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terça-feira, 26 de novembro de 2013
O verdadeiro inimigo de Irã, Israel, EUA e Arábia Saudita
Leia também – Manual para entender o acordo entre EUA e Irã e Veja 4 esclarecimentos importantes sobre acordo EUA-Irã
O maior inimigo do Irã, dos EUA, de Israel, da Arábia Saudita, de Assad, do Hezbollah, dos governos da Tunísia, da Líbia e dos sunitas seculares do Cairo, de Damasco e de Beirute são as organizações terroristas salafistas (ou takfiris) que hoje dominam não apenas os principais grupos rebeldes da oposição síria e milícias líbias, como também cometem atentados como os da semana em Beirute contra a Embaixada do Irã, explodem bombas diariamente no Iraque e agora até no Egito. Em breve, podem atingir Israel.
Estes grupos não são distintos daqueles que constituíam a Al Qaeda no Afeganistão nos tempos de domínio do Taleban. Agora possuem bases na Síria, em áreas controladas pelos rebeldes, no Sinai, na Líbia, em diversas regiões do Iraque e no norte do Líbano. Não há como atingi-los com Drones, como os EUA fazem no Yemen e na fronteira do Paquistão com o Afeganistão.
Milhares ou mesmo de dezenas de milhares de guerrilheiros salafistas se espalharão pelo mundo, cometendo atentados terroristas na Europa e nos EUA. O Brasil, com a Copa do Mundo, e a Rússia, com as Olimpíadas de Inverno, precisam ficar em alerta. São alvos potenciais de ataques terroristas, com uma probabilidade bem maior de ocorrer no território russo do que no brasileiro.
Aliás, no Brasil, em vez de se preocuparem com xiitas libaneses trabalhando em Foz do Iguaçu, deveriam prestar atenção em brasileiros que se converteram ao islamismo através de clérigos radicais que têm chegado ao país e se distinguem muito dos tradicionais, e moderados, xeques sunitas e xiitas de origem sírio-libanesa. Eles vêm da Arábia Saudita com uma agenda bem mais radical.
Diferentemente da Al Qaeda no passado, com Bin Laden, não há lideranças claras nestas organizações. Às vezes, pode ser um tchetcheno com base perto de Aleppo na Síria ou um líbio no Sinai. É um cenário talvez até pior do que o do 11 de Setembro, por ser ainda mais fragmentado. Se morrer um líder rebelde na Síria de viés salafistas da Frente Nusrah ou do ISIS, surgirá outro no dia seguinte. O mesmo se aplica a milícias líbias.
A única saída seria uma ampla coalisão composta por EUA, Israel, Egito, Turquia, Irã e Arábia Saudita para combater esta nova ameaça. A chance de guerra entre nações, nos dias de hoje, se reduziu abruptamente. Quase todos os conflitos são de organizações contra governos ou entre diferentes grupos. Veja os exemplos do Hezbollah contra Israel e dos rebeldes sírios contra Assad.
Sem dúvida, pode parecer ingênuo este argumento acima. Afinal, como fica o conflito entre o Hezbollah e Irã contra Israel e/ou Arábia Saudita? Na prática, hoje, o Hezbollah está infinitamente mais preocupado com seus inimigos na Síria e no Líbano do que com os israelenses.
Como alertou um dos comentaristas do blog, o financiamento destes grupos vem muitas vezes de facções dentro monarquias do Golfo Pérsico. Estes governos, como o saudita, são fragmentados entre os membros da famílias, que possuem diferentes agendas. Mas, ainda assim, na prática, a Arábia Saudita tem sido uma aliada no combate ao terrorismo global, embora seja conivente com grupos takfiris no Iraque e na Síria.
Muitas alianças podem e tendem a mudar nos próximos anos no Oriente Médio.
Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires
domingo, 24 de novembro de 2013
Lya Luft: Que profissionais queremos?

“Questões que anos atrás seriam inusitadas povoam nossas perplexidades e conversas: onde vamos parar? Que nível de profissionais teremos dentro de pouco tempo, em todas as áreas?” (Imagem: Getty Images)
Artigo publicado em edição impressa de VEJA
QUE PROFISSIONAIS QUEREMOS?
Não sei quanto a vocês, leitores, mas eu quero em todos os campos o melhor profissional. Eu mereço, vocês merecem, todos merecemos, não importa nossa classe social, cor da pele, ascendência, cultura.
Quando digo todos me refiro também aos moradores dos povoadinhos mais remotos, das aldeias sobre palafitas, das encostas deslizantes de tantos morros e beiras de rio que as chuvaradas levam embora ano após ano – algumas continuam como estavam há muito tempo, pois nada se fez.
Todos merecemos o melhor, começando pelos professores das crianças. Com salário digno, com escola que não esteja em ruínas – onde existirem escolas. O número de abandonados pela educação é incalculável.
Quero os melhores engenheiros: que consigam projetar e fiscalizar a construção de pontes sólidas, edifícios firmes, casas confiáveis – também casas populares, porque todos, incluindo os menos favorecidos, merecem o melhor. Estradas transitáveis, e mais que isso, boas – ligando até cidadezinhas afastadas: todos precisamos do melhor, e disso devem cuidar os governos.
Quero políticos ótimos, interessados no bem de seus eleitores, quando forem eleitos, pois muitos conseguem seu lugar sem um voto sequer, por artes de regras bizarras que tanta coisa regem no Brasil.
Quero os melhores policiais, bem preparados, bem armados, psicologicamente bem orientados, e apoiados pela sociedade e pela Justiça, para poderem cumprir o seu dever.
Mas na medicina, ah, na medicina, é que eu quero os melhores profissionais: depois do árduo curso de seis anos, mais uma residência de dois, eventualmente mais especialização, e mestrado, e quem sabe doutorado, para saberem mais e cuidarem melhor de nós, seus pacientes. Mas que sejam valorizados em sua carreira, e que tenham locais onde seja possível trabalhar: outro dia um profissional atuando em uma área menos privilegiada se queixava na imprensa de que não havia nem aspirina nem água no local de trabalho, e foi embora.
Muitos estão nessas condições. A mais alta autoridade em saúde no país declarou (estava na imprensa) que não se importaria de ser atendida por médicos reprovados no Revalida. Fiquei pasma. Então para que médicos? Para que cursos de medicina? Para que essa profissão sacrificada e exigente, se dá na mesma sermos atendidos por aqueles que não passaram num exame básico?
Será mais simples largarmos esse luxo de profissionais formados e aprovados: vamos recorrer só a curandeiros, pajés, benzedeiras – com todo o meu respeito por eles. Dispensar as faculdades de medicina, de direito, de engenharia e outras mais.
E quem sabe as escolas, já que o estudo por aqui é cada vez mais negligenciado, dos primeiros anos às universidades: em lugar de exigentes, os currículos estão mais para brincadeira, os professores, atemorizados, não querem reprovar ninguém, muito menos suspender ou expulsar, por pior que seja o delito cometido por algum aluno – quem sabe vai um processo de algum pai contra o mestre ou a escola.
Fica a indagação que nos pode fazer qualquer menino de quem exigimos que cumpra sua tarefa: preparar-se para a vida e alguma profissão. A pergunta é: para que estudar se posso entrar na universidade alegando fatores favoráveis ao não estudo? Se cada vez mais o nível do ensino é rebaixado em lugar de ser elevado desde os primeiros anos escolares para que todos cresçam e possam ter uma vida melhor, sejam mais capazes e felizes e o país progrida e cresça na única maneira real, pela educação de todos, e não pela ilimitada tolerância ao medíocre e ao insuficiente?
Questões que anos atrás seriam inusitadas povoam nossas perplexidades e conversas: onde vamos parar? Que nível de profissionais teremos dentro de pouco tempo, em todas as áreas? Certamente não os bem preparados, aprovados, confirmados, que possam atender às naturais e legítimas expectativas de quem, como todos nós, merece o melhor.
Carlos Brickmann: O nascer da crise

UMA EXCEÇÃO — Olívio Dutra, “fundador do PT, ministro de Lula, ex-governador do Rio Grande do Sul, disse que Genoino, Dirceu e Delúbio se conduziram mal, que o processo não podia ter final diferente e que não os considera presos políticos” (Foto: reprodução)
Notas da coluna que o jornalista Carlos Brickmann publica hoje, domingo, em vários jornais
O NASCER DA CRISE
Diz a lógica que quem não tem direitos políticos não pode ocupar mandato eletivo. Disse o Supremo que a perda de mandato de condenados é automática, porque a pena inclui a perda de direitos políticos.
Em caso de parlamentares, cabe à Casa a que pertencem apenas declarar a perda do mandato.
Dizem os parlamentares, naqueles acessos incontáveis de coleguismo, que cabe a eles e só a eles decidir sobre perda de mandatos – ou seja, há a possibilidade de criação da Bancada da Papuda, só com presos que ocupam cadeiras no Congresso.
Além da autodefesa – sabe-se lá o que o futuro pode reservar a Suas Excelências, se pegar a moda de investigá-los – há outro objetivo na defesa dessa estranha tese: o deputado José Genoíno, do PT paulista, pediu aposentadoria por invalidez.
O pedido será examinado no início do ano que vem. A jogada é adiar a votação da cassação até que Genoíno se aposente, com salários e vantagens integrais.
Que o caro leitor imagine a reação da opinião pública à aposentadoria do presidiário.
Barulho sem gente
Quem acompanha as redes sociais, em que petistas radicalizados sustentam que os procuradores da República e os ministros do Supremo nomeados por presidentes petistas perseguem petistas, e juram que quem quer que não concorde com eles é da zelite, du zianque e da extrema direita, pensa que o PT inteiro está pintado para a guerra.
Não é bem assim: Olívio Dutra, fundador do PT, ministro de Lula, ex-governador do Rio Grande do Sul, disse que Genoíno, Dirceu e Delúbio se conduziram mal, que o processo não podia ter final diferente e que não os considera presos políticos.
Do PT do Paraná, só Zeca Dirceu, filho de Dirceu, assinou o protesto contra a prisão. Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo, ministros de Dilma, calaram-se – silêncio compartilhado pelo presidente do PT paranaense.
Mensalão: o mesmo, diferente
Ao ler o noticiário sobre o valerioduto tucano, que segundo o relator, ministro Luís Roberto Barroso, deve ser julgado no início do ano que vem, não se surpreenda se achar que está encontrando informações repetidas.
O caso mineiro envolve Eduardo Azeredo, ex-governador de Minas, ex-presidente nacional do PSDB – a grande novidade.
Marcos Valério, Ramon Hollerbach e Cristiano Paz já estão até condenados pelo outro Mensalão.
Walfrido Mares Guia, que era Azeredo na época e hoje é dilmista e lulista, praticamente escapou do caso por ter completado completar 70 em 2012
[Isso permite ao ex-ministro requerer a prescrição dos crimes de peculato e lavagem de dinheiro, pelos quais foi denunciado pelo Ministério Público Federal. O prazo de prescrição para esses crimes é de 16 anos, mas cai pela metade quando o réu atinge 70 anos. Para se calcular o tempo de prescição, deve-se considerar o período de tempo transcorrido entre a ocorrência do fato denunciado e a aceitação da denúncia pela Justiça. No caso de Minas, a denúncia foi oferecida em 1998 e só aceita pela Justiça mineira em 2010, 12 anos depois. Tendo mais de 70 anos, para Mares Guia a prescrição ocorreu em 2006.]
Aliança para o atraso - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO - 24/11
O Canadá está "ansioso" para ampliar o comércio com o Brasil, conforme disse o ministro das Relações Exteriores canadense, John Baird. Mas Baird é realista: ele sabe que o Brasil deixou-se amarrar ao atraso do Mercosul, cada vez mais dominado pelo protecionismo argentino e contaminado pela ideologia bolivariana. Assim, o Canadá soma-se a uma já extensa lista de países e blocos que tentam e não conseguem fazer negócios com o Mercosul e, por tabela, com o Brasil. O resultado disso é o isolamento brasileiro no momento em que as potências econômicas dinamizam o comércio internacional com importantes acordos bilaterais mundo afora.
A ficção em que o Mercosul foi transformado nos últimos tempos prejudica em especial o Brasil, que nada ganha com a transformação de um bloco econômico e de integração regional em um veículo político, por meio do qual se exercita a hostilidade ao livre-comércio e ao chamado "imperialismo americano". É somente a benevolência brasileira, aliás, que sustenta o Mercosul, cuja relevância no comércio mundial decresce na proporção em que aumentam as barreiras impostas principalmente pela Argentina.
Conforme o jornal Valor (12/11), o chanceler canadense, no limite da polidez diplomática, disse que é "difícil, muito difícil" chegar a um acordo com o Mercosul, mas "não pelo Brasil" e, sim, "por causa de dois ou três países" - uma referência óbvia à Argentina e à Venezuela.
A lista de obstáculos deverá crescer, pois Equador e Bolívia estão prestes a incorporar-se ao Mercosul, o que deve acentuar ainda mais a indisposição do bloco em facilitar transações comerciais e aproveitar os negócios promissores que se oferecem neste momento.
A dificuldade do Canadá na negociação com o Mercosul é a mesma enfrentada pela União Europeia para fechar acordo semelhante: a resistência argentina. Essa situação exaspera parceiros como o Uruguai, cujo presidente, José Mujica, recentemente disse que a "política insular" praticada pela presidente Cristina Kirchner está "arruinando o Mercosul".
Depois de fazer as contas, o Uruguai percebeu já há algum tempo que permanecer atado aos compromissos do Mercosul e aos humores do kirchnerismo lhe seria prejudicial. Por essa razão, o país - assim como outro sócio-fundador do Mercosul, o Paraguai - movimenta-se para integrar acordos internacionais fora do âmbito do bloco sul-americano.
Uruguai e Paraguai, por exemplo, estão participando da costura do acordo sobre comércio internacional de serviços, lançado em 2012 pelos Estados Unidos. Também integram, como observadores, a Aliança do Pacífico, o promissor bloco formado por Chile, Peru, Colômbia e México. Enquanto isso, no Brasil, a indústria passou a defender um acordo de livre-comércio com os Estados Unidos, pois o Mercosul, dizem os empresários, está isolando o País.
Na outra ponta, em que brilham o petismo, o kirchnerismo e o bolivarianismo, forma-se uma aliança para o atraso. Impera nesse concerto a ideia de que o Mercosul deve servir também a propósitos políticos e ideológicos. Esse tom foi dado pelo presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, ao defender a ampliação do bloco para que nele caibam todos os países alinhados ao bolivarianismo.
"O novo Mercosul está em fase de construção", disse Maduro, que ocupa a presidência temporária do grupo. "Assim teremos um Mercosul integral, que nos leve à pobreza zero e à cultura integrada de nossos países e avance rumo à máxima felicidade de nossos povos." É, segundo suas palavras, a "revisão da doutrina" do bloco. Basta observar a brutal crise da Venezuela para dimensionar o potencial dessa revisão.
Assim, não se pode condenar o Uruguai e o Paraguai, por buscarem seus interesses em outra freguesia, nem o Canadá, por pensar na Aliança para o Pacífico, e não no Mercosul, quando se trata de investir na América Latina. Não é à toa que, em suas duas décadas de existência, o bloco só tenha conseguido fazer acordos comerciais com Israel, Palestina e Egito. E toda vez que se fala em "relançar" o Mercosul, como sugere agora a Venezuela, é sempre para pior.
A ficção em que o Mercosul foi transformado nos últimos tempos prejudica em especial o Brasil, que nada ganha com a transformação de um bloco econômico e de integração regional em um veículo político, por meio do qual se exercita a hostilidade ao livre-comércio e ao chamado "imperialismo americano". É somente a benevolência brasileira, aliás, que sustenta o Mercosul, cuja relevância no comércio mundial decresce na proporção em que aumentam as barreiras impostas principalmente pela Argentina.
Conforme o jornal Valor (12/11), o chanceler canadense, no limite da polidez diplomática, disse que é "difícil, muito difícil" chegar a um acordo com o Mercosul, mas "não pelo Brasil" e, sim, "por causa de dois ou três países" - uma referência óbvia à Argentina e à Venezuela.
A lista de obstáculos deverá crescer, pois Equador e Bolívia estão prestes a incorporar-se ao Mercosul, o que deve acentuar ainda mais a indisposição do bloco em facilitar transações comerciais e aproveitar os negócios promissores que se oferecem neste momento.
A dificuldade do Canadá na negociação com o Mercosul é a mesma enfrentada pela União Europeia para fechar acordo semelhante: a resistência argentina. Essa situação exaspera parceiros como o Uruguai, cujo presidente, José Mujica, recentemente disse que a "política insular" praticada pela presidente Cristina Kirchner está "arruinando o Mercosul".
Depois de fazer as contas, o Uruguai percebeu já há algum tempo que permanecer atado aos compromissos do Mercosul e aos humores do kirchnerismo lhe seria prejudicial. Por essa razão, o país - assim como outro sócio-fundador do Mercosul, o Paraguai - movimenta-se para integrar acordos internacionais fora do âmbito do bloco sul-americano.
Uruguai e Paraguai, por exemplo, estão participando da costura do acordo sobre comércio internacional de serviços, lançado em 2012 pelos Estados Unidos. Também integram, como observadores, a Aliança do Pacífico, o promissor bloco formado por Chile, Peru, Colômbia e México. Enquanto isso, no Brasil, a indústria passou a defender um acordo de livre-comércio com os Estados Unidos, pois o Mercosul, dizem os empresários, está isolando o País.
Na outra ponta, em que brilham o petismo, o kirchnerismo e o bolivarianismo, forma-se uma aliança para o atraso. Impera nesse concerto a ideia de que o Mercosul deve servir também a propósitos políticos e ideológicos. Esse tom foi dado pelo presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, ao defender a ampliação do bloco para que nele caibam todos os países alinhados ao bolivarianismo.
"O novo Mercosul está em fase de construção", disse Maduro, que ocupa a presidência temporária do grupo. "Assim teremos um Mercosul integral, que nos leve à pobreza zero e à cultura integrada de nossos países e avance rumo à máxima felicidade de nossos povos." É, segundo suas palavras, a "revisão da doutrina" do bloco. Basta observar a brutal crise da Venezuela para dimensionar o potencial dessa revisão.
Assim, não se pode condenar o Uruguai e o Paraguai, por buscarem seus interesses em outra freguesia, nem o Canadá, por pensar na Aliança para o Pacífico, e não no Mercosul, quando se trata de investir na América Latina. Não é à toa que, em suas duas décadas de existência, o bloco só tenha conseguido fazer acordos comerciais com Israel, Palestina e Egito. E toda vez que se fala em "relançar" o Mercosul, como sugere agora a Venezuela, é sempre para pior.
Pioram as contas externas - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO - 24/11
Com um buraco de US$ 7,13 bilhões na conta corrente de outubro, resultado pior que o previsto pelo Banco Central (BC), as contas externas continuaram em deterioração, refletindo principalmente o mau desempenho do comércio exterior de bens e serviços. O déficit em transações correntes chegou a US$ 67,55 bilhões no ano e a US$ 82,21 bilhões em 12 meses. Só uma forte recuperação em novembro e dezembro levará o resultado final de 2013 ao nível previsto pelo Banco Central - um saldo negativo de US$ 75 bilhões. Esses dados, no entanto, são apenas uma parte das más notícias sobre o balanço de pagamentos. No mês passado, mais uma vez o investimento estrangeiro direto, US$ 5,36 bilhões, foi insuficiente para cobrir o buraco da conta corrente. A compensação foi, completada por outros tipos de recursos, em geral menos seguros e mais instáveis que os capitais destinados diretamente às atividades produtivas. Em 12 meses o investimento direto alcançou apenas US$ 59,09 bilhões, 2,64% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado, enquanto o déficit acumulado chegou a 3,67%, nível inédito nos últimos onze anos.
Sem ser desastroso, um déficit dessa proporção já vale pelo menos como um sinal de alerta. O País terá como compensar resultados negativos ainda por algum tempo, mas será preciso impedir a piora do quadro nos próximos anos. Isso dependerá principalmente da evolução do comércio exterior. O déficit em conta corrente veio acima do esperado, disse o chefe do Departamento Econômico do BC, Túlio Maciel. De janeiro a outubro, houve uma piora de US$ 27,98 bilhões no resultado, na comparação com o número de igual período de 2012. A piora da balança comercial - de um superávit de US$ 17,36 bilhões para um déficit de US$ 1,83 bilhão - explica a maior parte da diferença, de US$ 19,19 bilhões. O resto dependeu das transações com serviços e rendas.
Maciel chamou a atenção para o descompasso entre importações e . exportações de mercadorias. Enquanto o valor gasto com produtos estrangeiros aumentou 9,35%, a receita obtida com as vendas externas diminuiu 0,93% entre 2012 e 2013. Sem avançar muito na discussão das causas, Maciel apontou, pelo menos, o aspecto mais preocupante das transações com o exterior. Para os mais otimistas, a depreciação do real e a esperada reativação do comércio internacional poderão resolver boa parte do problema, a partir do próximo ano. Examinado com um pouco mais de realismo, no entanto, o quadro parece bem mais complicado.
Empresários e alguns, economistas defenderam durante anos a desvalorização do real como principal medida para fortalecer o comércio exterior, como se o câmbio fosse o maior entrave à competitividade brasileira. Com a mesma simplicidade, passou-se a dar muita importância à crise internacional e ao enfraquecimento dos mercados. A soma dos dois problemas - desajuste cambial e comércio global mais ou menos estagnado - bastaria para explicar o pobre desempenho brasileiro.
Mas nem todos os países foram tão mal quanto o Brasil, nos últimos anos, em sua atividade comercial. Além disso, o real se depreciou sensivelmente desde o ano passado. Em tese, isso deveria baratear as exportações brasileiras e encarecer as importações, mas o desequilíbrio se acentuou, em vez de diminuir. O problema da competitividade é muito mais amplo, como já reconheceram muitos analistas, incluídos vários estrangeiros. Já se tornou lugar- comum, em relatórios de entidades multilaterais, a referência às limitações de oferta da economia brasileira - problemas como a logística deficiente, o encarecimento da mão de obra com aumentos salariais bem maiores que os ganhos de produtividade e, como há muito se sabe, a tributação incompatível com uma economia exposta à concorrência.
O relatório do BC sobre as contas externas confirma o agravamento de problemas bem conhecidos. Os estímulos ao consumo tornaram mais evidentes as deficiências da produção, pressionando os preços internos e forçando maior gasto com bens importados. Mas o governo, diante do desafio, apenas promete mais do mesmo.
Sem ser desastroso, um déficit dessa proporção já vale pelo menos como um sinal de alerta. O País terá como compensar resultados negativos ainda por algum tempo, mas será preciso impedir a piora do quadro nos próximos anos. Isso dependerá principalmente da evolução do comércio exterior. O déficit em conta corrente veio acima do esperado, disse o chefe do Departamento Econômico do BC, Túlio Maciel. De janeiro a outubro, houve uma piora de US$ 27,98 bilhões no resultado, na comparação com o número de igual período de 2012. A piora da balança comercial - de um superávit de US$ 17,36 bilhões para um déficit de US$ 1,83 bilhão - explica a maior parte da diferença, de US$ 19,19 bilhões. O resto dependeu das transações com serviços e rendas.
Maciel chamou a atenção para o descompasso entre importações e . exportações de mercadorias. Enquanto o valor gasto com produtos estrangeiros aumentou 9,35%, a receita obtida com as vendas externas diminuiu 0,93% entre 2012 e 2013. Sem avançar muito na discussão das causas, Maciel apontou, pelo menos, o aspecto mais preocupante das transações com o exterior. Para os mais otimistas, a depreciação do real e a esperada reativação do comércio internacional poderão resolver boa parte do problema, a partir do próximo ano. Examinado com um pouco mais de realismo, no entanto, o quadro parece bem mais complicado.
Empresários e alguns, economistas defenderam durante anos a desvalorização do real como principal medida para fortalecer o comércio exterior, como se o câmbio fosse o maior entrave à competitividade brasileira. Com a mesma simplicidade, passou-se a dar muita importância à crise internacional e ao enfraquecimento dos mercados. A soma dos dois problemas - desajuste cambial e comércio global mais ou menos estagnado - bastaria para explicar o pobre desempenho brasileiro.
Mas nem todos os países foram tão mal quanto o Brasil, nos últimos anos, em sua atividade comercial. Além disso, o real se depreciou sensivelmente desde o ano passado. Em tese, isso deveria baratear as exportações brasileiras e encarecer as importações, mas o desequilíbrio se acentuou, em vez de diminuir. O problema da competitividade é muito mais amplo, como já reconheceram muitos analistas, incluídos vários estrangeiros. Já se tornou lugar- comum, em relatórios de entidades multilaterais, a referência às limitações de oferta da economia brasileira - problemas como a logística deficiente, o encarecimento da mão de obra com aumentos salariais bem maiores que os ganhos de produtividade e, como há muito se sabe, a tributação incompatível com uma economia exposta à concorrência.
O relatório do BC sobre as contas externas confirma o agravamento de problemas bem conhecidos. Os estímulos ao consumo tornaram mais evidentes as deficiências da produção, pressionando os preços internos e forçando maior gasto com bens importados. Mas o governo, diante do desafio, apenas promete mais do mesmo.
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