sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Assad deve receber oferta de exílio em troca de deixar o poder em Damasco


02.fevereiro.2012 16:56:14

no twitter @gugachacra


Paralelamente às negociações de uma resolução contra o regime sírio no Conselho de Segurança da ONU, tem ganho força uma estratégia para encerrar a crise na Síria usando os acontecimentos do Iêmen como molde.
Assim como o líder iemenita Abdullah Saleh, Bashar Assad teria a imunidade garantida e poderia ir para o exílio em troca de deixar o poder. Para o líder sírio, seria um cenário certamente melhor do que o de Hosni Mubarak, atrás das grades, ou de Muamar Kadafi, morto. Viveria como Ben Ali, da Tunísia – sem poder, mas vivo e livre.
Com sua saída, seu vice assumiria o poder e, em coordenação com membros da oposição, comandaria a Síria em direção para a democracia. Ao mesmo tempo, a violência seria encerrada em um cessar-fogo. No campo externo, a Rússia teria garantias de que ninguém colocará obstáculos para a manutenção de sua base em Tartus.
Sem dúvida, no papel, uma estratégia boa, em que todos saem ganhando de alguma forma. Na prática, porém, o cenário é bem mais complicado.
Primeiro, tem a questão de Assad. Ele talvez aceitasse sim esta opção, especialmente diante da pressão de sua mulher, Asma. Porém quem disse que as pessoas ao redor dele concordariam, incluindo o seu irmão Maher? Bashar poderia ser alvo de um golpe da linha dura do regime.
E, neste momento, entramos no segundo ponto. Assad é apenas o líder de um regime com diversos tentáculos repletos de interesses que não incluem ideais democráticos. Mesmo sem ele, os demais pilares do regime tentariam manter o status quo ou lutariam até a morte para evitar mudança.
Terceiro, a violência na Síria atingiu um patamar além do surreal. Crianças são mortas e torturadas mesmo, não é exagero. O regime usa práticas que deixam até mesmo as forças de segurança iranianas e argelinas chocadas. Apesar de muitos membros da oposição serem genuinamente pacíficos, existem grupos armados que adotam as mesmas táticas das forças de segurança. A dinâmica de ataques e contra-ataques se tornou uma espiral e não há muito como interrompê-la. Já está no ponto de não retorno, como o Líbano no passado. Virou um conflito sectário.
De qualquer forma, ainda assim acho positiva esta tentativa de saída para crise, embora lamente que os membros do regime, como Assad, não venham a ser julgados pelo Tribunal Penal Internacional de Haia. Além disso, sou extremamente cético em relação à Síria e, como escrevi aqui diversas vezes, mantenho o prognóstico de que teremos meses ou mesmo anos de uma guerra civil de baixa intensidade, de viés cada vez mais sectários (alauítas e cristãos contra sunitas) e milhares de mortos especialmente depois de os choques chegarem a Damasco e Aleppo. Mas quem sabe eu esteja errado.
Obs. Cada vez mais acho que o risco de golpe dentro do regime cresce na Síria. Em outro post, abordarei o assunto.

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