quarta-feira, 8 de outubro de 2014

TERROR NUM SHTETL GAÚCHO: QUATRO IRMÃOS (1924) - UMA HISTÓRIA OCULTA DA COLUNA PRESTES


As revoluções têm uma imagem complacente de si. Raramente há a autocrítica de sua ação concreta. Conforme se consolida sua história, apagam-se as violências ou injustiças cometidas por elas, restando apenas a sua motivação altruísta. A Coluna Prestes (1924-7) é um destes casos, pois a historiografia dominante se rendeu ao ineditismo militar (guerra de movimentos), o caráter heróico e a busca utópica da justiça social por seus líderes. Porém, pouco se escreveu da brutalidade dos revolucionários no trato dispensado à população civil, que por razões práticas teve de lhe prover o sustento, sob a ameaça das armas.
Este artigo é na contramão desta história consagrada, ele mostra a Coluna Prestes no início, atacando o povoado gaúcho de Quatro Irmãos, com o único propósito de saquear a sua população para sustentar o grupo revolucionário que se formava. Foi escrito com base numa cópia do inquérito policial que o Arquivo Histórico Judaico Brasileiro (AHJB) possui, junto à documentação que compõe o fundo Jewish Colonization Association (ICA). Entrevistei, também, alguns descendentes de famílias atingidas por essa desordem pretensamente revolucionária. Pronto o artigo, ele foi oferecido a três revistas de História onde já publiquei, porém foi recusado por razões singelas, mas que podem ser interpretadas nas entrelinhas como “ainda não se publicam na historiografia acadêmica os desvios de um ícone esquerdista”.

A COLUNA PRESTES

O presidente Arthur Bernardes (1875-1955) já assumiu o governo em estado de sítio. A insatisfação política dos seus opositores tomou forma revolucionária. Em S. Paulo grupos militares levantaram-se contra o governo, mas foram batidos pelas tropas legalistas e então fugiram para o sudoeste do Paraná. No sul o capitão Luís Carlos Prestes (1898-1990), que servia no 1º Batalhão Ferroviário de Santo Ângelo sublevou sua unidade militar em 28 de outubro de 1924. O gesto funcionou como uma senha para os descontentes começarem a se agrupar para integrar a coluna de insurretos que formou com eles e mais o grupo paulista. Tornou-se conhecida como Coluna Prestes e deslocou-se militarmente 24 mil quilômetros por todo o país, entre 1924 a 1927. Próximo a fronteira com Santa Catarina, um destes bandos de revolucionários caiu sobre a indefesa Quatro Irmãos para tomar cavalos, víveres e dinheiro, supostamente para prover o movimento. Eles chegaram pela estrada de Nonohay. O calendário marcava três de dezembro de 1924.
Eram quarenta ou cinqüenta homens aramados com fuzis e armas brancas, identificados pelo lenço vermelho dos maragatos (oposicionistas) colocados em volta do pescoço, montados em cavalos, todos comandados por um velho trajado de uniforme cáqui amarelo com seis galões no ombro. Soube-se depois que ele era o coronel Favorino Mariano Pinto (1869-1927) e que ao seu lado cavalgavam dois filhos: o capitão Heráclides Pinto, apelidado “Pretinho” e o tenente Apolinário Pinto, vulgo, “Lulu” ou “Pintinho”. O trio era gaúcho e já agia na região há tempos. Revolução para eles era um meio de vida e os seus título militares eram forjados nas sangrentas lutas campeiras. Eram maragatos de formação.
“Maragatos” foi o apelido depreciativo dado pela primeira vez durante a Revolução Farroupilha em 1893 aos opositores de Borges de Medeiros (1864-1961), presidente do Rio Grande do Sul. O nome vinha de um grupo etnocultural de origem espanhola, maragatos, nômades e, ao que parece, descendentes de mouriscos, reputados como ladrões e assassinos. O nome foi assumido como orgulho pelos Federalistas, e perdurou como uma forma de assustar os adversários. Era gente com uma persistente tradição de ferocidade e crueldade. Um dos maragatos históricos, Adão Latorre (1837-1923), teria degolado sozinho numa tarde trezentos prisioneiros no chamado Massacre do Rio Negro (1893). Já o Pretinho de nossa história, dias antes da invasão a colônia, matara num baile ocorrido no povoado chamado Sapo o sanfoneiro que lhe desagradara. Preso, ele foi solto pelo bando que o pai comandava.

O SHTETL

Quatro Irmãos fica num vale entre as serras gaúchas, próximo a Erechim, e na época era uma espécie de shtetl (povoado judeu) europeu transplantado para terras brasileiras. Poucas ruas de terra batida, conhecidas na época como Rua da Guenendel (homenagem a costureira Guilhermina Lechtman, que morava nela), a Rua da Fremeleia (a comerciante Luisa Antebi), a Rua dos Grãfinos e a dos Carrapichos, circundadas por várias propriedades rurais. O povoado fora criado na primeira década do século XX por judeus vindos, em sua maior parte, da Bessarábia (hoje Moldávia e Romênia). Era o fruto de um projeto encabeçado pelo banqueiro alemão barão Maurice de Hirsch (1831-1896), destinado a tirar os judeus da Europa Oriental, livrando-os das perseguições anti-semitas locais, e fixá-los no mundo rural. Muitos deles já tinham experiência agrícola, pois cultivam fumo e girassol nas terras de origem. Para viabilizar esse projeto foi criada a Jewish Colonization Association, conhecida como ICA, que em 1909 comprou mai sde noventa mil hectares no Rio Grande do Sul, onde eles se estabeleceram. Cada colono adquiriu a prestações o seu pedacinho de terra para recomeçar a vida. Nenhum deles era rico, pois estavam endividados com a compra da propriedade e muitos ainda nem tinham aprendido o português. Isso era suficiente para não não se importarem com a política nacional. Então, foi com espanto que os colonos receberam a invasão dos revolucionários.

O ATAQUE

No inquérito policial que se seguiu ao evento criminoso, conduzido pelo subchefe de polícia de Passo Fundo, Dr. Miguel Chmielewski, desfilaram os colonos extorquidos e aterrorizados pelos revolucionários, frente a autoridade legal. Não se sabe quem foi a primeira vítima, pois os revolucionários se espalharam pelo território da povoação, atacando estrategicamente todos os pontos da localidade durante a noite e o dia. As queixas dos moradores são as mesmas. Percebe-se nelas que o objetivo central do grupo invasor era apenas a pilhagem da população. De todos os colonos abordados foi exigido dinheiro em espécie, depois roupas e ferramentas, alimentação e cavalos. A nenhum deles falou-se da conjuntura política – apenas dois colonos foram acusados genericamente como chimangos (governistas).
O agricultor Jacob Sirotsky, 58 anos, viajava numa carroça de quatro rodas quando foi assaltado pelos revolucionários. Tomaram-lhe dois contos e quinhentos mil réis, mais outro tanto em mercadorias.
Jaime Melnik, dono da atafona (moinho) local, perdeu vinte sacos de farinha de mandioca e três sacos de polvilho, mais roupas, utensílios e ferramentas. Destruíram a sua plantação de milho e mandioca, como também o mandiocal de Marcos Nagelstein, e levaram deste mais um boi, oito sacos de farinha de mandioca e também roupas.
Tomaram de Leão Agranionik quatro cavalos e do madeireiro Gregório Ioshpe, roupas e objetos.
Os Matone perderam um cavalo arreado e dinheiro. Saquearam o armazém dos Brochman.
A lista prossegue por tantos outros colonos, que tiveram as suas vacas carneadas, a plantação devastada e o dinheiro de sua economias, já que não havia bancos, tomado pelos invasores. Os relatos mostram como foi a coleta de recursos pelos revolucionários.
Ao agricultor Manoel Weinstein, de 29 anos:

“(...) revistaram-o tirando-lhe do bolso a quantia de cinqüenta e dois mil reis em dinheiro, dizendo-lhes que não lhe tomaram o casaco porque estava muito velho e rasgado (...)”.

Outro agricultor, Abraão Raskin, de 45 anos, foi levado a presença do coronel favorino Pinto e espancado com rebenques e espadas. Pretinho, o filho do chefe do bando, arrancou-lhe a barba com uma faca, tirou-lhe a roupa e roubou-lhe seis mil réis.
Pedro Birman, 55 anos, foi arrastado por uma corda no pescoço de sua casa até o chefe do bando.
Sanson Schwartzman, de 36 anos, ante ao bando:
“(...) cahiu quase desmaiado e sua mulher e as creanças choravam e gritavam implorando aos revolucionários que não o matassem(...)”.

A família de Ichiel Feldman ante as agressões fugiu de sua casa:
“(...) na precipitação (eles) esqueceram uma creança de três anos (...)”.

Ninguém escapou a sanha dos saqueadores. Até a Jewish Colonization Association (ICA) foi extorquida. Três revolucionários, sendo um deles o Pintinho, invadiram por uma janela a casa do agrônomo David Sevi, representante da sociedade na colônia e exigiram quarenta contos de resgate, depois o coronel Favorino Pinto diminuiu o pedido pela metade, finalmente aceitou receber uma quantia menor escriturada em recibo:

EMPRÉSTIMO DE GUERRA. De ordem do Sr. Comandante em Chefe das Forças Revolucionárias [leia-se o capitão Luis Carlos Prestes] em operação no norte do estado recebi da Jewish Colonization Association, representada na pessoa do seu diretor David Sevi a importância de três contos de réis (3:000.000) a título de empréstimo. Acampamento na fazenda de Quatro Irmãos, quatro de dezembro de mil novecentos e vinte e quatro. (assignado) Favorino Pinto Coronel comandante de guerra”.

AMORTE DO COLONO

A invasão culminou com o desaparecimento do agricultor David Faiguenboim (na foto acima), de 62 anos, oriundo de Shargorod e pai de nove filhos. Ele era um homem religioso que muitas vezes liderava as orações comunitárias. A única fotografia que sobreviveu mostra um homem de barbas longas com um livro de orações. Dado sinal do desaparecimento pelos familiares, os vizinhos saíram a sua procura e só depois de algum tempo o colono Usher Galodnik e Maurício Faiguenboim (1906-1971), filho da vítima, descobriram o corpo degolado escondido numa touceira de mato. Ele tinha uma ferida que:

“(...) abrangia a fronte, a começar pelo lado direito da mesma, atravessava o nariz, cortado profundamente e atravessava a vista esquerda, que estava vasada, estendendo-se bem assim no nariz. Os ferimentos foram produzidos por um instrumento cortante, além disso verificaram-se que em redor do pescoço havia signaes no cadáver, do vestígio de um laço apertado de uma corda (..)”

Como ele não sabia português, é possível que tenha sido assassinado por mão compreender a cupidez dos revolucionários.
Depois de dois dias de pilhagem em Quatro Irmãos, percebendo a chegada das tropas Legalistas, os saqueadores seguiram em frente incorporando-se ao destacamento do tenente João Alberto (1899-1955) com que fizeram toa a campanha da Coluna Prestes pelo interior do Brasil. Ali não foram cobrados pelo comportamento indigno, nem pelos companheiros de armas, nem pelos autores que se ocuparam deste grupo insurreto. Eles tornaram natural o saque as populações desarmadas como método de abastecimento.

“(...) Neste ponto não tínhamos escrúpulos – afirmou o capitão Luiz Vieira Fagundes, combatente gaúcho numa entrevista na década de setenta – Pegávamos com naturalidade do alheio, o que tinha pela frente era nossa alimentação. Não tínhamos dinheiro para comprar, não tínhamos de onde tirar, nós usávamos aquilo como se fosse nosso (..)”.

Já no fim da jornada, somente dois dias antes de deixarem o solo nacional, em dois de fevereiro de 1927, o coronel Favorino Pinto foi denunciado ao Estado Maior revolucionário por acumulação de uma fortuna “obtida por meios ilícitos”, segundo a documentação revolucionária preservada no Arquivo Edgar Leuenroth (UNICAMP). Feita a revista no oficial gaucho encontrou-se além de muitas jóias preciosas uma quantia inventariada em dezenove contos e novecentos mil réis (o valor de dois automóveis novos na época) que foi confiscada em parte pelo general Miguel Costa (1874-1959) em benefício do patrimônio coletivo da Coluna Prestes. Levaram mais de dois anos para descobrir as atividades criminosas desse revolucionário, mas, enquanto isso aproveitaram-se e bem dessa pilhagem para o sustento da expedição. Ele só foi “punido” nos últimos momentos em terras brasileiras. O coronel Favorino Pinto morreu cinco meses depois, em Pasos de los Libres em conseqüência de uma hemorragia cerebral. Hoje é personagem elogiado nos livros sobre a Coluna Prestes.
O saque a colônia de Quatro Irmãos apressou o seu fim. Quarenta famílias judias e três católicas, amedrontadas pela violência, fugiram para Erechim e dali procuram novas plagas. Foram seguidas depois por outras famílias que, descapitalizadas pelo saque, abandonaram também a sua vida rural, espalhando-se pelo Brasil em busca de uma vida mais segura. Eles que já tinham deixado a Europa Oriental pelo medo dos pogroms (destruição de comunidades judaicas) foram embora de Quatro irmãos, mas sem esquecer o episódio sangrento vivido, tanto que, se a memória destas famílias não tivesse guardado esses fatos, é provável que esse fosse mais um episódio condenado ao esquecimento.

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.


BIBLIOGRAFIA

COSTA, general Miguel. Boletim Reservado nº 3, Baia Bela, 2 de fevereiro de 1927 – Arquivo Edgard Leuenroth, UNICAMP, LMC.CL.209 P.3 e CL.210 P.3.
FAERMAN, Martha Pargendler. A promessa cumprida. Porto Alegre: Metrópole, 1990.
FELDMAN, Marcos. Memórias da Colônia de Quatro Irmãos. S. Paulo: Maayanot, 2003.
JEWISH COLONIZATION ASSOCIATION (ICA), 1902-1968, 71 caixas – ARQUIVO HISTÓRICO JUDAICO BRASILEIRO.
LIMA, Lourenço Moreira. A Coluna Prestes – marchas e combates. S. Paulo: Alfa-Ômega, 1979. PRESTES, Anita Leocádia. A Coluna Prestes. S. Paulo: Paz e Terra, 1997.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

CHARGE DO NANI


QUE A ONU NÃO PERCA A OPORTUNIDADE

Artigo especial para a B&A e www.50anosdetextos.com.br

A presidente da República Federativa do Brasil, presidenta Dilma Rousseff, mulher de fibra, de coragem e que deplora o sentimentalismo exagerado dos que se chocaram com a violência e a crueza do ISIS, abriu a 69ª Assembleia Geral da ONU com um discurso excelente que não foi compreendido pela imprensa tupiniquim.

Dona Dilma recordou a todos os que se achavam no plenário da ONU o que ela e Lula não se cansam de repetir: o Brasil acabou com a miséria, com a fome, com a desigualdade e com a mortalidade infantil e combateu a homofobia, além de seu governo lutar em favor da transparência e do combate à corrupção.

Ela acentuou que três em cada quatro brasileiros integram a classe média e os estratos superiores da sociedade. Como segundo o IBGE somos 201 milhões, façam as contas, senhores, e vejam o tamanho de nossas classes média e superiores! É estupendo!

Enfim ela fez um retrato desta potência, no que fez muito bem. Não era possível deixar que o resto do mundo só visse o Brasil como o país cujos cidadãos gastaram em oito meses 17 bilhões de dólares em compras e passeios no exterior!

Somos muito mais do que isso e temos uma chefa que não se curva diante de país algum. Por exemplo, querer que o Brasil assinasse a Declaração de Nova York sobre Florestas quando já reduzimos em 79% o desmatamento das florestas nos últimos dez anos! Onde já se viu tamanho desaforo?

Pois ela não assinou coisa nenhuma!

E por que cargas d’água ela se curvaria aos desejos de certos chefes de Estado no combate ao ISIS? O uso da força, nesses casos, seria uma prova de fraqueza intelectual e moral!

Mas dona Dilma, presidenta de um país que enfrentou galhardamente as decapitações no seu estado do Maranhão, sabe que não é pela força bruta que se resolvem esses problemas, mas pelo uso da força das palavras exatas, no tempo certo, i.e., pela diplomacia.

Será que a ONU vai perder a oportunidade de enviar dona Dilma como sua Embaixadora Plenipotenciária para dialogar com o ISIS?

Não creio que com sua vida atribulada desde mocinha ela tenha tido tempo de aprender muitas línguas, mas para isso ela tem a assessoria do brilhante Marco Aurélio Garcia, que seria um embaixador ex aequo et Bono.

Da minha parte, além da confiança em sua atuação, tenho, sinceramente, muita pena dos membros do ISIS. Eles não sabem o quanto é cortante ummeu querido dito em dilmês!

Que a ONU não perca a chance única que lhe foi dada por Deus e envie, o mais urgente que puder, dona Dilma ao encontro do ISIS.

São meus votos.

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa* – Professora e tradutora. Vive no Rio de Janeiro. Colabora para diversos sites e blogs com seus artigos sobre todos os temas e conhecimentos de Arte, Cultura e História. Ainda por cima é filha do grande Adoniran Barbosa.

domingo, 5 de outubro de 2014

Se não disputar o segundo turno, Marina apoiará Aécio contra Dilma


Ricardo Noblat
Marina Silva (PSB) já decidiu: caso não dispute o segundo turno da eleição presidencial contra Dilma Rousseff (PT), apoiará Aécio Neves (PSDB).
O anúncio do apoio deverá ser feito nesta segunda-feira. No mais tardar na terça-feira.
Não será um "apoio automático", segundo me garantiu um auxiliar de Marina. O apoio será dado com base no programa de governo de Aécio.
Por mais que tenha dito que Aécio e Dilma não apresentaram programas de governo, Marina admite que informalmente Aécio tem um, sim. E que o programa de Aécio é o mais parecido com o seu programa.
Marina e Aécio defenderam as chamadas "conquistas sociais" dos governos do PT. Assim como a política econômica do PSDB de Fernando Henrique Cardoso, herdada e respeitada por Lula.
De resto, pareceria arrogância demais Marina preferir a neutralidade, como o fez em 2010 quando negou seu apoio a Dilma e a José Serra (PSDB).
A neutralidade removeria Marina do primeiro plano da política nacional.
Marina guarda mágoas de Aécio, que se aliou a Dilma para combatê-la. Ainda assim....
O apoio de Marina a Aécio tocará fogo dentro do PSB. Ali, a ala comandada por Roberto Amaral, o presidente em exercício do partido, pretende apoiar a reeleição de Dilma.
Marina Silva (Foto: Fernando Donasci / Agência O Globo)Marina Silva (Imagem: Fernando Donasci / Agência O Globo)

A véspera do dia seguinte: meu voto roubado



Edição do Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Jorge Serrão - serrao@alertatotal.net

Véspera de eleição é dia de chover no molhado. Ainda mais nesta que é a mais estranha eleição dos últimos tempos. O surreal Brasil está cheio de problemas de difícil solução. Apesar disto, a complicada Dilma Rousseff aparece como favorita – com risco até de vencer no primeiro turno (conforme ontem a mídia argentina fazia previsões). A “oposição” é uma piada séria. O governo, uma tragicomédia... Tudo sem graça!

As pesquisas eleitoreiras cumpriram direitinho o papel de induzir a opinião. Domingo vamos para a dedada obrigatória na urna eletrônica de resultado inconfiável, porém inquestionável pelo dogmático “judiciário eleitoral” (que a nossa cínica retórica tem o desplante de chamar de “justiça”). Eis a sina do País do jeitinho que transforma a delação criminosa em “colaboração” premiada para punir, no final das contas, apenas alguns bodes expiatórios “menos votados”. Os mais votados seguem no poder...

Domingo à noite acaba uma novela e começa outra com o mesmo enredo e os mesmos personagens sem talento para atuar no triste roteiro adaptado ao pragmatismo cínico que vigora na politicagem brasileira. Antes disso, 142.822.046 eleitores (reais, fantasmas ou multiplicados por fraudes) poderão experimentar a ilusão, compulsória a cada dois anos, de que tudo vai mudar para continuar a mesma coisa. Independentemente do vencedor, o Brasil já está perdido. Padecemos da maldição de viver no Pretérito do Futuro com a máscara de vanguarda do atraso.

As elites brasileiras (aqueles que, em tese, deveriam ser os melhores entre os melhores) não conseguem definir o rumo estratégico para o País. As classes dirigentes se comportam como “zelites” (escatológica categoria que se confunde com a famosa marca de vaso sanitário). A  classe média trabalha, feito escrava, para pagar impostos e ter a ilusão do acesso a algum consumo. As classes economicamente baixas, maioria decisiva, com visão pragmática, imediatista e consumista, escolhem os governantes que lhes dão (ou apenas prometem) alguma benesse. O coitadismo clientelista vence a meritocracia do trabalho, do estudo, da produção e do empreendedorismo honesto.

O Brasil se transforma em uma grande penitenciária onde os cidadãos de bem são forçados a sobreviver em regime prisional semiaberto ou na ilusão de uma nada confortável “prisão domiciliar”. A maioria da sociedade veste sua imaginária tornozeleira eletrônica e segue deixando a vida lhe levar... Já os corruptos (de todas as classes) vivem numa melhor. Saem vencedores no processo que “legitima” o Governo do Crime Organizado na conjuntura sem Justiça.

Por isso, domingo, parte da ansiedade deste sábado se desfará. Até lá, aguardemos com as perguntas. Será que Dilma Rousseff vence no primeiro turno? Será que o Aécio Neves vai ultrapassar a Marina Silva para que os tucanos possam enfrentar os primos petistas? Ou será a Princesa Verde da Floresta quem vai encarar a Bruxa Vermelha do Planalto?           

Antes da resposta fatal, talvez seja mais divertido embarcar no aerotrem do Levy Fidélix, de preferência no vagão cor de rosa do Orgulho Homossexual... Mas a viagem só tem graça se puder pagar com o cartão do Bolsa Família (aquele mesmo que ajuda a comprar o voto)... Assim a véspera do dia seguinte fica mais animada, principalmente para os idiotas, que são muitos, e elegem o pior entre os mais ruins...

Nos embalos noticiosos de sábado à noite, ninguém se surpreenda se as últimas pesquisas vierem com os seguintes números: Dilma Rousseff 39%; Aécio Neves e Marina Silva, empatados ou empacados, em 22%... Numerologia perfeita para uma aposta maluca no Cassino Eletrônico das Urnas Eletrônicas sem direito a recontagem de voto...

Impostura Cívica

Comentário justo e perfeito do empreendedor cultural João Guilherme C. Ribeiro sobre a conivência do Brasil com a corrupção eleitoreira:

“Um país que taxa sabonetes em 42% não está interessado em ficha limpa!”

Por isso, não é surpresa que criminosos “delatores” ganhem o status de “colaboradores” de um judiciário ainda longe de ser considerado “Justiça”...

Releia: 

Títulos duplicados, compra de votos e sistema eleitoral sem chance de recontagem podem reeleger bandidos


Entregando tudo?


Aposta do Carlinhos Vidente


Os tucanos precisam apelar para a mediunidade neste primeiro turno...

Criativa campanha ideológica


Quase fechado


Preço da velhice no Brasil

O velhinho caminhava tranquilamente para votar, quando acaba atraído pela animada boca de urna em frente a um prostíbulo, onde uma "candidata" grita:

"- Oi, vovô!, Por que não experimenta botar na minha urna?"

O velhinho responde: "- Não, filha, já não posso!"

A candidata: "- Ânimo! Venha, vamos tentar!"

O velhinho entra e funciona como um jovem: três vezes e sem descanso...

- "Puxa", diz a candidata, "E ainda dizia que já não pode mais?"

O experiente eleitor responde:

- "Aaah, transar eu posso, o que não posso é pagar: sou aposentado pelo INSS!"

Carta de Renúncia


Os petralhas nunca tiveram vergonha de usar e abusar da máquina pública que aparelharam...

Vencedor?


Vote bom pra Cachorro


 A candidatura do cachorro Einstein foi lançada à Prefeitura de Oakland, nos EUA, como alternativa à reeleição da prefeita Jean Quan...

Abundância de voto?


Eleitor bundão comete o pecado de comer a maça e votar na pera... 



© Jorge Serrão. Segunda Edição do Blog Alerta Total de 4 de Outubro de 2014.

CHARGE DO SPONHOLZ

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1570981

Três personagens e um país à deriva - BOLÍVAR LAMOUNIER




FOLHA DE SP - 03/10


Se eleito, Aécio terá algumas prioridades inescapáveis. É imperativo desmontar a 'herança maldita' deixada por Lula e Dilma Rousseff


A ordem em que os três principais candidatos à Presidência da República têm aparecido nas pesquisas parece-me ser o inverso de suas capacidades e do que deles se pode esperar de positivo para o Brasil.

Dilma Rousseff chegou ao Planalto como atriz num dos muitos enredos maliciosos que Lula é capaz de conceber. Com seus próprios recursos ela dificilmente se elegeria vereadora em Porto Alegre ou em Belo Horizonte. Lula "vendeu-a" como uma exímia conhecedora da máquina pública e a grande gestora de projetos que daria continuidade às "grandes conquistas" de seu próprio governo.

Tendo já cumprido um segundo mandato, Lula não iria se desgastar numa luta interna, muito menos emprestar sua popularidade a um candidato político. Queria um candidato que lhe devotasse uma fidelidade canina, o melhor "poste" que pudesse encontrar.

Na campanha e nos debates, ela quase nada precisaria falar; dos votos encarregar-se-iam Lula e os marqueteiros. Foi assim que o Brasil viveu um dos maiores paradoxos eleitorais de que se tem notícia. Nas democracias, candidatos sabem que suas chances de sucesso dependem de se tornarem conhecidos do maior número possível de eleitores. Com Dilma, deu-se o oposto: seu sucesso deveu-se à quase total clandestinidade em que ela se manteve.

Sob muitos aspectos, Marina Silva é o oposto de Dilma. Não creio que ela se prestasse a uma farsa eleitoral. Suas ideias parecem-me se constituir, parte por elaboração própria, parte por uma saudável utilização dos órgãos auriculares.

Apesar dessas qualidades, tinha certeza que o status de favorita que ela chegou a atingir não se sustentaria. Resultara de uma situação extraordinária que se diluiria. O desaparecimento de Eduardo Campos e a comoção dele decorrente catapultaram-na para a segunda posição.

O súbito aumento do apoio a Marina deveu-se à simpatia com que ela passou a ser vista por eleitores que, de outra forma, não a veriam como opção; à reativação e a uma tentativa de canalização mais positiva do manancial de votos contra Dilma e Serra que ela mobilizara em 2010; e à sensação de que ela passara a encarnar uma concepção idealizada de política com possibilidade real de chegar ao Planalto.

Ao envolvê-la numa aura de vencedora, os elementos mencionados proporcionaram-lhe a indispensável interlocução com grupos sociais que até a morte de Campos a viam como problema. Facilitaram a substituição da acanhada plataforma de 2010 por uma mais ampla e realista, respaldada por economistas competentes.

As últimas pesquisas mostram Aécio Neves na terceira posição. Admitindo que as intenções de voto em Dilma e as de votar em branco ou nulo estão mais ou menos consolidadas, Aécio precisa "tomar" de Marina só mais alguns pontos para ultrapassá-la. Difícil é; impossível, não. Se for ao segundo turno, terá o mesmo tempo de TV que Dilma e será visto como uma alternativa real ao oficialismo petista.

Na segunda (29), os agentes econômicos reagiram à melhora de Dilma nas pesquisas avisando que a reeleição será um desastre. As ações da Petrobras despencaram 10%. Corteses como são, Lula e Dilma deveriam pedir desculpas à analista do Santander cuja demissão exigiram por ter tido a "ousadia" de fazer uma previsão nessa mesma linha.

Se eleito, Aécio Neves terá prioridades inescapáveis. Em termos gerais, é imperativo desmontar a "herança maldita" deixada por Lula e Dilma. Reverter o clima de desmoralização que tomou conta do país desde 2003, a aceitação passiva da incompetência e da falta de responsabilidade, a condução ideológica e amadorística da política econômica e a tibieza no combate à corrupção.

Urge restabelecer o império da lei, a validade dos contratos, o valor das instituições e a independência entre os Poderes. Na política externa, Lula e Dilma deram seguidas mostras de obtusidade, no melhor estilo terceiro-mundista. Mas foram além: praticaram ativamente uma opção preferencial por regimes populistas e ditaduras, sabe Deus se como fruto de alguma convicção ou só no juvenil afã de marcar posições antiamericanas.