domingo, 26 de agosto de 2012

Tempo para entender



Foi na fronteira entre dois países europeus. Uma família brasileira parou e entregou uma série de passaportes do casal e de seus filhos de vários casamentos. Ela estava no segundo, e ele, no terceiro. O policial perguntou à mulher: “Você diz que é a mesma família, mas cada um tem um nome. Você pode me explicar?” Ela respondeu: “Sim, posso. O senhor tem tempo?”
Hoje é preciso tempo para entender as famílias. Uma revolução aconteceu nas últimas décadas dentro dos lares brasileiros. Os demógrafos José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi fizeram um estudo recente, com base no Censo de 2010, e confirmam “a complexidade e a diversidade das relações familiares do Brasil contemporâneo”.
O Brasil tem mudado de forma espantosa. Desde o primeiro Censo, em 1872, a população aumentou 20 vezes. Em 1950, havia apenas 19 milhões de brasileiros morando nas cidades. Antes de 1970, o número de filhos por mulher era mais de seis, agora está abaixo de dois, menos que a taxa de reposição. Até 1940, havia mais homens que mulheres no Brasil. Hoje, o superávit de mulheres aumenta a cada pesquisa. Em 20 ou 30 anos, a população brasileira vai parar de crescer. Depois, diminuir.
O conceito de família está no meio de um redemoinho. Ao longo das décadas, caiu o índice de casamentos civil e religioso, e aumentou o número de uniões consensuais e os outros arranjos. A queda da fecundidade da mulher ocorreu em todas as décadas até os anos 90. Naquela década aumentou em apenas uma faixa: de 15 a 19 anos. Já voltou a cair, mesmo assim a maternidade na adolescência é muito maior no Brasil do que em inúmeros países, como Estados Unidos, Irã, Arábia Saudita. É preocupante. A maternidade precoce costuma sacrificar mãe e filho.
O estudo conta que em algumas pesquisas feitas para se avaliar o comportamento sexual brasileiro encontram-se fatos como: a proporção de homens que dizem ter mais de uma parceira é cinco vezes maior do que a de mulheres.
Comparando-se os censos, o percentual de domicílios com casal com filhos caiu. Já o de sem filhos aumentou. Subiu o número de famílias com apenas a mãe no comando. Crescem também os casos de apenas o pai no comando, mas são mais raros.
Todo arranjo familiar tradicional tem caído; todas as novas formas de organização familiar têm aumentado. Crescem os casos em que ambos trabalham e decidem não ter filhos. Em inglês, esse tipo de casal é chamado de Dink (Double Income, No Kids). Em português, Dinc (Duplo Ingresso, Nenhuma Criança).
As estatísticas estudadas por Suzana e José Eustáquio mostram coisas estranhíssimas. Por exemplo: quanto maior o número de filhos, menor o tempo que os maridos dedicam aos afazeres domésticos. O peso recai inteiramente sobre a mulher. Nos casais Dinc, eles assumem mais as tarefas do lar.
Os dois demógrafos, autores do estudo que li para esta coluna, são casados. Ela não tem filhos; ele tem dois, do primeiro casamento. Como nas pesquisas a pergunta sobre filhos é feita à mulher, eles entram na estatística como casal em que ambos trabalham e não tem filhos. “Somos o falso Dinc”, brinca José Eustáquio.O meu neto do meio, Daniel, de dois anos, anda se esforçando para entender as relações humanas. Outro dia me perguntou pelo meu avô. Eu disse que ele queria se referir ao avô dele — meu marido. “Vovô é o pai do tio Vla?”, perguntou de novo. Disse que não, que é o padrasto. Isso o confundiu, e ele fez mais uma pergunta: “Você é irmã do tio Vla?” Respondi que não, que sou a mãe. Daniel continua intrigado. Precisa de tempo para entender.

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