sábado, 11 de maio de 2013

Murici, a cidade onde a família de Renan Calheiros manda há 30 anos — e chafurda nos piores indicadores sociais e econômicos



SÓ POBREZA -- Portelinha: favelados dependem da prefeitura (Foto: Manoel Marques)
SÓ POBREZA -- Portelinha: favelados dependem da prefeitura (Foto: Manoel Marques)
Reportagem de Gabriele Jimenez, publicada em edição impressa deVEJA
PARADA NO TEMPO
Murici, a cidade onde a família do senador Renan Calheiros se reveza no poder, é privilegiada em verbas federais, mas boa parte da população ainda vive na miséria
Município de 27 000 habitantes situado a 50 quilômetros de Maceió, Murici frequenta com certa assiduidade o noticiário nacional por três motivos – todos lamentáveis: inundações devastadoras, escândalos de desvio de dinheiro público e o fato de sempre ter na prefeitura, em esquema de revezamento, políticos de sobrenome Calheiros.
A família domina há mais de trinta anos (21 deles ininterruptos) a administração municipal, muito embora seu filho mais famoso, o presidente do Senado, Renan Calheiros, 57 anos, só apareça por lá em campanha ou em dia de inauguração. Chafurdado em alguns dos piores indicadores socioeconômicos do Brasil – até mesmo para os padrões alagoanos -, Murici é o resultado da velha política assistencialista, cujas raízes remontam ao coronelismo.
Um terço dos moradores não sabe ler nem escrever, 65% dependem do Bolsa Família para sobreviver e o Índice de Desenvolvimento Humano rasteja em 0,58 (numa escala que vai de 0 a 1). Uma das maiores escolas públicas muricienses, com 560 alunos, funciona em salas de chão de terra separadas por tapumes. As crianças saem uma hora mais cedo porque a escola não oferece merenda. O problema não parece ser, nesse caso, de miséria. Um processo que aponta irregularidades nas verbas de merenda na cidade já chegou ao Supremo Tribunal Federal.
O assunto que alvoroça os moradores é o destino de mais de 2000 ca­sas construídas com verba federal de 95 milhões de reais. Na teoria, seriam destinadas às famílias desalojadas na enchente de 2010, que deixou quase 10000 desabrigados e nove mortos. Na prática, não tem sido assim.
Prefeito de Murici, Remi (entre Renan, à esq., e Olavo Neto) (Foto: Manoel Marques)
Prefeito de Murici, Remi (entre Renan, à esq., e Olavo Neto) (Foto: Manoel Marques)
As casas estão prontas: são dois conjuntos habitacionais novinhos, o Olavo Calheiros – patriarca do clã e primeiro a fincar pé no poder, ao assumir a prefeitura, em 1980 – e o Pedro Raposo Tenório, de família aliada política dos Calheiros.
A maioria desses imóveis foi distribuída segundo critérios duvidosos, que quase sempre privilegiam os mais próximos do poder. O Ministério Público Federal determinou à prefeitura que refaça a lista de cadastrados levando em conta critérios menos clientelistas.

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