sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O Enem não é a última cartada


João Batista Libânio
Toda avaliação sofre de ambiguidade de ambos os lados, quer da parte dos que a promovem, quer dos que a ela se submetem. O Enem tornou-se a maior avaliação acadêmica no fim do primeiro grande ciclo de estudos. O adolescente, antes de encetar o curso superior, passa pelo crivo dessa prova. Ao prepará-la, os professores organizam questões que visam a testar certo tipo de conhecimento e de inteligência. Nem todos os alunos cabem bem dentro de tais parâmetros.
A história humana nos mostrou casos extremos de gênios, como Einstein, que fracassaram em face de alguns exames. No mundo da teologia, K. Rahner, o maior teólogo católico do século passado, viu reprovada sua primeira tese doutoral em filosofia. Certamente, quem o fez distava dele anos-luz em inteligência e conhecimento.
Bom recordar tais fatos para que, tanto os bem-agraciados no exame, quanto os menos afortunados, não se julguem nenhum dos extremos. Quando lanço um olhar para colegas e alunos brilhantes nos anos escolares e pergunto-me pelas realizações profissionais, nem sempre ambas sintonizam. Uns brilharam alguns anos como criança e adolescente e depois se apagaram na idade adulta. Outros, no entanto, que não fulguraram nos primeiros passos, alcançaram renome em atividades importantes.
A VERDADE DO JOVEM
A inteligência em exames não revela nem de longe toda a verdade do jovem. Potencialidades e defeitos permanecem intocados. Amanhã acordam as valências positivas e o jovem, hoje menos vitorioso, desponta na idade adulta. O contrário infelizmente sucede. Alguém que triunfou no Enem acontece ter fim trágico ou perder-se na noite interior e não render para si nem para a sociedade.
Com tal duplo olhar, cabe atitude de cautela e de esperança. Cautela para o vencedor, a fim de que não se perca na ilusão da vitória e muito menos se deixe vender pela propaganda. Tantos como ele se desviaram pelos descaminhos da vida. Estão aí patinando na mediocridade não vencida. E quem for infeliz nos exames, não mergulhe na noite da depressão. Saiba que na vida, amanhã, ele mesmo pode superar esse momento de fracasso que não lhe diz nenhuma palavra definitiva sobre o destino e o futuro.
Jovens e família não se inebriem nem se frustrem com os resultados. A vitória alegra, mas não é tudo. O insucesso dói, mas não mata. Ambos têm diante de si o futuro a ser construído na constância, na ética e na saída de si para os outros.
As experiências mais belas e carregadas de felicidade não brotam da glória e do êxito que vêm de fora, dos aplausos, mesmo da própria família. Saem de dentro do coração de quem vivenciou fazer um outro feliz. Só há profunda felicidade humana quando a partilhamos com outros que também se alegram conosco. As vitórias nas disputas, na concorrência, na competição explodem no momento. Duram o tempo do pipocar do foguete. Mas aquelas que significam o encontro com o outro, a partilha mútua da própria alegria e até mesmo da tristeza pacificam bem fundo o coração humano. Qual seja o resultado do Enem, satisfatório ou não, não está jogada a última cartada que está sempre por vir. (transcrito de O Tempo)

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