sexta-feira, 10 de maio de 2013

Guerra cívica


LUIZ GARCIA


Em um dado momento da vida, adolescentes deixam de ser considerados irresponsáveis por atos de violência que tenham cometido e devem cumprir penas de cadeia. É assim em todas as sociedades que zelam pela segurança pública — nem poderia ser diferente. Cada país decide quando chega esse momento, determinado obviamente pelos índices locais de criminalidade. E, onde o problema é tratado seriamente, a ação do Estado contribui para que jovens transviados não se transformem em adultos criminosos.
No Brasil — ou, pelo menos, no Rio de Janeiro — parece óbvio que chegou o momento de se decidir se a política de segurança corresponde aos índices da violência juvenil. Os números são assustadores. Por exemplo, em março passado foram detidos no estado 711 menores, o que significa um aumento de quase 80% em relação às estatísticas anteriores. Além disso, nos três primeiros meses do ano foram registrados 1.505 estupros. É uma evidente situação de crise. Crise gravíssima, pode-se dizer. A tal ponto que as autoridades planejam reduzir a maioridade penal. O que não é uma solução, e, sim, uma tentativa de intimidar os jovens violentos.
Aparentemente, não se pensa em investigar as causas do crescimento da violência. Um episódio, que provavelmente não é isolado, mostra a gravidade da situação. Esta semana, um rapaz de 16 anos foi preso por ser acusado de ter estuprado uma mulher durante um assalto a um micro-ônibus. É um caso exemplar: no ano passado, ele foi preso por outro assalto, mas um juiz o libertou quando sua família prometeu apresentá-lo à Vara da Infância e da Juventude. Isso não aconteceu e nenhuma autoridade tomou qualquer providência a respeito.
É evidente que a impunidade ajuda a explicar o segundo assalto e o estupro. Desta vez, o adolescente foi mandado para a Escola João Luiz Alves, onde poderá ficar internado por três anos. Mas é uma solução tardia, prova de que há sérias deficiências na ação do Estado. A responsabilidade pelo segundo crime pode ser dividida entre os pais do jovem tarado e os responsáveis pela Vara da Infância, que, pelo visto, simplesmente se esqueceram do caso.
O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, defende maior rigor na punição de adolescentes. Obviamente, é preciso discutir uma questão delicada: a redução da idade mínima para penas de cadeia. Parece ser uma boa ideia — mas resta saber se há meios e recursos para atender ao inevitável aumento na população carcerária. Sem falar nas características especiais do tratamento dos internos mais jovens.
Seja como for, o fundamental é reconhecer a gravidade do problema — e começar a enfrentá-lo de uma vez. Quanto mais demorar o estabelecimento de metas e políticas a respeito, mais difícil será vencer essa guerra cívica absolutamente indispensável.
Redução da idade mínima para penas de cadeia parece ser uma boa ideia — resta saber se há meios e recursos para atender ao inevitável aumento na população carcerária.
Publicado no Globo de hoje.

CHARGE DO AMARILDO - Afif



Cartas de Seattle: Fez sol? É feriado!, por Melissa de Andrade



Para uma escola cancelar um dia de aula é preciso um motivo extraordinário. Uma grande catástrofe natural, uma epidemia de uma doença, uma chacina (infelizmente isso sempre é uma possibilidade nos Estados Unidos). Pois uma escola aqui do estado cancelou um dia de aula porque... estava fazendo sol! Sol e calor.
Calor para os padrões de Seattle, bem entendido. O inverno nem foi rigoroso este ano. Não nevou e não teve muitos dias chuvosos. Mas depois de cinco meses de dias frios e cinzentos, qualquer coisa superior a 15 graus é motivo para colocar chinelo e bermuda e andar por aí com o maior sorriso que você já viu na vida.
Ah, as pequenas alegrias dos que são destinados à privação de sol... No dia em que eu estava para reclamar do calor, levantei as mãos para os céus e enviei meu clamor em forma de mantra: “Não estou reclamando. Não estou reclamando”. Quem mora em Seattle se pela de medo de espantar o sol.
Pois no tal dia sem escola chegou a fazer 20 graus. Vinte! Na primavera! Devia ter sido feriado no estado todo! Imagina a alegria dessas crianças que têm um verão curtinho que só aqui nesta ponta do país.
O climão de acontecimento do ano fica bem claro no comunicado da própria escola, que começa em letras garrafais: “Aulas canceladas devido ao ótimo tempo! Obaaaa!”.
O diretor da Bellingham Christian School explicou que a folga foi pra compensar o fato de este ano não ter havido um “dia de neve”, que por aqui é senha para suspende-escola-e-trabalho-porque-não-sabemos-lidar-direito-com-neve-então-é-melhor-todo-mundo-ficar-em-casa.

Foto: Camila Picolli

O clima bom segue por quase duas semanas, o que por aqui é motivo de comemoração. Chegou a fazer 30 graus (!), o que às vezes não acontece nem no verão. Teve dia que Seattle empatou com Phoenix, no Arizona, como a cidade mais quente do país.
Para Seattle, extraordinário é pouco para descrever os últimos dias.

Melissa de Andrade é jornalista com mestrado em Negócios Digitais no Reino Unido. Ama teatro, gérberas cor de laranja e seus três gatinhos. Atua como estrategista de Conteúdo e de Mídias Sociais em Seattle, de onde mantém o blog Preview e, às sextas, escreve para o Blog do Noblat.

País sem ideologia, por Carlos Chagas



Carlos Chagas
A posse do novo ministro Guilherme Afif, ontem,  serviu para embaralhar mais  uma vez o debate ideológico no país. Ou a ausência dele, porque ideologia não há mais. Como definir o governo Dilma Rousseff? Voltado para o  mercado e aberto à ampla liberdade de ação dos agentes econômicos? Ou empenhado em reforçar  os controles do poder público em favor dos menos favorecidos?
Não dá para permanecer por mais  tempo com um pé em cada margem da corrente. Afif é representante das elites. Para cuidar das micro e pequenas empresas,  a presidente Dilma escolheu quem tradicionalmente representou e defendeu os interesses das grandes empresas. Sete milhões e quatrocentos mil pequenos negócios continuam subordinados e  girando em torno daqueles que dirigem os grandes negócios. Com a diferença de que estão, os pequenos, algemados à burocracia estatal e obrigados a carrear seus recursos  para enfrentar  inutilmente o mutirão de impostos e taxas que os grandes   protelam e até ignoram.
“A força está nos pequenos”, disse o novo ministro, mas só um milagre inverterá a equação de subserviência deles diante de instituições dos poderosos, a começar pelos bancos.
Dilma referiu-se ao “custo Brasil”, eterno pretexto dos grandes para exigir que o estado trabalhe por eles, com eles ignorando o estado. Defendeu que a estrutura dos portos venha a ser  aberta ao setor privado. Nada a opor, caso o setor privado contribua de forma efetiva para desafogar e estimular  a produção. Tudo são dúvidas, num país sem ideologia.
SEM GARANTIA ALGUMA
Em seu pronunciamento pela posse de Guilherme Afif, ontem, a presidente Dilma citou pessoalmente os presidentes do PR, do PTB, do PSB e do PSD. Deixou clara a tentativa de ver esses partidos cooptados para sua reeleição.   Dois ganharam ministérios recentemente,  o PR e o PSD. Um está próximo de receber o seu quinhão, o PTB. E o PSB, ao menos por enquanto, manterá sua participação. Inclua-se o  PDT, também já beneficiado.
A pergunta que se faz é se com Afif no governo,  Kassab garantirá   o apoio de seu partido. Da mesma forma como Carlos Lupi, Waldemar da Costa Neto e Roberto Jefferson também não garantem, representados que foram esses três por substitutos sem poder.
Apesar de ter elogiado Michel Temer, Renan Calheiros e Henrique Eduardo Alves, cumprindo sua obrigação com o PMDB, a presidente não se referiu ao PT. Rui Falcão não estava presente, nem foi citado.
CORRIGINDO UM ERRO
Quando a gente erra, só tem uma saída: corrigir o erro, para que não se repita. Esta semana citamos o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Gonçalves de Oliveira, como tendo ameaçado entregar a chave do tribunal na portaria do palácio do planalto, caso algum ministro fosse cassado pelo presidente Castello Branco. Estava errado. O presidente autor daquele gesto de independência foi Álvaro Ribeiro da Costa.
ANACRONISMO
Alguns setores da pré-história nacional teimam em permanecer levantando velhos radicalismos. Agora mesmo, partidários de tudo o que o regime militar fez de bom, de mau e de horrível, alertam para o que, segundo eles, seria um grande perigo à soberania e à independência do Brasil: o acolhimento de 6 mil médicos cubanos, que aqui viriam em busca de emprego e capazes de minorar as agruras de nossa saúde pública. Imaginam em que em vez de estetoscópios e bisturis, esses doutores tragam armas, explosivos e  livros de Karl Marx e Fidel Castro…

Planalto blinda Erenice Guerra, cerceia a defesa de Rosemary e volta a vazar notícias contra a companheira de Lula



Carlos Newton
Desta vez o Planalto não esperou a Veja e usou o repórter Vinicius Tacini, de O Globo, para vazar notícias contra ex-chefe de gabinete da Presidência da República em São Paulo, Rosemary Noronha, companheira de viagens do ex-presidente Lula em visitas oficiais a 32 países.
O vazamento deixa claro que o ministro-chefe da Controladoria Geral da União (CGU), Jorge Hage, está na facção do Planalto que apoia a presidente Dilma Rousseff. O ministro se recusou a estender a investigação a outros servidores também envolvidos em atos de corrupção, bem mais graves do que os cometidos por Rosemary.
BLINDAGEM
Além disso, o ministro mandou blindar a ex-ministra Erenice Guerra (dona de uma das maiores “consultorias” de Brasília), impedindo que ela preste depoimento por convocação de defesa de Rosemary. A Controladoria vetou também outras oito das 20 testemunhas indicadas por Rosemary para defendê-la, entre elas o ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, e o ex-embaixador do Brasil na Itália e ex-ministro José Viegas Filho. Para completar a blindagem, a comissão processante da CGU negou-se a fazer as diligências requeridas pelos advogados de Rose.
Assim, também deixarão de ser ouvidos, contrariando os interesses da defesa, o secretário-executivo do Ministério da Previdência, Carlos Gabas; o secretário-executivo da Casa Civil, Beto Vasconcelos; e Lúcio Reiner, ex-tradutor de francês e espanhol do ex-presidente Lula.
LULA CALADO
O ex-presidente Lula mantém-se na expectativa, proibiu que os diretores de seu Instituto se manifestem sobre o caso, mas não vai deixar Rosemary ser destruída pelo Planalto, sem revidar. Todos sabem que o objetivo de Dilma é alimentar o escândalo, para prejudicar qualquer possibilidade de Lula sair candidato em 2014.
Embora tenha sido divulgado que Lula abandonou sua ex-chefe de gabinete e companheira de viagens, isso não é verdade. Muito pelo contrário, Lula faz questão de ajudá-la. Por ora, é só o que eu posso falar. Como diria Roberto Carlos, o resto são detalhes, porque um grande amor não vai morrer assim.

CHARGE DO ALPINO - Governo quer importar 6 mil médicos de Cuba




Gregório de Mattos satirizava quem tinha muito dinheiro



O advogado e poeta baiano Gregório de Mattos Guerra (1636-1695), alcunhado de “Boca do Inferno ou Boca de Brasa”, é considerado o maior poeta barroco do Brasil e o mais importante poeta satírico da literatura em língua portuguesa, no período colonial. Há mais de 400 anos, Gregório já dizia que neste mundo quem tem muito dinheiro é o que mais rouba e quem pode comprar tudo.
AS COUSAS DO MUNDOGregório de Mattos
Neste mundo é mais rico o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa;
Com sua língua, ao nobre o vil decepa:
O velhaco maior sempre tem capa.
Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.
A flor baixa se inculca por tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa,
Mais isento se mostra o que mais chupa.
Para a tropa do trapo vazo a tripa
E mais não igo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.