domingo, 14 de junho de 2015

14 de Junho de 1966: Abolição do Índex


Índex, Index Librorum Prohibitorum ou Índice dos Livros Proibidos data de 1571 e era uma relação formal das obra interditas àqueles que professavam a  católica, sendo vedada a leitura, tradução, detenção, empréstimoou venda dos mesmos. Inicialmente, o incumprimento destes preceitos implicava sanções canónicas (como, porexemplo, a excomunhão), mas a partir do Concílio do Vaticano II (1962  1965) e da declaração Dignitatishumanae os livros constantes nesta lista passaram apenas a ser de leitura desaconselhada, não se inscrevendoqualquer um a partir dessa data.
Considerados prejudiciais aos costumes cristãos e à fé, desde o início do Cristianismo se exerciam censurassobre obras consideradas inadequadas à fé. Foi, no entanto, com o advento da imprensa que se agravou oproblema para a Igreja, uma vez que se podiam fazer cópias mais facilmente e o acesso às mesmas se facilitava.O papa Pio V criou então a Congregação do Índex (que contava com um conjunto de dezoito bispos), que maistarde se integrou no sacro colégio pontifício do Santo Ofício e que elaborou um primeiro índice, publicado em 1564e alvo de diversas reimpressões. Pio V optou por constituir sete anos depois uma Congregação similar, com afinalidade de criar uma outra lista, mais completa e atualizada. Finalmente, o pontífice Leão XIII ordenou a faturado último Índex (que tinha acumulado alguns milhares de obras)  no dealbar do século XX, mais concretamenteno ano de 1900. Em 1948 fez-se a trigésima segunda e última edição deste índice, devida à Congregação doSanto Ofício que em 1917 substituíra a Congregação do Índex. Foi a partir de 1966 que o papa Paulo VI ordenou ainterrupção da inserção de mais obras nesta lista, que conteve escritos censurados de Simone de Beauvoir,Balzac, George Sand, Locke, Pascal e Jean Paul Sartre. O Índex  foi abolido a 14 de junho de 1966 pelo Papa Paulo VI sendo anunciado formalmente em 15 de junho de 1966 no jornal do Vaticano, L'Osservatore Romano, através de um documento chamado de "Notificação" escrito no dia anterior.
Índex. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. 
wikipedia (Imagens)

Livro contendo a lista do Index Librorum Prohibitorum (Veneza1564)
Ficheiro:Index Librorum Prohibitorum 1.jpg


Ficheiro:Frans Hals - Portret van René Descartes.jpg
René Descartes foi um dos mais notáveis autores a ir para o Index

FONTE - http://estoriasdahistoria12.blogspot.com.br/2015/06/14-de-junho-de-1966-abolicao-do-index.html

Deles para eles mesmos - ESTADÃO


A Câmara dos Deputados avançou quarta-feira na votação em primeiro turno da chamada reforma política, com duas decisões mais relevantes: a aprovação de mandatos de cinco anos para todos os cargos eletivos – um presente dos deputados para eles mesmos – e a rejeição da proposta de abolição da obrigatoriedade do voto. No dia seguinte, completou o ciclo, alterando limites de idade para as diversas candidaturas e a data de posse do presidente da República. Essas decisões – que depois do segundo turno na Câmara ainda serão submetidas ao Senado – confirmam os prognósticos e indicam que ao final desse processo os parlamentares terão promovido mudanças destinadas a deixar tudo mais ou menos como está em termos de organização partidária e sistema eleitoral.
A ampliação para cinco anos dos mandatos de chefes de Executivo – presidente, governadores e prefeitos – é decorrência da decisão anterior de acabar com a reeleição desses mandatários e se baseia no argumento de que os atuais quatro anos são insuficientes para a execução mínima de programas de governo. Se isso é verdade, é o caso de perguntar por que, então, acabaram com a reeleição. O argumento de que a reeleição propicia o uso eleitoral da máquina governamental tem procedência. Mas essa anomalia pode ser corrigida por meio de normas de controle e de fiscalização mais rigorosas por parte da Justiça Eleitoral, como a obrigatoriedade de o chefe de Executivo candidato à reeleição não poder praticar livremente determinados atos administrativos durante o período de campanha eleitoral.
Mas por que os deputados se deram de presente um ano a mais de mandato? Aos que acham quatro anos pouco, cabe lembrar que na maior democracia ocidental, a americana, os representantes do povo têm apenas a metade desse tempo – dois anos – para mostrar serviço e garantir a recondução à Casa dos Representantes. E disputam a vaga em pleito distrital, que favorece o fortalecimento da relação entre representante e representado.
O estabelecimento de mandatos parlamentares de cinco anos implica também, ao contrário do que acontece com os deputados, a redução do prazo de exercício do cargo para os 81 senadores, que é de oito anos. A cada quatro anos o Senado abre disputa, alternadamente, para um terço e dois terços de suas vagas. É difícil de acreditar que os senadores se disponham a abrir mão de três anos de mandato.
Quanto à manutenção da obrigatoriedade do voto, trata-se de medida que sempre leva em consideração o nível de amadurecimento da democracia brasileira. O sistema democrático – que segundo Winston Churchill é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais – se aperfeiçoa com o exercício do direito que a sociedade tem de escolher seus governantes. Estimular esse exercício por meio da obrigatoriedade do voto seria, segundo a opinião de alguns, saudável para a democracia. No segundo turno da eleição presidencial do ano passado, apesar da obrigatoriedade, mais de 30 milhões de brasileiros, 21,1% do eleitorado, deixaram de comparecer às urnas. A obrigatoriedade do voto, como se vê por exemplo – e, mais importante, pela qualidade dos eleitos –, não é, por si só, garantida de aperfeiçoamento eleitoral.
No segundo turno de votação do pacote eleitoral pela Câmara, no qual estarão em pauta apenas as propostas aprovadas no primeiro e deverá ocorrer em agosto, pelos menos duas das propostas até agora aprovadas deverão ser confirmadas tranquilamente: o fim da reeleição dos chefes de Executivo e o mandato de cinco anos. Ambas são do maior interesse dos deputados – e talvez só deles.
Outras duas medidas podem provocar maiores divergências do que no primeiro turno: as doações de empresas apenas para os partidos e a cláusula de barreira. A primeira foi a que teve maior quantidade de votos contrários, 141 contra 330, e pode ser afetada pelas dúvidas cruéis que afligem o PT. A aprovação de uma cláusula de barreira “light” – que garante todos os privilégios dos grandes partidos aos nanicos que consigam eleger pelo menos um deputado federal ou senador – foi o resultado de uma barganha de petistas e oposicionistas com as lideranças das pequenas legendas que garantiu a rejeição da proposta do “distritão” defendida pelo PMDB. Há alguma possibilidade de que a repercussão negativa desse arranjo altere a votação no segundo turno.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO


“Esse problema o governo vai ter que viver”
Presidente da Câmara, Eduardo Cunha, sobre a urgência dos projetos anticorrupção


LOBISTA APS SERIA FIGURA CENTRAL NA CPI DO CARF

O empresário e lobista Alexandre Paes dos Santos, conhecido como APS, seria figura central na CPI do Carf, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. A avaliação é de um senador que teve acesso a documentos que fundamentam a abertura da CPI. O Carf foi alvo da Operação Zelotes, da Polícia Federal, que desbaratou uma quadrilha suspeita de mais de R$ 19 bilhões em desvios de multas tributárias.

O MAIOR ATÉ O PRÓXIMO

Segundo o senador, “a CPI do Carf pode revelar o maior escândalo da República moderna. Maior que mensalão, petrolão, Fifalão etc.”

DESCONHECIDO

O Carf, pouco conhecido da população, julga os recursos de empresas que questionam pendências fiscais e tributárias com a Receita Federal.

LEMBRA DELA?

A revista Veja informou que a ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra seria sócia oculta de APS e também do chefe do esquema no Carf.

HISTÓRICO

APS já foi mencionado em duas CPIs (ONGs e Roubo de Cargas). Ele também ficou conhecido por ter “bancada” no Congresso.

GOVERNO ESCONDE ROMBO DOS FUNDOS SOB O TAPETE

Dos 23 autos de infração da Previc (órgão fiscalizador dos fundos de pensão), que é controlado por petistas, apenas nove foram relativos a gestores anteriores a 2012. Outros 14, dizem fontes da Previc, seriam de grandes fundos administrados pelo PT: Previ (Banco do Brasil), Funcef (Caixa) e Petros (Petrobras). A ordem no governo e no PT é proteger e evitar o desgaste dos dirigentes desses fundos.

CORTINA DE FUMAÇA

Audiência no Senado tratou do rombo no Postalis, que atormenta os servidores dos Correios, mas ignorou a situação dos grandes fundos.

RELAÇÕES PERIGOSAS

O governo teme os vínculos desses grandes fundos de pensão – Previ, Funcef e Petros – no escândalo de corrupção da Lava Jato.

BILHÕES

Os maiores fundos de pensão federais, chefiados por petistas, fizeram investimentos bilionários estranhos, nos setores de petróleo e energia.

CASO DE DENÚNCIA

Petistas do Congresso estão furiosos com o líder tucano, deputado Carlos Sampaio (SP), que disse que o partido da presidente Dilma se desgastou por completo devido a “bandidos estarem na legenda”.

RECEITAS DO GOVERNO…

Em menos de um mês, o governo federal arrecadou R$ 200 bilhões em impostos e atingiu R$ 1,25 trilhão em 2015, pela Transparência. Se mantiver o apetite, Dilma baterá recorde de R$ 2,2 trilhões de 2014.

… SÃO CENTENAS DE BILHÕES

Só a Fazenda, do ministro Joaquim Levy, responsável por cortar R$ 70 bilhões em investimentos, já arrecadou mais de R$ 1 trilhão este ano, o equivalente a mais de 60% do valor arrecadado em todo o ano passado

TEM DE TUDO

Audiência pública convocada pelo ministro Luís Roberto Barroso (STF) sobre ensino religioso nas escolas terá presença de católicos, espíritas, muçulmanos, evangélicos, umbandistas, bruxos e... da Igreja de Satã.

SEM VAGAS

Nem o fato de ser filho de um ex-governador ajuda o deputado Newton Cardoso Jr. (PMDB-MG) a emplacar indicados no governo mineiro. Até agora não emplacou nenhum indicado no Executivo estadual.

PRESIDENTE E RELATOR

Na futura CPI da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), exclusiva do Senado, Romário (PSB-RJ) deve assumir a presidência e Romero Jucá (PMDB-RR) é o predileto para assumir a relatoria.

CHAPÉU VIRTUAL

Silas Malafaia deu uma pausa nas belicosas mensagens do seu Twitter para passar o chapéu. Pediu aos 919 mil seguidores para não esquecerem da “oferta mensal”, também conhecida como dízimo.

ROSSO PERDEU

Aliado de Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) na campanha e no governo, o deputado federal Rogério Rosso (PSD) perdeu muita força no governo do DF com a saída de Hélio Doyle, de quem foi avalista, da Casa Civil.

PENSANDO BEM...

... o programa do PT “Seja Companheiro” que pede doações ao eleitor trouxa até parece sócio-torcedor, mas sem os resultados “no campo”.

PODER SEM PUDOR

BARRIGA CHEIA

Cezar Schirmer fazia sua campanha para vereador de Santa Maria (RS) pelo velho MDB, contando com a solidariedade de vários amigos. Um deles, Bayard Azevedo, era gordo, imensamente. Mas, bom orador, foi escalado para destacar as virtudes de Schirmer. Pegou o microfone e atacou com uma frase de efeito:

- Os ricos estão cada vez mais ricos, os pobres cada vez mais pobres! O povo passa fome!

Mal acabara de pronunciar a frase, um provocador gritou:

- Gordo desse jeito, até que te encostaste bem...

O preço de Lula - O ANTAGONISTA


Diogo MainardiemO Antagonista 
Paulo Okamotto, entrevistado pela Folha de S. Paulo, disse que o cachê das palestras de Lula é alto porque "não é para qualquer empresa pagar". Ele tem razão. De fato, só Odebrecht, OAS e Camargo Corrêa conseguem comprar determinados serviços de Lula.

‘No mesmo saco’ - ELIANE CANTANHÊDE


O Estado de S. Paulo - 14/06

Sempre pode mudar, mas, neste momento, os rumos de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Vana Rousseff apontam em direções opostas. Lula entrou no alvo e afunda em suspeitas; Dilma parece sair da fase mais aguda da crise - apesar de tudo...

O PT e Dilma têm comido o pão que o diabo amassou e eles próprios assaram em fogo alto. O partido queima sua imagem em mensalões e petrolões e Dilma torra definitivamente a imagem de “gerentona” com o não crescimento, a inflação e os juros escorchantes e o desemprego aumentando. Até aqui, porém, Lula era coadjuvante da crise, até mesmo como alvo das manifestações. Agora, passou a protagonista.

Primeiro, a informação de que o já famoso delator Paulo Roberto Costa voou a Brasília especificamente para papear com o então presidente Lula, no Palácio do Planalto, num encontro listado pela própria Petrobrás entre as “viagens Pasadena”. E a dias da formalização desse mico de grandes proporções.

Depois, a descoberta de que a Camargo Corrêa, envolvida até a tampa na Lava Jato, despejou R$ 3 milhões no Instituto Lula, sem falar outros trocados doados simultaneamente ao partido. A isso somem-se as viagens de Lula, sobretudo para a África, a bordo de jatos de grandes empreiteiras.

Aliás, não ajuda Lula em nada o Itamaraty produzir um memorando interno para driblar a lei da transparência e impedir a divulgação de documentos que, oficialmente, já são de domínio público. E por quê? Para que a imprensa - logo, a opinião pública - não acabe aprofundando detalhes das relações perigosas entre Lula e a Odebrecht, outra listada na Lava Jato.

Como sempre que não tem o que dizer, Lula usou o acolhedor ambiente do congresso do PT para fugir dessas questões e descascar em cima da imprensa. “Parece que as pessoas não querem mais ler as mentiras que eles publicam.” Se não for pedir demais, dá para dizer quais são essas “mentiras”? Os dados econômicos? O aparelhamento das estatais? O julgamento do mensalão no STF? As investigações do Ministério Público e da PF sobre o desmanche da Petrobrás?

Quanto mais Lula se enrola, mais Dilma começa a respirar melhor. Emagreceu 15 quilos, recupera a autoestima, pedala pelas redondezas do Alvorada e até dá-se ao luxo de comparecer à abertura do congresso do PT, discursar quase uma hora e... não ser vaiada. Ufa!

Também listou um monte de ideias e abastece a tal “agenda positiva”, ora com um ambicioso plano de safra, ora com um novo plano de investimentos para tapar os buracos da precária infraestrutura nacional. As intenções são grandiosas. As dúvidas sobre a viabilidade, igualmente.

Essa Dilma renovada sai da toca e cruza oceanos e mares para agitar a agenda externa e produzir boas pautas para a demanda interna. Após Bruxelas, para o encontro Celac-União Europeia, vem aí a viagem mais esperada há anos, aos EUA.

Dilma encontra investidores privados em Nova York no dia 28, janta na Casa Branca no dia 29, tem intensa agenda com Barack Obama (reuniões, entrevistas, assinatura de atos) no dia 30 e depois vai à Califórnia tratar de alta tecnologia. A expectativa do governo é não só uma nova etapa nas relações Brasil-EUA, mas manchetes favoráveis na imprensa tupiniquim.

O equilíbrio entre Lula e Dilma, porém, não é exatamente assim: um sobe, o outro cai. Um depende visceralmente do outro, tanto quanto o PT depende de ambos. Ou, repetindo José Dirceu, que sabe das coisas, estão todos “no mesmo saco”.

Com um detalhe interessante: por mais que o PT fique esbravejando contra o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, o partido precisa dele quase tanto quanto de Dilma e de Lula. Se o ajuste fiscal der certo e a economia aprumar, o horizonte petista em 2018 é um. Se não, é outro, mais sombrio para o partido, para Dilma e para Lula. O PT está nas mãos de Levy. Quem diria...

Maioridade e tudo o mais - FERNANDO GABEIRA


O GLOBO - 14/06

Não se examina o fracasso de projeto mais liberal e a violência urbana 


A redução da maioridade penal entrou na agenda política. Já era discutida nas ruas e insistentemente martelada nos programas populares de TV e rádio. É um fato de nossa experiência cotidiana: os meninos de hoje amadurecem mais cedo, sobretudo os que enfrentam as asperezas da rua. Ao ver uma sucessão de crimes cometidos por adolescentes que voltam às ruas, um grande número de pessoas se inclina claramente pela redução da maioridade penal.

Projetado numa decisão do Congresso, este desejo majoritário, certamente, vai se desdobrar numa vitória da tese. Mas os problemas não acabam aí. Abre-se todo um caminho espinhoso para colocar em prática a decisão majoritária, um deles é o evidente gargalo do sistema penitenciário brasileiro. Ao ler sobre a experiência americana, percebi que o Brasil não deveria se limitar ao tema da maioridade penal. Lá, com mais tempo de experiência em prender adolescentes, eles não recuaram na idade penal. No entanto, estão descobrindo, gradativamente, que é mais negócio investir na recuperação dos jovens criminosos e não hesitam em avançar nessa direção.

Ao respeitar a opção majoritária, o Brasil precisaria combinar essas políticas. O problema é que quase não há dinheiro para as prisões, quanto mais para projetos. Não posso imaginar o que aconteceria se o país executasse numa só semana os 300 mil mandatos de prisão. O Estatuto do Adolescente continha boas intenções. Mas a própria relatora do projeto, Rita Camata, admitiu que muitos dos seus aspectos positivos foram deixados de lado. Muitos o veem hoje como uma causa da criminalidade juvenil.

O debate sobre a redução da maioridade penal desponta como um fato isolado. Os que são favor ou contra podem se sentir vitoriosos ou derrotados. Mas as outras variáveis continuam nos desafiando. Ao reduzir a maioridade, estaremos mais próximos aos Estados Unidos no que diz respeito à lei, mas, na prática, não estaremos no mesmo caminho de investir, apostar na flexibilidade da juventude.

Muitos podem ver na redução da maioridade um retrocesso. No entanto, não se examina o fracasso de um projeto mais liberal e o crescente processo de violência urbana. O que as pessoas parecem dizer é isto: vocês tiveram a oportunidade de fazer diferente, mas não está dando certo; por que não tentar o caminho apontado pela maioria?

A julgar pelo clima no próprio Congresso, acho que a redução passa. Mas tanto vencedores como vencidos, nesse tópico particular, têm muito a discutir sobre o futuro imediato. Abre-se um abismo entre o político no sentido mais amplo e a estrita preocupação eleitoral. Para esta última, uma simples votação isolada basta para agradar aos eleitores.

Em termos políticos, é preciso construir uma agenda de segurança. São muitos anos de desprezo pelo tema. Tanto Fernando Henrique quanto Lula não se anteciparam diante da gravidade do problema. Dilma apenas recitou uma política escrita para ela, e assim foi porque estaria na lista de perguntas no debate. Às vezes essa distância que os políticos tomam da segurança lembra-me a distância de algumas redações no passado de sua seção policial. Não era considerado um tema nobre, como a educação, diplomacia, estava sempre envolto em situações desagradáveis de crime e castigo. Uma política de segurança adequada às circunstâncias nacionais é uma dívida de nossa geração de políticos. Assim como ficamos devendo uma resposta a outro tema inconveniente: o saneamento básico. Nesse particular, a política brasileira é romântica e aristocrática; não mexe com crimes nem com o esgoto. Se olhamos um pouco melhor, revela-se nele também o lado pragmático: obras subterrâneas não aparecem nem rendem votos; a segurança, tratamos, de vez em quando, com uma decisão popular para acalmar os ânimos.

Procuro seguir as lições do escritor americano H. D. Trudeau: para conhecer bem um país é preciso visitar suas cadeias. O que vejo são bombas relógio. Mas as ruas já estão bastante complicadas. Se a política demorou a se dar conta da necessidade de uma verdadeira política de segurança, pelo menos vive um momento em que a tecnologia e a interatividade podem indicar soluções mais baratas e eficazes.

Não são milagrosas. Mas se temos pouco dinheiro, a inteligência pode ser um fator decisivo. A ausência dos dois é uma combinação insuperável. Lembro-me que no princípio do governo formulei um pequeno projeto para reduzir motins nas cadeias. Consistia numa rede na qual as penitenciárias fariam um relatório cotidiano e um pequeno núcleo os analisaria. Em quantos lugares as reclamações diárias sobre a comida estragada não eram algo controlável antes de resultar em violência?

Com o tempo, percebi também a importância do trabalho dos ingleses, que monitoram os presos e evitam inúmeros crimes na cadeia. Aqui no Brasil, às vezes, achávamos que, ao perder a liberdade, as pessoas não têm mais chance de cometer crimes. Hoje essa ilusão desmoronou. De ilusão em ilusão caída, quem sabe não chegamos lá?

González em Caracas - MARIO VARGAS LLOSA


O Estado de S. Paulo - 14/06

A visita do ex-presidente do governo da Espanha Felipe González, do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), a Caracas, para participar de reunião da Mesa da União Democrática (MUD), coalizão de oposição ao presidente chavista Nicolás Maduro, teve grande repercussão na Venezuela. E não podia ser diferente. Militante clandestino de seu partido na ditadura franquista, o líder socialista tornou-se internacionalmente conhecido nos 14 anos (de 1982 a 1996) em que, no poder, ajudou a consolidar a democracia espanhola, que resistira a tentativas de golpe no governo anterior.

A visita de González ocorreu num momento delicado para as autoridades venezuelanas, que mantêm na prisão os principais líderes oposicionistas – entre eles Leopoldo López, ex-prefeito de Chacao, na Grande Caracas, e derrotado por Maduro na eleição presidencial, e Antonio Ledezma, preso em seu gabinete de prefeito da capital. López foi preso sob a acusação de incitação à violência nas manifestações de rua de 2014 e Ledezma, por atuar no que o governo chama de tentativa de golpe contra Maduro. Apesar da proximidade entre os países hispano-americanos e a Espanha, da qual foram colônias, Felipe González foi recebido de forma desrespeitosa e até insultuosa pelo governo chavista.

Por se ter mostrado muito “preocupado” com a situação da Venezuela, González foi acusado por Maduro de pertencer a uma “conspiração para desqualificar o governo revolucionário” desde “o eixo Bogotá-Madri-Miami”. Em seu Twitter, o presidente venezuelano, nos xingamentos de praxe contra quem quer se lhe oponha ou apoie a oposição, escreveu: “A extrema direita que deu golpes de Estado na Venezuela pretende impor uma chantagem internacional para que seus crimes fiquem impunes”. No passado, de acordo com sua versão, “as oligarquias corruptas entregaram o país a máfias espanholas que saquearam a Venezuela e hoje o povo se faz respeitar”. Esta acusação ganhou eco nas redes sociais, nas quais a militância chavista é muito ativa. Alguns “hashtags” reprovaram a visita, tida como “ingerência na política nacional”.

Antes de chegar a Caracas, González fora declarado persona non grata pelo Parlamento venezuelano. E, já no país, teve seu pedido de assessorar a defesa de López – que, segundo a agência OperaMundi, vive numa cela de 5,5 metros quadrados com “cama, colchão, almofada, cobertor, geladeira, forno micro-ondas com decodificador de satélite, biblioteca, mesa e cadeiras” – rejeitado pela presidente do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), Gladyz Gutiérrez, por não poder “exercer como profissional de Direito numa causa penal em território nacional”.

González respondeu às acusações de conspiração e aos insultos com firmeza e serenidade. Em entrevista coletiva, informou que acataria a decisão de não integrar a defesa de López. E, após ter visitado o ex-prefeito Ledezma, mantido em prisão domiciliar desde que teve operada uma hérnia abdominal, em 26 de abril, disse: “Finalmente, com a autorização, tivemos um encontro muito gratificante e cordial. Tanto o prefeito Ledezma como eu acreditamos que à Venezuela falta diálogo para resolver os problemas, mas já há um compromisso do presidente Maduro de convocar eleições legislativas. É preciso dialogar, recompor, reconciliar e reconstruir instituições”.

O cientista político argentino Juan Manuel Karg, simpatizante dos bolivarianos, reagiu à declaração com ironia: “González chegou a Caracas para contar a mais de 20 meios de comunicação que na Venezuela há liberdade de imprensa”.

Ironias à parte, com tom firme, mas cordial, o ex-presidente do governo espanhol cumpriu a missão que se impôs de fazer esforços internacionais para que a crise venezuelana seja superada, embora reconheça que esta seja uma tarefa difícil. Só com isso já fez mais do que o governo brasileiro, que tem forte influência sobre o país vizinho, mas, para não ferir suscetibilidades do parceiro chavista, nada tem feito de construtivo em favor da liberdade dos venezuelanos