domingo, 28 de outubro de 2012

Hopper, a alma universal do ícone americano em Paris



Casa ao lado da ferrovia
“Tudo o que quis fazer foi pintar o efeito da luz solar na fachada de uma casa”, disse certa vez, Edward Hopper, retratista mediano na história da arte e cenógrafo espetacular. Se vivo, o inventor da pintura americana moderna ficaria contente de ver a mais profunda e esmiuçada retrospectiva de sua obra – não mais que duas centenas de óleos, gravuras, aquarelas e ilustrações – acontecer em Paris, a Cidade Luz. O lugar era modelo ideal ou par perfeito da obra de Hopper pela beleza do ordenamento urbano. Isso de acordo com ele mesmo em carta endereçada à mãe.
Porém, a engenharia vai no sentido inverso, assim como a resposta de Winston Churchill à sua mulher, preocupada com o velho hábito do primeiro-ministro britânico: “Clementine, tirei mais do álcool do que ele de mim.” Inegável: Paris tirou bem mais do que se conhece sobre o pintor, alargou seu entendimento, com a magnífica exposição “Edward Hopper”. Ela foi montada no Grand Palais, o mais amplo espaço parisiense para mostras de arte e permanece lá até 28 de janeiro de 2013.
Hopper veio para Paris uma década antes da leva de artistas, escritores e mundanos cujas vivências inspiraram o diretor Woody Allen realizar o seu mais recente sucesso nas telas, o Meia Noite em Paris. O pintor não foi atraído pela atmosfera feérica dos anos 1920, a qual Ernest Hemingway descreveu em seu livro Paris é uma Festa – uma das piores traduções do título em inglês, A Moveable Feast. De origem puritana, e ainda que de humor sutil e mordaz, Hopper não era um boêmio no senso próprio do termo.
Hopper foi beber na academia cultural do seu tempo, no classicismo do qual Paris era capital. Na prática, veio aprender a pintar de forma mais refinada. Aliás, como faziam seus antepassados e contemporâneos. Conterrâneos ou não. Sim, veio lapidar o talento nato. Ele mesmo constatou decepcionado quando retornou para os Estados Unidos, em 1906, depois da primeira das três viagens que fez à Paris: “Na minha volta, tudo me pareceu terrivelmente rude, mais grosseiro.”
Balé "Robert, o diabo"
No Louvre, Hopper tomou doses cavalares de Rembrandt e Vermeer. Embriagou-se alhures com Coubert, Velásquez e outros impressionistas. Contudo, se destilada a influência geral, o mais notável nas obras de Hopper são os ângulos insólitos pescados nos quadros de Edgar Degas. A luz do Hopper é do Hopper mesmo, a de verão, sem pigmentos amarelos, a fluorescente. O quadro Ballet “Robert le diable” (Balé “Robert, o diabo”), de Degas – mostra o público e os músicos da orquestra em primeiro plano, no lusco fusco, e as bailarinas mais adiante, no palco iluminado – participa como convidado ascendente na retrospectiva de Hopper.
As perspectivas inusitadas de Degas são como aquelas tomadas nas quais o fotógrafo ajoelha-se ou sobe na cadeira ou, simplesmente, como quem vê o espetáculo sentado na poltrona da platéia ou do balcão nobre. Ou atrás da cena. São visões que, se os quadros não estivessem ao nível dos olhos, sempre exigiriam dos discos cervicais. É o farol no alto da colina pintado no quadro Lighthouse Hill. É figura feminina sentada na cama de quarto de hotel lendo os horários dos trens em Hotel Room. É o Hopper provocando o movimento vertical do queixo de quem olha suas telas.
Hopper, o mais francês dos pintores americanos, pintou pouco – e bem menos em Paris. “Na fase mais prolífera, compunha de seis a sete quadros por ano”, contou ao Blog de Paris, o curador da exposição, Didier Ottinger. Isso foi no meio da década de 20. Hopper já era consagrado, reconhecimento chegado quando ele já era quarentão. Mas cada quadro no peculiar emprego da brevidade é um condensado de saber acumulado pelo pintor até o momento em que o pincel molhado de tinta fresca toca na alvura da tela.
Sol em um Quarto Vazio
Cada quadro lembra um tratado. Um manifesto. Enfim, uma espécie de estado geral da arte, segundo o autor, naquele instante exato. Naturalmente, como não se trata da Teoria da Evolução, o último quadro não vem, forçosamente, com o melhor acabamento. A cronologia segue a densidade. Não pela tonalidade, as cores são invariavelmente saturadas, vivas, mas pela carga de maturidade em busca de apuração. É o caso de Sun in an empty room (Sol em um Quarto Vazio), a tela que encerra a exposição. O óleo é desidratado de qualquer artifício pictórico; apenas a luz penetrando a janela de um cômodo despojado de quase tudo. No entanto, a secura da plástica pura evoca emoção, a melancolia.
O derradeiro quadro de Hopper, Two Comedians (Dois atores), pintado em 1966, faz parte de plano distinto. Trata-se de uma despedida de cena, o último ato, no sentido literal e figurado. Na tela, Hopper se pinta de Pierrô, reverencia a mulher Josephine Verstille Nevison trazendo-a junto a si e, de mãos dadas com “Jô” – foi sua cúmplice, gestionária das finanças, modelo exclusiva e quem mais consumiu sua paciência – agradece o público à beira do palco. Paris outra vez, até no fim. O pierrô, figura da comédia italiana, ironia mais ou menos leve da existência humana, migrou depois para o antigo teatro francês, rememora a personagem Baptiste Debureau no filme preferido de Hopper, Les enfants du paradis (O bulevar do crime), do francês Marcel Carné.
O pierrô é o Hopper no quadro Soir Bleu, título de um poema de Arthur Rimbaud, poeta que o pintor, além de Charles Baudelaire, recitava de cor. Em Anoitecer azul, Hopper está ali na sua França, sentado à mesa com artistas entre aristocratas e uma figura modesta de boina. No fundo, altiva, dominando a cena, uma prostituta. Foi isso que ele mostrou como realização maior quando voltou do Velho Continente. Assim como quem diz: “Olha a minha bagagem.” Nos Estados Unidos, recebeu da academia empenhada em cortar laços umbilicais com a Europa e criar algo genuinamente americano, um rotundo, “Não queremos, é francês demais.” Acontece. Levou tempo, mas Hopper deu a volta por cima.
Anoitecer Azul
No meio do caminho entre o impressionismo e a pop art, durante a formação de um Império, Hopper tornou-se a referencia americana máxima – sem apelar para o patriotismo. “O melhor”, segundo um colega mais jovem, a estrela candente do movimento expressionista abstrato, Jackson Pollock. Para um dos mais respeitados críticos de arte, o australiano Robert Hughes, Hopper foi o mais original. Antes dele, houve espasmos de brilho e lampejos, mas a pintura americana, contrário à ilustração, era povoada, sobretudo, por arremedos. A resistência inicial a Hopper era justamente pela razão de que ele fosse mais um, algo já visto em outras paragens.
Há caudalosas interpretações sobre os habitantes e territórios dos quadros de Hopper. Umas contradizem as outras e, na maioria das vezes, encontram denominador comum nos substantivos solidão, desolamento, estranheza e mistério. Pela inutilidade da prática, aqui não se fará mais uma. Hopper sabiamente não fornece indícios, deixa qualquer idéia psicológica por conta do observador. “As pessoas gostam dos quadros de Hopper porque de alguma maneira se identificam com eles, acham que foram representadas. Ele pintou o ninguém e todo mundo”, disse ao Blog de Paris, o talentoso pintor Gonçalo Ivo, artista brasileiro louvado pela crítica nas duas margens do Atlântico, cortejado por colecionadores e mercado de arte mundial.
Gás
Hopper não teve filhos com Jô e não deixou herdeiros diretos na pintura. Quem mais se aproxima da linhagem artística do pintor é o diretor de cinema Wim Wenders. Em tempo: é uma fotografia do diretor alemão, uma esquina de rua hopperiana, que abre a exposição no Grand Palais. Hopper entendeu a metafísica do cinema, o inspirou e recebeu uns trocados. É o caso do motel neovictoriano de Psicose que Alfred Hitchcock e a Disney tomaram emprestado do quadro House by the railroad (Casa ao lado da ferrovia). É o ambiente de Giant (Assim Caminha a Humanidade) com Hudson, Taylor e Dean. É Paris, Texas, do início ao cabo. Tampouco Hopper deve algo ao fenomenal jazz do seu tempo. Se houver alguma trilha sonora para seus quadros, ela é o silêncio.
Qual o interesse de ver mais uma exposição de Hopper, um dos artistas mais divulgados e, em efeito, popular? Seu quadro Nighthawks (Falcões da Noite), por exemplo,  a “ Mona Lisa americana” – Hopper começou a pintá-lo uma semana depois do bombardeio japonês a Pearl Harbor – foi quase tão reproduzido e contrafeito quanto o afresco Ultima Cena (Última Ceia), de Leonardo da Vinci. Resposta, parafraseando Walter Benjamin: de modo geral, por mais hajam cópias, todas juntas, não alteram a aura nem valem o encontro com o original. De maneira particular, a montagem no Grand Palais, realçando a influência francesa, conferiu a Hopper  um caráter mais amplo. Merecido e justo. Alforria da carcaça americana. Hopper é universal.
Falcões da Noite
Por Antonio Ribeiro

ELEIÇÕES: Baseado em fatos, o site “Implicante” produz um VÍDEO arrasador sobre os erros de Haddad como ministro da Educação



Este é o link para o site Implicante, que publicou o vídeo abaixo:


Recordar é viver: o que Valério disse e o que faltou para processar também Lula



Com a finalização dos procedimentos de julgamento da Ação Penal 470, o chamado Mensalão, teremos a fase das publicações no Diário de Justiça do STF e, depois, alguns recursos apresentados pelos réus através de seus milionários e caríssimos advogados. ...

Diante das penalidades, que apontam para a obrigatoriedade de prisão em regime fechado, indicando muitos anos de cadeia para os principais personagens, dentre eles o publicitário Marcos Valério, vale recordar o que já foi divulgado pela mídia como sendo revelações que ele teria feito.

Uma amostra disso referia-se às afirmações, que seriam de Marcos Valério, dizendo: “o caixa real do mensalão era o triplo do que foi descoberto pela Polícia Federal, com dinheiro oriundo também de outras empresas para conseguirem obter facilidades junto ao governo”; “Lula se empenhava pessoalmente na coleta de dinheiro para essa engrenagem clandestina”; “muitos empresários se reuniam com o presidente Lula, combinavam a contribuição e, em seguida, despejavam dinheiro no cofre secreto petista, sendo que o controle dessa contabilidade cabia ao então tesoureiro do PT, Delúbio Soares, que ajudava na administração da captação, e definia os nomes dos políticos que deveriam receber os pagamentos determinados pela cúpula do PT, com o aval do então ministro da Casa Civil, José Dirceu”.

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COM LULA


Também ele teria dito ter se encontrado várias vezes com o então presidente, e que, ao tratar desse esquema, quando estava com José Dirceu, cujo gabinete ficava no 4º andar do Palácio do Planalto, bastava descerem a escada e chegavam rapidamente até o Lula.

Para não revelar todo o esquema, teria recebido garantias de proteção, numa combinação de versões sobre o que dizer, realizada com Delúbio Soares e José Dirceu. Porém, parece que a estratégia não deu certo. A tentativa de deixar de fora uma espécie de “sujeito oculto”, alguém com poderes no maior cargo do Poder Executivo Federal e que pudesse agir para protegê-los, não adiantou.

Na época das denúncias, Lula convocou rede nacional de Rádio e TV para dizer que tinha sido traído, e pediu desculpas ao povo brasileiro pelo que tinha acontecido, referindo-se ao escândalo do chamado Mensalão.

Lula precisava aparecer como um ingênuo, alguém que não sabia de nada do que estavam fazendo e tramando, à época, em salas do próprio Palácio do Planalto.

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VERSÃO DO CAIXA 2


Depois, orientado por Márcio Thomaz Bastos, mudou a versão e disse que se tratava apenas de caixa 2 de campanhas eleitorais.

Neste blog, em 30 de agosto de 2012, no artigo intitulado “Como armaram a história do Caixa Dois do PT”, o jornalista Sebastião Nery já recordava um outro artigo anterior dele, de 19 de julho de 2005, em que comentava sobre as combinações que teriam sido feitas com Lula para coincidirem as versões sobre o caso.

Vale lembrar, ainda, o que está sendo pouco divulgado pela mídia, que é o que está no Inquérito nº 2.474 no STF, desde 2007.

Este acabará sendo uma espécie de desdobramento e continuidade do caso do Mensalão.
Os 77 volumes desse inquérito tratam de investigações sobre irregularidades no convênio entre o Banco BMG e o INSS.

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ATOS DE LULA


Existem atos diretos, praticados por Lula, tais como a Medida Provisória nº 130, convertida depois em lei (nº 10.820/2003), e o Decreto nº 5.180, que permitiram ao Banco BMG, envolvido no esquema do Mensalão, tornar-se habilitado a realizar empréstimos consignados em folha de pagamento para milhões de aposentados e pensionistas.

Esse Decreto nº 5.180, de 13 agosto de 2004, foi elaborado para alterar o art. 154 do Regulamento da Previdência Social justamente para permitir que esses empréstimos pudessem ser feitos por qualquer instituição consignatária, independentemente de ser ou não responsável pelo pagamento de benefício.

Ou seja, ficava bastante evidente a manipulação no sentido de se adaptar o esquema para beneficiar esse banco. Lula chegou a assinar um modelo de carta, que foi remetida para mais de dez milhões de pessoas, estimulando esses empréstimos. Diante dessa “bondade” do próprio presidente em recomendar um “bom negócio”, as pessoas acreditaram. Com isso, o BMG, que tinha apenas 10 agências, conseguiu lucros fantásticos, da ordem de três bilhões de reais.

Se o empresário Marcos Valério resolver vir a público de forma mais objetiva, sem a forma escamoteada com a qual teria repassado as informações divulgadas pela revista Veja, certamente teremos muitas novidades.

É de se imaginar o que ele, arrependido de não ter contato tudo o que sabia quando deveria, poderá fazer, desvendando o mistério e mostrando que ficou faltando um para condenar: o Grande Chefe e Mandante de todo esse esquema.

Por: Marcelo Mafra
Fonte: Blog da Tribuna - 26/10/2012

A obrigação da comida em plantão de vendas.


Por Mariana Ferronato


Uma constatação ao acompanhar as postagens das empresas imobiliárias no Facebook durante a semana. Convite para plantão de vendas e iguarias gastronômicas virou praticamente sinônimo. Digo mais, em algumas cidades, especialmente aquelas com grande volume de produtos, São Paulo por exemplo, já virou obrigação. 

Compartilho abaixo convites divulgados nas páginas de imobiliárias e construtoras somente neste final de semana (26,27 e 29/10). Vale tudo para fisgar o futuro cliente pelo estômago: Festivais de crepes, petiscos de botecos, chopp gelado, sorvete, pizza, brigadeiros, hot dog, entre outros diversos tipos de comida. 

Entendo que para os corretores é bom este tipo de ação pois é uma isca para convidar o futuro cliente a visitar o plantão "não deixe de nos visitar este final de semana, teremos um ótimo festival de brigadeiros", mas sempre me questionei se de fato alguém vai a algum local para comprar um imóvel só por que tem brigadeiros, pizzas, lagostas, enfim, algo para comer. Apesar de como 99% das pessoas eu amar um boca livre, eu não iria. Fica a minha dúvida.




 







Artista digital produz imagens impressionantes



Francês é conhecido como mestre da arte digital e já foi responsável por campanhas de marcas famosas
Da Redação
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O francês Christophe Huet é considerado um mestre das artes digitais. É ele o responsável pela produção da campanha de grandes marcas internacionais, como Nike, Motorolla, Playstation, entre muitas outras.

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Seu trabalho é conhecido pelo perfeccionismo em que consegue ultrapassar a realidade através do seu talento de manusear imagens utilizando o Photoshop, programa de edição de imagens.

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Para gerar resultados de impacto, ele abusa de sua imaginação para transformar a realidade em imagens surreais.

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HUMOR Marcos Valério: condenado a assistir Encontro com Fátima por 20 anos



Analistas garantem que José Dirceu não vai escapar de umas boas palmadas
LIGA DA JUSTIÇA – Após dias de duras arengas, os ministros do STF finalmente definiram a dosimetria do publicitário Marcos Valério. Deitado numa prancha apoiada nos joelhos de Lewandowski e Dias Toffoli, Joaquim Barbosa defendeu que o réu passasse o resto de seus dias submetido à audição da obra completa de Jorge Vercillo.
A severidade da pena foi imputada à nevralgia particularmente aguda da lombar do magistrado, e de pronto descartada.
Ricardo Lewandowski, mais flexível, propôs um regime semi aberto em que Valério se apresentaria diariamente no TUCA para participar de saraus de poesia com Pedro Bial. Animado, Ayres Britto interveio, versejando em alexandrinos iâmbicos: "Julgar é preciso. Viver não é preciso".
Ficou por fim decidido que Marcos Valério será condenado a assistir ao programa Encontro com Fátima pelos próximos 20 anos. Caso o programa saia do ar, deverá prestar serviços comunitários a Narcisa Tamborindeguy.


Fontes ligadas ao DOI-CODI garantem que José Dirceu vem demonstrando grande receio de ser condenado à pena máxima prevista pelo Código Penal. “Nem nós, que o prendemos em Ibiúna, achamos que ele merece ser forçado a ouvir Simone cantando Então é Natal em looping até 2052”, disse um ex-integrante da repressão.

A bandalha dos ciclistas



RUTH DE AQUINO

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RUTH DE AQUINO  é colunista de ÉPOCA raquino@edglobo.com.br (Foto: ÉPOCA)
Fui atropelada por um ciclista na calçada do Leblon, no Rio de Janeiro. Estava parada, falando ao celular. Ele levava a namorada de shortinho no guidão. Se eu tivesse 20 anos e uma garota com aquelas pernas no meu campo visual, provavelmente não enxergaria mais nada. Além de bater na minha coluna lombar, ele foi levando com o guidão minha roupa e, por isso, parou. Pediu desculpas.
“Fazer o quê? Desculpo. Mas você sabia que é proibido pedalar no espaço de pedestres?”, falei. Entrou por um ouvido, saiu pelo outro. Ele continuou rumo à orla, para gozar a luz extra do horário de verão, a ansiedade e os hormônios a 40 graus, em ensaio para a estação de gala do Rio. Uma estação de delícias e dores. Algum ciclista, naquele exato instante, poderia estar atropelando numa calçada sua mãe, sua avó, sua irmãzinha pequena.
Os ciclobandalheiros imperam em muitas cidades grandes do Brasil. Eles reclamam dos ônibus, dos carros ou das vans irresponsáveis. Evitam o asfalto – mesmo a duas quadras de uma ciclovia com vista para o mar. E ferram os pedestres. Pedestre não vem de fábrica com setinha ou luz de freio. Dispõe, pela lei, de um espaço só dele, onde a velocidade é das pernas. Tem direito de mudar a direção subitamente, sem verificar se um veículo sobre rodas passará por cima dele.
As calçadas do Rio estão coalhadas de ciclistas que transformam pedestres em alvo de manobras arriscadas. Nós somos os obstáculos, invasores inconvenientes de nosso território.
A praia no verão é o retrato mais acabado da democratização do espaço carioca, especialmente com o metrô. Os ciclistas repetem o padrão. Patricinhas, mauricinhos, peruas, executivos, atletas, profissionais liberais, vendedores de celular, entregadores de pizza, moradores de comunidades (ex-favelados), todos se locupletam na bandalha, com bicicletas de todos os calibres e, agora, as elétricas.
Foi, portanto, com aplausos que, no domingo passado, o carioca recebeu a Guarda Municipal no calçadão de Ipanema e Leblon. É uma festa aquela pista dedicada ao lazer, fechada aos carros. Lazer barato numa cidade cada vez mais cara. O cortejo de carros da polícia, com guardas munidos de cassetetes caminhando à frente, mandava ciclistas para a ciclovia.
O motivo da ação foi o número de queixas da população. Bicicletas e skates tornam aquele espaço perigoso para a caminhada dominical. Vira pista de corrida e esportes radicais. A maioria da população está longe de ser “radical” – e gosta de ordem.
Fui atropelada por uma bicicleta na calçada. Qual seria a dosimetria para os ciclobandalheiros? 
“O Rio não pode perder sua espontaneidade e alegria, mas não pode ser eternamente a capital da esculhambação”, disse a ÉPOCA o prefeito Eduardo Paes. “O espaço público não pode ser privatizado, nem pelos próprios indivíduos. Acabamos com a zona das Kombis velhas estacionadas com mercadorias na orla, ao instituir o Choque de Ordem há dois verões. Começamos a organizar os quiosques. Agora, os gestos de civilidade são uma questão de educação, cultura e convívio urbano.”
Como os ciclistas se comportam bem em Washington, Nova York, Paris e Londres, penso: qual seria a dosimetria para os ciclobandalheiros do Rio? Dosimetria, como todos já sabem, é o jargão juridiquês dos supremos de capa preta que invadiram nossa data venia de botequim. É o “cálculo de penas”.
Se advertências não impedem a bandalha de acostamento nas estradas, os passeios da Guarda Municipal não coíbem ciclistas infratores. Um dia de apreensão de “bikes” bandalheiras poderia servir de educação. Perdeu, parou, confiscou. Ciclismo é prática saudável, transporte limpo, o prefeito estimula, o clima do Rio ajuda. Mas, por favor, na ciclovia, porque o nome já diz tudo.
Paes ficou abalado com a guerra do jogo de futebol conhecido como “altinho” – a antiga linha de passe – no Posto 9, em Ipanema. O local é um reduto dos jovens contra a lei que proíbe jogar bola na beira do mar entre as 8 e as 17 horas. O paredão dos “altinhos” torna um risco mergulhar ou andar na areia. Os donos do território desafiaram a ordem da Guarda Municipal. O vídeo no YouTube mostrou uma batalha campal bem feia, com palavrões e agressões. Cocos, barracas e cadeiras foram arremessados contra os guardas. E os guardas usaram força bruta inadmissível. “Foi um erro dos guardas”, diz o prefeito. “Perderam a razão ao se nivelar. A Guarda Municipal precisa agir com educação, não pode perder o controle.”
O “altinho” migrou do Posto 9 para o Posto 8. E o lixo e os cães? Não é preocupação de elite. Praia é de graça. É no verão que os jet skis à beira d’água matam criancinhas, e as lanchas matam ou aleijam banhistas. É no verão que os cães, o lixo e os restos de comida tornam nossa areia imprópria. Bactérias causam diarreia e micoses. As areias de Copacabana e do Leblon continham, em outubro, mais fezes de cachorro e lixo que a areia do Piscinão de Ramos. É o subúrbio ensinando boas maneiras à Zona Sul. Vamos baixar a dosimetria nos bandalheiros do verão.