domingo, 2 de setembro de 2012

Pequenas injustiças


Marcio Alemão

Refogado

01.09.2012 11:41


Releio O Amor nos Tempos do Cólera, de Gabriel García Márquez. Na tevê estamos em tempos de propaganda eleitoral gratuita. Li, há meses, que Gabo está sofrendo de demência senil. Peço desculpas, mas em muitas, e não poucas nem em ditas certas horas, me vejo dominado pela nostalgia. Vou longe. Volto aos tempos em que um dia de chuva no meio de um feriado ou uma pergunta cabeluda na prova de matemática não tinha outro culpado que não Ele, imediatamente era por mim acusado de injusto. Voltei, pois, a essa prática ao ver o mencionado horário eleitoral enquanto lia O Amor… Pergunto: “Por que Ele? O Senhor já deu uma olhadinha no que está passando na tevê?”
Na barraca vencedora da competição, clientes se deliciavam com o prêmio, bem melhor que o pastel. Ilustração: Ricardo Papp
Certamente tivesse Ele tempo para responder aos milhões de perguntas inúteis que Lhe são feitas a cada minuto me diria: “Presta atenção em todos os candidatos, moleque! Achas que só o Gabo desse mal padece?!” E na sequência imagino aquela risada tonitruante fazendo tremer a Terra.
Ainda sobre supostas injustiças, abro o jornal e me informam que mais uma vez aconteceu o tal concurso que elege o melhor pastel de feira da cidade. Em São Paulo podemos dizer que virou tradição. Campanha não fazem, os candidatos. Poderiam fazer? Sendo eu um assíduo frequentador da feira que abriga a barraca vencedora, a do Pastel Kyoto, diria que algumas promessas seriam interessantes: “Prometemos punir fisicamente os comedores que ainda insistem em jogar o papel que envolve o pastel no chão. Prometemos vaiar quem pede aquele pastel especial que tem o tamanho de um colchão de solteiro e que vem recheado com tudo que tem na feira, incluindo borrachas de panela de pressão. Prometemos trocar o óleo da fritura mais constantemente etc.” Detalhes singelos, promessas que se não fossem cumpridas não nos trariam grandes prejuízos.
Mas essa eleição carrega um aspecto que me parece injusto. Na verdade não posso dizer que seja injusto, mas não é legal. Uma barraca ao lado da outra. A do meio foi a vencedora. E como ficam as demais? Tenho visto o que acontece com as demais. Algumas já conseguiram o caneco em outras feitas. Logo, o prêmio emoldurado anuncia que foram laureados em determinado ano e isso ameniza o prejuízo. Mas aquela barraca que ainda não levou nada tende a se afundar cada vez mais.
Raras vezes vou na campeã. Na semana passada fui. Não era a do Kyoto. Haviam eles vencido outro concurso organizado por outro veículo. Em tempo, se bobear passam a vida participando de concursos.
Imaginaram o potencial de uma feira livre? No Pacaembu é até possível eleger o melhor vendedor de talão de Zona Azul. Quer apostar que vai ter o sujeito fortinho com camiseta Hollister três números menor que só vai comprar do vencedor? E sobre essa nova turma de estranho gosto, uma passagem no O Amor… a define de maneira definitiva. Quem o faz é um tio casca grossa de Florentino Ariza, Leão XII Loayza, quando acusado de ser rico: “Rico não: sou um pobre com dinheiro, o que não é o mesmo.”
E volto à feira. Com efeito, o pastel que tentei comer não dava para encarar. Posso quase jurar pelo senhor citado nas linhas acima que rolou uma gordura vegetal na frigideira. Só precisei de uma bocada para ficar com aquele estranho sabor de parque de diversão, de fast-food de má qualidade, pelo resto do dia.
Só eu e minha mulher notamos. Os demais deliciavam-se com o prêmio, bem melhor que o pastel. E aquela barraca que ainda não levou nada? Raros fregueses. Fui até lá e pedi o de queijo. O óleo não estava no ponto. Como administrar isso? Sem movimento o mais sensato parece ser não gastar gás à toa. Mas aí o freguês vai esperar quanto tempo até que toda aquela bacia de óleo chegue à temperatura ideal? Certamente por conta desse receio, o pasteleiro deixa escorregar pela borda da frigideira o pastel que vai encontrar um ambiente não adequado. E aquele pastel estava em repouso havia mais tempo. Não giram com a mesma velocidade dos da barraca campeã. Ou seja, o resultado não será bom. Como sair dessa? Unindo-se a um fundo de investimento. Essa é a grande tendência mundial da gastronomia e dela falo semana que vem.

Escola e cidadania


Terceiro Milênio



A Educação  é cláusula pétrea do credo iluminista-republicano. Não há de existir cidadania sem educação universal e pública. Sem ela estariam seriamente arriscadas a liberdade e a igualdade. O ideal da educação para todos nasceu comprometido com o projeto de autonomia do indivíduo, o que supõe capacidade de compreensão do cidadão, enquanto titular de direitos e fonte do poder republicano.

Os fortes clamores que circulam pelo Brasil e pelo planeta em prol da educação quase sempre estão inspirados numa versão bastarda dos valores originais do humanismo iluminista. Eles sublinham as exigências impostas pelas engrenagens da economia. A chamada Teoria do Capital Humano, por exemplo, cuida de atribuir os diferenciais de crescimento entre países e o agravamento das desigualdades à maior ou menor eficácia dos sistemas educacionais. A experiência dos países asiáticos (Japão, Coreia, Taiwan, China) é invocada como a comprovação da importância da educação para o crescimento acelerado da produtividade da mão de obra, aquisição de vantagens comparativas dinâmicas e melhor distribuição de renda.
“Trate de conseguir boa educação ou será um dos derrotados pela marcha do progresso.” Este é o desafio que os senhores do mundo lançam aos que lutam por bons empregos. Seria estúpido negar o papel da educação enquanto instrumento da qualificação técnica da mão de obra. Mas os últimos estudos internacionais sobre emprego, produtividade e distribuição de renda mostram o óbvio: a boa educação é incapaz de responder aos problemas criados pelos choques negativos que vulneram as economias contemporâneas.
Exemplos: desindustrialização, reestruturação das empresas imposta pela intensificação da competição, crise fiscal e perda de eficiência do gasto público. Em suma, se esses fatores reais do crescimento falham, a educação naufraga como força propulsora do emprego e da distribuição de renda. A Europa e os Estados Unidos estão aí para demonstrar que pouco vale ter gente mais “empregável” se a economia patina e não cria novos empregos.
A visão simplória e simplista da educação obscurece a tragédia cultural que ronda o Terceiro Milênio. A especialização e a “tecnificação” crescentes despejam no mercado, aqui e no mundo, um exército de subjetividades mutiladas, qualificadas sim, mas incapazes de compreender o mundo em que vivem. Os argumentos da razão técnica dissimulam a pauperização das mentalidades e o massacre da capacidade crítica.
Na sociedade contemporânea esses trabalhos são exe­cutados pelos aparatos de comunicação de massa apetrechados para produzir o que Herbert Marcuse chamou de “automatização psíquica” dos indivíduos. Os processos conscientes são substituídos por reações imediatas, simplificadoras e simplistas, quase sempre fulminantes e esféricas em sua grosseria. Nesses soluços de presunção opinativa, a consciência inteligente, o pensamento e os próprios sentimentos desempenham um papel modesto.
Os indivíduos mutilados executam os processos descritos por Franz Neumann, em Behemoth, o livro clássico sobre o nazismo: “Aquilo contra o que os indivíduos nada podem – e que os nega – é justamente aquilo em que se convertem.” O mundo da vida aparece sob a forma farsista de um conflito entre o bem e o mal, objetivado em estruturas que enclausuram e deformam as subjetividades. A indignação individualista e os arroubos moralistas são expressões da impotência que, não raro, se metamorfoseia em violência. Convencidas da universalidade do seu particularismo, as “boas consciências” distribuem bordoadas nos que estão no mundo exatamente como eles, só que do lado contrário.
O domínio do espaço público pelos aparatos de comunicação procede à sistemática lobotomia das capacidades subjetivas que ensejam a crítica e resistem à manipulação. Trata-se de um procedimento de neutralização das funções de contestação massacradas pela publicidade travestida de informação.
Essa engrenagem entrega-se aos labores de remover quaisquer resíduos de razão crítica que os indivíduos livres porventura consigam preservar. Na sociedade de massa é preciso não sentir o que se “pensa”, nem “pensar” o que se sente. A educação dos iluministas, da República e da Democracia nasceu com o propósito de rejeitar essas forças que, nas palavras de Marshall Berman, “transformam a ação humana em repetições ­rançosas de papéis pré-fabricados, reduzindo os homens a indivíduos médios, reproduções de tipos ­ideais que incorporam todos os ­traços e qualidades de que se nutrem as comunidades ilusórias”.

Violência na sala de aula: Professor sob ameaça

 02.09.2012 11:58

Após aumento de casos, sindicatos criam centrais de atendimento
a docentes vítimas de violência física e psicológica dentro da escola

Desde fevereiro de 2011, uma funcionária do Sindicato dos Professores do Estado de Minas Gerais passa o dia ao lado do telefone. Sua missão é receber e registrar denúncias de agressão feitas por docentes. O disque-denúncia foi uma das soluções encontradas para ajudar o professor mineiro a enfrentar esse tipo de situação. “Já era do nosso conhecimento a violência no ensino público, mas as evidências de acontecimentos em escolas particulares nos preocuparam”, explica o presidente do Sinpro/MG, Marco Eliel. O assassinato do professor de Educação Física Kássio Vinícius Castro Gomes, atacado por um aluno a facadas nos corredores do centro universitário em que lecionava na capital mineira, em dezembro de 2010, também ajudou a catalisar o lançamento de uma campanha contra a violência nas escolas. De lá para cá, foram registradas 131 denúncias. Segundo Eliel, uma a cada três dias.
No Rio Grande do Sul, o Sindicato dos Professores do Ensino Privado (Sinpro/RS) criou o Núcleo de Apoio ao Professor Contra a Violência (NAP) no fim de 2007. “A razão foi o aumento do número de relatos de sofrimento”, conta Cecília Maria Martins Farias, diretora do Sinpro e coordenadora do NAP. Trata-se de uma equipe multidisciplinar responsável por oferecer assessoria psicológica e jurídica. O centro atende a cerca de 40 pessoas por ano.
Pesquisa realizada pelo sindicato gaúcho revelou que, para 37% dos entrevistados, as direções das escolas são omissas em relação à violência. Para 80% dos 440 docentes do ensino privado ouvidos, o encaminhamento é insatisfatório. Na opinião da coordenadora do NAP, são poucas as escolas privadas que enfrentam a questão. “É importante que haja momentos para falar sobre o assunto com a comunidade escolar.”
Professora universitária do Rio Grande do Sul, C. A., de 40 anos, buscou os serviços do NAP após anos de hostilidade por parte de colegas e de omissão por parte da diretoria. “Ninguém se preocupa, acham que é frescura de mulher. A gente é considerada louca”, contou emocionada a docente, que não quis se identificar. Por causa de disputas políticas dentro da universidade, C. passou a ser alvo de um grupo que assumiu seu antigo cargo. Quando resolveu registrar um boletim de ocorrência, ouviu da direção que o problema era dela. “O silêncio é a pior coisa. Sofri agressões e virei motivo de piadas.”
Aluno cliente e agressor
Professora desde os 16 anos de idade, Glaucia Teresinha Souza da Silva foi agredida por uma adolescente em 2009, em Porto Alegre. O caso aconteceu dentro de uma escola estadual, após a professora e pedagoga chamar a atenção de uma aluna de 15 anos. Ao virar de costas para procurar alguém da direção, a educadora foi agredida com socos e chutes, bateu a cabeça e desmaiou. Glaucia sofreu traumatismo craniano, ficou seis meses de licença e precisou fazer fisioterapia. Retornou para a sala de muletas. “Nunca pensei em desistir. Infelizmente isso aconteceu comigo, mas poderia ter sido com qualquer outra pessoa”, reflete a educadora de 28 anos. “O professor não pode ficar em silêncio. Infelizmente, episódios semelhantes voltaram a acontecer em outros lugares. É uma realidade com que o professor precisa lidar, mas também é necessário receber amparo.”
Há oito anos, a professora de Artes T. R. trabalhava em uma escola pública estadual de São Paulo quando foi ameaçada dentro da sala de aula. Segundo a educadora, de 54 anos, a maioria dos alunos era maior de idade, haviam cometido algum delito e cursavam o sexto e o sétimo anos em liberdade assistida. O clima na escola era pesado, agravado pelas grades e pela presença de uma policial militar no pátio.
“Um dia, vi um rapaz desconhecido passando drogas para alunos. Disse que ele era bem vindo se estivesse ali para ampliar seus conhecimentos, mas, se não, que esperasse fora dos portões.” O rapaz então veio na direção da professora e, com o dedo em riste, falou: “Olha, vou sair só porque você foi muito educada”. Mais tarde, T. soube que ele e os colegas foram presos em flagrante depois de agredir e matar uma professora na porta da escola.
Em outra ocasião, um estudante entrou no meio da aula chutando a porta e derrubando o lixo. A professora, então, pediu para que ele limpasse o que tinha feito e continuou com a exposição da matéria, para logo depois perceber que o aluno estava imitando-a diante da turma. Ela perguntou: “Você quer dar aula no meu lugar?”, e sentou-se. A atitude causou revolta. “Ele ficou muito irritado, disse que eu era folgada. Mas fiz de conta que não ouvi.” A educadora também se recorda de agressões sofridas por outros professores. “Soube de gente que teve seu pneu furado, carro riscado… Uma colega demitiu-se porque recebeu um tapa no rosto”, conta a professora, que hoje trabalha como assessora pedagógica. Segundo ela, não havia diálogo com a direção ou com a comunidade escolar: “A sensação é de impotência”.
Segundo a coordenadora do Núcleo de Apoio ao Professor contra a Violência, os relatos mais frequentes são de desconstituição da autoridade do docente, minimizados pela direção da instituição de ensino. “Conflitos existem em qualquer lugar. Na análise de Cecília Farias, a frequência da violência contra o professor é comum em instituições públicas e privadas. O que muda são as motivações. “Nas primeiras, muitas vezes é motivada por carências materiais ou afetivas”, explica. Já nas últimas, os casos acontecem muito mais por uma postura de aluno-cliente. Levantamento realizado pela Apeoesp, em 2007, entre 684 docentes da rede pública estadual de São Paulo revelou que 74% conhecem professores ameaçados na escola. Em 93% dos casos, o agressor é o aluno.
Reflexo social
A agressão ao professor não é algo isolado, mas fruto de uma relação violenta que se estabelece entre o corpo discente, entre alunos e professores, entre o sistema educacional e os estudantes ou mesmo entre a escola e a comunidade. “Essa questão é algo complexo e sistêmico”, analisa Patrícia Constantino, pesquisadora do Centro Latino Americano de Estudos de Violência e Saúde da Fiocruz.
“A escola está inserida numa sociedade que identifica a violência como forma de resolver conflitos”, afirma a doutora em Psicologia pela USP, Luciene Tognetta. Segundo a organizadora do livro É Possível Superar a Violência nas Escolas?, os conflitos nas instituições de ensino são agravados pela “terceirização” da educação dos estudantes. A família, tradicionalmente responsável pela formação moral dos alunos, já não dá conta desse processo, analisa. Já para a psicanalista e doutora em educação Roseli Cabistani, a violência é uma questão social. “A escola é testemunha e palco de um ‘sintoma social’, algo que extrapola e é uma denúncia do mal-estar na educação e na sociedade.”
Apesar de não existirem pesquisas que acompanhem a questão da violência escolar ao longo do tempo, o depoimento dos professores é de que as relações mudaram, explica a socióloga e pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP, Caren Ruotti. “Os professores reclamam da falta de respeito dos alunos, que não veem mais neles uma figura de autoridade. E mais: nenhum aluno quer ser professor. Como vai respeitar aquela figura se o Estado não reconhece a importância do profissional?” Na análise de Caren, um caminho para a solução desses conflitos passa por um trabalho conjunto entre professores, direção, pais e comunidade escolar. “O importante é reconhecer o o problema e abrir canais para discussão”.

Em forma de cruz, residencial tem torres verticais e horizontais O empreendimento Cross # Towers foi concebido pela empresa de arquitetura BIG e será construído em um distrito de Seul, na Coréia do Sul


A empresa de arquitetura BIG, com escritórios na Dinamarca e nos Estados Unidos, foi a selecionada para desenvolver um projeto residencial no distrito Yongsan International Business, em Seul, na Coréia do Sul. Eles criaram a Cross # Towers, uma "comunidade tridimensional urbana" com o cruzamento de torres horizontais e verticais.
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A área de 21 mil metros quadrados é ocupada por torres verticais de 214 e 210 metros de altura. Duas torres horizontais a 140 e 70 metros de altura completam o empreendimento, conectadas às duas maiores, como se fossem pontes. Os terraços das duas torres horizontais terão jardins, com espaço para os residentes fazerem atividades ao ar livre.
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A construção Cross # Towers terá mais de 600 unidades residenciais e áreas de lazer, incluindo uma biblioteca, espaço para uma galeria e até um jardim de infância para os pequenos. Dois bares nas torres horizontais oferecerão uma bela vista da cidade e darão acesso aos jardins nos terraços.
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"Nós propusemos uma construção que triplicasse a o espaço de um piso térreo, triplicando a interação social entre as pessoas e reintroduzindo a ideia de vizinhança dentro do complexo de torres", explica Thomas Christoffersen, um dos sócios da BIG.

Artigo teórico do fim de semana: VÔO RASANTE SOBRE A REALIDADE DOS PARTIDOS NO BRASIL


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MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)
 Não se pode subestimar, nem ao menos silenciar diante da realidade brasileira, da economia e a política desvanecendo-se pelo burocratismo do poder dominante, tanto no governo como no partido que o exerce. Nossa expressão livre quer abrir o debate com a sociedade na véspera de mais uma eleição.
Neste vôo rasante sobre a realidade partidária, ajudar-nos-á – e muito – lembrarmo-nos de que o Brasil não é uma ilha cercada por perversas combinações que nos afastem do convívio cultural, social, político e econômico com o resto da humanidade.
Nas fronteiras do Sul, e mais ao norte, encontramos situações que refletem a nossa; e atravessando o Atlântico, temos o exemplo do pós-guerra fria que nos chegou atrasado no tempo. É claro que são apenas semelhanças nas coisas atuais, concretas.
A Terceira Guerra Mundial, embora fria, teve vencidos e vencedores. Deixou no seu rastro transformações de todo tipo, em todos os campos da atividade social, econômica e política. Como não podia deixar de ser, além de depreciar a qualidade das lideranças mundiais, varreu as utopias e o imaginário popular ávido de mudanças sócio-políticas.
A queda do Muro de Berlim representou para o concerto das nações o mesmo que a bomba atômica em Nagasaki e Hiroshima e a tomada de Berlim, capital do 3º Reich, pelas tropas soviéticas. Com a queda do socialismo real, o salto para o Século 21 assinalou a ascensão da doutrina liberal conservadora – o neoliberalismo –, e a globalização do sistema econômico.
Ficou caótica situação do movimento comunista internacional, assistindo impotente o espaço político ser substituído pelo espaço publicitário, e o estabelecimento da Ditadura do Marketing. O Senhor Mercado.
Os partidos ‘de esquerda’, então, perderam as concepções de ideologia, princípios programáticos, e o próprio caráter organizativo. E olhem que os ex-comunistas receberam uma preciosa teoria de Berlinguer, que transformou o Partido Comunista Italiano para ser ao mesmo tempo contestador e colaborador do governo.
Não só os partidos autodenominados esquerdistas e os liberais conservadores “passaram a ser um meio de comunicação social para dar respostas ao que o eleitorado indaga”, como observou o jornalista Manuel Vásquez Montalbán. Em consequência disso, os aparelhos partidários passaram a ser dominados por uma burocracia mesquinha, apegada aos privilégios, corruptas e corruptoras.
Encontra-se essa hegemonia funcional na Europa, onde se dividem as tendências liberal-conservadoras e social-democráticas; e profissionalizou-se nos Estados Unidos, nos dois únicos partidos, de interface programática semelhante.
No Brasil, as mais de meia centena de partidos inexpressivos, são caricaturas do que deveria ser uma organização partidária. Um deles, o PT no poder, até ficaria melhor como “sofisticada organização criminosa”.
Em torno do Governo Federal – na circunvizinhança do Erário – as legendas agrupam-se na chamada ‘base aliada’, todas com princípios, moral e contabilidade duplas… Chegam a enaltecer o imoral e ilegal ‘Caixa 2’.
O caráter consumista da política oficial, tanto na economia como na política, estabeleceu – como herança do peleguismo sindical – a espúria composição do espaço público e o espaço político, com práticas secretas, inalcançáveis às próprias ‘bases’ e muito menos pelo eleitorado.
Essa marca fisiológica do lulo-peleguismo transmite a sua degeneração política e ideológica aos poucos partidos que se dizem de oposição. Uma oposição, com a devida vênia, que me parece um disfarce para capitalizar o descontentamento popular e valorizar individualmente carreiristas para irresistível vocação para aderir ao poder. Como ocorreu com Eduardo Paes no Rio e Gustavo Fruet em Curitiba.
O que fica visível, para mim, são os ajustamentos eleitorais locais de governo e oposição, sem levar em conta os flagrantes das tenebrosas transações, da arapongagem, dos ‘dossiês’, e das imorais contribuições eleitorais dos bandidos de colarinho branco travestidos de ‘empresários’.

Desembargador breca inquérito da Monte Carlo




O inquérito da Operação Monte Carlo por vezes parece regido por uma lei especial. A Lei da Selva. De vez em quando, o desembargador Tourinho Neto, do TRF de Brasília, ruge um despacho que retira o processo do prumo. Nesta sexta (31), o magistrado suspendeu o andamento da encrenca.
Tourinho deferiu um pedido formulado por Nabor Bulhões, o novo advogado de Carlinhos Cachoeira. O doutor alega que “há vícios gritantes nas interceptações” telefônicas que levaram seu cliente à cadeia em 29 de fevereiro, já lá se vão seis meses. Os grampos da Monte Carlo já haviam sido considerados legais pela Justiça. Porém…
O desembargador Tourinho acolheu a petição do advogado para ordenar às companhias telefônicas que enviem os extratos das linhas escutadas. Quer saber quando e como foram acessadas pelas autoridades policiais. Até segunda ordem, o inquérito ficará paralisado. O Ministério Público Federal deve recorrer.

HUMOR - CHARGE - Suprema insônia!




- Charge do Paixão, via ‘Gazeta do Povo