quinta-feira, 11 de julho de 2013

Evo Morales, prisioneiro por algumas horas

 Ricardo Noblat - 
11.7.2013
 | 8h00m
COMENTÁRIO


O sinal vermelho foi acionado ainda durante a noite do último dia dois pelos presidentes da Argentina, Equador e Venezuela.
Por meio do twitter, eles fizeram circular a informação de que o jato número 1 da Bolívia, conduzindo o presidente Evo Morales, acabara de fazer um pouso de emergência em Viena, capital da Áustria, depois de ter sido proibido de sobrevoar pelos respectivos governos os territórios da Itália, França, Espanha e Portugal rumo a La Paz.
A presidente Dilma Rousseff solidarizou-se com Morales somente cinco horas depois. Ou dormia, ou não fora informada a respeito mais cedo ou tinha mais o que fazer.

O avião do presidente Evo Morales

O comportamento infame dos governos europeus que pôs em risco a vida de Morales foi o dado recente mais revelador de sua escandalosa submissão aos interesses dos Estados Unidos. Morales voltava a La Paz depois de uma visita de poucos dias a Rússia.
Soubera que em um dos aeroportos de Moscou estava retido Edward Snowden, 27 anos, o ex-funcionário terceirizado de uma agência de segurança norte-americana que denunciara a espionagem massiva praticada pelo governo do seu país.
Agências de notícias davam conta do desejo de Snowden de se asilar na América do Sul, bem como da ameaça feita pelo governo dos Estados Unidos à comunidade internacional: o país que acolhesse Snowden sofreria retaliações.
Mas Morales não recebera nenhum pedido de asilo. Nem sequer estivera com Snowden em Moscou. Antes que seu avião decolasse, soube que o governo de Portugal proibira o sobrevoo do seu território. Encaixou-se às pressas uma escala na Espanha para abastecimento.
A poucos minutos do avião entrar no espaço aéreo francês, o coronel-aviador Celiar Arispede, Comandante do Grupo Aéreo Presidencial, acercou-se de Morales e comentou preocupado: “Cancelaram a permissão e não podemos mais ingressar no espaço aéreo da França”.
O regresso a Moscou foi descartado. O avião não tinha combustível suficiente para tanto. A Itália também proibira o sobrevoo do seu território. Restou a Áustria. Que atendeu prontamente ao pedido de pouso de emergência em Viena.
Ali, Morales e sua pequena comitiva foram recepcionados pelo presidente da Áustria e o primeiro ministro. Ganharam um escritório para despachar. E, em seguida, a inesperada visita do embaixador da Espanha, Alberto Carnero, portador de outra má notícia: o avião de Morales poderia abastecer em Las Palmas, na Espanha. Antes, porém, teria que ser inspecionado.
- Por que?- perguntou Morales. Carnero falou de Snowden. Morales negou que o conhecesse. “Não tenho por que leva-lo para a Bolívia”, argumentou.
O embaixador saiu para consultar por telefone o Secretário de Estado da Espanha. Ao voltar, disse a Morales que havia um acordo de chanceleres para que o avião fosse inspecionado.
“Se o senhor não acredita no que lhe digo, que não levo ninguém para a Bolívia, então pensa que o presidente Evo é mentiroso”, respondeu Morales. Outra vez o embaixador saiu para conversar com o seu superior. E na volta propôs: “O senhor poderia me convidar para tomar um cafezinho no avião”.
Morales endureceu: "O senhor me trata como um deliquente? Pois não sou. E o senhor não inspecionará o avião do presidente da Bolívia. Se quiser fazê-lo à força não terei como resistir”.
O embaixador saiu assustado para fazer novas consultas. De volta, pediu a Morales que falasse com o Secretário de Estado da Espanha. “Se querem falar comigo que me ligue seu presidente”, devolveu Morales.
“Não podemos autorizar seu voo. Às nove horas da manhã lhe informaremos se o voo será possível ou não. Vamos falar com nossos amigos”, concluiu o embaixador.
O boliviano quis saber que amigos eram esses. O espanhol foi embora sem identificá-los. Pouco antes das nove horas da manhã, o embaixador reuniu-se novamente com Morales. A escala em Las Palmas fora autorizada.
Enquanto Morales permaneceu em Viena, a embaixada dos Estados Unidos em La Paz apresentou ao governo boliviano um pedido de extradição de Snowden. O pedido foi imediatamente negado.
José Manoel Garcia-Margallo, ministro espanhol de Negócios Estrangeiros, confirmou anteontem o que o governo norte-americano negara na semana passada: foi, sim, uma intervenção dos Estados Unidos que levou a Espanha a retardar a continuação do voo de Morales para La Paz.
(Com informações da imprensa boliviana, do jornal espanhol El País e do francês Le Figaró)


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