sábado, 19 de outubro de 2013

Cartas de Buenos Aires: O último nazista, por Gabriela Antunes


A zona de Bariloche, com sua paisagem andina, lembra os Alpes suíços. Picos nevados, os lagos e o clima, tudo dava conforto aos criminosos de guerra, saudosos de suas casas de veraneio na Suíça. Nada mais acolhedor do que a impunidade, principalmente quando esta está garantida pelo Governo em exercício e, especula-se, pelo Vaticano.
Com o fim da Segunda Guerra, milhares de ex-oficiais da SS que não foram capturados pelo exército aliado buscavam uma saída para não caírem em mãos inimigas. Os nazistas considerados mais “hardcores” eram julgados em Nuremberg e muitos outros entravam na clandestinidade. Para os “homens do meio” despontava um novo horizonte: a América do Sul.
Enquanto o Brasil (basta lembrar que o “anjo da morte” Joseph Mengele morreu impune em uma de nossas praias), Paraguai e outros países da região recebiam em surdina os criminosos do Terceiro Reich, o Governo de Perón se organizava para dar asilo a algumas das piores mentes do nazismo, um episódio que poucos peronistas gostam de relembrar.
Entre elas estava Erich Priebke. Um dos responsáveis por um dos maiores genocídios da história italiana, foi Priebke que, com outros oficiais, levou a cabo o massacre de 335 civis italianos, em represália a um ataque da resistência italiana que culminou na morte de 33 soldados da SS.

Priebke, soldado da SS na Itália.

Durante mais de 40 anos, o verdugo viveu sob o olhar pacato da cordilheira, até que uma equipe de reportagem americana o descobriu em Bariloche. Quando abordado pelo repórter, o ex-agente da SS não demonstrou nenhuma espécie de contrição, discutindo tacitamente o massacre.
A reação internacional foi quase imediata e Priebke foi extraditado para Roma, onde permaneceu em prisão domiciliar até sua morte nessa semana, aos 100 anos de idade. Muitos afirmam que sua pena foi atenuada pelo Vaticano já que, se especula, Priebke mantinha um elo direto com a Igreja durante a Guerra.
Agora a Igreja se nega terminantemente a celebrar um funeral católico para o nazista, a mesma negativa que a Argentina deu para que seus restos mortais pudessem ser enterrados segundo seu desejo, ao lado de sua mulher em Bariloche.
Os últimos cérebros nazistas estão morrendo de velhice, mas a passagem deles pela Argentina continua mexendo com a imaginação dos argentinos. Tanto que o filme Wakolda, que conta a relação de uma família argentina com ninguém menos do que Joseph Mengele, chegou com força aos cinemas e foi escolhido como o candidato local para melhor filme estrangeiro do Oscar.
Enquanto isso, até ontem, o corpo de Priebke seguia insepulto. “Persona non grata” até nos cemitérios da Argentina, Itália e Alemanha.

Gabriela Antunes é jornalista e nômade. Cresceu no Brasil, mas morou nos Estados Unidos e Espanha antes de se apaixonar por Buenos Aires. Na cidade, trabalhou no jornal Buenos Aires Herald e mantém o blog Conexão Buenos Aires.

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