PT, João Vaccari Neto, é admirado pelos companheiros pela dedicação ao partido. Dizem que ele não mede esforços para cumprir as missões que recebe. Foram essas características de fidelidade e resignação partidárias que o levaram a substituir Delúbio Soares e a desempenhar o papel de tesoureiro informal das campanhas de Dilma Rousseff. Assim, passou a transitar facilmente entre empresários interessados em estreitar relações com o partido que comanda o País há 12 anos. Homem de confiança de José Dirceu, símbolo maior do mensalão, e do ministro das Relações Institucionais, Ricardo Berzoini, Vaccari é discreto, avesso a badalações e grandes eventos. Mas, segundo as revelações relacionadas ao escândalo da Petrobras, ele tem função destacada no submundo da política, onde atuaria há anos com grande desenvoltura – especialmente com a missão de abastecer o caixa 2 da legenda nas campanhas eleitorais. Na semana passada, o depoimento à Justiça do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa detalhou como o tesoureiro do Partido dos Trabalhadores agiu na divisão dos recursos desviados de contratos da Petrobras.
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HOMEM DE CONFIANÇA
Como Delúbio Soares, Vaccari é admirado pela
fidelidade aos amigos e ao partido
Segundo Costa, o PT tinha direito aos 2% dos contratos. As licitações da área de abastecimento seriam conduzidas pela diretoria de serviços, comandada por Renato Duque, indicado pelos petistas para o cargo e amigo de Vaccari. “Todas as licitações da área de abastecimento eram feitas na diretoria de serviços, que escolhe as empresas, coordena a comissão de licitação e faz o orçamento básico”, explicou. “Dentro da área de serviços, tinha o diretor Duque, que foi indicado na época pelo ministro da Casa Civil, José Dirceu. Ele tinha essa ligação com o Vaccari dentro desse processo do PT”, relatou Paulo Roberto. De acordo com o depoimento dado pelo ex-diretor, o PT recebia ainda mais das outras diretorias da estatal, que repassavam 3% dos contratos para o PT e ainda pagavam o PMDB e o PP. A cobrança da cota petista seria feita diretamente por Vaccari. Como fizeram todos os mensaleiros, ele nega tudo. Em nota, disse que nunca tratou sobre contribuições financeiras do partido, ou de qualquer outro assunto, com Paulo Roberto Costa. Reclama que não tem acesso ao processo e não consegue exercer o direito à ampla defesa. O secretário insiste ainda que as contribuições financeiras recebidas pelo PT são transparentes e realizadas sempre de acordo com a legislação em vigor.
Não é bem assim. O escândalo do mensalão mostrou que distribuir recursos para partidos da base aliada e, claro, para o próprio PT, não é uma novidade. Vaccari chegou a ser citado no auge das investigações do mensalão, que levou alguns dos seus companheiros mais próximos para a cadeia. Segundo o depoimento do corretor de fundos Lúcio Funaro, dado durante as investigações, em 2004 Vaccari o recebeu na sede da Bancoop – cooperativa de crédito habitacional que à época era presidida por ele – e explicou ao corretor interessado em fazer negócios nos fundos de pensão que era preciso pagar propina ao PT em qualquer contrato fechado. O depoimento consta no processo, mas Vaccari não chegou a ser indiciado porque o ex-ministro Joaquim Barbosa, relator do caso no Supremo Tribunal Federal, entendeu que não era a Bancoop que irrigava o mensalão.
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O PADRINHO
O ministro Ricardo Berzoini é um dos responsáveis
pelo prestígio de Vaccari no PT
Como já foi reportado por ISTOÉ, embora não tenha sido envolvida oficialmente na ação penal do mensalão, a cooperativa habitacional é investigada em outro processo, que apura a prática de corrupção durante a gestão de Vaccari. Segundo denúncia feita em 2007 pelo Ministério Público de São Paulo, desde 2002 a Bancoop lesou cerca de três mil mutuários e foi usada pelo PT para desvio de dinheiro para financiamento de campanhas eleitorais, especialmente a do ex-presidente Lula, em 2002. Os desvios eram feitos para empresas fantasmas em nome de laranjas do partido e depois distribuídos oficialmente para o PT. Tudo sob o comando de Vaccari. Como as operações deram resultado e o chefe da Bancoop tem respondido sozinho pelas denúncias, em 2010 Vaccari acabou recompensado pelos companheiros. Deixou a cooperativa para assumir o prestigiado cargo de tesoureiro da legenda. A denúncia do Ministério Público afirma que os desvios causaram um rombo de R$ 170 milhões e pede que os responsáveis paguem a conta com recursos do próprio bolso.
A ação penal protagonizada por Vaccari tramita até hoje na 5a Vara Criminal de São Paulo, ainda sem um desfecho. Em agosto deste ano, o julgamento foi retomado e a expectativa dos mutuários é de que o processo finalmente seja concluído nos próximos meses. De acordo com as acusações, o secretário de finanças do PT cometeu crimes em série, como formação de quadrilha, estelionato, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. A gestão do homem forte do partido na Bancoop também deixou para trás cerca de mil processos movidos por associados que alegam terem sido lesados pelas fraudes. Enquanto isso, nos bastidores, Vaccari segue firme e prestigiado dentro da legenda que ele ajuda a enriquecer. O problema para ele é que quando o processo da Petrobras chegar ao fim é possível que não seja mais um réu primário.
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DENÚNCIA
Em 11 de junho de 2008, ISTOÉ revelou o esquema de
João Vaccari e Ricardo Berzoini na Bancoop
Fotos: Rodrigo Dionísio/Frame; Adriano Machado/Ag. Istoé

domingo, 12 de janeiro de 2014

Na marca do pênalti - ILIMAR FRANCO


O GLOBO - 12/01

A maior ameaça ao PP no Ministério das Cidades não é o PMDB nem o PT. Mas sua candidata ao governo gaúcho, a senadora Ana Amélia. Ela é cortejada pela presidente Dilma, pelo tucano Aécio Neves e pelo socialista Eduardo Campos. O Planalto já mandou recado: o partido perderá a pasta caso ela abra seu palanque para a oposição. A neutralidade é o máximo tolerável.

Com a corda toda
O desgaste do governador Sérgio Cabral (RJ) vem sendo cantado em prosa e verso. Mas o PT, que terá candidato próprio, está preocupado com sua conduta na campanha. Um de seus dirigentes regionais afirmou que eles terão de “calibrar” o discurso crítico. “É estranho bater num governo do qual participamos desde o início”, comentou ele. O caso dos tucanos é ainda mais eloquente. O PSDB tem se recusado a embarcar na candidatura de Cesar Maia (DEM). E sonha com uma aliança com Cabral, candidato ao Senado. Os tucanos consideram eleitoralmente relevante ter a máquina do PMDB no governo estadual a serviço de seu candidato ao Planalto, Aécio Neves.

“A culpa não é do governo. O problema é que cada ministro acha que é o dono do mundo”
Eduardo Cunha Líder do PMDB na Câmara (RJ), sobre o descontentamento da base com a execução e liberação das emendas parlamentares ao Orçamento

Na carona
O presidente da Fifa, Joseph Blatter, quer aproveitar a presença da presidente Dilma na reunião de Davos, no final de janeiro, para se reunir com ela. Blatter encaminhou ao Itamaraty um pedido de audiência para tratar da Copa.

Na tela da TV
O governo brasileiro está preparando uma grande campanha internacional para vender a imagem do Brasil. O mote é a realização da Copa e depois das Olimpíadas. A APEX é patrocinadora da Copa e terá painéis em todos os estádios dos jogos.

Na linha de passe
Os petistas conseguiram detonar a ida de Ciro Gomes (PROS) para a Saúde. Mas o governador Cid Gomes (Ceará) está bem posicionado para a Educação, no caso de reeleição. A presidente Dilma não se cansa de elogiar a gestão de seu governo para a área. Com ênfase para o programa de alfabetização de crianças até os oito anos.

Intriga na rede
A repercussão do artigo publicado na página do PT no Facebook desancando o governador Eduardo Campos (PSB) virou uma arma na disputa interna para comandar a campanha na internet pela reeleição da presidente Dilma.

Em causa própria
A ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) virou alvo dos petistas que querem derrubá-la. Na liberação de créditos extras, ela levou para Santa Catarina R$ 30,5 milhões de Cidades; R$ 61,3 milhões do Turismo; e mais R$ 6,2 milhões da Agricultura.

O MINISTRO Antônio Andrade (Agricultura) é quem o PT quer para vice de Fernando Pimentel. Perdeu a preferência o senador Clésio Andrade (PMDB).

sábado, 4 de janeiro de 2014

Aeroportos regionais - EDITORIAL O ESTADÃO


O ESTADO DE S. PAULO - 04/01
Numa, bravata para impressionar investidores menos avisados, a presidente Dilma Rousseff, ao falar a uma plateia de empresários no seminário Brasil-França, Oportunidades de Investimento, realizado em Paris em dezembro de 2012, afirmou que pretendia construir 800 aeroportos regionais no País. Caindo das nuvens, a presidente não demorou a baixar o número para 270 aeroportos, que seriam construídos, reformados e modernizados, de acordo com um plano orçado em R$ 7,3 bilhões. O plano desafiava o bom senso, mas, mesmo assim, uma medida provisória (MP) foi enviada ao Congresso Nacional, convertida em lei em junho de 2013, prometendo revolucionar a aviação regional. Findo o ano, nenhum dos projetos de aviação regional saiu do papel. Todos ficaram para 2014, prometendo a Secretaria de Aviação Civil (SAC) que os primeiros editais serão publicados ainda no primeiro semestre - acredite quem quiser!
A SAC nem mesmo identificou as necessidades de investimentos dos campos de aviação planejados, e mais de 60% deles não recebem voos regulares. Para adaptá-los a voos comerciais, são necessários levantamentos aerofotogramétricos locais, análise de impacto ambiental e - só depois dessas etapas - a elaboração dos projetos de engenharia. O custo disso é estimado em R$ 292 milhões.

A SAC justifica-se dizendo que seis meses foram de trabalho no Congresso até a aprovação da MP. Concluída essa etapa, a Secretaria contratou o Banco do Brasil (BB) como gestor financeiro. O BB dividiu os 270 aeroportos em quatro lotes e abriu 25 licitações para a contratação de empresas para execução de projetos de engenharia.

Até o momento, 16 contratos foram assinados, não alcançando 6% do total. E não se sabe quando os estudos serão concluídos, dada a complexidade das questões técnicas e das negociações com Estados e municípios, que administram a maioria (229) dos aeroportos a serem adaptados. Sob a administração da Infraero são apenas 29. Nos 12 municípios restantes, não existe ao menos uma pista para aviões em condições de segurança, tendo tudo de começar praticamente do zero.

Os estudos técnicos e todo o planejamento, até agora, têm sido "um trabalho extenuante de bastidores", como afirma Paulo De Lanna Barroso, assessor do ministro Moreira Franco. O problema é que os atrasos se refletem nas condições cada vez mais precárias em que se encontram os aeroportos do interior já servidos por companhias aéreas e que têm experimentado um "boom", tanto no número de passageiros transportados como no volume de operações.

Levantamento do Estadão Dados mostrou que, nos últimos 12 anos, dos 21 aeroportos de médio e de grande portes que mais registraram aumento do número de conexões, nenhum está localizado em capital de Estado. Segundo a própria Anac, as empresas aéreas têm aumentado o uso de tais aeroportos para diminuir o afluxo de passageiros aos grandes centros e consequentes atrasos nas principais rotas aéreas do País.

Esses aeroportos já muito movimentados exigem investimentos urgentes e para eles não seria necessária a concessão de subsídios como o governo cogita em fazer para estimular o uso de campos de aviação que hoje só funcionam para atender à demanda de aviões executivos. Do lado das companhias aéreas, a melhoria dos aeroportos é condição necessária para elevar a oferta de voos para o interior, mas não suficiente, como disse Adalberto Febeliano, consultor da Associação Brasileira de Empresas Aéreas (Abear). É preciso, é claro, que exista demanda regular, como já se verifica em cidades em que empresas têm realizado investimentos de vulto ou naquelas ligadas à exploração de petróleo e gás.

Contudo, não se tem notícia de que a SAC tenha estabelecido uma escala de prioridades para tocar um programa tão vasto e com tantas particularidades. O programa dos 270 aeroportos do interior hoje não passa de uma enrascada a mais em que se meteu o governo.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

A geografia da criminalidade - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 01/01/14

Com a redistribuição da renda nacional e da atividade econômica, ocorrida no período de 2000 a 2010, mudou também a geografia da criminalidade no País, levando a violência urbana a migrar do Sudeste para as Regiões Norte e Nordeste. Essa é uma das conclusões de um estudo do diretor de Estado, Instituições e Democracia do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o economista Daniel Ricardo de Castro Cerqueira, cuja tese de doutorado sobre as causas e as consequências do crime no Brasil foi vencedora da última edição do Prêmio BNDES de Economia. O trabalho foi elaborado com base na análise das estatísticas do Ministério da Saúde.

Segundo o estudo, Estados que historicamente lideravam as estatísticas de homicídios, como São Paulo e Rio de Janeiro, registraram na década de 2000 queda de 66,6% e de 35,4% no número de assassinatos por 100 mil habitantes, respectivamente. Já o índice de homicídios cresceu 339,5% no Estado da Bahia, no mesmo período. No Estado do Maranhão, o aumento foi de 373%. Na Região Norte, o Estado do Pará registrou uma elevação de 258,4%.

Além da migração da violência de Estados mais ricos para áreas mais pobres dos Estados menos desenvolvidos, o estudo do diretor do Ipea aponta a tendência de interiorização da violência, com quedas em mortes nas capitais e elevação em municípios menores. O ranking das cidades com maior número de assassinatos é liderado por Simões Filho, uma cidade de 130 mil habitantes, vizinha a Salvador, e Ananindeua, situada na região metropolitana de Belém.

O estudo mostra ainda que as taxas de homicídios nos municípios considerados pequenos pelo Ipea - com menos de 100 mil habitantes - tiveram um crescimento médio de 52,2%, entre 2000 e 2010. Já as cidades consideradas grandes - com mais de 500 mil habitantes - registraram uma queda de 26,9% no mesmo período. Nas cidades de porte médio - com população entre 100 mil e 500 mil habitantes - a taxa de homicídios aumentou 7,6%. Entre as 20 cidades com maior índice de mortes violentas, 10 são pequenas, 9 são de porte médio e apenas 1 - Maceió, na sexta posição - é considerada grande.

As mudanças na geografia da criminalidade, ocorridas no decorrer da década de 2000, foram provocadas por diversos fatores - alguns de alcance nacional e outros com especificidade regional. Entre os fatores de alcance global, o estudo destaca o impacto do I Plano Nacional de Segurança, que aumentou o repasse de verbas da União para a expansão do sistema prisional federal e estadual, e do Estatuto do Desarmamento, que entrou em vigor em 2003. Também ressalta as mudanças ocorridas no mercado de drogas, que acompanhou a expansão econômica das cidades situadas fora dos eixos metropolitanos. "Essas localidades passaram a se tornar mais atrativas para o tráfico porque, com mais renda, o consumo de drogas tende a aumentar. Esse mercado ilegal é acompanhado da violência. O crescimento fica comprovado com o aumento no número de mortes por overdose em oito vezes no País, no período de 2000 a 2010", afirma Daniel Cerqueira.

Entre os fatores de caráter local e regional, o estudo do Ipea destaca a associação entre crescimento econômico e atividades criminosas em áreas de fronteira, desmatamento e extração ilegal de madeira. Destaca, igualmente, a formulação de novos padrões de política pública em matéria de segurança e assistência social, como a instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) nas favelas dominadas pelo narcotráfico na cidade do Rio de Janeiro, a partir de 2008, e a estratégia adotada pelo Estado de São Paulo, que intensificou operações e investigações com base na expansão dos serviços de inteligência e na utilização de estatísticas para planejar as ações preventivas e repressivas das Polícias Civil e Militar.

O estudo do Ipea fornece informações valiosas, mostrando como a combinação entre mais eficiência dos órgãos policiais com melhoria de serviços públicos pode ser decisiva para a redução da violência.

Pessimismo de um otimista - HÉLIO SCHWARTSMAN


FOLHA DE SP - 01/01/14

SÃO PAULO - Analisando friamente, eu me classifico como um otimista incorrigível. Sou daqueles que acham que, do Pleistoceno para cá, a vida das pessoas melhorou quase infinitamente. Mesmo no horizonte mais curto dos milênios e séculos, penso que o progresso tem sido notável. Descobrimos uma série de coisas úteis, como agricultura, especialização do trabalho, dinheiro, uso de fontes de energia, antibióticos, vacinas, que nos fizeram viver mais e com maior opulência.

Assim, não creio que seja por flertar de forma contumaz com o pessimismo que digo que o Brasil está perdendo mais um bonde da história. Essa minha constatação, infelizmente, tem amparo na realidade.

Sob o governo de Dilma Rousseff, o PIB brasileiro vem crescendo por volta de 2% ao ano em média. É bem menos que os 4,05% de Lula e não supera os 2,31% de FHC (que o PT sempre pintou como medíocres). As cifras de Dilma, portanto, embora longe de brilhantes, não chegam a ser desesperadoras --ao menos não quando analisadas isoladamente.

O problema é que o Brasil está desperdiçando seu bônus demográfico, o período em que o contingente de pessoas em idade de trabalhar é maior que as coortes de dependentes (jovens e idosos). É nessa fase que países reúnem as condições mais propícias ao crescimento.

Nosso bônus demográfico teve início nos anos 70 e estamos chegando perto de seu apogeu. A situação deve permanecer favorável mais ou menos até 2030 e, a partir de 2043, a população começará a declinar.

Se não aproveitarmos a janela auspiciosa dos próximos anos para tornar o Brasil um país relativamente rico, será bem mais difícil fazê-lo depois, quando a população de idosos estará crescendo rapidamente, o que implicará mais gastos com aposentadorias e o sistema de saúde. E os 2% anuais de crescimento entregues até aqui ficam muito aquém de colocar o Brasil numa posição confortável.

Educar para não punir - FERNANDO FRAGOSO


O GLOBO - 01/01/14
Valores éticos e honestidade precisam ser transmitidos de forma hereditária

Os casos de corrupção e violência, seguidos de impunidade, levam a população a acreditar em uma ideologia punitiva perigosa. Sem avaliar as consequências dessas medidas, a sociedade clama pelo aumento de penas criminais, a conversão de crimes em hediondos e a imposição do regime fechado, mesmo para infrações mais brandas, como se a cadeia fosse a solução para todos os problemas ou instrumento de vingança social. Pressionados pela opinião pública, nossos representantes no Legislativo estão moldando o Código Penal ao punitivismo excessivo e pouco ou nada educativo. Uma inversão de valores em relação aos papéis do Estado e do Judiciário.

É preciso entender, acima de tudo, que a lei tem o papel de garantir prerrogativas fundamentais de cada indivíduo, mantendo a ordem e o bem-estar coletivo. Não se pode esperar dela função alguma de corrigir e superar deficiências provocadas pela desigualdade social, pela ausência de oportunidades e pela falta de sistemas adequados de assistência humana, acesso à cultura e à educação, todas estas de responsabilidade do poder público. Nenhum destes valores e bens se adquire por lei, mas sim e apenas por políticas públicas engajadas e duradouras, como um verdadeiro e inalienável fim do Estado.

Se investirmos em um sistema social capaz de educar as crianças com cidadania e valores, além de oferecer às famílias acesso à saúde, à cultura, educando-as para ter os filhos que consigam preparar para o exercício da cidadania, serão mínimas as chances de que se tornem infratores. O termo marginal quer justamente significar que o cidadão está à margem da sociedade, sem acesso aos direitos que ela precisa lhe garantir. Devemos ter consciência de que punir custa mais do que educar e que a inclusão social é a única via de desenvolver uma sociedade justa.

Não faz muito tempo, noticiou-se que o governo federal dispende cerca de R$ 40 mil ao ano por cada presidiário, três vezes mais do que aplicava por um estudante universitário. Segundo o Departamento Penitenciário Nacional (Depen), o Brasil tem cerca de 500 mil presos, a quarta maior População carcerária do mundo. Como esse número é crescente, o país enfrenta grande demanda por presídios. Mesmo as penitenciárias disponíveis não têm estrutura para ressocializar os internos, permitindo que regressem ao mundo do crime e não justificando os recursos nelas investidos. Não há qualquer política de reinserção do egresso que nada mais deve pelo crime cometido. A ele resta reincidir!

A Reforma do Judiciário não garante a segurança pública. Não podemos advogar mais pessoas presas, e sim propiciar os meios para que todos entendam que é melhor agir dentro da lei. Precisamos construir uma sociedade na qual a honestidade e os valores éticos sejam transmitidos de forma hereditária. Que as estruturas familiares sejam incentivadas, para que os filhos recebam bons exemplos. Que a miséria seja eficientemente contornada, e os brasileiros acreditem na possibilidade de restaurarmos a paz social, para a qual a lei penal nada tem a contribuir.

Dias de cão no jardim das ilusões de Dilma - JOSÉ NÊUMANNE


O Estado de S.Paulo - 01/01/14

Sempre que se fala em Glauber Rocha a tendência é relembrar obras-primas do cinema nacional que dirigiu, como Deus e o Diabo na Terra do Sol, principalmente, e Terra em Transe, primoroso registro cinematográfico do subdesenvolvimento político nacional. Embora o documentário Maranhão 66 já circule há muito tempo no YouTube, poucos telespectadores o destacarão para o panteão em que figuram os dois grandes filmes citados. Afinal, trata-se de trabalho encomendado e pago e, portanto, suspeito de ser o registro hagiográfico de um político que sobreviveu ao cineasta e ainda atua com força e poder na gestão pública do seu Estado, onde seu clã reina até hoje, com raros interregnos insignificantes, e também na cena federal.

No entanto, Maranhão 66 é uma obra que só melhora com o tempo, sem ter sido necessária uma única mudança ou intervenção de seu diretor, o que seria impossível tanto tempo após sua morte precoce. Como é possível esse absurdo? Procure o filme e veja. O que assistirá é ao discurso competente, bem alinhavado e de certa forma barroco do jovem deputado federal do grupo rebelde da chamada banda de música da UDN nos anos 60 José Sarney assumindo o governo do Maranhão. As imagens acompanham, de início, o povo na praça ouvindo o eloquente tribuno e, depois, fazem um mergulho profundo num abismo de miséria e sordidez que confirma as palavras ditas na praça denunciando a barbárie vivida por aquela gente sob o jugo do padrinho e, depois, principal adversário do novo governador, o pessedista Vitorino Freire. E, coerente com as ancestrais utopias políticas nordestinas, prometendo uma era de paz, bonança e prosperidade, similar às profecias de peregrinos como Antônio Conselheiro, protagonista do massacre de Canudos. Hoje, quase meio século depois, a miséria é a mesma, o discurso é igual e o filme de Glauber, que parecia laudatório, torna-se uma denúncia política coerente e forte.

Já não se fazem documentários em p&b como antigamente e talentos como Glauber não existem mais. No entanto, o contraste brutal entre a retórica salvacionista e a horrenda realidade do subdesenvolvimento real manifesta-se de forma mais crua no cotidiano de informações e entretenimento da televisão colorida do dia a dia.

Ao começar o último fim de semana do ano passado, os telejornais diários exibiram de forma franca a atualidade ululante do documentário de Glauber no Maranhão de 1966. Câmeras e microfones registraram o drama de uma jovem mãe com seu bebê nos braços em peregrinação pelos hospitais públicos de sua cidade para encontrar um pediatra para consultar. Ela não estava no Vale do Jequitinhonha nem no sertão do Piauí, mas em plena capital da República e seus arredores. A criança não foi examinada, mas o secretário da Saúde do governo distrital, sob comando petista, não teve pejo de registrar a ausência de pediatras em sua jurisdição e terminou com a promessa de hábito: em março serão contratados novos profissionais. A pobre mãe e seu bebê que os esperem.

Domingo, à noite, em horário nobre, com discurso dessemelhante ao de seu aliado Sarney pelo estilo, mas bastante similar pelo afastamento da realidade, a presidente Dilma Rousseff descreveu e deu números positivos sobre o que seu governo tem feito pela saúde de pobres mães e bebês como aqueles. Vieram médicos de Cuba e eles estão garantindo o atendimento nos ermos do sertão brasileiro.

Por falar em sertão, os telejornais também noticiaram a falta de água em Itapipoca, no interior do Ceará, porque uma adutora, que custou R$ 16 milhões ao contribuinte, se rompeu e a construtora que vencera a concorrência para construí-la faliu. Ninguém responde pela obra inconclusa: os falidos sumiram e os que retomaram a obra nada têm a dizer. O governador Cid Gomes - que rompeu com o chefão de seu partido (PSB), Eduardo Campos, governador de Pernambuco, para ficar no palanque da presidente petista - tentou resolver o problema mergulhando num tanque buscando fechar um registro e evitar que a água vazasse. Enquanto isso, a população da cidade não tem água para lavar, cozinhar ou matar a sede de nenhum vivente.

Mas no Paraíso na Terra descrito por Dilma no domingo seguinte o País vive uma prosperidade não só inédita na própria História, como singular num planeta afundado em crise. E o único risco é provocado pela canalha oposicionista que maldiz a própria terra criando empecilhos para investimentos e prejudicando, assim, o pobre povo brasileiro. No discurso da presidente, de 15 minutos recheados de deselegantes gerúndios sem dês (estou fazeno, estou realizano, e por aí afora), os anjos dizem-lhe sempre amém, mas o diabo corre atrás para demolir sua fantástica obra de governo.

Só que no Maranhão governado por Roseana Sarney ainda resta um exemplo de que o endereço de nosso inferno é o mesmo do Éden de Dilma, embora o baiano Patinhas, que escreve seus discursos, não saiba. Na Penitenciária de Pedrinhas, em São Luís, os chefões do crime organizado, que à ausência de autoridade mandam e desmandam, matam com métodos cruéis presos desassistidos pelo Estado cujas mulheres, irmãs e mães se neguem a lhes prestar favores sexuais. O Conselho Nacional de Justiça já contou 60 cadáveres e a Organização dos Estados Americanos cobrou reação imediata dos governos do Estado e da União. Ninguém apareceu para responder. O ofício foi para o Ministério da Justiça, o causídico Cardozo negou ser assunto dele e o reencaminhou para a Secretaria dos Direitos Humanos, cuja titular, Maria do Rosário, mandou de volta para o destinatário original. "Não é comigo" é o jeito gerentão com que Dilma modernizou o "não vi, não ouvi, não falei" do padim Lula de Caetés.

Infelizmente, contudo, ninguém encontrou nos longos e tediosos votos presidenciais de boas-festas uma só referência à segurança do bem-aventurado cidadão do Brasil sob a égide do PT e do PMDB. A vida de seu súdito não é da conta dela, nunca foi, nunca será. Vade retro! E amém nós tudo.

Um ano fraco - CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 01/01/14

A partir das manifestações de junho, a presidente Dilma e seus ministros trataram de injetar doses diárias maciças de otimismo na economia, destinadas a contrapor ao que entenderam como campanha de pessimismo disseminada por analistas da economia, a tal "guerra psicológica", que "instila desconfianças" e "inibe investimentos", a que se referiu a presidente em sua mensagem de fim de ano no rádio e na TV.

No entanto, essa grande operação destinada a mudar corações e mentes não foi capaz de inverter os resultados insatisfatórios, especialmente o resumo de tudo: a repetição de um avanço pífio do PIB, desta vez algo em torno dos 2,2% em 12 meses, conjugado com inflação muito alta, perto dos 6,0% ao ano, e necessidade de juros básicos (Selic) de 10,0% ao ano, um pouco acima dos 4,0% reais (descontada a inflação), para tentar segurar a alta de preços.

Insistir em que foi a crise global que impediu a entrega de resultados melhores é ignorar que, entre os principais países emergentes, esses números fracos só foram registrados no Brasil, embora a crise fosse comum a todos.

A principal decisão de política econômica do governo Dilma foi turbinar o consumo. Para isso, derrubou os juros a perto de 2% em termos reais (descontada a inflação), acionou o crédito, que até agosto cresceu em torno de 15% ao ano, e deixou que as despesas públicas corressem soltas.

Logo depois da virada do ano, o Banco Central advertia que teria de reduzir a ração de moeda da economia e puxar os juros básicos para cima. Mesmo assim, o governo Dilma, aparentemente contrariado pelo endurecimento do Banco Central, insistia em que a alta de preços não tinha propriamente causas monetárias, caracterizadas por volume excessivo de moeda na economia que devesse ser tratada com aumento dos juros, mas não passava de consequência de fatores sazonais ou de choques de oferta produzidos fora do Brasil.

Afora isso, persistiu dentro do governo o antigo entendimento proveniente de um keynesianismo mal assimilado, de que, em países emergentes, não há crescimento possível sem seu preço em inflação.

Não foi o discurso do Banco Central, que vinha repetindo que sem controle da inflação não há crescimento sustentável; foram as manifestações de junho que convenceram o governo a combater mais seriamente a escalada dos preços. Se nada fosse feito, a reação das classes médias viria a galope e tirariam o chão do governo, como quase aconteceu.

De lá para cá, embora tardiamente, algo mudou. A turma do cofre não foi mais autorizada a praticar contorcionismos contábeis e o ministro da Fazenda anunciou que as desonerações tributárias e as concessões de subsídios temporários tinham acabado; e, depois de ter passado os dois primeiros anos condenando a privatização de serviços públicos, o governo intensificou as concessões. Ficou reconhecido que não basta ativar o consumo; é preciso cuidar da oferta de bens e serviços e da modernização da infraestrutura.

Mas o governo avançou apenas um pedaço do caminho. Graves distorções mantêm a inflação muito próxima dos 6% ao ano. Uma dessas distorções, comentada aqui dia 21, é o enorme desalinhamento entre preços administrados (que dependem de autorização para reajustes) e preços livres. Enquanto a inflação de 2013 acumulada até novembro chegou a 4,95%, a variação dos preços administrados não passou de 0,9%. Ou seja, o governo continuou a represar preços à custa do caixa da Petrobrás, da Eletrobrás e de outras instituições. Aparentemente, não tem outra saída senão corrigi-los em ano eleitoral.

A disposição de conter as despesas públicas também ficou a meio caminho. Falta uma política de estímulo à poupança e ao investimento e as reformas urgentes também foram adiadas.

Essas são as razões pelas quais 2014 começa projetando os mesmos resultados insatisfatórios dos dois anos anteriores; crescimento merreca do PIB, inflação nas vizinhanças dos 6% ao ano e um rombo de 3% do PIB nas contas externas (contas correntes).

Contabilidade criatriva: Tarso assume déficit "responsável" no RS

Transcrito do Blog do Polibio Braga

terça-feira, 31 de dezembro de 2013


“Fizemos o que chamo de déficit responsável, como é o caso desse dinheiro da CEEE. O País teve um crescimento baixo, mas o Estado se saiu bem, tanto na agricultura quanto na indústria. Temos planejamento, mas contamos com a renegociação da dívida com a União, projeto do qual eu estive à frente.” Tarso Genro, governador.


“Temos uma dívida infinita e impagável. Com o projeto que apresentamos, teremos uma dívida finita e pagável.” Também Tarso Genro.

- Tudo o que está acima reflete declarações irresponsáveis do governador Tarso Genro, que em apenas três anos de governo produziu rombos impagáveis nas contas públicas, usando de medidas voluntaristas, demagógicas, desastrosas e perdulárias. 

CLIQUE AQUI para ler o artigo do economista Darcy Francisco Carvalho dos Santos, "Rumo à ingovernabilidade".

domingo, 29 de dezembro de 2013

Dilma no Paraíso: Aratu, descanso, "perus" e "pepinos"


Vitor Hugo Soares
No melhor sotaque soteropolitano, a bem informada coluna política Raio Laser, da Tribuna da Bahia, edição de quinta-feira 26, comunica (a quem interessar possa, horas antes da presidente desembarcar na Bahia, para férias de fim de ano, na Base Naval de Aratu): "Dilma não quer "peru", na área".
Leio o aviso incomum, ao tempo em que sigo a movimentação da chegada de Dilma, acompanhada de familiares, para mais uma temporada no "paraíso baiano dos presidentes" – como é chamada Aratu com a sua cinematográfica praia privativa e de Inema, que hospeda a visitante.
É tempo de pré-campanha – eleições das grandes e das boas à vista - , no ano que está chegando. O grande terreiro da Bahia e do Nordeste anda em polvorosa, à beira de um ataque de nervos. Afinal, falamos do território onde se crê, a disputa presidencial travará uma de suas batalhas decisivas em 2014.
Tudo é motivo de desconfianças e arrelias. Principalmente, para muita gente que gosta ou se dedica e entender ou interpretar signos da política e do poder.
A nota sugere, com bom humor e ardência de pimenta malagueta, que o aviso dá motivos a várias "leituras" e pode alcançar inúmeros destinatários. Mas tem um endereço especial e direto: os ouvidos de petistas que se escalavam, afoita e precipitadamente, para visitar a presidente e companheira de partido em sua temporada de descanso.
Temporada iniciada nesta última semana de 2013 e que, pelo previsto, deverá prolongar-se até 5 ou 6 de janeiro de 2014, já sob o domínio do imprevisível ano da Copa do Mundo, e das eleições presidenciais no País. Também de agitadas campanhas de sucessão, nos governos estaduais, e renovação de um terço das vagas do Senado.
Mas isso é futuro ainda a ser desvendado pelo tempo, senhor da razão.
Por enquanto, quando Dilma sonha com descanso no éden da Baia de Aratu - de mar sereno, areias cristalinas da praia com seus flamboyants em flor, lindos pedaços da Mata Atlântica salvos da devastação geral – 2013 segue vivíssimo. E ainda aprontando das suas, ou fazendo estragos. Exemplos?
Às vésperas da presidente aportar na Bahia, um navio de bandeira internacional pegou fogo no terminal de petroquímicos do Porto de Aratu, bem perto da área de segurança máxima que hospeda Dilma.
O óleo vazou e resíduos contaminaram áreas das baias de Aratu e de Todos os Santos, causando prejuízos e protestos da população do subúrbio de Salvador. Principalmente dos pescadores e marisqueiros que trabalham e ganham seu sustento no mar.
Equipes técnicas, entre protestos de líderes e associações das categorias mais atingidas, atuam ativamente, desde então, na tentativa de conter a expansão da sujeira resultante do desastre. O navio foi retirado às pressas do porto e levado para um estaleiro, horas antes de Dilma baixar a bagagem na área da Base Naval. O óleo derramado, porém, teima em furar as barreiras de contenção e se espalha preocupantemente por lindos recantos de pesca e lazer de localidades do Recôncavo.
Além disso, mal a presidente iniciou suas "férias de fim de ano", na quinta-feira, já precisou voltar às pressas ao aeroporto de Salvador. Viajou ontem (27), logo cedo, para sobrevoar áreas do desastre causado pelas chuvas em Minas Gerais, e se reunir, emergencialmente, com prefeitos e autoridades públicas, em Governador Valadares, uma das áreas devastadas. Em Minas e Espírito Santos, os levantamentos, quando escrevo estas linhas, registram quase 50 mortos e cerca de 60 mil pessoas ao desabrigo. E faltam ainda cinco dias para 2013 acabar.
Como se não bastasse, tem ainda os "pepinos" políticos para a presidente petista, candidata à reeleição, descascar. Um deles caiu nas mãos de Dilma, quando ela ainda estava em pleno vôo de Brasília para o descanso em Aratu.
Incomodado com as críticas e gozações de petistas que, às escondidas, duvidavam da intenção do líder principal do PMDB baiano, de largar o governo Dilma, Geddel aplicou golpe surpreendente de mestre em termos de holofotes. Via Twitter, com repercussão nacional, o ex-ministro de Lula cobrou "por amor de Deus", o despacho presidencial ao seu pedido de exoneração, do cargo de direção que detinha na Caixa, entregue desde setembro.
Apanhada de "surpresa", a presidente prometeu, ontem mesmo, que o pedido de exoneração de Geddel, um dos nomes oposicionistas mais cotados, entre os prováveis candidatos à sucessão do petista Wagner, será publicado na edição deste sábado, 28, do Diário Oficial da União. Mais baiano (e desconcertante), impossível!
Para terminar, estamos de volta aos "perus" do comentário na coluna da TB, que assinala: "Como para bom entendedor meia palavra basta, todos sabem que só o governador Jaques Wagner (PT), terá trânsito livre à Base Naval de Aratu, no período em que Dilma tentará descansar na Bahia, como já fez outras vezes, seguindo o exemplo dos ex-presidentes Lula e Fernando Henrique Cardoso, que escolheram o mesmo local para passar o Reveillon. Só que com Dilma o piano toca menos desafinado, em relação a convidados, do que nos governos anteriores”. A conferir.
Ontem, entrevistado por Mário Kertész, em programa na Rádio Metrópole, o secretário estadual Rui Costa, chefe da Casa Civil ungido por Wagner, e empurrado pela garganta de petistas e aliados de outros partidos, como candidato oficial à sua sucessão, foi perguntado se pretende dar um aperto de mão na presidente, companheira de partido, durante sua estada em Aratu. "Não sei, Wagner é quem sabe", respondeu o candidato, que se arrasta na lanterna das pesquisas para o governo da Bahia.
Boas festas e feliz Ano Novo para todos!

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br