domingo, 29 de março de 2015

A arte de furtar o povo - SACHA CALMON


CORREIO BRAZILIENSE - 29/03

Desde os romanos pão e circo têm sido a fórmula para angariar o apoio da plebe. Os maquiavéis da esquerda latino-americana, conforme o livro de Vargas Llossa sobre o perfil do perfeito idiota sul-americano, usam a mesma estratégia: acusam os ricos pela situação dos pobres. Passam a lhes dar migalhas para incluí-los numa suposta sociedade solidária. Com a ajuda de parte dos ricos, moralmente desfibrados e corruptos, aparelham o Estado para eternizarem-se no poder. O caso da Petrobras é emblemático. Somos, majoritariamente, um povo humilde, crédulo e desinformado, governado por incompetentes.

A Petrobras, em 12/12/2014, valia R$ 127 bilhões. Hoje, menos até do que o valor de quando Lula chegou ao poder. Entram em cena a má gestão e as opções de modelos de exploração inexequíveis, feitos mais pela ganância estatizante do que pela reflexão criativa. Vários são os motivos, todos por culpa dos governos Lula e Dilma, que abateram a maior empresa de petróleo e gás da América Latina.

Primeiro - Desde a posse de Dilma, no primeiro mandato, com a tese de nova matriz econômica, os preços administrados (tarifas de energia, telefonia, transportes, petróleo, gás e combustíveis) foram comprimidos para não aumentar a inflação causada pelo aumento dos salários acima da produtividade da mão de obra, pela inundação de crédito a juros baixos e pelos gastos imoderados do governo. A Petrobras perdeu R$ 68 bilhões (quebra de caixa) comprando no exterior mais caro e vendendo no país mais barato.

Segundo - Fez investimentos desastrosos em lugares não recomendados, mormente em refinarias, com sobrepreços de R$ 62 bilhões (Pasadena, Rio, Recife).

Terceiro - Com o argumento de incentivar a indústria brasileira, comprou equipamentos e serviços nacionais 30% a 40% mais caros, menos eficientes e entregues em prazo maior do que os de fornecedores no exterior. Cálculos de empresas especializadas indicam atraso na exploração do pré-sal, numa época em que o petróleo estava acima de U$ 120 (hoje está em R$ 50 o barril, a inviabilizar o custo do pré-sal).

Quarto - O modelo de exploração (partilha, com recebimento em óleo e participação obrigatória da Petrobras em 30% em todos os poços) elevou o endividamento da empresa. Com a subida da moeda norte-americana, a Petrobras viu a dívida subir R$ 48 bilhões nos últimos três meses.

Quinto - Durante os últimos cinco anos, foram pouquíssimas as áreas licitadas, impedindo que parceiros nacionais e internacionais se apresentassem nos leilões, perfurassem o fundo do oceano e retirassem mais petróleo e gás, justamente numa época em que o petróleo estava caro e o risco do pré-sal era considerado baixo (as reservas existem). Esses parceiros não se interessam mais em atuar no Brasil. De nada vale ter reservas se não temos dinheiro para investir, nem parceiros, nem preço que compense. O modelo deve mudar ou a Petrobras afunda de vez, a menos que o governo aporte socorro superior a R$ 100 bilhões para saldar dívidas e fazer investimento. Mas, nesse caso, a dívida pública subirá para 70% do PIB e o Brasil perderá o grau de investimento.

Sexto - Falta de gestão e corrupção, dois lados de uma só moeda. Da graça para a desgraça bastaram 12 anos de PT. O custo, ninguém sabe ao certo. Todavia, a dívida da empresa supera R$ 261,45 bilhões, a maior do mundo no setor.

O saudoso Tancredo Neves tinha razão: "Toda vez que o PT teve que escolher entre seus interesses e os do Brasil, escolheu a si próprio". O impedimento da presidente inepta, a ponto de ser tutelada por um Ministro (e que lhe fazia oposição), está na ordem do dia.

O afundamento da Petrobras vem do somatório dos erros políticos, gerenciais e estratégicos dos governos do PT. De um lado distribuem dinheiro a mancheia (Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida), de outro sugam o dinheiro da sociedade. Chamam a isso de corrupção endêmica e institucional. Só para remarcar, a Petrobras nunca foi do povo. Pertence aos acionistas. Quem não tem ação não é proprietário. O seu mal é ser do governo que lhe retira dinheiro em vez de petróleo.

A má gestão da Petrobras piorou depois da Lava-Jato. A corrupção, a que foi para o bolso de terceiros, é uma ninharia. Os contratos revistos é praxe de mercado. A estatal valeu-se do escândalo para não pagar a ninguém. A cadeia econômica do petróleo e gás, sem receber, está sendo destruída (10% do PIB), gerando desemprego e erosão de mais de 230 empresas antes saudáveis.

Enquanto não for privatizada, o país continuará a sofrer. Que se faça como na Noruega, ao menos isso. Cada norueguês é acionista, junto com o governo que administra um fundo soberano. A empresa de exploração de petróleo é administrada por um conselho de experts do setor privado. Se não der lucro, o governo substitui a governança.

A comida cheia de sabor e criatividade do vegano La Rouge - por Sara Bodowsky


28 de março de 2015
Acho que já falei aqui – esse post é o de número 66 desse blog, uhuu, e minha memória não é das melhores – mas gosto de carne. Gosto muito. Sou carnívora. Às vezes me sinto um pouco hipócrita, adoro animaizinhos domésticos, então me pergunto de vez em quando porque comemos os outros, etc e tal… mas gosto e provavelmente por muito tempo seguirei gostando de carne.
Dito isso, preciso também explicar que não tenho nada contra comida vegetariana ou mesmo vegana (pra quem não sabena diferença: vegano não come nada de origem animal – carne, leite, ovos, mel. O vegetariano só não come carne. E por carne, por favor, inclui frango e peixe também! Tenho um amigo vegetariano que já cansou de ouvir “Ah, você não quer de carne? Tem também de frango ou peixe, então”). Sendo gostosa é o que importa. Posso não ser especialista, mas sei exatamente quando um lugar quer ser vegetariano e apenas tira a carne do cardápio. Você está fazendo isso errado. Como a carne costuma ser o prato principal de uma refeição, se você tirar a carne vai servir apenas acompanhamentos. É preciso fazer com que o prato sem carne se torne o prato principal. Como? Com muito sabor e criatividade.
Tese terminada. Vamos ao que interessa: a comida!
Sempre curto contar quando alguém me deu a dica do lugar. Dessa vez foi o Paulo Finatto, do Bar Opinião, que há tempos me cantava a pedra: “Tem que fazer um #Roteiro lá, Sara!”. E foi dele a sugestão da entrada: o wrap de verão: couve, hummus, quinoa ao curry, repolho roxo, cenoura e brotos de alfafa. Gente isso aqui é delicioso! Valeu, Finatto! Ps: esse molhinho de acompanhamento é de comer ajoelhado.
IMG_3415
Aí fomos pro prato principal. Lembra o que falei sobre ser completo e criativo? Olha isso: tagliatelle de almôndegas ao molho rouge. A massa é feita especialmente para o La Rouge, sem ovos ou leite. E as almôndegas são de grãos e noz pecã. Não se engane: é salgadinho e com uma textura maravilhosa!
IMG_3433
Já minha amiga foi de Spaghetti da horta: massa de abobrinha e cenoura, molho bechamel de castanha de caju, shitake fresco, tomate cereja e espinafre. Ah, e sem glúten.
IMG_3441
Pra acompanhar, pedi um chá do dia: hibisco, anis estrelado e laranja.
IMG_3399
Já a Marcinha, minha amiga, foi de água mesmo!
IMG_3395
Ah, e vocês acham que só porque o La Rouge não usa leite ou derivados e ovos, não tem sorvete? Você está  e n g a n a d o!
Apresento o Brownie com sorvete: brownie de cacau e noz pecã servido com sorvete de frutas vermelhas. Sobre esse sorvete: quem faz é a Petit Délices especialmente para o La Rouge. E na calda praticamente não usam açúcar e, sim, calda de agave.
IMG_3465
Sim, esse sorvete é um absurdo. Um tapa na cara da sociedade carnívora (saí com as bochechas vermelhas! Mas desconfio que foi desse molho de frutas vermelhas…). É doce e tão, tão saboroso…
Quero mostrar pra vocês um pouco do clima do lugar.
IMG_3390
A entrada é uma fofura.
IMG_3418
Tem dois andares e um clima super legal.
IMG_3419
Hora de conferir o cardápio:

Nos finais de semana, devido movimento, o cardápio é reduzido. Funciona com o Burger Atrevida (burguer de grão de bico e cogumelos Paris, pão La Rouge, cream cheese de castanha, tomate, alface, brotos de alfafa, chips de banana verde e chutney de manga (esse é sem glúten na opção sem pão) e dois pratos especialmente para o fim de semana, fora do cardápio.
O La Rouge usa quase tudo orgânico. Por isso o cardápio do dia às vezes muda – se planejaram determinado prato e na feirinha descobriram que tinha um produto mais fresco ou melhor, eles adaptam.
Curtindo carne ou não, o que você precisa para ser feliz no La Rouge é gostar de boa comida!

Endereço: Avenida Mariland, 1587 – Mont Serrat – Porto Alegre – RS
Telefone: (51) 3019-7638
Horário: terças a sextas das 12h às 15h.
Sábados e domingos das 12h às 16h.

Confira outros endereços vegetarianos e/ou veganos em Porto Alegre


Prato Verde Cozinha Vegeratiana
Rua Santa Teresinha, 42 – Bom Fim – Porto Alegre
Telefone (51) 3388-6659 – R$18 de segunda à sexta, R$20 no sábado e R$22 no domingo com buffet e sucos incluídos

Bar Ocidente
Av. Osvaldo Aranha, 960, 1º andar – Bom Fim – Porto Alegre.
Telefone: (51) 3312-1347
Na hora do almoço, funciona como restaurante vegetariano, com pratos feitos em tamanho normal (R$ 7,00) e grande (R$ 8,00). Aos domingos, banquete indiano. 

Govinda
Rua  José Bonifácio, 605 – Bom Fim – Porto Alegre
Telefone: 3332-1704

Operação Zelotes: na fraude, pedido de vista de um processo "custava" R$ 50 mil

domingo, 29 de março de 2015



A Polícia Federal e o Ministério Público Federal descobriram indícios de que um simples pedido de vista de um processo de empresa ou banco no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), do Ministério da Fazenda, poderia ser vendido por R$ 50 mil. Os sinais da negociata foram descobertos nas investigações da chamada Operação Zelotes, que apura fraudes nos processos do Conselho. Por meio do suborno de conselheiros, empresas e bancos conseguiram redução ou até mesmo eliminação de dívidas relacionadas à sonegação de impostos. Entre os investigados estão empresas do Grupo Gerdau e o Banco Safra. Também estão na lista de investigados o ex-secretário da Receita Federal e ex-presidente do Carf, Otacílio Cartaxo, o genro dele, Leonardo Manzan (ex-conselheiro), e o conselheiro Francisco Maurício Rebelo Albuquerque, pai do deputado Eduardo da Fonte (PP-PE), líder do PP na Câmara. O ex-presidente do Carf, Edson Rodrigues, também aparece entre os investigados. Ao todo, um conselheiro e nove ex-conselheiros são suspeitos de envolvimentos com a maior fraude fiscal já descoberta no País. A Polícia e o Ministério Público calculam que o esquema resultou em desvios que podem chegar a R$ 19 bilhões dos cofres públicos. Só em nove processos alguns suspeitos se apropriaram de R$ 5,7 bilhões, a partir da extinção indevida de dívidas fiscais. Só em um dos casos, uma das instituições financeiras investigadas estava tentando comprar redução significativa de uma dívida de aproximadamente R$ 1 bilhão. As tratativas para o suborno só teriam sido interrompidas pela decisão da Polícia Federal de sair a campo e apreender documentos, carros e dinheiro em 41 endereços na quinta-feira. O Carf é um tribunal administrativo que dá a palavra final sobre controvérsias fiscais, especialmente em processos sobre sonegação fiscal. Segundo uma fonte que conhece o caso de perto, uma dívida de R$ 50 milhões poderia ser reduzida para R$ 5 milhões. Bastaria comprar a decisão de conselheiros. Investigadores suspeitam que um dos chefes da organização criminosa era Edson Rodrigues. Pelos indícios recolhidos ao longo da apuração, Rodrigues recebia a pauta de votação do Carf com antecedência e, a partir daí, buscava clientes interessados em reduzir dívidas fiscais. As negociações se davam em várias etapas. Os interessados poderiam comprar o pacote inteiro de uma vez ou em partes. O pedido de vista acertado com antecedência também servia como prova de que o conselheiro estava em sintonia com o encarregado das negociações. As duas partes, conselheiros e empresas, evitavam manter contatos diretos. Parte dos pagamentos era feita em espécie. Outros eram disfarçados em contratos de consultoria ou honorários de advocacia. As investigações começaram ano passado, mas há evidências de que o grupo estava em atuação desde 2005. Investigadores notaram também que algumas negociatas se arrastavam durante anos. Em um dos casos, os suspeitos esperaram o fim do mandato e a troca de conselheiros cúmplices das fraudes para concluir um determinado processo, conforme o interesse da empresa que pagou pelos serviços da organização. "Por isso a briga política para a escolha dos conselheiros", explicou uma das pessoas vinculadas à investigação. Na quinta-feira, a PF aprendeu mais de R$ 2 milhões em endereços dos investigados. Também foram apreendidos 18 carros, 16 deles em Brasília, e três motos. Entre os carros apreendidos estão quatro Mercedes, dois Mitsubishi Lancer e uma caminhonete Porsche Cayenne. As investigações estão sendo conduzidas pela Polícia Federal, pelo Ministério Público Federal e pela Corregedoria do Ministério da Fazenda. O serviço de inteligência da Receita Federal também colaborou com a apuração do caso. Antes das buscas, investigadores chegaram a cogitar a prisão dos principais suspeitos. Mas o juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal, entendeu que só a apreensão de documentos seria suficiente para levar adiante a apuração sobre as fraudes no Carf. O tribunal tem 200 conselheiros, divididos em 16 turmas. O tribunal julga mais de mil processos fiscais por ano. Nos próximos dias, a policiais e fiscais da Receita Federal deverão analisar os documentos apreendidos. A partir daí, as investigações poderão ter novos desdobramentos. 

Vídeo mostra assessor da BR Distribuidora recebendo propina


Rota 2014 - Bl

Posted: 27 Mar 2015 07:29 PM PDT
DIEGO ESCOSTEGUY - Epoca




Imagens obtidas com exclusividade por ÉPOCA revelam que, na Petrobras, a corrupção não envolvia apenas empreiteiras e multinacionais – nem um dono de posto escapou dos achaques na estatal


MÃO ÁGIL O assessor da BR Carlos Oliveira (de preto) e o empresário Cássio Ársego. Pagamento filmado (Foto: reprodução)

Em fevereiro de 2004, logo após terminar os estudos em Porto Alegre, o jovem Cássio Ársegoconseguiu alugar, com a ajuda da família, um posto de combustível que estava em vias de pedir falência, nos arredores de Dois Lajeados, pequena cidade a 130 quilômetros de Porto Alegre. Era uma ótima oportunidade num ótimo ponto: o posto, gerido sob a bandeira da BR Distribuidora, que pertence à Petrobras, ficava numa rodovia movimentada, a RS-129, atendendo de caminhões aos muitos tratores usados pelos agricultores da região. “Sempre quis ter um posto, uma empresa minha”, lembra Cássio. Em poucos anos, usando os conhecimentos de negócios que adquirira na faculdade e ralando de 6 da manhã às 11 da noite, ele salvou o posto, que passou a dar lucro, e virou dono do lugar. Morava no escritório. Dormia embalado pelo barulho dos caminhões que cruzavam a rodovia de madrugada. À noite, antes de deitar, bolava estratégias para tornar o posto ainda mais lucrativo. Ao lado da mulher, fazia planos para comprar outros postos. Sonhava alto, como exigiam seus 25 anos. Até que, no começo de 2009, um dos principais assessores da BR Distribuidora no Estado, Carlos Roberto Oliveira, visitou seu posto.
Cássio foi apresentado, sem firulas, à corrupção que vicejava numa Petrobras aparelhada de alto a baixo. A BR é a mais rica subsidiária da estatal. Naqueles tempos, e mesmo hoje, o governo do PT reparte os cargos na BR entre indicados do próprio partido, do PTB e do PMDB. Até outro dia, o senador Fernando Collor,  do PTB, acusado no petrolão, assenhoreava-se da cúpula da BR, ao lado de outro investigado, o senador Edison Lobão, do PMDB. Os repartes reproduziam-se nas gerências da BR nos Estados – e o Rio Grande do Sul, terra de Cássio, não era exceção. A gerência da BR no Estado fora entregue ao PTB.

A um funcionário como Carlos Oliveira, cabia percorrer os postos e as distribuidoras do Estado em busca de negócios para a estatal. Ele detinha o poder de fechar e rever contratos com donos de postos. Podia aumentar ou cortar o preço do combustível vendido pela BR aos donos. Podia também estabelecer os termos para que a empresa financiasse reformas nos postos. Ao encontrar Cássio em seu posto, Oliveira foi direto: exigia 20% do lucro mensal do posto dele – ou R$ 3 mil. Para os brasileiros acostumados com as propinas de centenas de milhões de dólares no petrolão, o caso de Cássio pode parecer insignificante. Para ele, contudo, significou tudo: o posto, o casamento, o futuro. Perdeu o que tinha e o que não tinha.

Cássio não cedeu ao achaque. Veio a retaliação. No dia seguinte, foi obrigado a comprar combustível muito mais caro da BR. Indignado, dirigiu-se à sede da empresa em Porto Alegre e informou o episódio a funcionários da Petrobras. Enquanto esperava na recepção para ser recebido por alguém, recebeu uma ligação de Oliveira. “Tu vai esperar sentado”, disse o assessor. Cássio esperou sentado. Percebeu que Oliveira não estava sozinho. Tinha duas opções: ceder ao achaque ou quebrar.

Ele capitulou. Não demorou para que Oliveira aumentasse a propina para R$ 5 mil. “Tenho de passar para mais gente lá dentro (da BR)”, dizia o assessor, segundo Cássio. “O dinheiro também tem de ir para o partido”, afirmou o assessor, sem especificar a que legenda se referia. Cássio, sempre confrontado com a dúvida entre aquiescer ou deixar seu posto quebrar, não via muita escolha. Cedeu mais uma vez. Mas capitular também tinha seu preço. Cada nova investida de Oliveira deixava seu negócio menos rentável, sua consciência mais pesada e sua mulher mais distante. Sua vida ruía lentamente, desfazendo-se a cada bolinho de dinheiro. Para que a BR ajudasse a financiar uma reforma em seu posto, Cássio topou pagar R$ 180 mil em propina ao assessor Oliveira. Antes, fora ameaçado por ele, com uma arma. “Tu sabe do que eu sou capaz”, disse Oliveira.
Cássio decidiu gravar os pagamentos em vídeo. ÉPOCA obteve o material (assista ao vídeo ao lado. Num deles, gravado em 2009 na sala de Cássio em seu posto, Oliveira está bem à vontade, de bermuda, tênis e camiseta polo preta. Senta-se gostosamente na cadeira, espreguiçando-se de boca aberta. Estica as pernas e cruza os braços. Está claramente acostumado a transações dessa natureza – a coletar propina. Fala sobre amenidades, enquanto Cássio, vestindo uma camisa branca com a marca verde da BR e da Petrobras, destranca um
armário e retira de lá um envelope branco, contendo o dinheiro de seu trabalho.

Ele se senta em frente a Oliveira e passa a contar, com as mãos, as notas: 100, 200, 300, 400, 500… Oliveira prossegue falando banalidades. Olha para o teto, para os lados, para baixo – menos para o dinheiro. Ao fim da rápida operação, Cássio segura um bolinho de notas de 100 em sua mão. Falta o lacinho. Cássio recorre a uma liguinha de plástico, dando uma – plá! – volta e agora mais duas – plá! plá! – voltas no bolinho. Assim que os R$ 3 mil trocam de mãos, o capricho de Cássio, o achacado, encontra a vulgaridade de Oliveira, o achacador. Num átimo, o bolinho de dinheiro some e conhece seu destino: as meias de Oliveira, que ainda precisa de alguns segundos para acomodar a propina. Está encerrada a transação. Minutos depois, Oliveira deixa o escritório levando nas canelas bufantes – ele estava de bermuda – grande parte do magro lucro de Cássio.

Em 2011, já quebrado, Cássio levou a denúncia novamente à direção da BR, que abriu uma auditoria. Entrou com uma ação contra a empresa. “Noticiamos os fatos para a autoridade policial. Posteriormente buscamos contato com a empresa e não obtivemos resposta. Agora confiamos no Poder Judiciário para reparar os severos danos morais e materiais causados ao nosso cliente. Será Davi contra Golias, mas não vamos desistir”, diz Marcelo Santagada de Aguiar, advogado de Cássio.

Até agora, a Justiça nada decidiu. A BR informou que demitiu o assessor, mas não investigou a possível participação de outros funcionários no esquema. Oliveira não quis falar com ÉPOCA. Cássio mora de favor, está desempregado e assiste pela TV ao desenrolar do petrolão.

CHARGE DO SPON - Remédios mais caros





CHARGE DO ALPINO


VOCÊ QUER FINANCIAR AS CAMPANHAS ELEITORAIS DO PT, PCdoB, PCB, PSOL, PSTU E PCO? - by PERCIVAL PUGGINA


por Percival Puggina. Artigo publicado em 
Na última terça-feira, dia 24, a CNBB cobrou do STF uma deliberação sobre a proposta, há um ano em mãos do ministro Gilmar Mendes, que acaba com o financiamento privado das campanhas eleitorais. Essa permanente dedicação da CNBB às pautas políticas sempre me impressiona. No caso, mais uma vez, a tese que a Conferência abraça é a tese do PT.
 O partido reinante, há bom tempo, vem reafirmando seu desejo de que o financiamento das campanhas seja proporcionado pelo Orçamento da União. Orçamento "da União", você sabe, é aquele documento que autoriza o governo a usar nosso dinheiro. Embora a maioria dos brasileiros acredite que os recursos do erário são "do governo", o fato é que o governo não tem recursos próprios. Todo esse dinheiro procede do povo brasileiro, por ele é gerado, a ele pertence e para ele deve retornar em bons serviços e investimentos. Você concorda com incluir entre suas obrigações o financiamento das campanhas eleitorais?
 O PT parece já haver convencido muita gente de que sim, de que essa conta tem que ser paga por nós. Entre os fieis adeptos da tese se inclui a CNBB, parceira nas boas e más horas petistas. No entanto, é bom sabermos que essa moeda tem dois lados e dois beneficiários. A decisão de acabar com o financiamento privado cria a obrigação de fazê-lo com recursos tomados do nosso bolso e define que o PT e o PMDB serão os principais beneficiados. Por serem a dupla hegemônica da política nacional, ambos abocanharão a parcela maior desses recursos.
 Depois de tudo que se ficou sabendo através da operação Lava Jato e do petrolão, depois de conhecida a lavagem de dinheiro público em empresas privadas para financiamento dos partidos da base do governo, essa dedicação à tese do financiamento público é de uma hipocrisia estarrecedora. Ademais, não há como impedir com segurança absoluta o financiamento privado através de caixa 2.
Por fim, o financiamento público obrigatório comete contra os cidadãos uma violência que, no meu caso, se configura assim: o dinheiro dos impostos que eu pago será usado, contra a minha vontade, para financiar campanhas eleitorais de todos os partidos. Certo? Então, meu suado dinheirinho apropriado pelo Estado estará financiando as campanhas do PT, do PSOL, do PSTU, do PCdoB, do PCB, do PCO e assemelhados. Me digam se isso não é um completo disparate.
______________
* Percival Puggina (70), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, integrante do grupo Pensar+.