quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Cláusula que proíbe alienação de imóveis de programas sociais não é abusiva


ASIDE

A Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) garantiu à Caixa Econômica Federal (CEF) a reintegração na posse de um imóvel arrendado pelas regras do Programa de Arrendamento Residencial (PAR) e que havia sido alienado a terceiros.
A CEF, agente executor do PAR, arrendou um apartamento e transferiu sua posse direta aos arrendatários, que deveriam utilizá-lo exclusivamente como residência própria. Cláusulas do contrato vedavam qualquer disponibilização do imóvel, fosse de forma onerosa ou gratuita, sob pena de rescisão.
Ao tomar conhecimento de que o imóvel havia sido alienado, a CEF ajuizou ação possessória para a reintegração de posse. A sentença, confirmada no acórdão de apelação, julgou o pedido procedente.
Função social
O entendimento da primeira e segunda instâncias foi de que, sendo o PAR um programa social de política habitacional para a população de baixa renda, a alienação seria um desvirtuamento dos seus objetivos sociais, haja vista que tais imóveis não podem entrar para o mercado imobiliário.
De acordo com a sentença, “as cláusulas que estabelecem a resolução do contrato são instrumentos indispensáveis ao sucesso do PAR, porque coíbem a fraude. A contrapartida financeira para a aquisição de moradia por meio do PAR é extremamente benéfica ao arrendatário, por isso as condições para se manter no programa são e devem ser rigorosas, em obediência à proporcionalidade e à razoabilidade”.
No STJ, o arrendatário alegou ser abusiva a cláusula que determina a rescisão do contrato na hipótese de cessão ou transferência de direitos decorrentes da pactuação. Para ele, como a cessão da unidade foi destinada a pessoa de baixa renda, a alienação não desvirtuou os objetivos do programa e deveria ser reconhecida como legal.
Amparo legal
O relator do recurso, ministro Villas Bôas Cueva, negou provimento ao pedido. Segundo ele, a Lei 10.188/01, que instituiu o PAR, é expressa ao determinar que o contrato de compra e venda referente ao imóvel objeto de arrendamento, ainda que o pagamento seja feito à vista, “contemplará cláusula impeditiva de o adquirente, no prazo de 24 meses, vender, prometer vender ou ceder seus direitos sobre o imóvel alienado” (artigo 8º, parágrafo 1º).
“Essas exigências, além de propiciarem a viabilidade do PAR – observando-se o equilíbrio econômico-financeiro do contrato, de forma a permitir a continuidade do programa –, também visam a coibir o arrendamento do imóvel para moradia de pessoa diversa do beneficiado pelo programa e a mercancia imobiliária, que configuram verdadeira burla ao sistema de habitação popular”, disse o ministro.
“Não há como considerar ilegais as cláusulas que estabelecem a resolução contratual na hipótese de transferência ou cessão de direitos decorrentes do contrato de arrendamento residencial no âmbito do PAR, pois encontram amparo na legislação específica que regula a matéria, bem como se alinham aos princípios e à finalidade que dela se extraem”, concluiu.
Fonte: STJ

DA ARRISCADA E DELICIOSA ARTE DE PROVOCAR UM CRETINO






Da arriscada e deliciosa arte de provocar um cretino


Um dia, desses dias definitivos na vida de toda gente, um homem ordinário olhou para os lados e se viu cercado de idiotas. Era isso. Estavam explicados a sua insônia, sua falta de apetite, sua impotência sexual, sua raiva do mundo, sua apatia no trabalho. Ele acabara de descobrir a causa de suas mazelas. O mundo lhe fazia mal porque estava povoado de imbecis. Pronto. Essa era a sua doença, ele estava diagnosticado! Agora só faltava iniciar um tratamento radical: daquele dia em diante, o homem dedicou seu tempo a catalogar e punir os patetas que encontrasse vida afora.
Começou com os estúpidos da empresa em que trabalhava, os arrogantes que supervalorizam assuntos mínimos em reuniões intermináveis para mostrar eficiência e esconder sua escandalosa barbeiragem. Seu ataque era simples e impecável: antes de uma reunião, ele consumia toda sorte de alimentos que lhe provocassem gases intestinais. Leite, paçoca, empadinha, café melado, canjica e abacate, muito abacate.
Sentava-se ao lado de sua vítima e, tão logo a ladainha pedante começasse, abria os portões de seu purgatório interior e transformava aquele ambiente de vidro e mármore numa câmara de tortura, ventarolando suas entranhas francamente entre seus colegas. E nunca mais uma reunião ultrapassou o tempo necessário para resolver o essencial.
Depois, saiu às ruas em busca de toda sorte de patifes fazendo das suas. Encontrou de tudo. Homofóbicos posando de moralistas, preconceituosos pregando verdades absolutas, vigaristas, machões de todos os sexos, espertinhos furando fila, subornando guardas de trânsito e reclamando de políticos corruptos. E o trabalho estava só no começo. A cada idiota, ele dava um tipo diverso de castigo.
Para as pessoas que insistiam em conversar no cinema durante o filme inteiro, essas que obrigam os desconhecidos da sala a participar da desgraça de sua existência, ele tinha uma punição especial. Sentava duas fileiras atrás e passava o tempo todo atirando amendoins em suas cabeças duras. Até fazê-las calar ou expulsá-las silenciosamente do lugar.
Aos bobalhões com carteira de habilitação ele dedicou uma represália sutil e audaciosa. Mal avistava um parvo acelerando com violência seu veículo em busca de atenção, como uma foca pedindo sardinhas, “vejam, eu tenho um carro e o motor faz barulho!”, ele parava na calçada em frente à faixa de pedestres, esperava a hora certa, estendia a mão e atravessava a rua caminhando devagar na frente do sujeito apressado, obrigando-o a frear bruscamente sua máquina e seu ímpeto raivoso de quem avança contra homens e mulheres e crianças e velhinhos e ciclistas, buzina em frente a hospital, passa no sinal vermelho, atropela e foge. Idiotas, idiotinhas e idiotões em motos e carros e carrões de todos os portes. O motorista surpreendido demonstrava sua ira acelerando mais forte, a pressão cardíaca ia às tampas, e o herói ordinário sorria satisfeito e vitorioso em sua empreitada.
Por vezes, ele quase fora atropelado, mas esse era um risco necessário em sua missão. Sabia o que estava fazendo. A arte de provocar um idiota consistia justamente em não se deixar atingir por seus ataques. Se havia de cutucar a onça, escolhia uma vara bem longa e se posicionava em canto seguro para fora da jaula.
E os mentecaptos perdidos de amor cego por si mesmos, então? Ah… esses sempre mereceram sua predileção. Porque nunca se tratava de mero amor próprio, autoestima elevada e essas coisas. Não. Para ele, era sempre um caso de polícia o sujeito que se adora acima de todas as coisas e passa o tempo todo falando de si mesmo, exaltando suas façanhas, enumerando em listas intermináveis as pessoas que o amam e admiram e o querem perto.
É, talvez fossem apenas seres inseguros mitigando a secreta certeza de sua miséria pessoal, mas isso não os faz menos panacas. Esses mereciam uma sanção exemplar. Ao avistar um deles, o homem ordinário enchia a boca de saliva, chegava bem perto e lhes dirigia uma série de gentilezas com as letras f e s, desaguando-lhe na cara uma chuvarada sutil de bombinhas de cuspe, uma saraivada de verdades incômodas. Depois desaparecia no mundo, sorrindo satisfeito.
Os canalhas estão em toda parte, pensava o homem contente com seu empenho. Havia muito o que fazer, esse trabalho era dele e um dia o mundo reconheceria a importância de sua missão. Alguém finalmente resolvera se lançar ao exercício de provocar as criaturas tacanhas, tirá-las de seus disfarces, puxar-lhes as máscaras e revelar o escroque essencial que nelas havia. Assim seguiu o homem, levando em frente sua arriscada e deliciosa arte de provocar um cretino. A insônia e a falta de apetite e a impotência já iam longe. Ele estava em paz e estado de graça.
Até que um dia, no fim da tarde, olhou de um lado, olhou do outro e nada. Não havia nenhum estúpido por perto, à espera para ser atacado. Mirou para cima, para baixo. Ninguém. Ali, sem nenhuma criatura grosseira a quem aporrinhar, ele sentiu a mais abjeta solidão.
Procurou de novo ao redor, em cima e embaixo, virou para um lado e para o outro e não encontrou o panaca seguinte. Então olhou para a frente e achou o que queria: lá estava, mergulhado num rio de autossuficiência e empáfia, um tremendo imbecil. Parado em frente ao espelho.
Visto assim, à luz da noitinha, seu próprio reflexo tinha um ar desconhecido, desesperado e banal, pavorosamente ordinário.

O crime organizado deixará de presidir o Brasil? Tomara!



Edição do Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Jorge Serrão – serrao@alertatotal.net

Dilma Rousseff e sua base aliada não têm mais a mínima condição moral e legal de continuar (des)governando o Brasil, depois de tanta sujeira que emerge nos depoimentos da “Colaboração Premiada” da Operação Lava Jato. As revelações bombásticas varrerão a petralhada do mapa, junto com o esquema que lhes dá sustentação, pela via dos “mensalões”  pagos por grandes empreiteiras que fazem negociatas superfaturadas com a máquina estatal capimunista.

Independemente do resultado do segundo turno, a gestão petista se autodestruiu. Por isso, soa como piada de fim de festa o lançamento que o presidente do PT, Rui Falcão, fez ontem da candidatura presidencial de Luiz Inácio da Silva, para o ano de 2018. Só Deus sabe se o grande líder terá saúde para encarar tal desafio daqui a quatro anos. Pelo navegar da barca do inferno, são gigantescas as chances de que Lula e as maiores lideranças políticas de sua base amestrada sejam obrigados a enfrentar processos judiciais resultantes da Lava Jato, Porto Seguro e desdobramentos da segunda fase do Mensalão.

Tecnicamente falando, muita gente estará cotada não para a Presidência da República, mas sim para técnico do time da Papuda ou outras penitenciárias menos votadas. Todos os escândalos podem ficar amplificados se houver interesse em estabelecer uma relação perigossíma entre lavagem de dinheiro público roubado e financiamento de atividades do tráfico de drogas que serve como uma das fontes alternativas de investimentos para grupos que se proclamam “revolucionários”. Algumas entidades criminosas – a quem o Banco Central tem ordem expressa de não fiscalizar – se escondem por trás de “cooperativas de crédito” que estão dando ares de legalidade ao dinheiro vindo da corrupção e do narcotráfico.

Eis o monstro que Aécio Neves terá de enfrentar se conseguir se eleger Presidente da República. Esta é a máquina do mal que vai desestabilizar qualquer governo brasileiro nos próximos anos. O Brasil caminha para se tornar algo pior que aquela violenta Colômbia dos tempos do senhor do tráfico Pablo Escobar – o chefão do Cartel de Medelin que soube misturar política, revolução e narcotráfico, até ser eliminado pelos Estados Unidos da América.

Os mafiosos esquemas brasileiros e suas relações políticas farão a História considerar Escobar um mero aprendiz de bandido.

Pesquisas e pesquisas...


Deletação premiada


Aviso aos comentadores

Por problemas insolúveis em nosso computador, ontem tivemos problemas para liberar a publicação dos comentários.

Como o caos deve se repetir hoje – inclusive para postar a edição normal – pedimos paciência aos leitores.
Nosso sistema está igual ao Brasil: calma, porque ainda vai piorar muito...

Abusando da paciência




© Jorge Serrão. Edição do Blog Alerta Total de 9 de Outubro de 2014.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Aécio não vence se perder tempo atrás de Marina e não atacar pecados políticos e econômicos do PT



Edição do Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Jorge Serrão - serrao@alertatotal.net

Os estrategistas de Aécio Neves começam a cometer erros primários, de um discurso estranhamente defensivo, para a disputa fatal do segundo turno contra Dilma Rousseff. Os petistas já perceberam as falhas de recuo do adversário e vão explorá-las na ofensiva. O poder de mobilização para difamar Aécio, principalmente para manter a neutralizada do eleitorado de Marina Silva, é uma das ações previsíveis dos marketeiros petistas.

O primeiro erro de Aécio é insistir na busca “desesperada” do apoio do PSB (que sempre foi parceiro do PT) e de Marina Silva (que sempre joga sozinha). O segundo pecado, que o economista Armínio Fraga ameaça cometer, é prometer uma gestão econômica tão boa “quanto foi a do petista Antonio Palocci”, acusando Dilma de ter mudado a política de Lula (o que não é verdade). A terceira falha é não aumentar o poder ofensivo contra os petralhas, nos escândalos da Lava Jato, Petrobras, Mensalão e, agora, o uso eleitoreiro dos Correios.

Se quiser vencer, Aécio Neves precisa se descolar dos conselhos de Fernando Henrique Cardoso – que sempre se comporta como um priminho briguento do velho amigo Luiz Inácio Lula da Silva, sem partir para uma efetiva ofensiva contra a petralhada que o ataca duramente. Aécio Neves também tem de deixar claros os pontos de seu projeto de “mudança” para o Brasil. Também precisa ser mais explícito no compromisso de acabar com a reeleição. Aécio vacilou ao defender um mandato presidencial de cinco anos, porém jogando toda a responsabilidade sobre o assunto ao Congresso – que deseja nada mudar.

Aécio não vencerá a eleição se não comprovar ao eleitorado, claramente, que o PT tem um projeto autoritário para o Brasil. Perderá fácil para Dilma se não demonstrar que a crise econômica tornará o País inviável a partir de 2015. Também sairá derrotado se a base tucana já eleita permanecer na zona de conforto de uma pretensa oposição, preferindo apenas fazer o jogo de cena de quem compete mas, no fundo, não tem tanta vontade assim de vencer para fugir da obrigação de segurar a bomba que vem pela frente.

Aécio chegou ao segundo turno porque aumentou sua ofensiva de discurso quase na véspera da eleição. Se não demonstrar mais poder ofensivo ainda, não terá chances contra os petralhas cheios de grana e com a máquina de fabricar votos na mão. O tal “mercado” já deu sinais de que deseja Aécio no poder. Mas Aécio precisa comprovar o mesmo desejo com atitudes e palavras que desmontem o nazicomunopetralhismo. O plano bolivariano do Foro de São Paulo segue em frente...

Lembre-se, Aécio: a vergonhosa derrota para o PT em Minas Gerais foi uma prova evidente da fragilidade do PSDB na disputa real pelo poder.

Presidente adjunto


Indo ou fondo?



© Jorge Serrão. Segunda Edição do Blog Alerta Total de 8 de Outubro de 2014.

TERROR NUM SHTETL GAÚCHO: QUATRO IRMÃOS (1924) - UMA HISTÓRIA OCULTA DA COLUNA PRESTES


As revoluções têm uma imagem complacente de si. Raramente há a autocrítica de sua ação concreta. Conforme se consolida sua história, apagam-se as violências ou injustiças cometidas por elas, restando apenas a sua motivação altruísta. A Coluna Prestes (1924-7) é um destes casos, pois a historiografia dominante se rendeu ao ineditismo militar (guerra de movimentos), o caráter heróico e a busca utópica da justiça social por seus líderes. Porém, pouco se escreveu da brutalidade dos revolucionários no trato dispensado à população civil, que por razões práticas teve de lhe prover o sustento, sob a ameaça das armas.
Este artigo é na contramão desta história consagrada, ele mostra a Coluna Prestes no início, atacando o povoado gaúcho de Quatro Irmãos, com o único propósito de saquear a sua população para sustentar o grupo revolucionário que se formava. Foi escrito com base numa cópia do inquérito policial que o Arquivo Histórico Judaico Brasileiro (AHJB) possui, junto à documentação que compõe o fundo Jewish Colonization Association (ICA). Entrevistei, também, alguns descendentes de famílias atingidas por essa desordem pretensamente revolucionária. Pronto o artigo, ele foi oferecido a três revistas de História onde já publiquei, porém foi recusado por razões singelas, mas que podem ser interpretadas nas entrelinhas como “ainda não se publicam na historiografia acadêmica os desvios de um ícone esquerdista”.

A COLUNA PRESTES

O presidente Arthur Bernardes (1875-1955) já assumiu o governo em estado de sítio. A insatisfação política dos seus opositores tomou forma revolucionária. Em S. Paulo grupos militares levantaram-se contra o governo, mas foram batidos pelas tropas legalistas e então fugiram para o sudoeste do Paraná. No sul o capitão Luís Carlos Prestes (1898-1990), que servia no 1º Batalhão Ferroviário de Santo Ângelo sublevou sua unidade militar em 28 de outubro de 1924. O gesto funcionou como uma senha para os descontentes começarem a se agrupar para integrar a coluna de insurretos que formou com eles e mais o grupo paulista. Tornou-se conhecida como Coluna Prestes e deslocou-se militarmente 24 mil quilômetros por todo o país, entre 1924 a 1927. Próximo a fronteira com Santa Catarina, um destes bandos de revolucionários caiu sobre a indefesa Quatro Irmãos para tomar cavalos, víveres e dinheiro, supostamente para prover o movimento. Eles chegaram pela estrada de Nonohay. O calendário marcava três de dezembro de 1924.
Eram quarenta ou cinqüenta homens aramados com fuzis e armas brancas, identificados pelo lenço vermelho dos maragatos (oposicionistas) colocados em volta do pescoço, montados em cavalos, todos comandados por um velho trajado de uniforme cáqui amarelo com seis galões no ombro. Soube-se depois que ele era o coronel Favorino Mariano Pinto (1869-1927) e que ao seu lado cavalgavam dois filhos: o capitão Heráclides Pinto, apelidado “Pretinho” e o tenente Apolinário Pinto, vulgo, “Lulu” ou “Pintinho”. O trio era gaúcho e já agia na região há tempos. Revolução para eles era um meio de vida e os seus título militares eram forjados nas sangrentas lutas campeiras. Eram maragatos de formação.
“Maragatos” foi o apelido depreciativo dado pela primeira vez durante a Revolução Farroupilha em 1893 aos opositores de Borges de Medeiros (1864-1961), presidente do Rio Grande do Sul. O nome vinha de um grupo etnocultural de origem espanhola, maragatos, nômades e, ao que parece, descendentes de mouriscos, reputados como ladrões e assassinos. O nome foi assumido como orgulho pelos Federalistas, e perdurou como uma forma de assustar os adversários. Era gente com uma persistente tradição de ferocidade e crueldade. Um dos maragatos históricos, Adão Latorre (1837-1923), teria degolado sozinho numa tarde trezentos prisioneiros no chamado Massacre do Rio Negro (1893). Já o Pretinho de nossa história, dias antes da invasão a colônia, matara num baile ocorrido no povoado chamado Sapo o sanfoneiro que lhe desagradara. Preso, ele foi solto pelo bando que o pai comandava.

O SHTETL

Quatro Irmãos fica num vale entre as serras gaúchas, próximo a Erechim, e na época era uma espécie de shtetl (povoado judeu) europeu transplantado para terras brasileiras. Poucas ruas de terra batida, conhecidas na época como Rua da Guenendel (homenagem a costureira Guilhermina Lechtman, que morava nela), a Rua da Fremeleia (a comerciante Luisa Antebi), a Rua dos Grãfinos e a dos Carrapichos, circundadas por várias propriedades rurais. O povoado fora criado na primeira década do século XX por judeus vindos, em sua maior parte, da Bessarábia (hoje Moldávia e Romênia). Era o fruto de um projeto encabeçado pelo banqueiro alemão barão Maurice de Hirsch (1831-1896), destinado a tirar os judeus da Europa Oriental, livrando-os das perseguições anti-semitas locais, e fixá-los no mundo rural. Muitos deles já tinham experiência agrícola, pois cultivam fumo e girassol nas terras de origem. Para viabilizar esse projeto foi criada a Jewish Colonization Association, conhecida como ICA, que em 1909 comprou mai sde noventa mil hectares no Rio Grande do Sul, onde eles se estabeleceram. Cada colono adquiriu a prestações o seu pedacinho de terra para recomeçar a vida. Nenhum deles era rico, pois estavam endividados com a compra da propriedade e muitos ainda nem tinham aprendido o português. Isso era suficiente para não não se importarem com a política nacional. Então, foi com espanto que os colonos receberam a invasão dos revolucionários.

O ATAQUE

No inquérito policial que se seguiu ao evento criminoso, conduzido pelo subchefe de polícia de Passo Fundo, Dr. Miguel Chmielewski, desfilaram os colonos extorquidos e aterrorizados pelos revolucionários, frente a autoridade legal. Não se sabe quem foi a primeira vítima, pois os revolucionários se espalharam pelo território da povoação, atacando estrategicamente todos os pontos da localidade durante a noite e o dia. As queixas dos moradores são as mesmas. Percebe-se nelas que o objetivo central do grupo invasor era apenas a pilhagem da população. De todos os colonos abordados foi exigido dinheiro em espécie, depois roupas e ferramentas, alimentação e cavalos. A nenhum deles falou-se da conjuntura política – apenas dois colonos foram acusados genericamente como chimangos (governistas).
O agricultor Jacob Sirotsky, 58 anos, viajava numa carroça de quatro rodas quando foi assaltado pelos revolucionários. Tomaram-lhe dois contos e quinhentos mil réis, mais outro tanto em mercadorias.
Jaime Melnik, dono da atafona (moinho) local, perdeu vinte sacos de farinha de mandioca e três sacos de polvilho, mais roupas, utensílios e ferramentas. Destruíram a sua plantação de milho e mandioca, como também o mandiocal de Marcos Nagelstein, e levaram deste mais um boi, oito sacos de farinha de mandioca e também roupas.
Tomaram de Leão Agranionik quatro cavalos e do madeireiro Gregório Ioshpe, roupas e objetos.
Os Matone perderam um cavalo arreado e dinheiro. Saquearam o armazém dos Brochman.
A lista prossegue por tantos outros colonos, que tiveram as suas vacas carneadas, a plantação devastada e o dinheiro de sua economias, já que não havia bancos, tomado pelos invasores. Os relatos mostram como foi a coleta de recursos pelos revolucionários.
Ao agricultor Manoel Weinstein, de 29 anos:

“(...) revistaram-o tirando-lhe do bolso a quantia de cinqüenta e dois mil reis em dinheiro, dizendo-lhes que não lhe tomaram o casaco porque estava muito velho e rasgado (...)”.

Outro agricultor, Abraão Raskin, de 45 anos, foi levado a presença do coronel favorino Pinto e espancado com rebenques e espadas. Pretinho, o filho do chefe do bando, arrancou-lhe a barba com uma faca, tirou-lhe a roupa e roubou-lhe seis mil réis.
Pedro Birman, 55 anos, foi arrastado por uma corda no pescoço de sua casa até o chefe do bando.
Sanson Schwartzman, de 36 anos, ante ao bando:
“(...) cahiu quase desmaiado e sua mulher e as creanças choravam e gritavam implorando aos revolucionários que não o matassem(...)”.

A família de Ichiel Feldman ante as agressões fugiu de sua casa:
“(...) na precipitação (eles) esqueceram uma creança de três anos (...)”.

Ninguém escapou a sanha dos saqueadores. Até a Jewish Colonization Association (ICA) foi extorquida. Três revolucionários, sendo um deles o Pintinho, invadiram por uma janela a casa do agrônomo David Sevi, representante da sociedade na colônia e exigiram quarenta contos de resgate, depois o coronel Favorino Pinto diminuiu o pedido pela metade, finalmente aceitou receber uma quantia menor escriturada em recibo:

“EMPRÉSTIMO DE GUERRA. De ordem do Sr. Comandante em Chefe das Forças Revolucionárias [leia-se o capitão Luis Carlos Prestes] em operação no norte do estado recebi da Jewish Colonization Association, representada na pessoa do seu diretor David Sevi a importância de três contos de réis (3:000.000) a título de empréstimo. Acampamento na fazenda de Quatro Irmãos, quatro de dezembro de mil novecentos e vinte e quatro. (assignado) Favorino Pinto Coronel comandante de guerra”.

AMORTE DO COLONO

A invasão culminou com o desaparecimento do agricultor David Faiguenboim (na foto acima), de 62 anos, oriundo de Shargorod e pai de nove filhos. Ele era um homem religioso que muitas vezes liderava as orações comunitárias. A única fotografia que sobreviveu mostra um homem de barbas longas com um livro de orações. Dado sinal do desaparecimento pelos familiares, os vizinhos saíram a sua procura e só depois de algum tempo o colono Usher Galodnik e Maurício Faiguenboim (1906-1971), filho da vítima, descobriram o corpo degolado escondido numa touceira de mato. Ele tinha uma ferida que:

“(...) abrangia a fronte, a começar pelo lado direito da mesma, atravessava o nariz, cortado profundamente e atravessava a vista esquerda, que estava vasada, estendendo-se bem assim no nariz. Os ferimentos foram produzidos por um instrumento cortante, além disso verificaram-se que em redor do pescoço havia signaes no cadáver, do vestígio de um laço apertado de uma corda (..)”

Como ele não sabia português, é possível que tenha sido assassinado por mão compreender a cupidez dos revolucionários.
Depois de dois dias de pilhagem em Quatro Irmãos, percebendo a chegada das tropas Legalistas, os saqueadores seguiram em frente incorporando-se ao destacamento do tenente João Alberto (1899-1955) com que fizeram toa a campanha da Coluna Prestes pelo interior do Brasil. Ali não foram cobrados pelo comportamento indigno, nem pelos companheiros de armas, nem pelos autores que se ocuparam deste grupo insurreto. Eles tornaram natural o saque as populações desarmadas como método de abastecimento.

“(...) Neste ponto não tínhamos escrúpulos – afirmou o capitão Luiz Vieira Fagundes, combatente gaúcho numa entrevista na década de setenta – Pegávamos com naturalidade do alheio, o que tinha pela frente era nossa alimentação. Não tínhamos dinheiro para comprar, não tínhamos de onde tirar, nós usávamos aquilo como se fosse nosso (..)”.

Já no fim da jornada, somente dois dias antes de deixarem o solo nacional, em dois de fevereiro de 1927, o coronel Favorino Pinto foi denunciado ao Estado Maior revolucionário por acumulação de uma fortuna “obtida por meios ilícitos”, segundo a documentação revolucionária preservada no Arquivo Edgar Leuenroth (UNICAMP). Feita a revista no oficial gaucho encontrou-se além de muitas jóias preciosas uma quantia inventariada em dezenove contos e novecentos mil réis (o valor de dois automóveis novos na época) que foi confiscada em parte pelo general Miguel Costa (1874-1959) em benefício do patrimônio coletivo da Coluna Prestes. Levaram mais de dois anos para descobrir as atividades criminosas desse revolucionário, mas, enquanto isso aproveitaram-se e bem dessa pilhagem para o sustento da expedição. Ele só foi “punido” nos últimos momentos em terras brasileiras. O coronel Favorino Pinto morreu cinco meses depois, em Pasos de los Libres em conseqüência de uma hemorragia cerebral. Hoje é personagem elogiado nos livros sobre a Coluna Prestes.
O saque a colônia de Quatro Irmãos apressou o seu fim. Quarenta famílias judias e três católicas, amedrontadas pela violência, fugiram para Erechim e dali procuram novas plagas. Foram seguidas depois por outras famílias que, descapitalizadas pelo saque, abandonaram também a sua vida rural, espalhando-se pelo Brasil em busca de uma vida mais segura. Eles que já tinham deixado a Europa Oriental pelo medo dos pogroms (destruição de comunidades judaicas) foram embora de Quatro irmãos, mas sem esquecer o episódio sangrento vivido, tanto que, se a memória destas famílias não tivesse guardado esses fatos, é provável que esse fosse mais um episódio condenado ao esquecimento.

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.


BIBLIOGRAFIA

COSTA, general Miguel. Boletim Reservado nº 3, Baia Bela, 2 de fevereiro de 1927 – Arquivo Edgard Leuenroth, UNICAMP, LMC.CL.209 P.3 e CL.210 P.3.
FAERMAN, Martha Pargendler. A promessa cumprida. Porto Alegre: Metrópole, 1990.
FELDMAN, Marcos. Memórias da Colônia de Quatro Irmãos. S. Paulo: Maayanot, 2003.
JEWISH COLONIZATION ASSOCIATION (ICA), 1902-1968, 71 caixas – ARQUIVO HISTÓRICO JUDAICO BRASILEIRO.
LIMA, Lourenço Moreira. A Coluna Prestes – marchas e combates. S. Paulo: Alfa-Ômega, 1979. PRESTES, Anita Leocádia. A Coluna Prestes. S. Paulo: Paz e Terra, 1997.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

CHARGE DO NANI


QUE A ONU NÃO PERCA A OPORTUNIDADE

Artigo especial para a B&A e www.50anosdetextos.com.br

A presidente da República Federativa do Brasil, presidenta Dilma Rousseff, mulher de fibra, de coragem e que deplora o sentimentalismo exagerado dos que se chocaram com a violência e a crueza do ISIS, abriu a 69ª Assembleia Geral da ONU com um discurso excelente que não foi compreendido pela imprensa tupiniquim.

Dona Dilma recordou a todos os que se achavam no plenário da ONU o que ela e Lula não se cansam de repetir: o Brasil acabou com a miséria, com a fome, com a desigualdade e com a mortalidade infantil e combateu a homofobia, além de seu governo lutar em favor da transparência e do combate à corrupção.

Ela acentuou que três em cada quatro brasileiros integram a classe média e os estratos superiores da sociedade. Como segundo o IBGE somos 201 milhões, façam as contas, senhores, e vejam o tamanho de nossas classes média e superiores! É estupendo!

Enfim ela fez um retrato desta potência, no que fez muito bem. Não era possível deixar que o resto do mundo só visse o Brasil como o país cujos cidadãos gastaram em oito meses 17 bilhões de dólares em compras e passeios no exterior!

Somos muito mais do que isso e temos uma chefa que não se curva diante de país algum. Por exemplo, querer que o Brasil assinasse a Declaração de Nova York sobre Florestas quando já reduzimos em 79% o desmatamento das florestas nos últimos dez anos! Onde já se viu tamanho desaforo?

Pois ela não assinou coisa nenhuma!

E por que cargas d’água ela se curvaria aos desejos de certos chefes de Estado no combate ao ISIS? O uso da força, nesses casos, seria uma prova de fraqueza intelectual e moral!

Mas dona Dilma, presidenta de um país que enfrentou galhardamente as decapitações no seu estado do Maranhão, sabe que não é pela força bruta que se resolvem esses problemas, mas pelo uso da força das palavras exatas, no tempo certo, i.e., pela diplomacia.

Será que a ONU vai perder a oportunidade de enviar dona Dilma como sua Embaixadora Plenipotenciária para dialogar com o ISIS?

Não creio que com sua vida atribulada desde mocinha ela tenha tido tempo de aprender muitas línguas, mas para isso ela tem a assessoria do brilhante Marco Aurélio Garcia, que seria um embaixador ex aequo et Bono.

Da minha parte, além da confiança em sua atuação, tenho, sinceramente, muita pena dos membros do ISIS. Eles não sabem o quanto é cortante ummeu querido dito em dilmês!

Que a ONU não perca a chance única que lhe foi dada por Deus e envie, o mais urgente que puder, dona Dilma ao encontro do ISIS.

São meus votos.

* Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa* – Professora e tradutora. Vive no Rio de Janeiro. Colabora para diversos sites e blogs com seus artigos sobre todos os temas e conhecimentos de Arte, Cultura e História. Ainda por cima é filha do grande Adoniran Barbosa.