segunda-feira, 26 de março de 2012

Sonhos, a matéria-prima do século 21



Está se sentindo um zumbi corporativo? É hora de reagir

Escreve sobre inovação digital. É professor do centro de inovação e criatividade da Escola Superior De Propaganda E Marketing (ESPM) e da Miami Ad School e Presidente Da Gaia Creative. ggiardelli@espm.br 

Crédito: Ilustrações: Lula Palomanes
 - Crédito: Ilustrações: Lula Palomanes
Primeiro ato - Uma aluna de MBA me procura e desabafa: "Meu chefe me valoriza, tenho orgulho da empresa em que trabalho, recebo um bom salário, tenho um plano de carreira e casei com o companheiro que amo. Mas estou triste, sinto que falta algo, o que será?".
Segundo ato - Aos 22 anos, outro aluno cansou de ser funcionário. Ele quer empreender. Questiono: "Você vai dar os dez melhores anos de sua vida para algo que não gosta?". Ele entra para um grupo de estudo independente, abre uma empresa e retoma o controle de seu tempo.
Terceiro ato - O programa de trainee de uma importante multinacional tem quase 80 000 inscritos. Desses, 60 gênios são escolhidos. Um ano depois quase metade deles pediu demissão. Eles dizem ter cansado das quatro horas diárias no trânsito, da falta de estímulo à inovação, da intolerância ao erro. E você, está se sentindo um zumbi corporativo? É hora de reagir. Não tenha medo de demitir da sua vida os chefes que gritam. Renuncie aos trabalhos chatos. O que você está fazendo neste mundo?
O que fazer? Já pensou em largar tudo e empreender? Montar seu emprego ideal e a empresa dos seus sonhos? Vá conhecer outras realidades ao redor do mundo. Sugiro Ásia ou África, lugares em que florescem as nuvens de inovação coletiva. Que tal criar ou engajar-se em um trabalho voluntário? Já imaginou ser um empreendedor social? Essas atitudes estimulam a criatividade, o coletivismo e despertam seu gênio adormecido.
São também o melhor remédio para a depressão e o vazio existencial. Vivemos uma abertura sem precedentes para novas ideias, abordagens e negócios. Lá vem você com a pergunta simplista "e onde arranjo tempo?". Sim, o tempo linear acabou. Esqueça o relógio e foque nas ações e no objetivo final. Mas você tem dúvidas e medos. 

E a bolsa do MBA que eu ganhei da empresa? E a prestação do carro? Então, faça como milhares de pessoas: separe duas horas por dia, sacrifique horas de lazer e de televisão e vá empreender na era digital.
São milhares de caminhos, aplicativos, empreendedorismo social, serviços diferenciados nas mídias sociais, social commerce. 

Não se esqueça: a matéria-prima do século 21 são os sonhos. Sonhar grande ou sonhar pequeno dá o mesmo trabalho.

COMO GERENCIAR INTERRUPÇÕES


Vanessa Vieira 
Assista ao vídeo com as dicas de Christian Barbosa, autor especializado em produtividade 
Você já se planejou para concluir um trabalho no prazo, mas foi atropelado por reuniões inesperadas e e-mails urgentes do chefe? Geralmente a solução para esses casos é trabalhar até mais tarde ou adiar a entrega. Para calcular o efeito devastador que as interrupções têm sobre o fluxo de seu trabalho, imagine que você sofra duas interrupções a cada hora — um e-mail a ser respondido, um telefonema, uma pessoa que se aproxima da sua mesa para conversar ou um chamado do chefe, por exemplo.
Ao longo de uma jornada de oito horas, você terá sido interrompido 16 vezes. Imaginando que cada interrupção dure dez minutos em média, você terá parado suas atividades durante quase três horas. Os prejuízos não param por aí. Após uma interrupção, levamos em média 15 minutos para nos reconcentrarmos na tarefa anterior, mostram estudos de ciência cognitiva.
Com isso, nossa eficiência cai cerca de 40%. Resumindo: as interrupções também comprometem a produtividade. Para compensar esse quadro, o que a maioria das pessoas faz é sacrificar a qualidade de vida. No entanto, a medida mais eficaz seria limitar, tanto quanto possível, os obstáculos que nos fazem tirar o pé do acelerador no trabalho. Você pode começar a procurá-los na sua mesa.
Numa pesquisa feita com mais de 1 600 profissionais por VOCÊ S/A e pela consultoria Triad, especializada em gestão do tempo, 36% dos entrevistados admitiram que perdem tempo por causa da internet e 21% disseram se desconcentrar por causa de comunicadores online. Para o consultor Christian Barbosa, da Triad, o melhor é desligar os avisos de recebimento de novas mensagens e concentrar a leitura delas a um ou dois momentos do dia, como o início da manhã e à noite.
“E-mails não trazem problemas urgentes, que precisam ser respondidos de imediato. Se a questão for urgente, certamente você será acionado por telefone”, diz Christian. “Quanto ao MSN, tenha uma conta pessoal e uma corporativa. Na empresa, use só a corporativa, para não comprometer o tempo de trabalho com conversas pessoais.” Os chamados rotineiros da chefia também atrasam a conclusão de trabalhos em curso.
Para 36% dos pesquisados pela Triad, o gestor não sabe se planejar e 21% afirmam que o líder gera urgências para a equipe. Para conseguir atender sua chefia de forma eficiente, o gerente de operações de férias do Rio Quente Resorts, Édson Cândido Gonçalves, de 29 anos, precisou mudar sua forma de trabalhar. Quando assumiu o cargo, ele tinha dificuldade para conciliar as muitas reuniões das quais participa e a montagem das apresentações que tem que entregar regularmente com o atendimento ágil às solicitações feitas pela chefia.
“Eu trabalhava de 12 a 15 horas diariamente.” Édson percebeu que, além dos chamados da chefia, também era acionado pela equipe e por clientes. A saída foi treinar o time para que os colaboradores tivessem autonomia para resolver os próprios problemas e os dos clientes. Para isso, o gerente designou quatro líderes e criou um sistema em que, a cada semana, um deles é responsável por monitorar o trabalho dos subalternos e dar resposta aos problemas trazidos pelos colegas.
“Eles conseguem apagar os incêndios e dar um retorno mais rápido ao cliente sem a minha participação”, diz o executivo. Os líderes também passaram a colaborar para melhorar o fluxo das informações demandadas pela chefia de Édson. Eles foram treinados para fazer relatórios de suas atividades semanais, sistematizando os dados em tabelas e gráficos.
“Isso me permite responder de forma muito mais ágil quando meus superiores me solicitam um dado”, diz Édson. As reuniões inesperadas também são grandes vilãs do planejamento diário. Na rotina da diretora de mídia da agência DPZ, Adriana Favaro, de 40 anos, elas aparecem com frequência. “Muitas vezes elas surgem porque aquele é o único horário possível para reunir todas as pessoas envolvidas num projeto”, diz ela.
Para que esses compromissos não atrapalhem o cumprimento dos prazos, Adriana adotou duas estratégias. A primeira foi preparar a equipe para substituí-la em alguns eventos. “Isso melhorou o aproveitamento do tempo em 80%. Além de diminuir a minha sobrecarga, as pessoas ficam mais motivadas.” A segunda medida foi usar a tecnologia como aliada para ganhar tempo.
“Com a ajuda do iPad e do iPhone, registro e despacho tudo o que me for repassado durante a reunião”, diz. O consultor Sílvio Celestino, da Alliance Coaching, dá outra sugestão para reduzir o tempo gasto nas reuniões: “Sempre que possível, proponha teleconferências por Skype. Além de poupar o tempo de deslocamento, a tendência é que elas sejam mais objetivas”, diz.
As interrupções afetam a agenda pessoal. O jantar com a esposa, o lazer e a atenção aos filhos têm de ter, em sua agenda, o status de compromissos tão importantes quanto os profissionais.
Agilize seu dia Saiba como reduzir os focos de desatenção que atrapalham a sua produtividade
Crie procedimentos-padrão – Evite interrupções rotineiras educando sua equipe a consultar respostas para problemas e perguntas frequentes em guias ou manuais.
Concentre as interrupções – Se você é interrompido diversas vezes para dar o aval a coisas simples, crie uma rotina com um ou dois momentos no dia em que avaliará várias questões de uma vez só.
Crie um código – Defina com a equipe um código para ser usado em fases de conclusão de projetos que sinalize que a pessoa só deve ser interrompida em caso de emergência. Vale colocar, por exemplo, um cartão vermelho sobre a mesa.
Revezem o telefone – Crie um acordo com os colegas pelo qual cada um fica responsável por responder aos telefonemas dos demais num intervalo diferente do dia. Se possível, retorne todas as ligações num mesmo período de tempo.
Ir é melhor do que receber – Ao agendar uma reunião dentro da empresa, proponha encontrar o colega na sala dele ou numa sala de reunião. É mais fácil levantar e dar fim à reunião.

Conselho de Justiça descobre vendas suspeitas de precatórios com deságio de até 90%



Renata Mariz
Nem só de falta de pessoal, de organização e de uma ordem cronológica transparente sofrem os sistemas de precatórios (dívidas da Fazenda Pública) no Brasil. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ao percorrer até agora oito estados para estruturar os setores de pagamentos de débitos dos governos locais, decorrentes de sentenças judiciais em favor dos cidadãos, encontrou fraudes de toda ordem.
Em Alagoas, foi identificado um esquema de venda dos créditos, com deságio de até 90% e documentação irregular, a empresas, que rapidamente conseguem receber 100% dos valores em compensação tributária (veja quadro).
A estimativa é de que cerca de R$ 1 bilhão tenha sido movimentado dessa forma, envolvendo 500 credores — entre eles desembargadores, juízes, promotores e procuradores.
A falta de controle era tão grande que o Tribunal de Justiça alagoano tenta rastrear, agora, quem já recebeu por essa via, para evitar pagamentos em duplicidade. “Mandei ofício à Procuradoria do Estado e à Secretaria de Fazenda pedindo nomes e valores, mas, até agora, não recebemos retorno”, destaca Diógenes Tenório, juiz responsável pelo setor de precatórios.
Um problema crucial, verificado ao longo do trabalho de organização realizado pelo CNJ no estado, foi a emissão de certidões de crédito, por parte das varas de Fazenda Pública, especialmente a 17ª, sem organização alguma. Tal documento, que não traz o valor devido, era calculado e negociado por escritórios de advocacia a empresas, principalmente a Telemar, hoje Oi.
(Transcrito do Correio Braziliense)

A Teoria do Atraso informa que Rebelo precisa de mais chutes nos fundilhos


Aldo Rebelo escapou por pouco de Salomé, lamentei no comentário de 1 minuto para o site de VEJA. Se Chico Anysio não tivesse morrido nesta sexta-feira, a gaúcha de Passo Fundo que usava o telefone para dizer verdades a quem estivesse na Presidência da República já teria conversado com Dilma Rousseff sobre o mais recente monumento ao ridículo erguido pelo ministro do Esporte: a Teoria do Atraso. Segundo o autor, brasileiro gosta tanto de atraso quanto de futebol ou de carnaval. É por isso que as obras ligadas à Copa do Mundo não vão ficar prontas no prazo combinado. É por isso que as promessas feitas à Fifa não foram ainda cumpridas.
“Nós também temos nossos problemas civilizatórios”, caprichou o ministro. “Um deles é o atraso. A gente atrasa até para sair de casa para o cinema, para o restaurante. Então, isso é uma coisa da nossa cultura. Mas tudo funciona”. Depois de lembrar que “até reunião ministerial atrasa”, Rebelo comparou o maior evento futebolístico do mundo a uma noitada na Sapucaí. “Quem acompanha a preparação de um desfile de escola de samba acha que aquilo não vai sair, mas todo ano acontece e é um evento de referência”, discursou. “O brasileiro tem um jeito próprio de organizar e sempre entrega o que precisa”.
Conversa fiada, deveriam ter berrado em coro os jornalistas que testemunharam o elogio da irresponsabilidade, da inépcia, do desperdício e da pouca vergonha. Acordos devem ser cumpridos. Quem esquece a palavra empenhada é vigarista. Cronogramas têm de ser  respeitados. O “jeitinho brasileiro” é o outro nome da cafajestagem. O que Rebelo qualifica de “coisa da nossa cultura” é apenas um sintoma de primitivismo. Improviso é para craques de futebol . Jogo de cintura fica bem em  passistas de escola de samba. Adotados como norma por um governo, tais virtudes apenas encurtam o caminho que leva ao fracasso e ampliam as dimensões do fiasco.
O atraso das obras desmata a trilha no matagal por onde avançam os contratos sem licitação, os preços superfaturados, o programa Propina para Todos, a roubalheira escandalosa. Enquanto os pagadores de impostos bancam a gastança bandida, o ministro do Esporte promove a formas de arte o estelionato, a ladroagem e a fraude. Enquanto o militante do Partido Comunista do Brasil mantém a cabeça estacionada no século 19, o supercartola do Planalto negocia em moeda cunhada no século 21. É compreensível que o comunista-capitalista celebre a beleza do atraso.
O falatório desta semana informa que passou o efeito do merecidíssimo chute no traseiro. Está na hora do segundo. Um bom pontapé nos fundilhos pode tornar Aldo Rebelo tão pontual quanto um lorde inglês.

Coração de estudante e os trotes sem coração



Por Beto Almeida
                                                                         Me gustan los estudiantes…..
                                                                                                      Violeta Parra
Intitulada “Péssima lição”,  matéria de capa do Correio Brasiliense, do dia 17/3, sobre os espantosos trotes que estudantes da UnB submetem os calouros, obriga a uma reflexão que, por seu histórico papel de aliado da ditadura e da repressão ao movimento estudantil, o jornal candango é inepto a realizar. Enquanto aqui se pretende sustentar uma linha de pensamento que recupera e afirma o projeto generoso da Universidade Necessária, do genial Darcy Ribeiro, o Correio nem disfarça  sua nada edificante posição editorial  contra a universidade pública brasileira, ótica em que inscreve sua crítica sem profundidade aos indefensáveis trotes.
Demarcado o campo, que tremenda indignação ver a foto de jovens ajoelhados diante de  veteranos a lhes derramar bebidas alcoólicas , tintas, e até choques elétricos, num atestado indigência cultural! Um vergonhoso atestado  de completo desprezo pelo patrimônio cultural que o projeto da Universidade Necessária, sempre podado, como na música de Milton e Brant, representa e resiste em busca de alcançar a plenitude, o que ainda conseguiu.
Ainda hoje, a maioria  de jovens que consegue ingressar na universidade pública brasileira é oriunda das camadas mais abastadas da população. O que estariam a revelar com estas suas condutas truculentas? Que uma comemoração que poderia ser sábia e reflexiva face a possibilidade de acesso ao estudo superior que a maioria não dispõe, deve ser marcada por modos de submissão, de prostração, de humilhação, de alienação, até de violência, quando  nosso país e nosso povo   -  que sustenta com recursos públicos a universidade  -  tem tremendas necessidades reprimidas, sofrimentos acumulados e direitos desprezados? 
É da universidade que saem os dirigentes da sociedade brasileira. Única exceção foi Lula, que deu início a um processo de abertura para que jovens pobres e negros, sustentados com recursos públicos, tal como o são os jovens brancos e ricos, também encontrem um lugar no ensino superior brasileiro. O que é motivo para raivosa indignação das elites brancas, desejosas de manter para sempre a universidade como reserva de lugar para seus filhos, reproduzindo a sua ideologia, perpetuando as desigualdades sociais, entre elas a do seletivo ingresso na universidade. Só pelo atrevimento em fazer um pouco de justiça, que não altera totalmente o predomínio dos endinheirados para o ingresso na universidade pública,  Lula foi obrigado a ouvir as mais desqualificadas manifestações de rancor social difundidas pela mídia, esta também uma reserva de mercado do poder econômico e sua ideologia, já que as forças progressistas, inexplicavelmente, ainda não se animaram, não se atreveram a no mínimo reeditar o gesto audacioso de Vargas ao criar o Jornal Última Hora.
“Já podaram seus momentos….”
A foto com jovens ajoelhados diante de um nada, do vazio, da ausência absoluta de sentido, conduzidos como rebanho a uma espécie de comemoração que joga para fora baixos instintos, desagrega, decepciona, e gera montanhas de dúvidas sobre a qualidade dos cidadãos que estarão futuramente nos postos de comando das instituições da sociedade. Nem parece que passaram pela universidade brasileiros do porte de Josué de Castro, Anísio Teixeira, César Lattes, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Freire e Aziz Ab’Saber, que acaba de nos deixar, deixando-nos, todos eles, uma foto perene de insubmissão diante da mediocridade, da injustiça, da opressão intelectual, cultural e científica. Deixaram-nos uma mensagem para que jamais nos ajoelhemos diante da baixa cultura, da limitação do conhecimento, da truculência acadêmica ou não, mensagem que estes jovens deveriam conhecer desde cedo. Infelizmente, em nosso sistema educacional predomina exatamente o mecanicismo da obediência acrítica, o que também se pode observar nos meios de comunicação. Quantas horas de TV Xuxa não foram necessárias para  produzir jovens de joelhos diante de um nada, de uma ordem da insensatez e do retrocesso cultural? Justo quando chegamos aos 90 anos da Semana da Arte Moderna nos deparamos com esta cena deprimente que a foto do jornal da capital  nos mostra?
“Desviaram seu destino…..”
Embora a foto possa sugerir, não há , entretanto, razões para pessimismo. Paralelamente a estes jovens ajoelhados em reverência à mediocridade, vimos chegar a notícia de catadores de material reciclável que conseguem o diploma universitário e, na própria formatura, juram continuar a luta por uma sociedade mais justa. Nada de ajoelhar! Chega-nos a notícia de mulheres que também tiveram sua fase de catadora de recicláveis e que hoje estão na presidência da Petrobrás. Exemplos de bravura, superação, de não resignação, de rebeldia diante do fatalismo ante as desigualdade social, nada disso falta ao povo brasileiro. Ele é generoso em exemplos assim. 
Mas, talvez o que esteja faltando é uma overdose de rebeldia ao próprio movimento estudantil. Seja porque as condições políticas do país permitem, há um governo que representa as forças progressistas da sociedade,  ou seja por tudo o que o movimento estudantil já inscreveu na história da luta transformadora do nosso povo. Inclusive, inspirando Milton Nascimento e Fernando Brant a esta oração de fé e juventude chamada “Coração de Estudante”.
“Há que se cuidar do mundo……”
É inadiável sintonizar nossa juventude novamente com os nossos rebeldes. Desde Honestino Guimarães que pavimentou a história da UnB de dignidade e bravura, junto com tantos outros; mas sobretudo com a proposta da Universidade Necessária de Darcy Ribeiro, que construía uma universidade para pensar e formatar um projeto de nação emancipada, não de joelhos, não embriagada pelo nada, nem chocada pelos aparelhinhos de choque elétrico. Estes seriam atributos de quem praticaria tais concepções no dia a dia de suas relações humanas e familiares? Adotarão tais conceitos , critérios  e práticas quando tornarem-se juízes, empresários, professores, pensadores, magistrados, embaixadores, médicos, psicólogos, generais????
É urgente uma rebeldia santa e cidadã contra estes trotes abjetos. Que tal se os calouros fossem estimulados a coletar montanhas de livros, numa calourada cultural, e ajudar a montar bibliotecas nos bairros populares, onde elas são rarefeitas e mal equipadas? Que tal se fosse tarefa da calourada organizar batalhões para a doação de sangue, já que o Hemocentro está sempre necessitado desta generosidade que precisa ser expandida, consolidada, aperfeiçoada em todos os cidadãos?  Comparemos gestos e modos….
“Juventude e fé”
 O caminho percorrido até aqui   -  mesmo com a quase total demolição da universidade pública pelo vendaval neoliberal   -  não leva a ficar de joelhos. Ao contrário, a luta do povo brasileiro resistindo e derrotando em grande parte o vendaval neoliberal, construiu uma flor de situação que pode muito bem ser aproveitada pelo movimento estudantil para a tomada de iniciativas audaciosas, criativas, superando uma luta que registra uma presença muito secundária na conjuntura política. E para o que já foi o Movimento Estudantil, para o papel histórico desempenhado pela UNE em outros tempos, sendo um precioso celeiro de quadros, de idéias, de projetos, faz-se necessário um salto, ou, como já dito, uma overdose de rebeldia bem direcionada.
Onde estava o movimento estudantil quando a oligarquia brasileira fez uso do chicote e do pelourinho ali na comunidade de Pinheirinho mostrando que não quer deixar mudar a relação de Casa Grande e Senzala em que esmaga a maioria do povo brasileiro? Quantos prováveis Pinheirinhos não existem hoje, em potencial, exigindo, a gritos, que a UNE expresse uma solidariedade de fato, concreta, ombro a ombro com estas massas humilhadas e oprimidas, por meio de projetos práticos de habitação, saúde, cultura, urbanização,  o que obrigaria o governo federal a ir muito mais longe no seu ritmo um tanto lento  -  para além dos boicotes  -  com que toca programas corretos, embora tímidos,  como o Minha Casa, Minha Vida?
“Mas renova-se a esperança……”
Por onde anda a Une, o movimento estudantil, que não sobem o Morro do Alemão, no Rio, junto com o Exército, com o estado, com os serviços públicos da Prefeitura, criando uma relação mais regular e sistemática com as massas exploradas através da aplicação de inúmeros projetos que se encontram perdidos e isolados no âmbito acadêmico, indefensavelmente longe das necessidades populares? Nessas localidades, agora servidas de teleféricos e outros serviços que sequer subiam o morro, como os carteiros, a limpeza urbana, as ambulâncias etc, a UNE poderia reeditar, com a atualização que a etapa histórica exige, os seus inesquecíveis Centros Populares de Cultura, os CPCs.  O que levaria a universidade de fato a uma revitalização e a um rejuvenescimento em suas práticas e conceitos vorazmente tragados pela ditadura de um mercado cartelizado. A um legítimo e necessário choque de cidadania! 
Há cursos de cinema nas universidades, mas  90 por cento dos municípios brasileiros sequer salas de cinema possuem. E quando as tem, 95 por cento do que se exibe é de procedência norte-americana, mesmo com todas as mudanças realizadas nos últimos tempos nas políticas do setor. Quando existia a Embrafilme, 40 por cento do mercado cinematográfico nacional era ocupado por produções nacionais, ótimo tema para a discussão entre estudantes, os cineastas e as comunidades populares não? Discutir por que o povo brasileiro ainda é proibido na prática de freqüentar cinemas e,  também,  de ter acesso pleno ao cinema nacional?
Há experiências importantes para o desenvolvimento, por exemplo, de inseticidas biológicos para o combate à dengue, experiências que combinam esforços entre a Universidade e a Embrapa, mas que têm seu alcance cerceado porque todas as licitações no âmbito do Ministério da Saúde são vencidas pelos laboratórios transnacionais, cujos produtos,  muitas vezes não apropriados para utilização nas condições brasileiras, são impostos pelas regras da cartelização que domina neste setor. Este não é um bom tema para a UNE discutir com as comunidades, mas também para estimular as experiências de produtos como este, voltados para uma ameaça diária aos setores mais pobres. O que implicaria em questionar  e cobrar do governo mudanças nas regras de licitação que favorecem sistematicamente as transnacionais? O que desenvolveria as forças que querem avançar social e politicamente.
Fazer um intercâmbio permanente, itinerante, entre ciência e comunidade, formatando novas iniciativas, criando uma relação política que pode estimular os partidos e os sindicatos, hoje em certa medida distantes desta luta direta das comunidade pobres, a organizarem ações para encorajar e dar audácia política ao governo Dilma para ir bem mais longe. Quantos Pinheirinhos novos estão por explodir? Qual é a política da UNE, dos partidos de esquerda, dos sindicatos para prevenir e antecipar-se a situações bárbaras como aquela, oferecendo uma saída política, programática, com a presença política decisiva do Poder Público?
“Há que se cuidar do broto…”
Há uma infinidade de serviços a que as comunidades pobres não têm acesso, seja para uma simples documentação, ou a um programa preventivo de saúde, ou de soluções simples e efetivas de edificação, urbanização e arquitetura, para proteger e prevenir  das situações de desmoronamentos que ceifam tantas vidas. Não deveria estar ali a UNE com os seus novos CPCs, com a alma daqueles CPCs de antes, ombro a ombro com as massas, e até mesmo fazendo convênios de cooperação técnica com o Exército e a Marinha, que já estão lá, para salvar vidas? Para criar uma outra mentalidade, que forje a uma unidade cívico-militar capaz de  enfrentar os desafios que o império prepara para interromper o curso de transformações dos governos Lula-Dilma? Uma aliança cívico-militar, como a que existe na Venezuela, em torno de projetos para a urbanização de favelas, construção de moradias, atendimento médico-odontológico à população, onde há uma presença destacada do exército.
Por que não se pensar um jornal de ampla circulação de massas, como o Juventude Rebelde , em Cuba? Por que não criar, em parceria com a Petrobrás, com o Exército, um circuito popular de cinema e de teatro como já existiu na época dos CPCs da UNE, antes do golpe de 64? Por que a UNE não  poderia estimular a implantação ampla de rádios e tvs comunitárias, mobilizando a sociedade para a compra de equipamentos e oferecendo cursos técnicos para a formação de comunicadores populares capazes de registrar sua própria realidade, sua própria história, ao invés de serem vítimas do desprezo comunicacional da mídia oligárquica predominante? Por que não poderia a UNE estar com escritórios de assessoria jurídica nas comunidades carentes em todo o Brasil, numa espécie de Novo Projeto Rondon, com uma ideologia libertadora e comunitária, ombro a ombro com experiências que já estão sendo feitas por alguns governos estaduais, visando estimular a solução negociada de conflitos, o que ,efetivamente, leva à redução de tensões e de violência, como comprovam vários estudos? 
Pra que a vida nos dê flor e fruto…
 Enfim, há infinidade de iniciativas e experiências a desenvolver, o que sugere que o movimento estudantil poderia  estar discutindo muito mais além de quem controlaria os diretórios e centros acadêmicos. Colocar um novo critério  emulativo, no centro da luta estudantil: quem desenvolve experiências de maior profundidade e alcance solidário junto às massas, devolvendo ao povo, na forma de projetos e serviços, o que lhe é devido, pois é ele quem sustenta a Universidade? Tudo sito, em boa medida, está na dependência da uma decisão política de construir uma nova relação entre governo Dilma, governos estaduais e prefeituras, a UNE, o movimento sindical, o movimento de rádios e tvs comunitárias e as comunidades populares. O que se nota é que em muitos momentos é o governo federal que está mais à frente que a própria UNE e o movimento sindical, tomando iniciativas, tomando a dianteira, como, por exemplo, quando ocorrem catástrofes, desmoronamentos, e é visível a ausência organizada da esquerda, seja no movimento estudantil, sindical, popular, para uma solidariedade efetiva às massas atingidas. Isto mostra que o movimento estudantil pode ir muito mais além em audácia programática e política.
Aquela foto de estudantes de joelhos na UnB bem que poderia motivar uma profunda rebelião de conceitos e visões no seio do movimento estudantil e da esquerda em geral.
Afinal,  contando com a inolvidável Violeta Parra:
“Me gustan los estudiantes
porque son la levadura
del pan que saldrá del horno
con toda su sabrosura,
para la boca del pobre
que come con amargura.
Caramba y zamba la cosa
¡viva la literatura!”