quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Em uma sociedade de analfabetos, ser inteligente na adolescência virou crime


O fato de alguém ser adolescente não implica carimbar o passaporte para a consumição impunível do lixo cultural — como se o cérebro do jovem permanecesse atrofiado até a maioridade
Muito já se disse sobre a adolescência. Na verdade, o entendimento desse período da formação humana tem sido um dos temas abordados amiúde por psicólogos e psicanalistas. As opiniões são as mais variadas: de “luto da infância” à correntia “fase de transformação biológica e emocional”, é possível encontrar definições para todos os gostos e tamanhos. Até um clichê já se cunhou para classificar o momento: “aborrecente” — termo usado na confluência das noções de “aborrecido” e do sujeito que adolesce.
Imediatamente, identifico dois problemas nessa situação. O primeiro, e mais óbvio deles, é que a assimilação conceitual de uma “ideia de adolescência” dá-se, em geral, por pais sem nenhum preparo científico para compreender o conceito com o qual estão a lidar. Isto mesmo: a maioria dos pais educa seus ignorando a psicologia e a psicanálise.
Logo, para pais-educadores que desprezam reflexões de ordem educativa, é natural “comprar” o ideário vendido nos livros de autoajuda — que quase nunca analisam a juventude desde uma perspectiva crítica, optando em tratá-la qual um “rito de passagem” inócuo ao mundo adulto. Isso para não falar daqueles pais extremosos que se deixam enganar por discursos oportunistas, visto que desprovidos de qualquer cientificidade, a apresentar fórmulas para “domar” a juventude — indo dos “manuais sobre como tornar seu bebê tão inteligente quanto Einstein fazendo-o ouvir música erudita mozartiana no berço até lavar o cérebro do microinfante” aos adeptos das sempre condenáveis práticas herdadas de uma tradição de violência ditatorial (a “pedagogia da palmada”). “Adolescentes”, esses livros frequentemente ensinam, são pessoas em “fase de transformação”. E é natural “ser” assim um tanto atabalhoado, um tanto desnorteado, para não dizer displicente mesmo com a própria formação intelectual. O conhecimento vulgar trata o adolescente como uma folha de papel de impressão delével, que só se começa a colorir mui tardiamente com as tintas permanentes da paleta da cultura e da intelectualização.
Obviamente, estudiosos sérios de um assunto sério, como é a adolescência, hão de repelir essas vulgaridades conceptuais. Recorrendo à historiografia, alguns mitos são facilmente degringolados. O primeiro deles é acreditar na ideia de uma adolescência anistórica e atemporal. Quem assim crê ignora que a puberdade, entendida como maturação sexual, nem sempre esteve acompanhada da “ideologia adolescente”. Adolescência é, na verdade, uma “invenção” moderna.
É nesse sentido que se manifesta Contardo Calligaris: “Nossos adolescentes amam, estudam, brigam, trabalham. Batalham com seus corpos, que se esticam e se transformam. Lidam com as dificuldades de crescer no quadro complicado da família moderna. Como se diz hoje, eles se procuram e eventualmente se acham. Mas, além disso, eles precisam lutar com a adolescência, que é uma criatura um pouco monstruosa, sustentada pela imaginação de todos, adolescentes e pais. Um mito, inventado no começo do século 20, que vingou sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial”.
Uma vez inventado o mito da “adolescência”, passamos ao segundo dos problemas — decerto o mais grave. Trata-se da concepção segundo a qual a fase de transformações psicofisiológicas, no curso da qual o sujeito adolesce, tende a absolver toda e qualquer forma de experimentação cultural desorientada ou deficiência de formação intelectiva. Nesse prisma, o jovem estaria livre para participar das mais distintas experiências no campo da cultura — podendo até mesmo prescindir da intelectualização prematura. Em princípio, numa sociedade idealizada, não haveria problema nisso.
Poderia ser salutar ao jovem o contato com distintas influências, alargando seus horizontes de entendimento vital.
Mas o problema reside justamente nisto: não vivemos numa sociedade “ideal”. Vivemos, isto sim, numa sociedade de massas direcionada à consumição do kitsch. E a adolescência afigura-se como a vítima ingênua — e praticamente indefesa — da indústria cultural capitalista que não reclama raciocínio ou inteligibilidade.

Estupidificando a juventude

No campo da cultura produzida em escalas industriais, quando se pensa na adolescência “moderna”, no jovem da “era digital-globalizada”, descreve-se logo a imagem de um sujeito desapercebido do mais comezinho senso crítico. É que “quem está na fase de transformações” pode tudo: de dançar as músicas analfabetas de Mr. Catra a permanecer horas diante da tela da televisão consumindo patéticos melodramas novelescos (das seis, das sete, das oito, das nove, das dez horas); de ver seguidas sessões de blockbusters hollywoodianos caça-níqueis a “torcer” pelas vítimas da acefalia que participam da “nave louca” dos reality shows, tudo é “fase”, “logo passa”. Afinal, na cartilha capitalista escrita para o público consumidor jovem, “aproveitar a juventude” é expressão sinônima de “estupidificar a juventude”.
A indústria cultural, no entanto, diferentemente de boa parte dos pais, sabe o significado do mito da adolescência moderna. Ultrapassando as pretensas crises emocionais que decorrem do período, as quais são deixadas para reflexão dos psicólogos e dos psicanalistas, cuida-se logo de “empurrar goela abaixo” o estereótipo estupidificante do adolescente bestializado, um “trapo humano” jovem e insensível. Despreza-se a leitura, tida como “tarefa chata da escola”, travestindo de “poesia” os “ex-my love” da vida — como se pudesse haver perenidade artística em algo tão ruim e de criatividade equivalente a de uma bactéria anaeróbia.
No mundo da música, surge a fórmula dos astros sob a forma de boys band: rapazes de boa aparência, hábeis na dança, cantando músicas com refrões mais açucarados que refrigerante de groselha, caem fácil no gosto das adolescentes que iniciam a convivência cíclica com a menarquia. Há também as cantoras “pop” do nível de Britney Spears e Miley Cyrus, que “inspiram” toda uma geração com o seu “talento” em provocar escândalos, usados espertamente para disfarçar a limitação vocal que as torna desafinadíssimas e, portanto, inaceitáveis a quem tenha um mínimo de inteligência musical auditiva.
Em geral, a reação dos pais consiste em manter-se “equidistante” das partes no conflito (o jovem e sua formação cultural). Deixam o adolescente ser orientado pela televisão (no Brasil, a escola há tempos não constitui o núcleo fomentador intelectual da sociedade), jogando-o no way of life da “Malhação”, novela televisiva que há décadas apresenta o melodrama de jovens da classe média carioca mais preocupados com quem vão transar nas baladas do que em passar no vestibular (se é que existem universidades nesse mundo fictício do tédio juvenil). Há ainda os pais de “espírito jovem”: “Embarcam na onda” e chegam ao cúmulo de reviver (ou seria viver?) a adolescência perdida — tomada na sua conotação mais ignóbil. Ei-los, então, ao lado dos filhos, lançados ao abrigo de barracas improvisadas na porta de shows cujos artistas apresentar-se-ão dali a meses! “É só uma fase”, dizem, buscando justificar a injustificável falta de senso crítico que os leva a dar com as canastras na água. “Logo passa.”

Bullying anti-inteligência

Toda essa complacência é incapaz de esconder, contudo, a decadência cultural que daí advém. O jovem, tomado nesse plano, consome programas de TV e letras de músicas que só acentuam o já acentuadíssimo grau de analfabetismo funcional da sociedade brasileira. E a coisa não para por aí. Há também o surgimento do bullying contra aqueles que negam o estereótipo estupidificante da adolescência. Se um jovem, por exemplo, põe-se a ler as partituras eruditas, há logo de ser chamado de “anormal”, “esquisito”; sim, pois todos os seus amigos que tocam o mesmo instrumento estão a dedilhar acordes entoando versos de canções que rimam “cantar” com “amar” ou contando as “estrelas lá no céu que vão buscar”. Claro, há também que lembrar das odes aos “praieiros e guerreiros que estão solteiros” — esses heróis da tragédia pós-moderna da intelectualidade. Da mesma maneira, se o adolescente é flagrado a ler obras de Machado de Assis ou José de Alencar, tomado por uma milagrosa inteligência inata que o impulsiona incontornavelmente ao conhecimento, deve tomar cuidado ao proceder em público. Uma atitude subversiva dessa ordem, nos moldes de leitura espontânea de literatura brasileira, sem a interveniência de imposição escolar para exames ou provas, pode gerar uma série de represálias discriminatórias, que vão dos conhecidos epítetos de “CDF” ou “nerd”, pechas que nenhum adolescente sente orgulho em carregar, podendo até atingir, em casos mais graves, o píncaro da bestialidade infanto juvenil manifestada num gesto abrutalhado de agressão ao jovem intelectual. Se esse mesmo jovem admitir-se, então, leitor de filosofia, aí a liberdade de pensamento periclita: não surpreenderia ver os pais do adolescente, hipnotizados pelo mito da adolescência moderna estereotipada desde um viés estupidificante, buscar em juízo alguma medida de interdição, se possível, internando-o num manicômio judiciário, onde estará a salvo de toda e qualquer reflexão filosófica.
Mas essas consequências a que aludo são previsíveis. Em uma sociedade de analfabetos funcionais, ser inteligente na adolescência virou “crime”. A conduta deve, portanto, ser vigiada e punida, para evitar, pela disciplina do corpo e da mente, que se rompam esses grilhões, engendrando uma “revolta cultural” contra a tecnologia da alma que converteu em prisão o mito de ser adolescente contemporaneamente.
“O que estava em jogo não era o quadro rude demais ou ascético demais, rudimentar demais ou aperfeiçoado demais da prisão, era sua materialidade na medida em que ele é instrumento e vetor de poder; era toda essa tecnologia do poder sobre o corpo, que a tecnologia da ‘alma’ — a dos educadores, dos psicólogos e dos psiquiatras — não consegue mascarar nem compensar, pela boa razão de que não passa de um de seus instrumentos.” (Foucault).
Há, em conclusão, um movimento coordenado da indústria cultural voltada ao público teen. A adolescência, enquanto “invenção” moderna, é um nicho mercadológico rentável como qualquer outro. Para ela, são forjados cantores de playback que lotam estádios, romances de bruxos infantis e vampiros, revistas que elegem “o colírio” ou “a mais gatinha”. Nesse “mundo adolescente”, ser “modelo” é a profissão dos sonhos, o cinema blockbuster de Michael Bay é mais importante que o de Ingmar Bergman e é normal ser um fã histérico acampando na porta de casas de espetáculos ou um fanático religioso mirim que se predispõe, com uma bíblia debaixo do braço, a “exorcismar o mal” da humanidade sem nenhum senso crítico.
Felizmente, como sói acontecer com toda a regra, também a pubescência apresenta suas exceções. A história registra casos de grandes nomes das artes cujo talento manifestou-se ainda cedo. Isto é, na adolescência.

O exemplo de Rimbaud

Rimbaud
Na literatura, dentre os possíveis exemplos, o mais notável deles é, indubitavelmente, o de Arthur Rimbaud. O grande representante da poesia simbolista francesa construiu sua obra magna ainda na adolescência. E, da mesma forma que colocou cedo seu nome no panteão dos grandes literatos, cedo deixou de escrever poesia, abandonando o ofício artístico quando contava apenas 20 anos. É, até hoje, o “adeus” mais triste da história da Li­teratura. Um gênio precoce, um gênio que quis superar a si próprio, inclusive por abandonar a poesia.
Como bem esclarece Ivo Barroso: “Sua ânsia de superação, em tudo — mas principalmente de auto-superação — faz com que ele, consciente embora do quanto havia conseguido conquistar de território poético, largue tudo de mão para ir desbravar os territórios do não-poético, do apoético, sem deixar no entanto de consagrar a essa nova aventura o mesmo fervor com que se entregara à poesia. Um verdadeiro fenômeno de precocidade? Espantoso caso de predestinação? Uma vida em duas etapas que se completam? Direi: um ser que conseguiu viver duas vidas, ambas com total e profunda intensidade. Enfim, um homem que passou duas vezes pelo Inferno!”
O problema de exemplificar “inteligência na adolescência” com Rimbaud é a constatação de que o poeta francês pertence a um outro século e, portanto, a uma sociedade estruturada de maneira substancialmente diversa da nossa. Por isso, escolhi o exemplo atual de uma cantora muito jovem que, apesar de “pop”, demonstra que é possível ser adolescente sem comprometer a própria sofisticação.

O exemplo de Birdy

Na música pop, tenho como exemplo digno de talento adolescente precoce a cantora Jasmine van den Bogaerde. Nascida em 1996 em Lymington, Hampshire, Inglaterra, ela é mais conhecida como Birdy — a alcunha que recebeu, ainda criança, dos pais. Pois foi usando desse nome artístico que Birdy gravou um ótimo disco quando tinha apenas 15 anos.
Lançado em novembro de 2011, o álbum homônimo “Birdy” compõe-se, basicamente, de um repertório de covers. O detalhe é que as versões foram elaboradas, em geral, a partir de canções retiradas de bandas do chamado movimento “indie rock” — boa parte delas desconhecida do grande público brasileiro. O risco de que um disco nesses moldes produzido viesse a descambar para a pieguice adolescente brejeira era grande: bastaria um tom apelativo e teríamos mais uma cantora teen de sucesso comercial, alegrando a saúde financeira de produtores e empresários da indústria fonográfica. Mas o que se ouve em “Birdy” é algo completamente distinto. Há uma cantora jovem — muito jovem, por sinal — executando lindamente seu piano com uma voz madura e de timbre mui elegante.
A faixa de abertura “1901” demonstra claramente que o refinamento de Birdy está muito além da limitação auditiva a que a maioria dos adolescentes encontra-se aprisionado. Com muita maturidade, Birdy consegue recriar a canção originalmente gravada pela banda “Phoenix” com uma distinção vocal ímpar — rara de se ver hoje em dia na música pop.
Poderia ser um lampejo feliz de um debut. Mas a desconfiança rapidamente cessa pela ouvida das faixas seguintes. Tanto em “Skinny Love” quanto em “Shelter”, cujas gravações originais pertencem, respectivamente, a Bon Iver e The xx, fica claro que a produção musical do álbum soube conduzir muito bem o talento da menina, destacando a delicadeza de seu timbre vocal numa sonoridade melancólica, porém agradável.
Especialmente em “People Help The People” do Cherry Ghost, Birdy demonstra uma maturidade excepcional numa faixa de boníssimo gosto, podendo-se divisar claramente os acordes do seu piano, mesmo quando da entrada dos demais instrumentos no acompanhamento (bateria, baixo e violoncelo), em nada comprometendo a emotividade de sua interpretação. O piano solo de Birdy ganha ainda destaque em faixas como “Terrible Love”, do The National, e “The District Sleeps Alone”, do The Postal Service. Aí se pode perceber que, além de cantora competente, a inglesa domina bastante o seu instrumento (nem surpreende, se considerarmos que sua mãe é uma pianista profissional).
E, mesmo quando Birdy se arrisca a recriar versões de nomes mais conhecidos do show business — como “Fire and Rain”, de James Taylor, e “Farewell and Goodnight” , do The Smashing Pumpkins —, a cantora consegue colocar sua marca pessoal nas versões: um vocal delicado e emotivo na medida certa.
Aos que desejarem apreciar em toda a inteireza o talento de Birdy e a riqueza de sua voz doce, recomendo comparar as versões cover da cantora inglesa com aquelas originalmente pertencentes ao repertórios das bandas de indie rock de onde foram extraídas. Nessa comparação, excetuando-se “Con­forting Sounds” do Mew (muito boa já na sua versão original com a guitarra elétrica em destaque), fica evidente a capacidade extraordinária dessa artista em recriar essas canções. Arrisco-me inclusive a dizer que, não fosse pela intervenção magistral do piano de Birdy, eu não teria o apreço que tenho hoje por essas composições. É provável que algumas delas sequer eu conhecesse!

Talento, senso crítico e sofisticação

Como um bem sucedido debut de covers, é natural que a crítica musical imponha a Birdy o desafio costumeiro a todo artista no mundo da música: a de apresentar um próximo álbum de inéditas, priorizando composições próprias. No entanto, a pergunta que se põe, consistente em saber se a jovem inglesa será capaz de compor tão bem quanto toca o piano ou canta com emoção, já começou a ser respondida nesse mesmo álbum, pois ela assina a autoria da faixa “Without a Word”.
Devo confessar que a elegância vocal de Birdy, misturada a um quê de inarredável melancolia, agradou-me sobretudo pela facilidade com que me remeteu a uma das minhas cantoras favoritas: a estadunidense Fiona Apple. Até mesmo na maturidade precoce atingida na carreira, ambas se assemelham. Afinal, Fiona Apple lançou o brilhante “Tidal” (1996) quando contava com apenas 19 anos. E Birdy, ainda adolescente, já desponta como um grande talento da novíssima geração de cantoras que se pretendem fazer respeitadas num ambiente cada vez mais inóspito à qualidade musical, tal qual o é o gênero da música pop.
Diante de artistas como Rimbaud, na poesia, e Birdy, na música, é inevitável pensar novamente na adolescência. Como po­dem, ain­da muito jo­vens, atingir um grau de sofisticação artística tão admirável? Por acaso teriam sido imunizados contra o estereótipo estupidificante da adolescência? Ou seria um mero “golpe de sorte” no mundo das artes?
De minha parte, quero crer que o “segredo” está na iconoclastia. Derrubar o estereótipo estupidificador da adolescência pressupõe compreender, no mundo contemporâneo, o sentido filosófico da invenção desse mito, especialmente nos limites do que propõe a indústria cultural. De fato, inexiste impedimento para que um adolescente venha a se tornar um prodígio precoce no campo das artes ou no da intelectualidade — embora neste último seja algo raríssimo de acontecer. O que se deve ter em mente é que o fato de alguém ser adolescente não implica carimbar o passaporte para a consumição impunível do lixo cultural — como se o cérebro do jovem permanecesse atrofiado até a maioridade. É preciso, ao revés, que os pais entendam aquilo que a filosofia está a pregar faz séculos: talento, senso crítico e sofisticação cultural independem de idade biológica. Aliás, quanto mais cedo se atingir esses patamares, tanto melhor será para a juventude como para a sociedade que nela deposita as esperanças de um porvir menos miserável culturalmente. Um porvir mais digno. Um porvir mais inteligente.

Sobreviventes da boate Kiss têm dificuldades para conseguir remédios



Posted: 13 Aug 2013 08:23 PM PDT

Sobreviventes do incêndio da Boate Kiss em janeiro em Santa Maria (RS) enfrentam dificuldades para conseguir remédios de graça pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Eles reclamam da demora e contam que precisam entrar na Justiça para ter acesso à medicação. Jarlene Spitzmachir, que estava na boate na noite da tragédia, tem bronquite asmática e dificuldades para caminhar. Ela precisa tomar 10 remédios diferentes por dia, mas desde que teve alta do hospital, em fevereiro, nunca conseguiu os medicamentos pelo SUS. “Já mandei diversas vezes toda a papelada para eles, mas nunca consegui nada. Ligo para lá e eles nunca sabem de nada”, disse.

Outra sobrevivente do incêndio, Naiara Neuenfeldt desistiu de pedir ao SUS os remédios para combater uma inflamação no pulmão. “No início do tratamento, a minha mãe esteve na 4ª Coordenadoria de Saúde, mas disseram que para conseguir as medicações apenas pela via judicial”. Segundo os médicos, a demora em tomar a medicação põe em risco a saúde dos pacientes que sofrem de doenças pulmonares, como é o caso das pessoas que inalaram fumaça tóxica durante o incêndio na Kiss. Se o tratamento for interrompido, sintomas que já haviam sido controlados podem voltar. 

A Coordenadoria de Saúde de Santa Maria afirma que medicamentos que constam na lista do Estado são fornecidos em até 20 dias. Para fornecer outros remédios, os pacientes precisam entrar na Justiça. “Temos seis meses já da tragédia e o cuidado aos sobreviventes já entrou no fluxo normal do SUS”, afirmou Flávia Costa da Silva, da Coordenadoria.
(Fonte: Terra)

CHARGE DO MARIO - Juízes Federais não pagarão Imposto sobre 1/3


Esta charge do Mario foi feita originalmente para o

As ratazanas



por Ronaldo Gomlevsky – Nesta hora em que aparentemente o barco faz água, ratos são vistos abandonando o navio e tentando lançar responsabilidade, apenas sobre as largas costas dos timoneiros. É mais fácil explicar o porquê do abandono e sair na boa, do que tentar entender o que está se passando, quem, quando, fez o quê, e a partir daí, tirar conclusões inteligentes, cautelosas e por isto mesmo, mais precisas e mais aproximadas da realidade.
Estou me referindo aos efeitos relativos às manifestações do povo brasileiro, nas ruas de todo o país, já há mais de dois meses. No Brasil, a CORRUPÇÃO, os MALFEITOS, a FALTA DE VONTADE POLÍTICA e o DESCASO com a necessidade pública (do povo) não chegaram, apenas, nas últimas eleições. São eternos conhecidos de nossa sociedade e geradores de danos a ela, que além de irreparáveis,parecem ser perenes, como uma doença terminal que não conhece remédio.
Fazem parte da “vita brasillis” e estão presentes por aqui, desde que Pero Vaz de Caminha identificou por escrito, onde tinha conseguido amarrar a nave do rei comedor de frangos assados inteiros (quem não gosta?). Aliás, por falar em família imperial, imagine você, quantos séculos de abusos, de rapinagem, de esbulho e de desmandos foram praticados nesta terra, em nome da tal Coroa?
O brasileiro, tido como passivo, vai às ruas e acaba com a popularidade de governantes que foram eleitos e reeleitos com esmagadora votação, pouco tempo antes. Em menos de quinze dias, tal qual um efeito contrário ao da absurda alta da inflação nos tempos de Sarney, os detentores de belas performances em pesquisas de popularidade, viram sua bola murchar e seus índices despencarem com uma rapidez só mesmo vista nas pistas internacionais de Fórmula 1. Os governantes mais atacados, certamente, não são os inventores das mazelas pelas quais são acusados. São na pior das hipóteses, os herdeiros de um comportamento que o povo não mais aceita.
No caso do governador do Estado do Rio, os índices de investimento em tudo o que se refere à melhoria de qualidade de vida povo, não ficam nada a desejar, se comparados com governantes do mesmo estado, em épocas passadas. O que está acontecendo hoje no Brasil é o mesmo que acontece com uma represa cheia d’água que transborda. Por outro lado, mesmo que ainda não esteja muito claro, parece que se perdeu o controle do que se passa nas ruas. Existem os manifestantes que lutam por qualidade de vida nacional, estadual e municipal, de forma pacífica. Aqueles que querem mais educação, mais saneamento, mais segurança, mais educação, e, por isto mesmo, irreprimível e irretocável, sua conduta.
Escondidos em seu meio, ou melhor, mascarados no meio de quem é do bem, existem os vagabundos, chamados “vândalos” que não passam de aproveitadores de ocasião, prontos para quebrar e assaltar, furtar, roubar tudo o que for possível de dentro dos estabelecimentos indefesos, depredados por eles mesmos, numa flagrante prática criminosa e que está deixando uma pulga atrás da orelha de quem está assistindo.
A ação da OAB, da PM, de certas ONGS, do MINISTÉRIO PÚBLICO, é fundamental para que os protestos legítimos não só tenham consequência, como a baderna que está em vigor no ato das passeatas e manifestações seja devidamente reprimida. Não é o que se vê! Além do bem maior que é a melhoria da qualidade de vida do povo e que precisa ser buscada diariamente, as propriedades pública e privada, também precisam ser garantidas.
O medo que todos temos é o de deixar escapar o rumo democrático que tomou a vida nacional. É hora de definições. Que país você quer? Eu quero um país em que as pessoas sejam respeitadas, tenham qualidade de vida, cumpram a lei dentro de um sistema de garantias à livre iniciativa, à propriedade privada, ao bem público, com saúde, segurança e educação para todos os cidadãos!
Ronaldo Gomlevsky é Editor Geral da Revista MENORAH

100% satisfaction - MARTHA MEDEIROS


ZERO HORA - 14/08


Quem acompanha meus textos sabe que arrasto um trem pelos Beatles, ainda que os Rolling Stones tenham igualmente sonorizado minha adolescência. Na hora de responder à pergunta clássica – Beatles ou Stones? –, eu cravava Beatles sem meio segundo de vacilação.

As coisas mudaram. Hoje, se me fizessem de novo a mesma pergunta, desconversaria, pois a comparação não procede. Apesar de serem bandas contemporâneas e conterrâneas, a guitarra de um não bate com a guitarra do outro. Isso só ficou evidente pra mim quando, no último dia 13 de julho – Dia do Rock! – tive a sorte e o privilégio de assistir a um show dos Stones em pleno Hyde Park, em Londres, num início de noite ainda com céu claro e calor intenso.

Eles entraram no palco às 20h30min e o meu queixo tremeu, o olho marejou, e mesmo me conscientizando ali de que estava diante de quatro pessoas de extrema importância na minha vida, coloquei a culpa do meu faniquito na idade – a deles, claro. Me emociono com os perseverantes.

O fato é que durante as duas horas exatas em que a banda apresentou seus hits mais contagiantes com uma qualidade de som que eu nunca tinha escutado ao vivo e um pique que jamais caiu, me dei conta de que a matéria-prima do rock é a testosterona – e nada menos sexual do que os Beatles.

Mick Jagger seduz com todos os instrumentos de que dispõe: voz, corpo, guitarra, gaita de boca, e a boca, ela própria. Perdoe a vulgaridade do termo, mas não encontro jeito mais suave de expressar: cada música é como se fosse uma trepada com a plateia. Sai-se esgotado da experiência, eles ainda mais do que nós. Se depois de um show assim vigoroso dá vontade de acabar a noite acendendo um cigarro e tomando um uísque, não tenho dúvida de que para eles a noite acaba no hospital tomando soro. Mas com a missão cumprida.

Já os Beatles passam longe do obsceno. Fundadores de um estilo único, experimental, poético e sofisticado, conquistaram o pódio com sua extraordinária inventividade – nunca um disco igual ao outro. O que eles fizeram em apenas 10 anos de carreira ninguém chegou nem perto. Não era rock. Eles criaram um gênero musical chamado... Beatles.

Rolling Stones são definitivamente roqueiros. Há 50 anos oferecem mais do mesmo, e nenhum problema em não mudar. O mundo em volta é que mudou. Em 1969, quando tocaram no Hyde Park pela primeira vez, a plateia era formada por simpatizantes do flower power, todos curtindo paz e amor, muitos em viagem de ácido.

Em julho de 2013, a plateia era formada por simpatizantes do Steve Jobs, todos assistindo ao show pelo monitor do seu iPad, iPhone e tuitando com uma obsessão de viciado. Milhares de cinegrafistas amadores reunidos a fim de documentar o que estavam – estavam? – vendo.

Só o meu queixo tremido é que ninguém viu nem filmou. Ficou sem registro digital. Minha emoção segue totalmente analógica.

O custo (do Metrô de São Paulo) diz tudo


Jânio de Freitas (Folha)
Na confusão noticiosa de várias licitações, em dois ou três governos paulistas, para diferentes contratações de obras, vagões, locomotivas e serviços diversos, por ora só há certeza em um ponto. E pela razão de que é claro por si mesmo: nenhuma empresa desgastaria o seu nome internacional expondo documentos e fatos inverdadeiros em que tivesse papel ilegal e imoral.
A outra preliminar, diante do tão demorado início de uma investigação em torno do metrô paulista, já é de conhecimento público e histórico. Afinal de contas, nunca faltou a percepção de que esse metrô, como o do Rio e o tal metrô de Brasília, veio ligar os cofres do Estado a muitos destinos não declarados.
A propósito dessa característica fundamental do metrô, uma lembrança aqui publicada há poucos dias levou a outra. Citado pela ajuda que me deu para desmascarar a empreiteira Mendes Jr., que negava uma fraude no governo Quércia aqui revelada, o jornalista Leão Serva me relembrou a revelação que se seguiu. Uma demonstração que ninguém teve números ou argumento com que contestar. E que nem por isso foi capaz de tirar da sua comprometida ou comprometedora imobilidade o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo e o Ministério Público estadual.
Comparadas as duas obras, o custo de um quilômetro do metrô paulistano era três vezes o custo de um quilômetro do túnel sob o Canal da Mancha, ligando o continente europeu à Inglaterra -a chamada “Obra do Século”.
O custo. Não há mais fácil indicador. O fornecedor de vagões, por exemplo, não fornece só para o Brasil. E não há dificuldade em levantar os preços que pratica com outros clientes. O mesmo para os serviços e fornecimentos em geral. Para obras existem até os departamentos estaduais e municipais acompanhadores de todos os preços de materiais e de engenharia, desde o metro cúbico de areia aos serviços mais especializados. A comparação entre os valores levantados e os valores contratados diz tudo.
O que foi exposto nestes dias, sobre algumas das licitações do Metrô e da CPTM, é bastante lógico e verossímil. Nem seria liberado por empresa envolvida se não o fosse, por deixá-la mal. Mas só fará pleno sentido quando ou se entrar no que representou para os cofres públicos. Fosse o destinado a empresas, fosse o repassado por elas a outro destino.
PODER USURPADO
Presidente da Câmara, o peemedebista Henrique Alves pretende levar depois de amanhã (13) à votação um assunto de muita gravidade. É o projeto que obriga o governo a liberar todas as verbas incluídas no Orçamento para finalidades indicadas por cada parlamentar. No Orçamento deste ano há R$ 30 bilhões nesse caso.
A pretexto de impedir liberações desequilibradas entre os partidos, esse projeto puxado pelo próprio Henrique Alves tem, a rigor, finalidades eleitoreiras. E em muitos casos, como sugerem verbas inscritas em anos anteriores, de corrupção mesmo.
Mas a própria existência dessas verbas de iniciativa parlamentar, chamadas de emendas parlamentares, merecia ser discutida fora do Congresso. Ou seja, longe dos interessados.
Ao Congresso compete legislar. Em matéria orçamentária, isso significa concordar no todo, em parte ou nada, com os itens e respectiva verba inscritos no projeto apresentado pelo governo para o Orçamento anual. Definir tarefas administrativas é finalidade dos governos e, na partilha dos Poderes, atribuição do Executivo. Aos congressistas, como alegados representantes da população, em nome dela cabe autorizar o Orçamento. Dando-lhe, como Legislativo, fundamentação legal.
As “emendas parlamentares” não são emendas de coisa alguma. São inclusões, no Orçamento, de finalidades e gastos de interesse dos parlamentares. Usurpação de atribuição do Executivo, o federal, o estadual e o municipal.

Deputado Dutra, um dos fundadores do PT, sai do Partido e denuncia: "Meu Partido, o PT, é dominado por Sarney"


Emocionado,chorando, há apenas seis horas o deputado anunciou sua saída do PT.



Um dos fundadores do PT, o deputado federal Domingos Dutra (PT-MA), anunciou durante  edição do movimento Diálogos pelo Maranhão no município de Milagres do Maranhão, que deixará o partido.
Ao relembrar sua trajetória de lutas ao lado de Manoel da Conceição, o deputado se emocionou ao constatar que não pode permanecer na legenda que já há algum tempo apoia o grupo Sarney.

. “Eu estou saindo do PT daqui a dois meses. Me emociono muito com isso porque vou romper uma história de 33 anos, mas não posso ficar num partido dominado pelo Sarney. Por honestidade e identidade não posso ficar no partido que ajudei a construir vendendo camiseta, vendendo feijoada e andando a pé”, relembra.

. Emocionado com a impossibilidade de permanecer no partido , Dutra relatou também a trajetória quer trilhou ao lado de Manoel da Conceição. “A luta de Manoel da Conceição também não foi diferente. O único dos 03 fundadores do PT vivo, perdeu uma perna quando Sarney foi governador, foi exilado e com toda essa bagagem foi humilhado na reunião do diretório nacional”, relembrou. E concluiu, “sairei do PT para permanecer na luta por um Maranhão mais justo”.“Com 57 anos de vida, vejo a necessidade de recomeçar do zero. É muito doloroso, mas não tenho condições de permanecer num partido que reza na cartilha do Sarney. Minha consciência não permite, já alcancei o meu limite”, finalizou.

Em discurso emocionado, Dutra anuncia saída do PT.