domingo, 26 de agosto de 2012

Tá tudo dominado, por Mary Zaidan


POLÍTICA


As transações entre o Banco do Brasil, seu ex-diretor Henrique Pizzolato, a Visanet e o publicitário Marcos Valério - incluindo os embaraçosos R$ 326 mil em espécie - colocaram o BB no olho do furacão. No julgamento do mensalão, além de se comprovar o uso de dinheiro público pelo esquema, escancararam-se os métodos inescrupulosos do PT na ocupação dos negócios de Estado.
E o PT não poupou seara alguma, nem mesmo a instituição bicentenária.
Nos últimos nove anos, o Banco do Brasil sofreu duros golpes. Com diretorias ocupadas por sindicalistas desde que Lula chegou ao Planalto, patrocinou até festas petistas. E foi tatame de lutas fraticidas, envolvendo também a Previ. Em comum, BB e Previ administram dinheiro a rodo.
Fora do foco do mensalão, ministérios e estatais puras ou mistas foram portas de entrada de companheiros e aliados e de saída de recursos não contabilizados. Foi assim nos Transportes, na Agricultura, no Turismo, no Esporte, nos Correios, na Valec...
E há o déficit de competência. Na Petrobrás, por exemplo, a interferência obsessiva do governo acabou por criar um monstro. Em nota do colunista Ancelmo Góes, o consultor Adriano Pires revela que entre 2002 e 2010 a empresa ampliou o número de servidores concursados em 75% e o de terceirizados em 175%. Léguas de distância dos 45% de crescimento da produção de petróleo.
Esquizofrênico, mesmo quando convoca a iniciativa privada reconhecendo que não tem gás para cuidar dos gargalos da infraestrutura do país, o governo cria novas estatais. Só neste mês foram duas: a Amazônia Azul Tecnologias de Defesa (Amazul), para construir o submarino nuclear nacional, e a Empresa de Planejamento e Logística (EPL).
A EPL é um caso curiosíssimo. Criada por medida provisória, ela pode tudo e muito mais. Além de estradas e ferrovias, o texto amplo permite que ela se meta em outros modais, como portos. Tem poderes para virar sócia e para prestar consultorias às potenciais compradoras. Verdadeira sopa no mel.
Para presidir a 127ª estatal brasileira, a presidente Dilma Rousseff não teve constrangimento em nomear o economista Bernardo Figueiredo. O mesmo que o Senado rejeitou para a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), em março deste ano. A revanche da presidente parece traquinagem, mas não é.
Em um país em que até o Banco Central se sujeita às vontades do Executivo e o BNDES, maior banco de fomento da América Latina, financia preferencialmente amigos do poder, sabe-se que tudo está dominado.
Ao julgar o mensalão, independentemente do desfecho, a Suprema Corte começa a jogar luzes sobre essas trevas.

Mary Zaidan é jornalista, trabalhou nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, em Brasília. Foi assessora de imprensa do governador Mario Covas em duas campanhas e ao longo de todo o seu período no Palácio dos Bandeirantes. Há cinco anos coordena o atendimento da área pública da agência 'Lu Fernandes Comunicação e Imprensa, @maryzaidan

DELICIE-SE COM O NOSSO TREM BALA



Walter Marquart 
Continuamos cultivando o criminoso perdularismo de Juscelino Kubitschek, arauto das rodovias e vias aéreas, para espanto de todo mundo; até ordenou que as ferrovias fossem extintas. A falta de visão provocou o desarranjo, na economia e nas prioridades. Na realidade foi um grande construtor do custo Brasil. Não pensou no povo brasileiro, mas foi se preocupar com os magnatas do petróleo, empreiteiras e fabricantes do poluidor automóvel.
Os perdulários que o substituíram continuaram preocupados e atendendo as caríssimas sugestões dos “honestos” empreiteiros de obras, sabido que a corrupção passou a viajar de avião. 10%? Que miséria! Só o partido exige 20%. Vamos estabelecer um ágio de 50%; ta? Depois falaremos dos reajustes…
Não tivéssemos acompanhado a filosofia JK e a falta de visão dos que o substituíram, estaríamos desfrutando de cidades humanizadas, sem problemas de mobilidade, limpas, ordenadas e governáveis. O bang-bang das drogas e a poluição falaram mais alto e Brasília lhes deu incentivos.
Tivéssemos mantido os caminhos de ferro e as nossas indústrias de material ferroviário, os metrôs teriam sido implantados nas grandes cidades; o metro foi uma das prioridades perdidas; o bom senso teria imperado e a comodidade garantida; OS GOVERNANTES APLAUDIDOS. Marginal seria tão somente o adjetivo depreciativo.
Sofremos porque a lição não é explicada e somos idiotizados pela propaganda oficial. O transporte mais caro é o rodoviário, especialmente no Brasil esburacado, o asfalto casca de cebola e o aéreo tem suas despesas repartidas até com os pobres, que participam como contribuintes, na construção de luxuosos e emperrados aeroportos. Os perdulários continuam no poder, agora falando em construir o Trem Bala, e reforma dos aeroportos. Quando a linha férrea estiver pronta, todos serão convidados para a viagem inaugural do novíssimo trem “Maria Mole”.
Muitos aeroportos para prestigiar Brasília, cidade de costumes malditos pelo seu luxo, atos, palavras e roubos. Muitos aeroportos para transportar empreiteiros e lobistas para Brasília e lá se deliciarem com o poder.
O mandatário da nação não poderia, jamais, focar suas ações ditadas pelas corporações: industriais, comerciais, sindicais ou partidárias e muito menos pela Febraban e os que combatem a volta do trem. Temos que abandonar o destruidor automóvel e o seu padrasto, o caminhão e a emperrada madrinha, o onibus. Chega de pobre financiar as geringonças e a Brasília dos ricos, encastelados no Executivo, Legislativo, Judiciário e MP. .
Raciocine: onde está o enorme patrimônio das antigas ferrovias, seu riquíssimo leito, suas belas e artísticas estações? Os produtos estriam chegando aos portos com custos baixíssimos.
O nosso atual “trem bala” (ônibus) roda a 20 km por hora, isto quando o engarrafamento não atinge a mais de 100 km, o que acontece com qualquer chuva em São Paulo. Até este momento o povo brasileiro é perdedor. Brasília, desgraçadamente  engole tudo.
Ah! Avisem a Polícia Federal, Funcionários do Itamarati, Professores das Universidades Federais e professores em geral e também a CUT que não tardará o dia em que as greves provarão que Vocês não fazem falta nenhuma. Surgirão, não tenham dúvida, muitos discípulos da “Khan Academy”. É só regulamentar e teremos os cursos que necessitarmos e todos baseados na tecnologia que está à disposição. O diplomando será obrigado, para obtenção do diploma, a comprovar o seu saber, junto à banca examinadora do diploma perseguido. Resolvidos os problemas com as greves que envolvem a educação. As outras categorias, eliminadas ou despedidas, seriam substituídas por quadras de candidatos, ávidos pelo cargo e felizes com os trinta por cento do que é gasto hoje.

O “CONTROPASSO” PEGOU A TIA DILMA



Charge de Roque Sponholz e Texto de Giulio Sanmartini
No Inferno de Dante Alighieri (XXVIII 142), encontra-se o que ele chamou “contropasso”, que consiste em infligir ao culpado o mesmo tipo de ofensa que ele infligiu aos outros: “como eu dividi pessoas unidas, agora tenho meu cérebro separado do tronco, assim age em mim o contropasso”.
O Partido dos Trabalhadores surgiu dos movimentos grevistas liderados por seus fundadores, agora está lhe chegando, célere, o “contropasso”.
Os servidores públicos em greve que participaram de reuniões com o secretário de Relações do Trabalho do Ministério do Planejamento, Sérgio Mendonça, recusaram a proposta do governo de reajuste de 15,8%, escalonados até 2015. Com isso, as greves devem continuar.
Iniciados em julho, os protestos e as paralisações de servidores de órgãos públicos federais aumentaram no mês de agosto. Pelo menos 25 categorias estão em greve, tendo o aumento salarial como uma das principais reinvindicações. De acordo com a Confederação Nacional dos Trabalhadores no Serviço Público Federal (Condsef), o movimento atinge 28 órgãos, com 370 mil servidores sem trabalhar.
Estão em greve servidores da Polícia Federal, Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do Arquivo Nacional, da Receita Federal, dos ministérios da Saúde, do Planejamento, do Meio Ambiente e da Justiça, entre outros. O Sindicato Nacional dos Servidores das Agências Nacionais de Regulação (Sinagências) informou que dez agências reguladoras aderiram ao movimento.
A possibilidade de acordo com os novos patamares foi considerada improvável por Mendonça, mas o assunto deve ser avaliado pelo governo e voltar a ser discutido na segunda-feira.
A menos de uma semana do prazo limite para o envio da proposta do Orçamento de 2013, que deve conter a previsão de gastos com a folha de pagamento, o governo só fechou acordos com servidores federais da educação, que deflagraram a greve em meados de maio. A Federação de Sindicatos de Professores de Instituições de Ensino Superior (Proifes), que representa a minoria dos docentes federais, e a Federação dos Sindicatos dos Trabalhadores das Universidades Públicas Brasileiras (Fasubra), representante dos técnicos administrativos universitários, aceitaram a proposta de 15,8% até 2015.
Na realidade, o governo não sabe o que fazer para superar esse tsumani de greves e mostra que  a fora o roubo, é totalmente incapaz para enfrentar qualquer problema que venha surgir..

A violência na sociedade e no futebol brasileiro é um dos fatores de queda da qualidade técnica”


Tostão (Jornal O Tempo)

Envio minha solidariedade à família do querido goleiro Félix, companheiro na Copa do Mundo de 1970, que morreu nesta sexta-feira.
O pênalti marcado a favor do Grêmio, contra o Coritiba, que ajudou a classificar o time gaúcho, na Copa Sul-Americana, foi mais um absurdo erro. Kleber, mais uma vez, enganou o árbitro e o comentarista de TV.
Hoje é dia de clássicos regionais. Ontem, jogariam Santos x Palmeiras e Vasco x Fluminense, este último, paixão de Nelson Rodrigues, que faria, nessa quinta-feira, 100 anos. Em uma entrevista, o maior e mais politicamente incorreto cronista esportivo disse: “O pior cego é o míope. E pior que o míope é o que enxerga bem, mas não entende o que enxerga. Há pessoas, sobretudo jornalistas esportivos, que não têm inteligência visual”.
É cada dia mais comum no Brasil clássicos regionais com apenas uma torcida, como o de hoje, entre Cruzeiro e Atlético, no Independência. A polícia de Minas reconhece a incapacidade de dar segurança aos torcedores. Muito mais que isso, mostra a incapacidade do governo federal, em todo o país.
A atual violência social é uma calamidade pública. Os ricos blindam os carros, contratam seguranças, e os pobres não podem passear nem assistir a seus times jogarem. Ficam sitiados, vendo, diariamente, pela TV, tanta violência e tantos crimes. É o inferno!
A mesma violência social está em volta dos estádios, nas arquibancadas e nos gramados. Ela sempre existiu, mas não era de rotina.
Os jogadores, pressionados e até ameaçados, com a obrigação de ganhar de qualquer jeito, como se fosse uma guerra, dão pontapés, trombadas, para mostrar que têm raça. Além disso, são mal-educados, desde as categorias de base. Os treinadores são, no mínimo, omissos. Gritam e reclamam, na lateral do campo, para mostrar que “jogam com o time”.
Quando era menino e adolescente, ia muito com meu pai ao Independência, de ônibus, lotado, com torcedores dos dois times. Outros caminhavam até o estádio, cada um com sua bandeira. Gostava de ficar na fileira de baixo da arquibancada. Via de perto os jogadores, seus gestos, palavras e expressões de alegria, tristeza, medo, raiva. Aprendia que o futebol era muito mais que detalhes técnicos e táticos. “A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana” (Nelson Rodrigues).
Em uma decisão do título mineiro, entre Siderúrgica e América, Noventa caiu e gritou de dor. O médico do Siderúrgica disse que poderia ser uma fratura, e que ele teria de sair. O truculento técnico Yustrich mandou-o ficar. Noventa, com uma tipoia, fez um dos gols do título. No outro dia, a imprensa só falava nisso. Testemunhei tudo de perto. Deveriam ter me entrevistado.
“Clássico é clássico”
O mais apaixonado torcedor do Cruzeiro reconhece que o Atlético é hoje superior. Por outro lado, o mais desanimado tem esperanças na vitória sobre o Galo. Discordo que clássico não tem favorito, quando um time é nitidamente melhor, o que não significa sempre que o favorito vai ganhar.
Réver mereceu a convocação para a seleção. Fábio, Victor e Diego Cavalieri também poderiam ter sido chamados. Todos estão, no mínimo, no nível dos outros três goleiros (Cássio, Jefferson e Diego Alves). Se a Copa fosse hoje, Cássio não deveria ser convocado, pois tem menos tempo de titular em um grande time, mas é o que tem mais chances de evoluir e de se tornar um grande goleiro, como foram, recentemente, Dida, Rogério Ceni e Marcos, além do próprio Júlio César.

Proposta de descriminalização de drogas protege perigosamente a manutenção do vício



Milton Corrêa da Costa
Quando o objetivo de qualquer política sobre drogas é a redução de danos e a ênfase na prevenção, aí incluída a tentativa de tentar retirar o dependente do vício, uma comissão de intelectuais que se dizem estudiosos do tema, a pretexto de tratar o dependente como caso de saúde pública, propôe agora a descriminalização de drogas, com proteção integral, por óbvio, à manutenção do vício. Quem vai determinar a quantidade diária para o consumo seria um médico psioquiatra.
  O Exemplo de Macaulay Culkin
No caso da maconha, a comissão de notáveis propôe inclusive a autorização para o plantio, até em residências, desde que para consumo próprio. Traduzindo: os filhos já crescerão vendo a maconha sendo cultivada no próprio lar pelos pais. O complicado também será saber se o dependente extrapolou ou não a dose diária permitida. Argumentam os intelectuais que o anteprojeto de lei tem 110 mil assinaturas em apoio. Quem são os que apoiam?
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PORTUGAL
Portugal é sempre citado como país que apresenta resultados incontestáveis com relação à redução do consumo e números da criminalidade. No entanto, uma pesquisa mostrou que os dados estatísticos se contrapõem ao discurso dos citados estudiosos. Naquele país, depois da descriminalização, o número de usuários de drogas que, em 2001, era de 12,6% subiu, em 2007, para 17,4%. De maconha, de 12,4% pra 17%; de cocaína, de 1,3% para 2,8%; de ecstasy, de 1,4% para 2,6%; e de LSD, de 0,6% para 0,9%.
Os dados foram extraídos do relatório 2010 do Insitituto da Droga e da Toxicodependência, ligado ao Ministério da Saúde português. Desde 2001, homicídios relacionados com drogas também subiram 40%, segundo o “World Drug Report-2009″ da Organização das Nações Unidas.
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PLEBISCITO
Quando o assunto é drogas escancarar a porta do proibido é pura insensatez. Um referendo popular sobre a descriminalização ou não de drogas teria muito mais consistência e respaldo do que 110 mil assinaturas de apoio à causa. Fica aqui portanto a proposta, aos defensores da descriminalização e ao governo. A população brasileira saberá, sem dúvida, dar a resposta mais sensata.
Uma lei sobre drogas deve ter por finalidade proteger a sociedade e os jovens, como um todo, e não gerar o aumento do mercado negro – vejam o caso da Holanda com o tráfico internacional do ecstasy – beneficiando apenas uma minoria de dependentes, muitos em permanente síndrome emotivacional, e que alimentam os fuzis do tráfico e a própria violência.
Uma lei proibitiva deve ter por objetivo, além de corrigir, intimidar e desencorajar a prática criminosa ou infracional. Apenas isso.

Jango em Moscou Sebastião Nery


Em agosto de 61, vice-presidente de Jânio Quadros, João Goulart passou por Moscou, a caminho da China, de onde voltaria para assumir a presidência da Republica, com a renúncia de Jânio. Vasta a comitiva: senadores Barros Carvalho (PE) e Dix Huit Rosado (RN), deputados Franco Montoro (SP) e Gabriel Hermes (PA), o advogado Evandro Lins, os jornalistas João Etcheverry, diretor da Última Hora, e Raul Ryff, assessor de imprensa.

Jango foi visitar Nikita Khruschev, secretário-geral do Partido Comunista e dono do poder. Khruschev contou que o presidente Kennedy, dos Estados Unidos, no encontro de Viena, lhe propusera a divisão do mundo em dois: às então nações socialistas seria assegurada a continuação, e em troca as nações capitalistas receberiam a garantia de permanecerem capitalistas. E Washington e Moscou seriam os guardiães desse zoneamento, dessa estratificação econômica e social, desse novo Tratado de Tordesilhas.
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KHRUSCHEV
Raul Ryff, com seu fino humor, lembrava-se bem de Khruschev passando sempre a pequena mão gorda na cabeça, onde despontavam ralos cabelos cortados à escovinha e rindo muito, sobretudo de suas próprias tiradas:
- Veja, senhor vice-presidente, não pude concordar. Nós, por exemplo, teríamos de ajudar a sustentar nosso vizinho, o Xá do Irã, que está cai e não cai, e recolocá-lo em seu trono toda vez que ele escorregasse, sacudido pela oposição que lhe faz seu povo. Isso não teria sentido. Não concordei.
E Khruschev disse mais, sempre rindo: – Veja bem, senhor vice-presidente. Quando os norte-americanos ajudam um país ainda pouco desenvolvido, como o Brasil, e me refiro a uma verdadeira ajuda, coisa rara vinda de Washington, esse gesto de apoio deve ser creditado sobretudo a nós, soviéticos. Washington só toma tal iniciativa para evitar nossa colaboração com os países pouco desenvolvidos, temendo possíveis influências nossas sobre eles.
E ria, ria muito, seu risinho gordo de simpático porquinho da Índia.
Khruschev caiu antes do Xá.
Bons tempos aqueles em que ainda se discutia a divisão do mundo entre dois rufiões, donos do cabaré universal. Hoje, muitos políticos, economistas e grande parte da imprensa ocidental acha que o cabaré é de um rufião só, os Estados Unidos, e todo mundo tem que fazer o que seu rufião mandar.

190 milhões de burros - Carlos Chagas


Ou este que vos escreve é burro, hipótese mais do que verdadeira, ou o presidente do PT, Rui Falcão, supõe ser o Brasil um país de 190 milhões de burros. Porque não dá para entender ele ter falado ser a CPI do Carlinhos Cachoeira capaz de neutralizar, abafar e desmoralizar o julgamento de 38 réus do mensalão, caracterizados como quadrilha pelo Procurador Geral da República. Se uma coisa é uma coisa e outra coisa, outra coisa, de que maneira imaginar que a CPI servirá para desfazer o que o dr. Falcão chama de “farsa do mensalão”?

O escândalo existiu, levou a demissões no ministério Lula e a expulsões no PT. O processo foi admitido no Supremo Tribunal Federal, agora em vias de concluir o julgamento. De que forma as investigações sobre o bicheiro empenhado em corromper políticos e governantes anularia a ação e a decisão da mais alta corte nacional de Justiça? Os crimes porventura desvendados agora fariam desaparecer os crimes praticados em 2005?
Só mesmo admitindo que o presidente do partido pretende aproveitar-se de um escândalo recém-descoberto para salvar o pescoço de companheiros envolvidos em escândalo anterior, como José Dirceu, Delúbio Soares e outros.
Se existem novos criminosos, importa revelá-los, mas sem esquecer os antigos. E se integram outros partidos, como o PSDB e o DEM, como antes e possivelmente agora também o PT, pau neles.
Acresce que uma CPI não julga. Apenas revela. Suas conclusões, se vierem a existir, serão encaminhadas ao Ministério Público, para abertura de processos.
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RESPINGOS
De toda essa lambança envolvendo as relações do bicheiro, perdão, do corretor zoológico Carlinhos Cachoeira, começa a emergir a empresa Delta, acusada de distribuir contribuições eleitorais e propinas para políticos e governantes. Trata-se da maior concessionária de obras do PAC e de contratos polpudos com os governos de Brasília, Rio de Janeiro e outros. As gravações promovidas pela Polícia Federal envolvem ex-funcionários da Delta e comparsas de Cachoeira, além de referências a altas figuras das referidas administrações. Já estão ocupados os dois maiores advogados criminalistas do país, Almeida Castro, com Demóstenes Torres, e Márcio Thomas Bastos, com Carlinhos Cachoeira, mas não faltarão grandes nomes para a Delta contratar, sempre a peso de ouro.
REZANDO DO LADO ERRADO
Em termos políticos, a Igreja Católica tem prestado inestimáveis serviços às instituições, em especial quando, depois de alguns desvios e hesitações, passou a formar na primeira linha de resistência à ditadura militar.
Era março de 1964 e marinheiros desvairados rebelaram-se, tentando criar um soviete na Marinha. Anistiados pelo então presidente João Goulart, depois de recolhidos a um quartel do Exército foram libertados e saíram em passeata pela Avenida Presidente Vargas, no Rio. Ao passarem pela igreja da Candelária, os líderes convenceram a massa a agradecer a Deus não ter havido derramamento de sangue. Quando se encaminhavam para a entrada principal do templo, tiveram barrada sua pretensão: alguns padres trancaram as vastas portas gritando que “comunistas não rezam aqui”.
Anos depois, na missa de sétimo dia do estudante Edison Luís, assassinado pela repressão militar, centenas de jovens que iam deixar a cerimônia souberam estar a igreja cercada por tropa armada, cavalaria e agentes policiais de cassetete em punho, prontos para investir sobre eles. Seria uma carnificina. Quando as portas se abriram, a surpresa: na frente dos estudantes saíram dezenas de padres, todos paramentados, de mãos dadas, obrigando os soldados apavorados a recuar até que, entrando pela Avenida Rio Branco, aquela singular procissão conduziu os jovens à segurança.
Essas duas histórias se contam a propósito do que aconteceu há dois meses na Praça dos Três Poderes, quando uns poucos frades, vestidos a caráter, primeiro ajoelharam-se em oração e depois saíram em procissão diante do Supremo Tribunal Federal. Só que rezavam do lado errado, contra a mais do que humanitária decisão dos ministros de autorizar a interrupção da gravidez no caso da comprovação de que o bebê nasceria sem cérebro e morreria em seguida, colocando em risco a vida da mãe.