quinta-feira, 16 de maio de 2013

Cartas de Paris: A árdua tarefa de governar um povo difícil



Ana Carolina Peliz
Passou tão rápido que nem sentimos. François Hollande completou um ano no poder. Para seu primeiro aniversário, o presidente francês ganhou de presente uma recessão e a antipatia do povo que governa. Sua popularidade atingiu o fundo do poço nesta semana.
Pobre Hollande, que tem por missão governar o povo mais difícil do mundo. E não sou eu que digo isso, são os próprios franceses que reconhecem em um admirável exercício de autocrítica. Mal-acostumados, dependentes do estado, inflexíveis e até preguiçosos, os franceses são criticados por todos os vizinhos europeus. Mas na verdade, as críticas escondem um respeito e, até mesmo, um certo temor.
O respeito pelo povo francês vem da época da Revolução Francesa. Hoje em dia é difícil mesurar o choque causado por este fato histórico, mas imaginem o pânico das monarquias europeias ao ver as cabeças coroadas da corte mais faustuosa do mundo rolando na lama da praça da Revolução (atualmente Concorde), em meio a uma multidão raivosa. Poucas revoluções na história da humanidade foram tão violentas.

François Hollande, presidente da França

Mas as revoltas não pararam por aí. Depois veio a Comuna de Paris, em 1871, um movimento republicano, popular e proletário, uma vez mais contra os privilégios dos monarcas do Segundo Império.
Já em 1968, estudantes franceses foram responsáveis por um dos mais importantes movimentos por reformas sociais, culturais e políticas. Eles arrancaram os paralelepípedos das ruas do turístico Quartier Latin e criaram barricadas onde resistiram dias em uma verdadeira guerra urbana. O movimento foi em grande parte responsável pela queda do presidente Charles de Gaulle.
Mais recente, em 2005, jovens da periferia de Paris e de outras cidades incendiaram carros e ônibus para chamar a atenção do governo para problemas como moradia, desemprego e exclusão social.
Muitas cidades francesas arderam durante dias e o governo percebeu que teria que lidar com estes novos excluídos.
Todos estes marcos, mais que históricos, ajudaram a construir a reputação dos franceses de povo difícil de governar. Hollande está agora em uma situação difícil: deve promover reformas e, ao mesmo tempo, proteger seu pescoço. Já que na França, ao contrário de outros países, manda quem pode e o governante que tem juízo obedece.

Ana Carolina Peliz é jornalista, mora em Paris há cinco anos onde faz um doutorado em Ciências da Informação e da Comunicação na Universidade Sorbonne Paris IV. Ela escreve aqui todas as quintas-feiras.

Nenhum comentário:

Postar um comentário