quinta-feira, 11 de julho de 2013

Deputados e ministros suíços andam de ônibus ou de trem


Autoridades do país só podem usar helicóptero com permissão especial

Pergunte ao advogado Olivier Wasmer, ex-político da Suíça -- um dos países mais ricos do mundo – o que ele ganhou de privilégio durante os seus quatro anos de mandato como deputado do partido Union Démocratique du Centre (UDC) no cantão de Genebra, entre 2005 e 2009.

_ Ganhei entrada grátis TPG (sigla para Transporte Público de Genebra) e direito a colocar meu carro de graça no estacionamento Saint Antoine, mas só nos dias de sessão (do parlamento local). É chocante para um político suíço ver o tipo de vida e as enormes despesas de representação dos políticos brasileiros ou franceses - comenta. ...

Na Suíça, é comum ver um ministro ou deputado num ônibus ou no trem. E a regra vale todos – de ministro à deputado local: helicóptero, só quando não tiver outro jeito. Nos grandes deslocamentos, entre o trem e um helicóptero do governo, a praxe é sempre o trem. Segundo Wasmer, autoridades suíças precisam de autorização de órgãos competentes para utilizar helicópteros. Em 2001, uma polêmica estourou no país quando descobriu-se que a conselheira federal Ruth Meztler (então, uma das sete ministras que governam o país) usou regularmente um helicóptero das Forças Armadas para se deslocar de Berna (capital suíça) para Appenzell, seu cantão, nos fins-de-semana.

Mais recentemente, o magistrado Pierre Maudet, conselheiro de estado em Genebra, foi obrigado a explicar porque usou um helicóptero das Forças Armadas para ir à Davos saudar o trabalho dos policiais responsáveis pela segurança do Fórum Mundial de Davos, em janeiro. Foi uma viagem à trabalho, mas que custou 10,600 francos suíços (cerca de R$ 25,2 mil ) no lugar de 425 francos suíços (cerca de R$ 1 mil ) – o custo de um lugar na primeira classe do trem. Quando o uso é privado, a polêmica é maior ainda :

_ Um autoridade política na Suíça não pode usar como quiser de benefícios do cantão ou da confederação (Confederação Suíça, o governo federal) para fins pessoais. Isso é uma evidência. Se uma autoridade usa carro oficial ou helicóptero sem autorização, e alguém contesta, isso pode acabar numa denúncia judiciária – explica Wasmer, que foi membro do conselho de gestão no parmamento de Genebra.

Na Suíça, a virtude dos que gastam e abusam menos dos privilégios do poder é destacada nos jornais, como exemplo. O jornal Neue Zurcher Zeitung, na sua edição do dia 10, contou que Yves Rossier, secretário de estado para assuntos estrangeiros (o equivalente à ministro das Relações Exteriores) dispensou carro oficial para viajar de trem da capital para um encontro com a imprensa em Genebra. E e ainda pegou ônibus.

A vizinha França, bem menos criteriosa nos gastos, se viu às voltas com várias polêmicas sobre gastos dos ministros. Em 2010, o então presidente Nicolas Sarkozy, anunciou uma série de normas : ministros seriam obrigados a pagar por seus gastos privados, sob pena de sanções, teriam que privilegiar o uso de trem para seus deslocamentos na França, se hospedar nas embaixadas da França no exterior para não gastar com hotéis, teriam que reduzir o número de assistentes à 20 pessoas, no máximo, além da supressão de vários carros oficiais. Mas eram medidas que o próprio Sarkozy já havia anunciado em 2007, e que não eram respeitadas. Alguns ministros economizaram, sim, mas à custa dos outros: o último escândalo de seu governo foi protagonizado pela então ministra das Relações Exteriores, Michèle Alliot-Marie. Para passar férias na Tunísia, ela usou o jato de um amigo do então ditador Ben-Ali, em pleno início da revolta no país que derrubou o governo.

Por Deborah Berlinck
Fonte: O Globo - 11/07/2013

Fracasso do Dia Nacional de Lutas


Errando o alvo


Encerrado o “Dia Nacional de Lutas”, o balanço dos protestos que ocorreram em várias cidades brasileiras nesta quinta-feira (11) pode ser considerado pífio, apesar de em alguns locais os manifestantes terem bloqueado trechos de rodovias, prontamente liberada por policiais. O objetivo do movimento era promover uma paralisação geral em todo o País, uma utopia se considerado o fato de que o contratante foi o próprio governo de Dilma Rousseff.

Pode-se concluir após esse dia de protestos encomendados que o mundo sindical, suposto esteio da manifestação, já não conta com a obediência burra de seus filiados. Ou seja, há uma grave crise de representatividade na seara dos sindicatos, que nas últimas décadas produziram escárnios que são verdadeiras afrontas ao trabalhador.

Diante do fracasso do “Dia Nacional de Lutas”, integrantes do governo do PT comemoraram o resultado, pois os pelegos que foram às ruas para protestar cumpriram o combinado e deixaram de lado os gritos de “Fora Dilma!”. Apenas o sindicalista e dublê de deputado federal Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força, saiu às ruas da cidade de São Paulo exigindo a imediata saída de Dilma e do ministro Guido Mantega (Fazenda). Leia mais

Fonte: Ucho.info - 11/07/201

Evo Morales, prisioneiro por algumas horas

 Ricardo Noblat - 
11.7.2013
 | 8h00m
COMENTÁRIO


O sinal vermelho foi acionado ainda durante a noite do último dia dois pelos presidentes da Argentina, Equador e Venezuela.
Por meio do twitter, eles fizeram circular a informação de que o jato número 1 da Bolívia, conduzindo o presidente Evo Morales, acabara de fazer um pouso de emergência em Viena, capital da Áustria, depois de ter sido proibido de sobrevoar pelos respectivos governos os territórios da Itália, França, Espanha e Portugal rumo a La Paz.
A presidente Dilma Rousseff solidarizou-se com Morales somente cinco horas depois. Ou dormia, ou não fora informada a respeito mais cedo ou tinha mais o que fazer.

O avião do presidente Evo Morales

O comportamento infame dos governos europeus que pôs em risco a vida de Morales foi o dado recente mais revelador de sua escandalosa submissão aos interesses dos Estados Unidos. Morales voltava a La Paz depois de uma visita de poucos dias a Rússia.
Soubera que em um dos aeroportos de Moscou estava retido Edward Snowden, 27 anos, o ex-funcionário terceirizado de uma agência de segurança norte-americana que denunciara a espionagem massiva praticada pelo governo do seu país.
Agências de notícias davam conta do desejo de Snowden de se asilar na América do Sul, bem como da ameaça feita pelo governo dos Estados Unidos à comunidade internacional: o país que acolhesse Snowden sofreria retaliações.
Mas Morales não recebera nenhum pedido de asilo. Nem sequer estivera com Snowden em Moscou. Antes que seu avião decolasse, soube que o governo de Portugal proibira o sobrevoo do seu território. Encaixou-se às pressas uma escala na Espanha para abastecimento.
A poucos minutos do avião entrar no espaço aéreo francês, o coronel-aviador Celiar Arispede, Comandante do Grupo Aéreo Presidencial, acercou-se de Morales e comentou preocupado: “Cancelaram a permissão e não podemos mais ingressar no espaço aéreo da França”.
O regresso a Moscou foi descartado. O avião não tinha combustível suficiente para tanto. A Itália também proibira o sobrevoo do seu território. Restou a Áustria. Que atendeu prontamente ao pedido de pouso de emergência em Viena.
Ali, Morales e sua pequena comitiva foram recepcionados pelo presidente da Áustria e o primeiro ministro. Ganharam um escritório para despachar. E, em seguida, a inesperada visita do embaixador da Espanha, Alberto Carnero, portador de outra má notícia: o avião de Morales poderia abastecer em Las Palmas, na Espanha. Antes, porém, teria que ser inspecionado.
- Por que?- perguntou Morales. Carnero falou de Snowden. Morales negou que o conhecesse. “Não tenho por que leva-lo para a Bolívia”, argumentou.
O embaixador saiu para consultar por telefone o Secretário de Estado da Espanha. Ao voltar, disse a Morales que havia um acordo de chanceleres para que o avião fosse inspecionado.
“Se o senhor não acredita no que lhe digo, que não levo ninguém para a Bolívia, então pensa que o presidente Evo é mentiroso”, respondeu Morales. Outra vez o embaixador saiu para conversar com o seu superior. E na volta propôs: “O senhor poderia me convidar para tomar um cafezinho no avião”.
Morales endureceu: "O senhor me trata como um deliquente? Pois não sou. E o senhor não inspecionará o avião do presidente da Bolívia. Se quiser fazê-lo à força não terei como resistir”.
O embaixador saiu assustado para fazer novas consultas. De volta, pediu a Morales que falasse com o Secretário de Estado da Espanha. “Se querem falar comigo que me ligue seu presidente”, devolveu Morales.
“Não podemos autorizar seu voo. Às nove horas da manhã lhe informaremos se o voo será possível ou não. Vamos falar com nossos amigos”, concluiu o embaixador.
O boliviano quis saber que amigos eram esses. O espanhol foi embora sem identificá-los. Pouco antes das nove horas da manhã, o embaixador reuniu-se novamente com Morales. A escala em Las Palmas fora autorizada.
Enquanto Morales permaneceu em Viena, a embaixada dos Estados Unidos em La Paz apresentou ao governo boliviano um pedido de extradição de Snowden. O pedido foi imediatamente negado.
José Manoel Garcia-Margallo, ministro espanhol de Negócios Estrangeiros, confirmou anteontem o que o governo norte-americano negara na semana passada: foi, sim, uma intervenção dos Estados Unidos que levou a Espanha a retardar a continuação do voo de Morales para La Paz.
(Com informações da imprensa boliviana, do jornal espanhol El País e do francês Le Figaró)


Deslocamentos: a Flip e o mix pós-tudo, por Mara Bergamaschi


Estive, como outras 20 mil pessoas, na última Flip. Não fui como jornalista (cobri sozinha uma vez e fiquei traumatizada), muito menos como autora (de pequena e séria editora). Ainda sob impacto cívico das jornadas de junho, quando o controle remoto só se satisfazia com imagens das ruas (viciei até no Marcelo Rezende), cheguei a Paraty para acompanhar alguns debates.
Só que, para meu espanto, hesitava em trocar a política - minha primeira e amortecida paixão profissional -, pela literatura – a atual. Enquanto tentava me reorientar, ouvi de amigos inteligentes (e reencontrei tantos, saídos do Facebook!) a primeira frase-síntese: “Estamos todos deslocados.”
Percebi que, como eu, boa parte dos que estavam lá ainda perambulava pelas passeatas que nunca se dispersam - continuam a se mover, indisciplinadas e libertas, pelo território interior, derrubando muros e marcos.
Depois, ouviria a segunda frase, que cairia como uma luva para mim, não só nos dias de hoje, mas, confesso, há uma boa década: “estou sem identidade”. E repeti a confidência, feita por alguém que ele conhecia muito bem, na hora de responder ao convite de Ricardo Noblat para colaborar neste prestigioso blog. ”Você sabe, também estou assim sem identidade”. Evadia-me, mas sinceramente.

Paraty

A lista de nuances existenciais iria além de meio esquerda e meio direita: meio repórter, meio escritora, meio frila, meio internauta, meio fato e análise, meio crônica e ficção (e mezzo rúcula/calabresa, pois em Paraty pizza era a única comida mais ou menos fácil). “Você precisa é escrever mais”, sentenciou Noblat, acrescentando que estabelecera (ai!) um primeiro contato extrassensorial com as páginas do meu romance.
Ao longo da semana, veria, aliviada, o mix política-literatura que me afligia prevalecer sem confusões na 11ª Flip. Além de perpassar vários debates, o tema ganharia três excelentes mesas-extras sobre as manifestações e sua cobertura jornalística. Na última plenária, experimentaria enfim a plenitude da identificação! Quis fazer a plaquinha de cartolina: Marcos Nobre (o filósofo) me representa!
Antes disso, ouvi dos ninjas da internet: “a mídia acabou, caducou”. O impacto do veredicto diminuiu quando me lembrei dos muitos obituários da opinião pública - hoje vivíssima.
Não vejo nas ruas ou nas redes, que reeditam sagaz e velozmente o noticiário, a decretação cabal da inutilidade da imprensa. Mas acho que exigem sim do jornalista profissional, jovem ou maduro, o exercício mais contundente de sua função social. Uma boa polêmica pós-tudo para nós, escrevinhadores e leitores.

Mara Bergamaschi é jornalista e escritora. Foi repórter de política do Estadão e da Folha em Brasília. Hoje trabalha no Rio, onde publicou pela 7Letras “Acabamento” (contos,2009) e “O Primeiro Dia da Segunda Morte” (romance,2012). É co-autora de “Brasília aos 50 anos, que cidade é essa?” (ensaios,Tema Editorial,2010). 

charge de Néo Correia



Cartas de Paris: Paris e sua periferia, por Ana Carolina Peliz


Em volta de Paris existem várias cidadezinhas. As mais próximas formam a chamada petite couronne (pequena coroa) e as mais distantes, a grande couronne (grande coroa), que “coroam” a capital e formam a grande Paris, que tem mais de 11 milhões de habitantes.
Muitas pessoas que moram nos departamentos limítrofes, trabalham ou estudam em Paris e vice-versa. As cidades que formam este conglomerado, recebem o nome de banlieueem francês, que muitos traduzem como periferia. Se em português, o termo é usado para indicar bairros mais populares, na França, a palavra adquire outros sentidos.
A periferia de Paris é bastante heterogenia, algumas cidades são ricas, com casas grandes e áreas verdes, onde moram famílias de classe média alta. Outras reúnem vários blocos de apartamentos sociais, alguns insalubres, onde se apinham imigrantes e todos os tipos de renegados da sociedade francesa. Outras, ainda, são zonas rurais onde os moradores vivem em pequenas chácaras ou cidades tranquilas.

Foto: Arnau Bach

Existe uma diferença flagrante entre Paris e sua vizinhança. Começando pelo transporte público. O metrô, que funciona como um traço unificador, ultrapassa um pouco os limites da cidade e chega em algumas afortunadas vizinhas. Mas normalmente, para alcançá-las é necessário enfrentar trens que vivem em greve e não são sempre seguros.
Os que têm carro, enfrentam diariamente horas de engarrafamento no Boulevard périphérique para chegar ao trabalho. O périph, como é conhecido o grande anel viário de Paris, delimita impiedosamente quem está dentro e quem está fora.
Viver na periferia não é fácil, não só pelas condições de transporte, mas porque as comparações com Paris se fazem sempre presentes. Muitos banlieusards são ex-parisienses, que tiveram que se mudar procurando superfícies maiores, por preços menores, após o nascimento dos filhos.
Normalmente as conversas com estas pessoas são carregadas de nostalgia e de explicações, “é muito bom ter mais espaço”, “a cidade é cheia de áreas verdes”, “é melhor para as crianças”.
Pobre banlieue parisiense que não tem culpa de sua triste sorte: a de viver eternamente à sombra de Paris.

Ana Carolina Peliz é jornalista, mora em Paris há cinco anos onde faz um doutorado em Ciências da Informação e da Comunicação na Universidade Sorbonne Paris IV. Ela escreve aqui todas as quintas-feiras.

CHARGE DO PAIXÃO


Esta charge do Paixão foi feita originalmente para o