domingo, 9 de setembro de 2012

Execução de PM-RJ foi presente de aniversário a traficante


Posted: 09 Sep 2012 10:36 AM PDT
Anderson Dezan , iG Rio de Janeiro

A morte de um cadete da Polícia Militar cujo corpo foi encontrado neste sábado (8) no Rio de Janeiro teria sido oferecida como presente de aniversário a um traficante. De acordo com uma fonte da PM, o assassinato ocorreu em homenagem ao criminoso conhecido como Ratinho, que teria comemorado mais um ano de vida neste final de semana na Favela da Chatuba, no município de Mesquita, na Baixada Fluminense.

O corpo de Jorge Augusto de Souza Alves Júnior, de 34 anos, foi encontrado ontem pela manhã dentro do porta-malas de seu carro, um Fox preto, no bairro Vila Emil, em Mesquita. Segundo a fonte da PM, a identificação chegou a ser demorada porque o cadáver estava com o rosto deformado. No corpo, ainda havia sinais de violência sexual e marcas de espancamento e tiros.
Corpo do Cadete Alves foi encontrado no porta malas do próprio carro
Colegas de Jorge Augusto, conhecido como Alves, relatam que ele foi visto pela última vez na sexta-feira (7) à noite, saindo de um show de pagode em Mesquita, acompanhado de uma mulher. No dia seguinte pela manhã, quando foi encontrado morto, o policial estaria de serviço.

De acordo com a fonte da PM, investigações apontam que o crime teria ocorrido para presentear o traficante Ratinho. Ele integraria o bando de Luís Fernando Nascimento Ferreira, o Nando Bacalhau, gerente do tráfico de drogas no Morro do Chapadão , em Costa Barros, zona norte do Rio, e teria ido comemorar seu aniversário na Favela da Chatuba.

O caso foi registrado na 53ª DP (Mesquita) e repassado para a Divisão de Homicídios da Baixada. A mulher que acompanhava Alves no show de pagode está sendo procurada.

O cadete assassinado estava na Polícia Militar desde 2006 e era aluno da Escola de Formação de Oficiais da corporação. Sua formatura iria ocorrer em 1º de dezembro deste ano. Querido pelos colegas, ele integrava o time de basquete da escola. Alves era solteiro e não deixa filhos. Seu corpo vai ser enterrado às 15h deste domingo no cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap, zona oeste da capital fluminense.

Fora das UPPs, tráfico ainda controla o território

Mario Hugo Monken, iG Rio de Janeiro

Tensão entre a população, bailes funk patrocinados pelo tráfico, ruas fechadas com latões de concreto, disparos a esmo, guerra entre facções. Parecem cenas de um filme velho rodado no Rio de Janeiro, mas no entanto ainda fazem parte da rotina de boa parte da população do Grande Rio. Em tempos de UPP, as Unidades de Polícia Pacificadora, as boas notícias têm superado as más na questão da violência no Estado, mas a verdade é que a guerra ainda está londe de ser vencida.

Só no período entre 1º de janeiro e 27 de março, o Disque-Denúncia recebeu 1.370 informes de obstrução de vias públicas por traficantes de drogas na região metropolitana.

Na capital, o número total de denúncias chegou a 997 e reúne ao menos 18 bairros . As outras 373 se referem a outros cinco municípios (Niterói, Nova Iguaçu, Duque de Caxias, São João de Meriti e São Gonçalo). Muitos informes são mantidos em sigilo.

Sobre os telefonemas que recebe dos moradores, o Disque-Denúncia informa que repassa as informações para as polícias Civil e Militar.

“Todas merecem credibilidade. Repassamos as denúncias às polícias (CIvil ou Mlitar) e cobramos respostas. Precisamos dar um retorno ao denunciante”, diz nota do órgão.

Com os iminentes problemas em favelas não pacificadas, o governador Sérgio Cabral (PMDB) prometeu expandir a política das UPPs, inclusive para outros municípios. Segundo ele, isso é um caminho sem volta.

"Temos uma estratégia pela frente. Em Niterói, o secretário José Mariano Beltrame (Segurança Pública) tem se encontrado com as lideranças, explicando que temos uma estratégia a seguir. O mesmo vale para a Vila Kennedy, na zona Oeste, Madureira, na zona norte, e comunidades em São Gonçalo, além daquelas em municípios da Baixada Fluminense. Nossa estratégia está sendo seguida e paulatinamente chegaremos lá. As comunidades terão um resultado de pacificação, mas, enquanto isso, a nossa polícia está trabalhando para valer", afirmou Cabral na semana passada.

A PM tem feito quase que diariamente operações para combater o tráfico em favelas das zonas norte e oeste da capital e da Baixada Fluminense. Por muitas vezes, os policiais levam retroescavadeiras para retirar as barricadas construídas pelos bandidos. Em Santa Cruz, na zona oeste da capital, um PM ouvido pelo iG afirmou que diversas vezes a polícia retirou os obstáculos na favela do Rola mas os traficantes voltaram a colocá-las depois.

Com base nas informações disponibilizadas pelo Disque-Denúncia, o iG descreve os problemas que ocorrem nos bairros da capital e de cidades da região metropolitana fluminense.

214 denúncias
A população dos bairros de Barros Filho, Costa Barros, Anchieta e Guadalupe, na zona norte da capital, viveria sob as regras do traficante Luiz Fernando do Nascimento Ferreira, o Nando Bacalhau, que comanda a venda de drogas no morro do Chapadão, um dos mais violentos da cidade e que ainda não recebeu uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).

Segundo denúncias de moradores, toda vez que há bailes funk na comunidade ou para dificultar o acesso da polícia, Bacalhau manda fechar ao menos nove ruas dos quatro bairros: Amarari, Javatá, José Bomtempo, Peripiranga, José Tavares de Souza, Caminho do Padre, Himalaia, Professor José Alberto e Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

Ligado ao Comando Vermelho (CV), Bacalhau ordena que seus homens obstruam as ruas com manilhas, blocos e latões de concreto, paletes de madeira, barras de ferro e sofás velhos.

Bandidos ligados a Bacalhau também costumam fazer disparos em direção ao vizinho morro da Pedreira, dominado por uma facção rival. Em um destes ataques, um adolescente de 15 anos que havia acabado de sair da escola, morreu atingido por uma bala perdida.

Tratores 
Em muitas outras favelas, principalmente naquelas sem UPPs, a realidade é semelhante ao Chapadão. Se nas comunidades pacificadas, a chamada “ditadura do tráfico” é bem menos intensa, nas localidades que ainda não foram ocupadas, os traficantes continuam ditando regras.

Em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, a ação dos criminosos é ainda mais ousada do que no Chapadão. De acordo com denúncias, os traficantes da favela do Sapo, que integra o Complexo da Mangueirinha, usariam tratores de obras públicas para cavar buracos e fechar a rua Camargo.

Na localidade de Parque Chuno, no mesmo município, informes indicam que aconteceria a mesma coisa e os operários ainda seriam ameaçados pelos bandidos.

Ainda em Caxias, os traficantes cavaram buracos em ruas de acesso à comunidade Vila Esperança, em Parada Angélica. E na favela Parque Paulista, bandidos vindos de Manguinhos, na zona norte, teriam interditado com barricadas a rua Manuel Bonfim.

Moradores revistados
Outro lugar tenso seria o bairro de Santa Cruz, na zona oeste da capital. Foram 72 denúncias em menos de três meses.

A área mais crítica seria a favela do Rola. Segundo denúncias, várias ruas da comunidade estão fechadas com concreto, sacos de cimento e pedras. Nestas vias obstruídas, os traficantes circulariam em motos roubadas. Na rua Oficina, os traficantes apontariam fuzis para os moradores. Na rua Estelinha, além das barreiras, os bandidos revistam as pessoas e exigiriam identificação.

No Conjunto Habitacional Cesarão, no mesmo bairro, os bandidos mandaram fechar com peças de concreto a rua dos Bancários.

Dividida por duas facções criminosas, o CV e o Terceiro Comando Puro (TCP) e com ameaça de novos confrontos, a Vila Kennedy, na zona oeste, também sofre com ações de traficantes.

Informes indicam que os traficantes do TCP costumam fechar a rua Congo à noite para impedir operações policiais e fariam ameaças aos moradores. Para vender drogas, os criminosos ainda teriam instalado barricadas na esquina da Travessa Barranquilha com a rua Forte Lamer.

Quebra-molas
A violência imposta pelo tráfico atravessou a ponte Rio-Niterói e chegou também ao município de São Gonçalo. O Disque-Denúncia recebeu 89 informes de bloqueios de ruas na cidade.

No Jardim Catarina, por exemplo, os bandidos teriam instalado quebra-molas na rua José Rosendo de Souza para atrapalhar a entrada de carros da polícia.

Segundo moradores, desde o ano passado, a rua Comandante Jaime Abreu, na localidade de Arsenal, está fechada com barreiras armadas pelo tráfico.

Problemas ocorreriam também no Complexo do Salgueiro, na localidade conhecida como Buraco Quente, onde foram instaladas barricadas. No bairro de Portão do Rosa, há notícias de que os bandidos quebraram as lâmpadas e fecharam a Rua Marquês de Herval, para vender droga

Proteção para as bocas de fumo
Vizinha ao morro do Chapadão, reduto do traficante Nando Bacalhau, a favela da Lagartixa, em Costa Barros, na zona norte, também sofre com a ação de traficantes. Informes indicam que quatro ruas de acesso à comunidade foram bloqueadas com barricadas.

Na favela do Jacarezinho, na zona norte, manilhas de concreto instaladas pelo tráfico bloqueariam a rua Inabu. Em Brás de Pina, também na zona norte, as ruas Alquindar e 50 teriam sido fechadas pelos criminosos para proteger as bocas de fumo.

Em Honório Gurgel, na zona norte, traficantes da comunidade Jurubeba instalaram barricadas em frente a um ponto de ônibus, na rua Nova. Já nas proximidades do morro da Serrinha, em Madureira, na mesma região, há notícias de que traficantes armados desligariam as luzes de algumas ruas, como a Lima Drummond, para fazer disparos contra a polícia ou bandidos rivais.

Além de Duque de Caxias, outros municípios da Baixada Fluminense também enfrentam problemas com os traficantes. Em Coelho da Rocha, na cidade de São João de Meriti, há informações de que os traficantes fecharam a rua Baiana só para proteger uma boca de fumo que funciona próxima de uma creche.

Na favela da Chatuba, em Mesquita, existem notícias de os traficantes mandarem cavar um valão para obstruir a rua Magno de Carvalho.
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