sábado, 12 de abril de 2014

Cartas de Buenos Aires: 24 horas, por Gabriela Antunes


Era quinta-feira, mas parecia domingo. Buenos Aires parou.
Quinze milhões de pessoas que vivem na “Grande Buenos Aires” ficaram sem trem, metrô, ônibus e circulando com frota reduzida de taxi.
Manifestantes fecharam as principais rodovias de acesso à cidade, sitiando a capital. A maioria do comércio permaneceu fechada. Postos de gasolina e outros serviços básicos não funcionaram. Apenas os restaurantes mais turísticos abriram as portas.
Os portenhos observaram a greve geral com cautela, permanecendo em suas casas. A greve mobilizou plenamente o país, já que também afetou outras províncias argentinas. Apesar da tensão social, a greve geral de quinta-feira teve caráter pacifico, a despeito dos pequenos confrontos com a Guarda Nacional para liberar as rodovias.
Paisagens emblemáticas da cidade surpreenderam, como a avenida mais larga do mundo, a 9 de Julio, que normalmente quase não comporta o transito pesado do nervo central da cidade. Mas, na quinta-feira, parecia uma paisagem apocalíptica de um filme de ficção cientifica: permaneceu vazia e sozinha.

A avenida 9 de Julio ficou vazia. Foto: Télam

Por trás da paralisação está a enorme máquina sindical argentina, antes uma aliada, agora uma pedra no sapato no Governo de Cristina Kirchner.
A sociedade está dividida. Uma divisão que a própria Presidente fomentou e agora tem que viver com as consequências. Há uma disputa de poder que nem sempre é “para o bem dos trabalhadores”. Não há anjos nem demônios. No final das contas, como diria Gandhi, “olho por olho, todo o mundo termina cego”.
Para usar as palavras do Chefe da Casa Civil, Jorge Capitanich, é uma batalha de senhores feudais.
O Governo não pode mais inventar eufemismos para a inflação, a desvalorização do peso e o acréscimo da violência. Os trabalhadores se sentem esmagados pelo aumento de preços, pelos assaltos e pela tensão social gerada por uma economia que, como muitos sustentam, está deteriorada.
Por outro lado, não se pode negar a enorme pressão que sofre o Governo ao administrar um país excessivamente politizado, onde novos “líderes” populares saltam de cada esquina. São muitas forças endógenas movendo-se nas entranhas da máquina.
O “Cartas de Buenos Aires” conversou com sindicalistas que destacaram sua preocupação com os recentes ajustes que o Governo vem levando a cabo.
O medo é que o país esteja caminhando para uma situação parecida à crise de 2001, quando milhões de argentinos ficaram desempregados e o país entrou em um período de trevas, do qual ainda não se recuperou totalmente.
Exageros a parte, o que é mesmo palpável é a tensão social das últimas semanas. O resto é um balaio de gato de fatos e versões.

Gabriela G. Antunes é jornalista e nômade. Cresceu no Brasil, mas morou nos Estados Unidos e Espanha antes de se apaixonar por Buenos Aires. Na cidade, trabalhou no jornal Buenos Aires Herald e hoje é uma das editoras da versão em português do jornal Clarín. Escreve aqui todos os sábados.

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