segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Uma oração para os vivos - MARTHA MEDEIROS


ZERO HORA - 03/11

Que honremos o fato de ter nascido, e que saibamos desde cedo que não basta rezar um Pai- Nosso para quitar as falhas que cometemos diariamente. Essa é uma forma preguiçosa de ser bom. O sagrado está na nossa essência, e se manifesta em nossos atos de boa-fé e generosidade, frutos de uma percepção profunda do universo, e não de ocasião. Se não estamos focados no bem, nossa aclamada religiosidade perde o sentido.

Que se perceba que quando estamos dançando, festejando, namorando, brindando, abraçando, sorrindo e fazendo graça, estamos homenageando a vida, e não a maculando. Que sejam muitos esses momentos de comemoração e alegria compartilhados, pois atraem a melhor das energias. Sentir-se alegre não deveria causar desconfiança, o espírito leve só enriquece o ser humano, pois é condição primordial para fazer feliz a quem nos rodeia.

Que estejamos sempre abertos, se não escancaradamente, ao menos de forma a possibilitar uma entrada de luz pelas frestas. Que nunca estejamos lacrados para receber o que a vida traz. Novidade não é sinônimo de invasão, deturpação ou violência. Acreditemos que o novo é elemento de reflexão: merece ser avaliado sem preconceito ou censura prévia.

Que tenhamos com a morte uma relação amistosa, já que ela não é apenas portadora de más notícias. Ela também ensina que não vale a pena se desgastar com pequenas coisas, pois no período de mais alguns anos estaremos todos com o destino sacramentado, invariavelmente. Perder tempo com picuinhas é só isso, perder tempo.

Que valorizemos nossos amigos mais íntimos, as verdadeiras relações pra sempre.

Que sejamos bem-humorados, porque o humor revela consciência da nossa insignificância – os que não sabem brincar se consideram superiores, porém não conquistam o respeito alheio que tanto almejam. Ria e engrandeça-se.

Que o mar esteja sempre azul, que o céu seja farto de estrelas, que o vinho nunca seja proibido, que o amor seja respeitado em todas as suas formas, que nossos sentimentos não sejam em vão, que saibamos apreciar o belo, que percebamos o ridículo das ideias estanques e inflexíveis, que leiamos muitos livros, que escutemos muita música, que amemos de corpo e alma, que sejamos mais práticos do que teóricos, mais fáceis do que difíceis, mais saudáveis do que neurastênicos, e que não tenhamos tanto medo da palavra felicidade, que designa apenas o conforto de estar onde se está, de ser o que se é e de não ter medo, já que o medo infecciona a mente.

Que nosso Deus, seja qual for, não nos condene, não nos exija penitências, seja um amigo para todas as horas, sem subtrair nossa inteligência, prazer e entrega às emoções que nos fazem sentir plenos.

A vida é um presente, e desfrutá-la com leveza, inteligência e tolerância é a melhor forma de agradecer – aliás, a única.

NOVO SENADOR FIGURA EM 519 AÇÕES NA JUSTIÇA

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO



Cassado em 2009 por abuso de poder político, o ex-governador do Tocantins Marcelo Miranda (PMDB), que deve assumir a vaga de Vicentinho Alves (SDD-TO) no Senado, figura em impressionantes 519 processos, nas diversas esferas do Judiciário, do Supremo Tribunal Federal ao Tribunal de Justiça. Só no TRE-TO, por exemplo, está em 303 processos, e outras 108 ações no Tribunal Superior Eleitoral.

BUONA GENTE…

Em um dos processos no STF, Miranda é acusado pelo Ministério Público Federal de peculato, falsidade ideológica e corrupção passiva.

EXECUÇÃO

No Tribunal Regional Federal da 1ª Região, Marcelo Miranda responde a diversos processos de crimes ambientais e até execução fiscal.

ELEITORAL

Propaganda eleitoral irregular e abuso de poder político são frequentes nas acusações pelas quais responde o ex-governador tocantinense.

POSSE QUESTIONADA

Outro processo no Supremo ainda questiona a posse de Miranda no governo do Tocantins em 2006, cargo do qual foi cassado.

PATRIMÔNIO DE DEPUTADO CRESCE 1.200% EM 4 ANOS

O deputado federal Francisco Escórcio (PMDB-MA) conseguiu o milagre da multiplicação dos pães e do patrimônio, que cresceu 1.200% (12,1 vezes) em 4 anos, apesar de declarar apenas os rendimentos de parlamentar. Em 2006, Escórcio declarou bens de R$ 2,2 milhões ao Tribunal Superior Eleitoral; em 2010, seus bens já somavam R$ 26,8 milhões. Nesse período, seus salários totalizaram R$ 1,2 milhão.

MILAGRE

Escórcio, que amigos chamam de “Chiquinho”, recebe R$ 26,7 mil por mês, R$ 320,6 mil anuais. O patrimônio cresceu R$ 6 milhões por ano.

MENOS É MAIS

Foram vinte bens declarados por Escórcio, em 2006, avaliados em R$ 2,2 milhões. Em 2010, seus quinze bens já valiam R$ 26,8 milhões.

CORREÇÃO

Francisco Escórcio atribui seu enriquecimento ao “crescimento econômico”, em razão da “correção monetária” dos valores dos bens.

CORTINA DE FUMAÇA

Se autoridades querem mesmo combater em conjunto os baderneiros do Black Blocs no Rio, devem destruir o “território” do grupo na Lapa, centro da cidade, onde tem bandeira tremulando e maconha livre.

HERANÇA MALDITA

Assaltado e agredido na quinta (30) num restaurante em Brasília, o presidente do PT, Rui Falcão, pode dizer que foi vítima de um excluído do sistema social que ainda ignora os benefícios do Bolsa Família.

TEMPOS DE CÓLERA

Nesta data, há 43 anos, o ditador Emílio Garrastazzu Médici mandava prender toda a turma do Pasquim, genial criação de jornalistas e humoristas como Jaguar, Millôr Fernandes, Paulo Francis, Ivan Lessa, Ziraldo etc, que entraram para a história da resistência democrática.

ARROGÂNCIA

A chamada “governança” do Senado considerou arrogante a ausência do presidente da Anatel, João Rezende, a uma audiência pública, semana passada. Os senadores nem deixaram seu representante falar. Rezende ignorou seis de nove convites do gênero, no Senado.

JÁ OS BANDIDOS…

É de um ano o prazo de registro de armas no 1º Comando Militar, no Rio: 30 senhas por dia para 200 pessoas em meio expediente, além de taxas absurdas, incentivando a ilegalidade e o contrabando.

MEMÓRIAS DO CÁRCERE

As comissões da verdade da Presidência, da Câmara e do Senado farão diligência no próximo dia 11 (segunda), na 36a DP de São Paulo, onde funcionavam o Doi-Codi e a OBAN. Ainda visitarão a 6a Companhia de Polícia do Exército e Ilhas do Presídio, em Porto Alegre.

TUDO MENTIRA

O deputado Miro Teixeira (PROS-RJ) critica argumento falso de que o Marco Civil da Internet dificulta espionagem: “É a internet livre que permite que denúncias sejam feitas, por isso o governo quer controlar”.

EM MÃOS

Ao voltar do recesso, a procuradora-geral do Ministério Público do DF, Eunice Carvalhido, terá de decidir se acata pedido da ONG Adote um Distrital para ajuizar ação contra o diretor do DFTrans, Marco Campanella, acusado de intimidar servidores que apuram esquemas de corrupção.

SANTO DE CASA

Em conferência no Paraná, Lula chamou de “milagre” o resultado do Bolsa Família. De fato: o número dos carentes do programa só cresce.


SAÚDE DE TARTARUGA

Marco Maciel era ministro da Educação, no governo José Sarney, quando negou verbas para esportes a um grupo de estudantes que recebia.

- O sr. pratica algum esporte? – provocou uma estudante, contemplando sua finíssima estampa – o ministro deveria cuidar mais da saúde…

- Minha filha, você já viu tartaruga fazendo ginástica? – devolveu ele – E olhe que elas vivem 120 anos…

O país da insegurança - EDITORIAL ZERO HORA


ZERO HORA - 04/11

A morte de um menino de oito anos e de um policial durante tiroteio no fórum de Bangu, no Rio de Janeiro, numa tentativa frustrada de libertação de prisioneiros por uma quadrilha de criminosos, expõe mais uma vez, em dimensão nacional, o clima de insegurança do país. A criança passava na calçada, acompanhada pela avó, quando o grupo de pelo menos oito bandidos cercou e invadiu o local e trocou tiros com os policiais. A reação da avó é emblemática da perplexidade que sobrevive à banalização da violência: ela e o neto não deveriam, disse ela, estar naquele lugar naquele momento. Na verdade, lugares públicos aparentemente seguros passaram a oferecer, em qualquer momento, riscos à população, em metrópoles, cidades médias e em vilarejos.
O que ocorreu no Rio não é mais caso típico de uma capital violenta, onde o Estado se vê constantemente desafiado pelo tráfico. Esse não é mais um cenário urbano das grandes cidades. As estatísticas mostram que a violência, principalmente a que se manifesta em homicídios, não para de crescer. O número de assassinatos no país aumentou 7,6% ano passado em relação a 2011. Foram 50 mil casos.
Confirma-se assim a percepção generalizada de que governos, formuladores de leis e todas as instituições fracassam no combate ao crime. Fracassam na prevenção, na repressão e na investigação policial. Fracassam quando da formalização de indiciamentos pelo Ministério Público. E voltam a fracassar na Justiça, com processos inconclusos e o precário cumprimento das penas.
É compreensível que, ao lado da sensação de insegurança, prospere a certeza de que os responsáveis por todo tipo de violência se protegem na impunidade. No caso do menino assassinado, o governo do Estado determinou, enquanto procurava os invasores do fórum, que os dois traficantes que mobilizaram os comparsas deveriam ser transferidos para um presídio federal. É uma providência óbvia, mas sem maior significado diante do ocorrido. As autoridades deveriam ter evitado o que ocorreu. Numa situação normal, seria inconcebível que um grupo de marginais entrasse atirando num lugar que abriga a Justiça. No Brasil, nenhuma situação nessa área passa pelos parâmetros da normalidade.
A violência é diária e constante: bancos de pequenas cidades do Interior viraram alvo dos assaltantes, não há local seguro para estacionar um carro nas grandes metrópoles, é cada vez mais arriscado sair à noite, supermercados e shoppings são assaltados à luz do dia, o tráfico e o crime organizado atuam livremente até no interior dos presídios. Até quando? As autoridades e as instituições não podem continuar fracassando na busca de respostas.

Fascismo na festa literária - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR


GAZETA DO POVO - PR - 04/11

Minoria hostil à liberdade de expressão impediu intelectuais de falar em evento na Bahia; a maioria comprometida com a democracia precisa deixar claro o seu repúdio a tais atitudes


Uma característica fundamental da democracia é o respeito à liberdade de expressão; sociedades democráticas e maduras garantem o direito à manifestação das opiniões, e incentivam o debate de ideias. Regimes e grupos totalitários, avessos ao debate, preferem tolher o direito à opinião; só pode falar quem comunga das mesmas convicções, enquanto os demais são calados, usando-se para isso os meios que forem necessários. A Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), na Bahia, viveu momentos que remetem ao fascismo no dia 26 de outubro, quando manifestantes conseguiram calar dois palestrantes.

O sociólogo Demétrio Magnoli e o filósofo Luiz Felipe Pondé estavam entre os convidados do evento. Ambos são colunistas do jornal Folha de S.Paulo, e Magnoli também escreve quinzenalmente em diversos jornais, inclusive na Gazeta do Povo. O sociólogo participava da mesa-redonda “Donos da terra? – os neoíndios, velhos bons selvagens”, ao lado de Maria Hilda Baqueiro Paraíso, na manhã do dia 26, quando algumas dezenas de manifestantes que estavam na plateia começaram a gritar palavras de ordem contra Magnoli, além de se despir e atirar uma cabeça de porco no palco. O tumulto impediu que a mesa-redonda continuasse, mas isso não foi suficiente para satisfazer o grupo, que exigiu também o cancelamento de um outro debate, programado para a noite, que teria a participação de Pondé e do sociólogo francês Jean-Claude Kaufmann, com o tema “As imposições do amor ao indivíduo”. A organização do evento cedeu, alegando não ter como garantir a integridade física tanto de Magnoli quanto de Pondé.

O que atraiu a hostilidade dos manifestantes foi o simples fato de ambos serem críticos contumazes das ideologias de esquerda. Para os fascistas que tumultuaram a Flica, isso basta para que Magnoli e Pondé não tenham o direito à palavra, e em nome desse objetivo vale desde acusá-los de crimes (os manifestantes chamaram os colunistas de “racistas”, por sua posição contrária à política de cotas) até ameaçá-los fisicamente, como ocorreu na Bahia. Na internet, sites e comentaristas demonstraram apoio à hostilidade contra Magnoli e Pondé.

A vida intelectual brasileira sofreu, por décadas, com o monopólio de um discurso único – primeiro, com a censura do regime militar ao pensamento de esquerda; depois, com a aplicação de um gramscismo antidemocrático que marginalizava o discurso de oposição ao ideário socialista. O pluralismo crescente dos últimos anos nas universidades e entre a opinião pública é um fenômeno bem-vindo, e qualquer intelectual digno do nome, independentemente de adesão ­ideológica, tem o dever de defendê-lo – aliás, essa é uma obrigação não apenas dos pensadores, mas de todo cidadão de boa vontade. É por meio do embate livre e sadio de ideias que a jovem democracia brasileira pode progredir.

E justamente quando o cenário intelectual brasileiro começa a ganhar com o pluralismo, surge uma minoria fascista cujo DNA totalitário a impele não a partir para o debate, mas para o patrulhamento e para a agressão. Hoje, é assim contra Magnoli e Pondé; ontem, foi assim contra a blogueira cubana Yoani Sánchez; como impedir que amanhã seja assim contra qualquer outro que ousar divergir?

A perspectiva, à primeira vista, não parece animadora. Por mais que a organização da Flica tenha convocado a segurança para proteger Magnoli, isso não foi suficiente para garantir sua participação, e os eventos foram cancelados. Ou seja, os manifestantes conseguiram o que desejavam. A mensagem que isso manda a quaisquer outros que estejam pensando em ações semelhantes é a de que agir assim dá resultado. Seria a consagração da violência como estratégia de ação política, adotada também pelos black blocs que vêm causando tanto transtorno em várias metrópoles. Mas, felizmente, os neofascistas são uma minoria; ainda há tempo para um repúdio firme e unânime a essas atitudes por parte dos intelectuais, dos políticos, enfim, de todos os cidadãos comprometidos com a democracia e a liberdade de expressão, de todas as correntes ideológicas e partidárias. Assim poderemos frear esses vândalos da vida intelectual brasileira.

O uso político da violência - DENIS LERRER ROSENFIELD


O Estado de S.Paulo - 04/11

A discussão em torno da ação dos black blocs tem sido frequentemente enviesada, se não deturpada, por não estar focada no uso que tem sido dado à violência desse grupo nas consequências dela derivadas. Não se trata de manifestação "espontânea" nem da ação de bandos desorganizados, mas de um tipo de intervenção que se define por um propósito claramente político.

Pesquisas sobre o que dizem os que assim agem terminam por arranhar superficialmente o problema, porque seus agentes não são meros indivíduos, mas membros de uma organização com método em suas ações. Suas falas, individualmente, nesse sentido, são necessariamente limitadas, se não encobridoras, na medida em que suas ações em muito transcendem manifestações individuais.

Advogar um diálogo com eles, como se fossem a expressão de um descontentamento "social", significa tirar a questão de seu ponto central. A violência é avessa a qualquer diálogo, quanto mais empreendido por grupos que, se chegam a declarar alguma proposta, é com o intuito de que ela seja inexequível - por exemplo, a extinção do "lucro", da sociedade de "mercado", e assim por diante.

Note-se que tais grupos se caracterizam por ações metódicas e organizadas. São como células que respondem a um comando, dotadas de extrema mobilidade e que conseguem muitas vezes distrair a atenção policial. Atrair a atenção sobre um ato determinado de vandalismo e depredação, com o objetivo de empreender outro muito maior em outro local.

Agem quando de manifestações pacíficas, fazendo-as acabar em violência, visualizada com grande estardalhaço pela mídia. A finalidade é ocupar a cena pública. Quanto maior for o impacto televisivo, maior será seu "ganho", pois tais imagens se propagarão com força por todo o País e mesmo para além dele. Para quem não gosta do crescimento e da competitividade internacional do País, o "ganho" terá ainda um "reconhecimento" extra. Fora de nossas fronteiras, tais imagens adquirem o estatuto de manifestação "popular", como se o Brasil estivesse à beira de um problema institucional sério.

As jornadas de junho foram uma impressionante manifestação de cidadania, com mais de 1 milhão de pessoas nas ruas clamando contra a corrupção e a má qualidade dos serviços públicos, com foco, num primeiro momento, na mobilidade urbana. As pessoas, com toda a razão, estão cansadas de pagar altos impostos, tendo como "retribuição" andar de pé, apertadas, nos ônibus em péssimas condições. O transporte torna-se um calvário. Filas em postos de saúde e hospitais, com atendimento sofrível, mais o baixo nível da educação pública configuram um quadro lamentável: a feia pintura de nosso país.

O exercício da autonomia expresso em tais manifestações, não obedecendo a nenhuma orientação partidária, mostrou um outro País possível, alerta para os desmandos vigentes, não aceitando nenhum tipo de instrumentalização. Naquele momento era como se o País, surpreso, estivesse vendo desfilar uma banda da liberdade e da indignação. Contudo essa irrupção do novo assustou.

Assustou os que até então dominavam as ruas ou delas procuravam ter o monopólio, como os diferentes partidos de esquerda, sindicatos e movimentos sociais organizados, que tiveram, então, a intenção de se apropriar desse sopro de autonomia. A heteronomia entrou na pauta. O resultado foram "greves" e "manifestações" que terminaram em completo fiasco, expondo a dissociação entre a tentativa de manipulação e a legítima indignação das ruas.

Nesse contexto, a ação dos ditos "vândalos" passou a ter maior protagonismo, atuando em qualquer tipo de manifestação, relegando os demais a posição secundária. Na verdade, houve um processo de estranhamento: os manifestantes autônomos e indignados não mais se reconheceram naqueles mascarados. A violência exposta não era um espelho seu.

O resultado foi imediato: o refluxo das manifestações autônomas e legítimas. A expectativa nascida quando das jornadas de junho foi progressivamente minguando. Por enquanto, pode-se dizer que desapareceu, embora possa ressurgir em outro contexto. A violência enxotou os indignados da rua.

Logo, o efeito objetivo dos agentes da violência, os black blocs ou outros nomes que se lhes queira dar, foi o esvaziamento das manifestações autônomas e, mais do que isso, de suas bandeiras. Expulsaram da rua as bandeiras contra a corrupção, por um melhor serviço público e menos impostos. Eis a verdadeira consequência de suas ações. Ou melhor, eis o seu verdadeiro objetivo. A quem interessa isso?

Curiosamente, os que se dizem "anarquistas", em tese os defensores da autonomia e da liberdade, são os que buscam diretamente tornar inviável toda manifestação livre e autônoma. Nada têm eles de anarquistas no sentido estrito da palavra, são meros representantes de uma esquerda que usa irrestritamente a violência segundo suas conveniências políticas.

Observe-se que muitas agremiações que participaram das jornadas de junho, como o Movimento Passe Livre, e outras posteriores, de certos sindicatos de professores, nutrem simpatia por esses "vândalos", como se sua causa fosse a mesma, apesar de seus meios divergirem. Comportam-se como "companheiros". Companheiros de quê, precisamente? Da desmobilização popular? Do abandono das bandeiras contra a corrupção, o desvio de recursos do erário e a péssima qualidade dos serviços públicos? Da desresponsabilização de seus responsáveis?

Expressão disso é o fato, politicamente inquietante, de que bradam contra a "criminalização dos movimentos sociais". Traduzindo: a violência deveria ser permitida e defendida, pois seus agentes sustentam uma "causa social". Seu objetivo consiste em deixar a impunidade reinar e as instituições democráticas se enfraquecerem.

Indústria sitiada - PAULO GUEDES


O GLOBO - 04/11

A progressiva desindustrialização da economia brasileira resulta de um acúmulo de erros de natureza macroeconômica. O protecionismo do regime militar, no exato momento em que se iniciava uma revolução tecnológica nas áreas de computação, informática e comunicações, foi um desastre histórico. O subsequente mergulho no caos da hiper inflação, aumentando a incerteza e encurtando os horizontes de investimento, aprofundou o fenômeno de nossa desindustrialização. E finalmente o erro clássico de expandir os gastos públicos ao longo de décadas de combate à inflação, administrando-se doses equivocadas de políticas fiscal e monetária, condenou ao declínio uma indústria brasileira já diversificada, mas ainda emergente. O excesso de impostos, os juros estratosféricos e o câmbio sobrevalorizado derrubaram nossa competitividade nos mercados globais.

São bilhões de trabalhadores asiáticos sem encargos sociais e trabalhistas. Os juros estão baixíssimos em todo o mundo, enquanto no Brasil estamos voltando aos dois dígitos. E os impostos excessivos que incidem sobre as empresas reduzem sua lucratividade e a geração de recursos próprios para financiar seus investimentos. Tudo isso retarda dramaticamente o ritmo de acumulação de capital na indústria. O ex-presidente Juscelino Kubitschek tinha como proposta de governo fazer 50 anos em 5. Pois bem, neste ambiente hostil, nossa indústria precisa de 50 anos para financiar o que deveria investir em 5. Enquanto isso, com os juros de volta a 10% ao ano comparados com 0,25% anual nos EUA, rentistas fariam 40 anos em apenas 1, se o governo tivesse sucesso em estabilizar o câmbio com vendas maciças de reservas pelo Banco Central.

Mas há também neste início de século uma nova dimensão que induz à desindustrialização progressiva como fenômeno global. As novas tecnologias não apenas tomaram mais eficientes, mas estão reinventando os processos produtivos. Desde a especificação do produto até sua fabricação com ferramentas digitais de impressão tridimensional e corte a laser, há uma nova revolução tecnológica desindustrializando a economia mundial. O preocupante é que, diferentemente do Brasil, nos países avançados as velhas indústrias passaram de um terço da economia antes de iniciarem seu recuo. Mesmo nos Estados Unidos - onde houve enorme transferência de fábricas em busca dos baixos custos asiáticos, e os empregos nas indústrias de manufatura estão no ponto mais baixo dos últimos 100 anos, tanto em termos absolutos quanto em percentagem da população economicamente ativa -, um quarto da economia ainda consiste em produção industrial.

Se por um lado a reinvenção da indústria com as novas tecnologias digitais nos oferece uma extraordinária oportunidade de renovação por meio de um mergulho digital, por outro lado estamos sob a estranha ameaça de sermos desindustrializados antes mesmo de completarmos nosso processo de industrialização. A formação da classe média ocidental está associada a esse histórico processo de industrialização. A transferência acelerada da população rural para grandes centros urbanos em uma janela comprimida de tempo reedita-se agora na China. O Brasil já é urbano e industrializado. Mas tem ainda uma classe média emergente. Teremos de reformar o macroambiente e reinventar nossa indústria para criar uma dinâmica de crescimento sustentável.

Desordem e regresso - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO


O Estado de S.Paulo - 04/11

O Latinobarômetro é o mais tradicional estudo sobre a opinião pública latino-americana. Na edição divulgada sexta-feira, o Brasil foi o país onde a percepção de progresso mais regrediu: 19 pontos a menos de 2011 para 2013. No primeiro ano de governo Dilma, 52% dos brasileiros diziam que o País estava progredindo. Dois anos depois, a taxa desceu a 33%. O Brasil caiu de 3.º para 11.º no ranking de progresso. Não foi só o País.

Dilma Rousseff também perdeu posições. Na classificação dos 18 presidentes, ela passou da vice-liderança em 2011 para a 7.ª colocação em 2013. O governo da brasileira tinha 67% de aprovação dois anos atrás, contra 56% este ano. É uma tendência.

A crise econômica dos países ricos desgasta a popularidade dos governantes latino-americanos. A média de aprovação dos governos do continente caiu de 60% em 2009 para 49% em 2013.

O problema de Dilma é que ela perdeu mais apoiadores do que os presidentes que vinham logo atrás no ranking. Se em 2011 a brasileira só não tinha mais aprovação do que seu colega colombiano, em 2013 Dilma perde para os presidentes de República Dominicana, Equador, Bolívia, El Salvador, Uruguai e Nicarágua. Ela só ultrapassou o da Colômbia, que caiu para o 8.º lugar.

O levantamento de opinião para o Latinobarômetro, feito no Brasil pelo Ibope, coincidiu com os protestos de rua aqui. As entrevistas foram feitas na segunda quinzena de junho. Pesquisa CNI/Ibope realizada poucos dias antes apontava ainda 71% de aprovação para o governo Dilma. A insatisfação pública cresceu tão rapidamente quanto o tamanho das manifestações.

O auge do descontentamento dos brasileiros com seus governantes ocorreu em julho. Dias depois de fazer a pesquisa para o Latinobarômetro, o Ibope voltou a campo e encontrou apenas 45% de brasileiros aprovando o governo Dilma.

Desde então, a presidente recuperou um terço da popularidade perdida com os protestos. Mas a taxa de aprovação do seu governo ainda está pouco abaixo de onde estava na véspera de as pessoas irem às ruas: bateu em 53% em outubro, segundo o Ibope, contra 56% quando o Latinobarômetro foi a campo. O otimismo é bem menor do que no final do governo Lula e no começo da gestão de Dilma.

Em 2009 e 2010, Lula era o governante mais aprovado da América Latina. Alcançou aprovação de 85% e 87%, respectivamente. Dilma beneficiou-se dessa inércia, mas o capital popular deixado pelo padrinho vem se desgastando à medida que mais brasileiros passam a ver o País sem progresso.

Pesquisas feitas entre agosto e outubro mostram que nas capitais e maiores cidades, principalmente do Sudeste, o descontentamento com o governo Dilma permanece alto, apesar de ela ter recuperado popularidade no interior do País e no Nordeste.

O comando da campanha da presidente tem buscado garantir o apoio de quem já é simpatizante de Dilma. Daí a prioridade para atividades presidenciais em cidades do interior e suas entrevistas para rádios locais e regionais. O alcance dessa tática tem se mostrado limitado - insuficiente para ela superar o teto de 38% de ótimo/bom e os 53% de aprovação.

Uma possível explicação para esse limite ao crescimento da popularidade de Dilma é que a confiança do consumidor continua andando de lado desde junho. O consumo de massa foi o motor que fez a aprovação de Lula disparar e elegeu Dilma.

Não é coincidência que a popularidade presidencial tenha caído justamente quando a confiança do consumidor se viu abalada. Tampouco é acaso que nenhuma das duas taxas tenha se recuperado desde então. O clima de opinião é desfavorável.

Os protestos viraram desordem. Perderam volume e apoio, mas ganharam frequência e incômodo. Já o progresso econômico, aos olhos de quem compra, se não regrediu, parou. E, com ele, a popularidade presidencial.