domingo, 5 de janeiro de 2014

Educação e produtividade - SAMUEL PESSÔA


FOLHA DE SP - 05/01

Saber bem as 4 operações e ler com rapidez, por exemplo, torna mais produtivo o trabalhador


Nesta primeira coluna do ano, volto ao tema recorrente das últimas semanas. Trata-se da centralidade da educação na melhora da produtividade do trabalho. O leitor pode ter certeza de que a insistência no tema não é exagero: é uma das questões mais relevantes para o Brasil em sua justa ambição de convergir para o nível de desenvolvimento das nações mais avançadas.

Em três colunas anteriores, apresentei a forma como a academia tratou o tema, desde as contribuições iniciais no fim dos anos 50 de Theodore Schultz, Gary Becker e Jacob Mincer até os trabalhos recentes de Eric Hanushek e tantos outros.

Apontei três momentos. Primeiro, um esforço para mostrar que a associação de maiores salários com maiores níveis de escolaridade é causal: maiores escolaridades aumentam a produtividade do trabalhador, o que aumenta seu salário.

Segundo momento, a tentativa de documentar que sociedades que se empenham em elevar os níveis de escolaridade da população apresentam aceleração em suas taxas de crescimento. Adicionalmente tentei documentar que, nas experiências históricas desde a revolução industrial, o investimento em educação precede a aceleração do crescimento.

Num terceiro e mais recente momento, foi possível mostrar que a variável importante para determinar a relação entre crescimento econômico e educação não é a quantidade de educação (escolaridade média), mas, sim, a qualidade, medida pelo desempenho de estudantes em provas padronizadas.

Resolvi voltar ao tema ao ler a reportagem no jornal "O Estado de S. Paulo", de 26 de dezembro, divulgando trabalho de meus colegas Regis Bonelli e de Julia Fontes, publicado no volume "Ensaios Ibre de Economia Brasileira".

O estudo argumenta que a passagem do bônus demográfico e a forte redução do desemprego indicam que, para crescermos além de 1% ao ano, que é a taxa de expansão da população em idade de trabalhar, a produtividade do trabalho terá de aumentar.

Se quisermos crescer à taxa anual de 3%, por exemplo, a produtividade do trabalho terá de se elevar à taxa de 2% ano. Se quisermos crescer 4%, a produtividade do trabalho terá que crescer à taxa de 3%, e assim por diante.

Como argumentei em três colunas de dezembro, os dois temas, educação e crescimento econômico, estão profundamente ligados.

A dificuldade que temos de reconhecer essa ligação deve-se a uma visão muito estreita do papel da educação.

Por exemplo, é óbvio que médicos ou engenheiros têm que estudar. É óbvio que um torneiro mecânico tem que estudar. O mesmo aplica-se a dentistas ou pilotos de avião ou comandantes de navio cargueiro.

É menos óbvio o papel da educação em atividades não especializadas. No entanto qualquer pessoa que entrou em uma drogaria nos Estados Unidos se espanta com uma loja tão grande sendo tocada com tão poucos trabalhadores.

Ocorre que uma boa educação básica aumenta a produtividade do trabalho mesmo nas tarefas mais simples. Alguém que sabe bem as quatro operações, lê com rapidez e tem alguma cultura geral será um melhor balconista de drogaria.

No limite, como ocorre nos Estados Unidos, um trabalhador em uma drogaria consegue fazer o trabalho de vários balconistas brasileiros. Possivelmente o salário será bem maior.

O que vale para o balconista de drogaria aplica-se ao empregado doméstico, à secretária etc.

O Brasil dos anos 20 até os anos 50 conseguiu construir uma indústria relativamente diversificada sem contar com um sistema público de ensino fundamental inclusivo. O ensino profissional voltado para algumas tarefas tapou o buraco.

Essa experiência passada bem-sucedida contribuiu para que tivéssemos dificuldade em enxergar o papel da educação.

Está nos atrapalhando agora que temos que fazer a transição de uma economia de renda média para economia de renda alta e de enfrentar o desafio de elevar a produtividade no setor de serviços.

Chamar o encanador três vezes em casa para reparar o mesmo serviço com inúmeros retrabalhos não o torna mais rico e dificulta o crescimento da economia como um todo.

Aniversários redondos - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 05/01

É muito aniversário redondo num ano só: 50 anos do golpe militar, 30 anos da campanha das Diretas, 20 anos do Plano Real. Pauta para os jornais, para os promotores de seminários e bom para a reflexão. Há ainda os aniversários de dores e alegrias no esporte: 20 anos da morte de Ayrton Senna, 20 anos da vitória na Copa de 94, o nosso Tetra. Oito anos depois, repetimos o feito.

No dia que mais choveu no Rio de Janeiro, em 2013, eu tinha um debate em São Paulo sobre resistência à ditadura. Ainda bem que desafiei o mau tempo e o abre e fecha do aeroporto porque foi um encontro que me permitiu uma conversa com jovens, bem jovens mesmo, que não viram nada do que lembramos em 2014. Nasceram depois de tudo.

A conversa no CCBB era sobre a ditadura militar. Um quis saber por que tanto esforço pela democracia, se ela era “apenas” isso. Falou-se em “política podre.” Outra me perguntou por que não soubera na escola nada daquilo que era mostrado na exposição. Era o “Resistir é Preciso”, do Instituto Vladimir Herzog, que, depois de ter passado por Brasília, foi para São Paulo e chega em fevereiro ao Rio. É impactante, principalmente a sala escura dos mortos e desaparecidos.

O passado passou tão depressa que nem vimos direito e mal tivemos tempo de contar aos mais jovens o que era viver no meio de uma ditadura e com a inflação fugindo ao controle. O presente é tão intenso, com prisão de mensaleiros, alguns deles ex-militantes contra a ditadura, que tudo fica embaralhado na cabeça do jovem.

A luta contra o regime militar não absolve os mensaleiros, os erros do presente não apagam o passado. A democracia não é garantia de governo perfeito, mas é a chance de votar regularmente para manter ou mudar o governo; conforme queira a maioria. É a possibilidade de debater, criticar o governo, influenciar nas decisões tomadas e exigir transparência.

É desafiador falar aos muito jovens. Eles não têm que acreditar em nós, os que vimos a ditadura. E o melhor é que apontem as falhas dos governos democráticos, duvidem dos mais ve- lhos e queiram mais.

Eram jovens da periferia de São Paulo, que têm muitas aspirações. Que bom que têm. Empilhei todos os avanços que a
democracia conseguiu: estabilização da economia, redução da pobreza, universalização do ensino fundamental. E eles não acharam que é o bastante. Ótimo.

Quem estava na Praça da Sé no dia 25 de janeiro de 1984 teve muita sorte. Foi o mais bonito de todos os comícios porque pegou até os organizadores de surpresa. Quantos mil? Ninguém jamais soube, mas não dava para se mexer naquela multidão compacta. Parecia um corpo só, uma voz só. Nos outros, houve mais gente, mas aquele foi o mais inesquecível. A surpresa da Sé começou no amarelo onipresente dos vagões do metrô. Ali se soube que a ditadura estava derrotada, ainda que ela tenha derrubado a emenda das eleições diretas para presidente; direito que exerceremos este ano pela sétima vez consecutiva.

O governo militar foi todo ruim. Não houve a parte boa na economia, como dizem seus defensores. A inflação entregue pelos militares já tinha contratado a escalada que iria consumir a primeira década democrática. Os erros econômicos dos governos civis foram responsabilidade de quem os cometeu, principalmente o violento Plano Collor, mas foi a indexação generalizada e a leniência com a inflação que produziram a tragédia econômica que foi vencida pelo Real.

Há 20 anos o Brasil viveu um ano difícil, com várias emoções misturadas. O Plano Real foi diferente porque foi lançado depois de bem explicado e com direito a meses de treino da URV: de março a julho. Na meio desse trabalho de transição para a mudança do padrão monetário, o país viveu a dor da morte de Ayrton Senna e a vitória na Copa do Mundo. O fundo da tristeza e a alegria no campo dos esportes, enquanto o país se esforçava para entender a nova ordem econômica e monetária. Naquele ano houve ainda eleição presidencial.

Este ano também será intenso. De lembrar tudo isso, refletir sobre cada lição, de sediar uma Copa do Mundo e de votar novamente. Nos momentos mais tensos será bom lembrar o quanto o Brasil melhorou, quantas vezes ganhou, o legado de todas as pessoas que perdemos em muitas lutas. E dizer aos muito jovens que por maiores defeitos que tenha democracia, ela traz consigo os elementos para sua correção.

"Não vai ter Copa" - VINICIUS TORRES FREIRE


FOLHA DE SP - 05/01

Manifestações marcadas para começar no dia 25 podem embaralhar previsões para este 2014


"NÃO VAI TER COPA" é o mote de protestos marcados para o dia 25 de janeiro, em todas as capitais, ou pelo menos nas "capitais da Copa". Seria um ensaio da reestreia dos protestos, iniciativa de alguns daqueles grupos que desencadearam as manifestações de 2013.

Como tais grupos são desarticulados e dispersos, é difícil saber o que articulam. Muito menos é possível saber se vai haver repeteco da articulação esdrúxula, acidental e mesmo indesejada entre pequenos grupos de esquerda e massas indignadas mas apolíticas, o grosso de quem foi às ruas.

A Copa é, óbvio, um prato cheio de desperdício, politicagem autoritária, incompetência e outros acintes. A depender do gosto do freguês manifestante, não vai ser difícil contrastar essa despesa perdulária e arbitrária com algum motivo de revolta com a selvageria social e a inércia política brasileiras.

Vai colar? O 25 de janeiro pode ser um fiasco, ao menos em termos midiáticos, pois os ponta de lança da onda inicial de junho, os estudantes, ainda estarão de férias. Mas não convém especular com hipóteses fáceis.

Junho de 2013 não apenas começou como se desenvolveu e terminou de modo imprevisto, com ondas de choque se espraiando em direções diversas, um miniBig Bang político-social.

Houve os notórios, midiáticos e então subitamente submersos Black Blocs, mas muito mais. Houve revoltas contra a violência polícial em bairros paulistanos de "classe média baixa", um dia bastiões de voto conservador. Houve séries de protestos de associações de gente deserdada da periferia, a bloquear estradas e avenidas nos fundões da cidade. Não há como saber se mesmo um 25 de janeiro fraco vai reanimar brasas dormidas ou revelar novas organizações.

Pode haver fastio: muita gente pode ter se desencantado com a inconsequência prática dos protestos; de resto, revolução permanente não é o estado habitual de gente alguma, exceto em cataclismos históricos raros, seculares. A tentativa de repeteco de 2013 pode, assim, não colar.

Pode haver oportunismos: as manifestações fizeram estrago sério no prestígio de governos. O tumulto nas ruas pode ser obviamente um instrumento para avariar, ao menos, o prestígio de quem quer que esteja no poder, mas de petistas em especial. Repetir 2013 pode ser arma eleitoral.

O leitor, que é perspicaz, pode refutar tudo isso com um "especulativo, protesto", como se diz em filme de tribunal americano. Mas há de concordar que são demasiadamente ricas para não serem exploradas as oportunidades políticas e politiqueiras de um ano de Copa com eleição e eventual tumulto de rua transmitido pelo mundo inteiro.

Enfim, o caldo socioeconômico pode estar mais azedo e contribuir para os protestos; ou os protestos podem azedar o caldo.

A tendência básica do ano é de tudo crescendo mais devagar ou na mesma: renda, emprego, consumo, inflação. Há riscos de tumultos no câmbio, de o Congresso aprovar coisas como renegociação de dívidas de Estados e municípios ou de o Supremo dar uma tunda nos bancos no caso dos reajustes das poupanças dos planos econômicos velhos. Tudo isso intoxicaria o ambiente econômico e, assim, ânimos políticos, ao menos entre as elites.

As plataformas 'fictas' - SUELY CALDAS


O Estado de S.Paulo - 05/01

Em sua mensagem de fim de ano aos brasileiros a presidente Dilma Rousseff responsabilizou "alguns setores" por uma "guerra psicológica" que retrai, inibe e retarda investimentos no País. Dilma não identificou esses "setores", mas sua equipe econômica se encarrega de fazê-lo sempre que divulga algum resultado desfavorável às metas e aos desejos do governo: são analistas, empresários, economistas, investidores, a imprensa e quem mais se ocupe em avaliar a conjuntura da economia. Na última quinta-feira foi o caso do resultado da balança comercial, o pior em 13 anos. A ele vamos voltar no final deste texto.

São os empedernidos "pessimistas" os verdadeiros culpados pelo déficit nas contas públicas, pela retração dos investimentos, pelo baixo crescimento econômico, pela inflação alta, pela degradação da balança comercial, pelos maus resultados da Petrobrás e da Eletrobrás, pelo fracasso em licitações públicas, etc., etc. Nessa procissão dos contra certamente estão incluídos dois conselheiros de Dilma (já eram de Lula) que com ela costumam trocar ideias: os economistas Luiz Gonzaga Belluzzo e Delfim Netto, que têm criticado publicamente a inflação, o desempenho externo, os truques para fechar as contas públicas, ações do governo na Petrobrás, etc., etc.

Talvez por enfrentar uma chefe impiedosa, cobradora, centralizadora e dona da palavra final, talvez por limitações e inexperiência em gestão econômica, ou por tudo isso junto, a equipe de Dilma Rousseff tem incorrido em vários erros nestes últimos três anos. Mas alguns deles - abaixo listados - foram importantes para criar um clima de crescente desconfiança entre investidores e governo e que determinou o mau desempenho econômico nos últimos três anos, prejudicado pelo que ela chamou de "guerra psicológica".

O governo até criou alguns programas setoriais no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para estimular a produção, mas não cuidou de definir um programa maior para demarcar um rumo para o País, deixando investidores desorientados.

A estratégia de dar prioridade ao consumo acreditando que o investimento viria a reboque deu errado. O governo somente foi cuidar do investimento em infraestrutura em 2013 e, mesmo assim, tropeçando em erros que retardaram projetos.

O maior desses erros foi a excessiva intervenção do governo em decisões próprias do investidor e que são fundamentais para ele decidir entrar ou não no negócio. Exemplo: depois do fiasco em várias licitações para construção de rodovias, finalmente o governo desistiu de tabelar o lucro e deixou os concorrentes disputarem entre si a menor taxa de retorno. Com isso obteve resultados até melhores, mas conseguiu atrasar o investimento em rodovias em quase três anos.

Aliás, as miúdas interferências do governo em decisões privadas foram-se acumulando no tempo e concorreram para gerar um clima de desconfiança e insegurança nos empresários, que prejudicou a economia.

Por não ser horizontal, a política de recuperação econômica pós-crise de 2008 gerou distorções sérias e contribuiu para taxas medíocres de crescimento na gestão Dilma, ao premiar setores industriais com redução de impostos e punir outros que acabaram prejudicados nas vendas.

A política de concentrar bilhões de reais do BNDES em empresas campeãs nacionais resultou errada: não gerou as tais multinacionais brasileiras, nem empregos, faltou dinheiro do banco para outras empresas e ainda deixou um enorme passivo para o BNDES. O grupo de Eike Batista é apenas um deles.

Mas o maior dos erros de seu governo - que Dilma atribuiu aos pessimistas da "guerra psicológica" - tem sido a falta de transparência na divulgação de dados e indicadores que desmoralizam metas e desempenho do governo. É a chamada "contabilidade criativa", inventada pelo secretário do Tesouro, Arno Augustin - que de criativa não tem nada, são truques primários que nunca enganaram ninguém, mas causaram enormes prejuízos à credibilidade do governo e à imagem do País no exterior. O mais recente exemplo foi o resultado do comércio exterior, divulgado na quinta-feira.

Plataformas - A equipe de Dilma criou a expressão "exportação ficta" - no Aurélio "ficto" significa "fingido, suposto, falso, ilusório" - para designar operações de "venda" de sete plataformas de petróleo que, mesmo sem nunca terem saído do País, adicionaram US$ 7,735 bilhões à receita com exportações em 2013, evitando fechar o saldo comercial no vermelho e ajudando no superávit de US$ 2,561 bilhões - o menor em 13 anos. Calcula-se que sem a "ajuda" das plataformas a balança comercial teria fechado com um déficit de US$ 5,173 bilhões. Como nas contas públicas, em vez de atacar o problema pela raiz, o governo recorre à pajelança para tentar esconder o que é ruim. Como não consegue, culpa a "guerra psicológica".

O secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Daniel Godinho, explica que essas operações fazem parte de um regime aduaneiro chamado Repetro, pelo qual o proprietário da plataforma no Brasil a vende a outra empresa no exterior e, em seguida, a aluga a uma operadora no Brasil. Dessa forma, o equipamento nunca atravessa a fronteira, mas é contabilizado como exportação. Como se trata de um produto caro e valioso, ajuda muito a inflar a receita cambial. Em 2013, por exemplo, cada plataforma gerou, em média, US$ 1,105 bilhão de receita. Quem está envolvido na operação aplaude, porque é aquinhoado com vantagem fiscal.

A questão é que não há nenhuma transparência na divulgação dos dados sobre tais operações. Desconfia-se que, na condição de proprietária, a Petrobrás vende a plataforma à sua própria subsidiária no exterior, que a aluga à mesma Petrobrás que a vendeu. Assim, a plataforma não sai do lugar onde já explora petróleo e gás. Godinho reconhece que muitas operações são feitas dentro do grupo Petrobrás, diz que não são todas, mas não identifica nenhuma outra empresa, não informa quem vendeu, quem alugou, tampouco o preço de venda e os valores de aluguel. Garante que tais operações cumprem a regra internacional, mas diz não conhecer nenhum outro país que a adote. Ou seja, transparência zero.

Onde deixei os meus culhões? - OSSAMI SAKAMORI

http://ossamisakamori.blogspot.com.br/

Acordei brabo hoje! Que País de m... é isto? Falamos, falamos, inclusive este que escreve, mas não tomamos atitude nehuma. Viramos todos covardes! Não somos exemplo para ninguém. Muito menos para os nossos descendentes. Somos uma vergonha para os antepassados! Sou o primeiro da fila para me incluir.

Nós que não fazemos parte do contingente de analfabetos funcionais, mais de 55 milhões, em idade adulta, acovardamos. Falamos, falamos, falamos... em redes sociais, em roda de amigos, nos blogs como eu faço, mas não tomamos atitudes!

Sim, estou é puto comigo! Infelizmente, estou no meio desta turma, a nossa, que falamos o que seria bom para o País, mas não tomamos atitudes. Nós sabemos achar o vilão da história. Elegemos que serão os políticos o nosso alvo. Mas assim não vai dar! Eles, políticos, nem estão aí. Eles vendem até a alma para poderem se reeleger! Mas, os culpados de eles estarem no poder, somos nós, os eleitores, os pseudos elites. Não me excluo, deste contingente de pessoas. Não, não me excluo. Sou igualzinho a todos que estou a referir.

Que País de m... esta? Deixamos a quadrilha de arrombadores de cofres públicos tomarem a conta do País. Eles estão agindo, não mais na calada da madrugada, mas no pleno luz do dia! Do QG da Papuda! E ninguém toma atitude! Os poucos que tomam, são marcados! Conheço alguns destes baluartes! São homens dignos e corajosos que excluo-os da minha lista, da lista que faço parte! Tenho vergonha, perante estes, a minha condição de inércia. Não tenho contribuído nada para a mudança!

Creio, o País é uma m... porque sou uma m... ! Sou covarde, como tanto quanto outros, formadores de opinião, do pseudo elite, da pseuda burguesia. Pior, sou mais um, desses que criticam o "status quo", mas nada faço de concreto para promover a mudança. Fico, como se fosse intelectual, atrás do PC (leia-se computador), escrevendo. Escrevendo, acho que mais para desintoxicar o meu fígado, do que para mudar o País.

Poxa! Lutei, embora não clandestinamente, para redemocratização do País, nos tempos de chumbo, do regime militar. E eu estou cá, inerte, no conforto do ar condicionado, escrevendo... escrevendo. Letras vis, letras mortas, que nada servem. Letras pronunciados por um mudo, que sou eu, para uma platéia de silêncio, que são os alienados. Somos os guerrilheiros do ar condicionado! Só me resta rir, de mim próprio, da minha condição de covarde!

Este ano é decisivo para o futuro da minha pátria, que imagino seja pátria de vocês, também. Propugno a mudança. Coloco algumas idéias, mas fico nisso. Como se minha missão tivesse terminado. Como querer lavar a alma, lavando as mãos com algumas linhas de pensamentos. Sim, sou mais um covarde! Até quando vou ficar escondendo os meus culhões? Não, não pode ser por muito tempo. Preciso honrar o que está debaixo das minhas calças!

Vamos à luta, vamos! Vem comigo, vem?

PS: Culhões: sentido figurado de coragem.

Amarrados ao púlpito - HÉLIO SCHWARTSMAN


FOLHA DE SP - 05/01

SÃO PAULO - O filósofo Daniel Dennett é frequentemente citado, ao lado de Richard Dawkins, Sam Harris e Christopher Hitchens, como um dos quatro cavaleiros do ateísmo, que ganharam a alcunha por terem lançado, entre 2004 e 2007, best-sellers com críticas à religião.

Os quatro livros são interessantes, mas nunca achei que Dennett se encaixasse bem na imagem. Enquanto Dawkins, Harris e Hitchens adotam um tom francamente militante, até panfletário, Dennett oferece uma obra muito mais nuançada.

Essa impressão foi reforçada agora com o lançamento de "Caught in The Pulpit: Leaving Belief Behind" (capturados no púlpito: deixando a crença para trás), em que Dennett e Linda LaScola lançam luzes sobre o problema dos pastores, padres, rabinos e outras lideranças religiosas que perdem a fé e se veem no dilema entre manter a integridade intelectual, o que implicaria renunciar a seus postos, ou ir torcendo as palavras e suas próprias crenças, para continuar exercendo suas funções e, assim, preservar casamentos, amizades, posição social e aposentadorias.

O livro surgiu a partir de um estudo modesto em que cinco clérigos que viviam esse processo foram entrevistados. A coisa logo evoluiu para um site onde ministros em vias de perder a fé podem trocar experiências sob anonimato e daí para a obra.

Além de boas histórias humanas, o texto de Dennett e LaScola mostra que a religiosidade vem nos mais diferentes formatos e sabores. Há desde os ultraliberais, para os quais a Bíblia é um conjunto de alegorias expostas em linguagem poética, que nunca devem ser tomadas pelo valor de face, até aqueles mais conservadores que afirmam que cada palavra das Escrituras deve ser interpretada literalmente. Como observou um dos entrevistados, nem todo religioso nega a evolução biológica. Esse abismo nas fileiras dos que creem é algo que a nova literatura sobre a religião muitas vezes deixa escapar.

Em Úbeda - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO


O Estado de S.Paulo - 05/01

John Barth é um escritor americano com um gosto pela literatura experimental, autorreflexiva e metafórica, que, acho eu, pode ser chamada de pós-moderna - embora quase tudo, hoje, possa ser chamado de pós-moderno. Entre os seus ídolos literários estão Jorge Luiz Borges. Italo Calvino, Vladimir Nabokov, Samuel Beckett e, surpreendentemente, Machado de Assis. Escrevi "é" e fiquei na dúvida. Seria "era"? Consultei o google para saber se Barth está vivo. Ou o google está desatualizado ou ele, com 83 anos, ainda respira.

*

Eu tinha lido alguns romances dele e há pouco encontrei uma coleção dos seus ensaios e palestras, recém-publicada. Numa das palestras Barth lembra a história do cerco das tropas do rei Alfonso VI pelos mouros aos pés da Sierra Morena, Andaluzia, no século 11, e a chegada tardia do legendário El Cid à frente de reforços, para salvá-las. Irritado, o rei teria perguntado a El Cid a razão da sua demora, ao que o Campeador teria respondido: "Andava pelas colinas de Úbeda". Desde então a frase se incorporou ao idioma espanhol, e diz-se de quem se desvia do seu objetivo, esquece seu propósito ou se distrai, que "se marcha por los cerros de Úbeda". Barth inclui nesta definição a digressão de palestrantes que abandonam o assunto da sua palestra como quem divaga pelas colinas de Úbeda.

*

Na mesma palestra Barth lembra a história de Calipso, a ninfa do mar que atrasa a volta de Ulisses para casa e o detém por sete anos, na Odisseia de Homero. O nome "Calipso" vem da mesma raiz grega de "kalupsein", que quer dizer "encobrir" (e também é da raiz de "apocalipse", o inverso de encobrir, "revelação", como sabe qualquer leitor da Bíblia). Calipso encobre, com seu encanto, o objetivo de Ulisses, que é voltar das ruínas de Troia para os braços de Penélope. Segundo Barth, ela pode ser chamada de Deusa da Digressão. Nos seus braços o herói da Odisseia encontra a sua Úbeda, e nela fica por sete anos.

*

Todos nós conhecemos "los cerros de Úbeda", por onde andamos em devaneios, ou quando é absolutamente necessário mudar de assunto. Em Úbeda adiamos tudo o que precisa ser feito, não pensamos no que nos atormentaria e desfrutamos do doce prazer da indefinição: em Úbeda só se passeia, nada se decide. Ou, como nos casos de El Cid e de Ulisses, Úbeda é onde se perde tempo. Há quem nasça e passe toda a vida na sua Úbeda particular, longe da realidade, sem se dar conta. E há os que escolhem ficar em Úbeda em vez de encarar as durezas da vida.

*

El Cid, apesar do bucólico desvio que atrasou sua chegada, acabou chegando, e pondo os mouros a correr. Ulisses, no fim de sete anos nos braços de Calipso, finalmente decidiu que era hora de ir para casa. Tanto El Cid quanto Ulisses teriam chegado vigorados ao seu destino depois da sua passagem por Úbeda, El Cid no campo de batalha para salvar o rei, Ulisses na cama da paciente Penélope. O que serviria de exemplo para cronistas que passam longas temporadas em Úbeda, dedicando-se a frivolidades inconsequentes, para vez que outra acabar com a digressão, dar um mergulho na realidade e escrever para valer.