sábado, 28 de janeiro de 2012

Educação financeira deve entrar no currículo da rede pública


 
Começo da vida adulta, primeiro salário e a dúvida: o que fazer com o dinheiro? Poupar para o futuro ou comprar aqueles itens sempre desejados? Se poupar, em que investir? Muitos brasileiros se veem diante dessas - e muitas outras - questões logo que entram no mercado de trabalho. A culpa, para alguns, é da escola, que não ensina o aluno como gerenciar seus próprios recursos. Pois, a partir deste ano, as siglas SFN, Selic e CVM farão parte do currículo escolar. É o que propõe um decreto aprovado pelo governo federal em dezembro do ano passado.
Segundo a Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF), as escolas públicas deverão incluir aulas de educação financeira no currículo básico. É o começo de uma caminhada rumo à erradicação do analfabetismo financeiro. "É muito importante o aluno tomar conhecimento da educação financeira desde cedo, para ser um adulto com maior qualidade de vida e, principalmente, saber fazer escolhas e diferenciar querer de precisar", afirma Odete Reis, educadora e consultora financeira.
Para Odete, a escola tem o papel de suscitar o debate sobre dinheiro. Gustavo Cerbasi, mestre em Administração e Finanças pela Universidade de São Paulo (USP) e palestrante de finanças pessoais, concorda: "A ENEF já foi testada e se verificou que trouxe para os pais melhoria na qualidade de vida, pois a criança é provocada na escola e aplica em casa". Para ele, o ensino formal pode ajudar na quebra do tabu do patriarcalismo, grande responsável pela falta de educação financeira dos brasileiros. Segundo o administrador, como até duas gerações atrás a única fonte de renda da família era o emprego formal do pai, o casal não conversava sobre investimentos e economia doméstica.
A grande preocupação agora é com a capacitação dos professores. O medo é que os docentes fiquem ainda mais sobrecarregados, prejudicando o ensino. "O desafio é fazer com que a educação financeira seja estimulante, inclusive sendo explorada por professores não só de matemática, mas também de outras áreas, como ciências sociais e geografia", afirma Cerbasi. Para o consultor, o bom uso do dinheiro envolve qualidade de consumo, não apenas quantificação.
Ensino na escola não tira a responsabilidade dos pais
No entanto, na opinião dos especialistas, a responsabilidade continua sendo dos pais. "É deles que vem o maior exemplo", garante Odete. A escola tem um papel secundário, de reforço da educação já obtida em casa.

"A criança a partir dos dois anos já entende o dinheiro, sabe que compra coisas", afirma. Os pais, ensina Odete, devem mostrar para o filho que ele não pode rasgar as notas nem jogar as moedas fora, pois elas têm valor de troca. Para a criança em idade escolar, ela recomenda o estabelecimento de uma mesada ou uma semanada, para que o pequeno já se acostume a se controlar. O valor indicado é de R$ 1 por semana para cada ano de idade. Ou seja, uma criança de 5 anos receberá, em média, R$ 20 por mês. Claro que isso varia de acordo com as condições da família e com as necessidades da criança.
Cerbasi aprova o uso da medida, mas alerta: "Não é simplesmente dar dinheiro, a mesada não é um presente. O importante é provocar discussão com o assunto e mostrar que é o direito de administrar uma parcela do dinheiro da família."
Por essa razão, a especialista em educação financeira Cássia D¿aquino é contra a obrigatoriedade do assunto nas escolas. Segundo a educadora, o sistema de ensino que temos hoje aliado à delicadeza do tema não permite que se pense em educação financeira obrigatória. A escola, afirma Cássia, tem importância à medida que prepara o cidadão para lidar com a vida prática, mas o fundamental é o envolvimento e o exemplo dos pais. Para ela, mesada e gastos em casa não são temas que dizem respeito aos professores. "Isso é assunto de família", defende.
Pensando nisso, há 18 anos Cássia desenvolveu um programa de ensino que é empregado em algumas escolas, de forma não obrigatória, para auxiliar os pais a ensinar a gestão dos recursos para os filhos. "É um programa baseado no diálogo com os pais, em reuniões de acompanhamento", conta. Além disso, os perigos dessa obrigatoriedade vão além do embate de gerações, afirma Cássia. A especialista teme a manipulação de dados por professores desinformados e até mesmo mal intencionados, que poderiam tentar fazer valer a sua visão de mundo em detrimento de outras.

O Tico e o Teco do investidor


As ilusões, neuras e lapsos da mente de quem busca multiplicar o capital

Por Robson Viturino
FONTE: Revista Época
Victor Affaro
Para ser bem-sucedido na proteção e ampliação do seu patrimônio, qualquer investidor deve ser minimamente versado em economia e finanças, e acompanhar os setores onde estão as ações do seu interesse. Mas um ramo recente da economia tem mostrado que há outro grande campo a desvendar: as próprias emoções. Como seres humanos, somos às vezes reféns de processos mentais – que tanto podem nos ajudar a tomar decisões rápidas como nos condenar a erros catastróficos. Pode ser o apego a um papel que só nos dará prejuízo, o otimismo baseado em fatos irreais, a generalização a partir de um caso muito particular... A seguir, alguns exemplos de processos mentais perigosos ao bolso, e como se prevenir.
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O MAU HUMOR
AQUELA NUVENZINHA NEGRA QUE VOLTA E MEIA PAIRA SOBRE NÓS TAMBÉM AFETA OS INVESTIMENTOS
Assim como o otimismo exacerbado pode trazer prejuízos, as emoções negativas exercem forte influência sobre os investidores. Segundo estudos da psicóloga Jennifer Lerner, professora do centro de liderança em Harvard, eventos aparentemente irrelevantes ocorridos antes da tomada de decisão podem levar tudo a perder. Por causa de uma discussão com o marido ou a mulher no café da manhã ou um congestionamento para chegar ao escritório, seu suado dinheirinho pode ir para o ralo. “A tristeza pode fazer com que você reduza o valor do seu bem (ação, imóvel, cota de fundo) além do que seria razoável apenas para fechar negócio logo e obter uma mudança de humor”, afirma Jennifer. Movimento similar pode ocorrer com o comprador que paga caro por um bem cujo valor está em alta. Se o mal-estar tiver raízes mais profundas, o risco é maior. “A extrema insatisfação com alguma coisa pode nos fazer perder grandes oportunidades”, diz a psicóloga Vera Rita de Mello Ferreira, especialista em finanças comportamentais e autora do livro Cabeça de investidor e decisões econômicas.
Victor Affaro 
O SENTIMENTO DE POSSE
AO SENTIR-SE DONO DE UM PAPEL, O INVESTIDOR CORRE O RISCO DE FICAR CEGO A RISCOS E OPORTUNIDADES
A posse é uma grande geradora de prazer – e de perigos – para o cérebro humano. Atos como experimentar uma camisa ou fazer o test drive de um carro muitas vezes são o gatilho para que nossa mente tenha faíscas de deleite por se sentir “dona” daquilo que desejamos. No mercado financeiro, o lado perigoso dessa emoção ocorre quando o vínculo com um papel passa a atrapalhar o discernimento. “Chegada a hora de se desfazer dos papéis, alguns investidores só conseguem se lembrar das dificuldades que enfrentaram para comprá-los”, diz Vera. O sentimento predominante na mente do investidor é a injustiça, já que o comprador não está nem aí para a história de vida de quem está do outro lado da mesa da negociação. Sem enxergar a autossabotagem, muitos acreditam que no futuro irá aparecer um interessado disposto a pagar mais. E o papel vai derretendo...
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O OTIMISMO EXAGERADO
VOCÊ É AUTOCONFIANTE? CUIDADO, ESTE PODE SER O PRIMEIRO PASSO PARA PERDER MUITO
Entre os riscos no caminho de um investidor está o de ganhar muito dinheiro. Com o sucesso, é provável que o medo e a cautela cedam espaço ao otimismo e à autoconfiança – dois dos maiores inimigos de quem investe. A mentalidade de vencedor nos faz esquecer o medo, e com ele a precaução de coletar informações suficientes para tomar decisões. Passa-se a confiar muito na intuição e em superstições. “O excesso de confiança faz o aplicador subestimar os riscos associados aos diversos investimentos, superestimar o potencial de alta e o preço da aquisição”, diz o livro Finanças comportamentais, do economista Aquiles Mosca. Em um estudo com 1.053 profissionais do mercado financeiro, em 1999, o psicólogo e prêmio Nobel Daniel Kahneman revelou que o otimismo é um traço do investidor: 74% deles prestavam muito mais atenção nas ações nos períodos de alta, e só 7% priorizavam as baixas. “Estes 74% sofrem do viés de otimismo e geralmente são os mesmos que realizam saques ao primeiro sinal de realização do mercado”, diz Mosca. Segundo estudo feito pelos acadêmicos Brad Barber e Terrance Odean em 2002, a internet depositou ainda mais poder nas mãos dos otimistas. Com ferramentas de análise e informações, eles se sentem ainda mais capazes de decidir sozinhos.
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A PATROA CUIDA MELHOR
EM TEMPOS DE INCERTEZA, A PREOCUPAÇÃO DAS MULHERES COM O AMANHÃ SEGUE SENDO O PORTO SEGURO
Nas últimas décadas, o mercado financeiro intercalou momentos de exuberância com a sensação de abismo. Surpreendentemente, nada disso afetou o humor das investidoras não profissionais. Seja qual for o cenário, elas se mantêm estáveis, quase sempre na direção contrária ao risco. “Estudos acadêmicos mostram que as mulheres exibem maior prudência que os homens na gestão de seus portfólios”, diz Mosca. O apego à segurança é um traço fiel ao gênero, independentemente de classe social, educação ou tamanho da família. Segundo os biólogos evolucionistas, o fato de as mulheres terem uma responsabilidade maior que os homens no processo reprodutivo as conduz a uma postura de maior cautela frente ao risco. Enquanto os homens ficam enfeitiçados com o desafio, elas geralmente focam no que podem perder se sua aposta der errado.
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A SÍNDROME DO "DEIXA ESTAR"
O PREJUÍZO GERADO POR APATIA DO INVESTIDOR NÃO DóI TANTO QUANTO OS OUTROS. MAS É PREJUÍZO
Um dos artifícios do cérebro para nos distanciar da sensação de perda consiste em minimizar o peso da inércia sobre os maus resultados. Segundo essa lógica, o prejuízo causado por uma decisão consciente tem um peso muito maior do que aquele causado por inércia. Na psicologia econômica, esse comportamento é conhecido como viés de status quo. Trata-se de fechar os olhos para um perigo iminente. “Ele expressa nossa dificuldade para tomar decisões, como se dessa forma fôssemos capazes de evitar o risco, missão impossível quando nossas ações se desenrolam rumo ao futuro que ninguém conhece”, diz o livro A cabeça do investidor.

4 sinais de que você está sendo ambicioso (demais) no trabalho


Abrir mão da ética e de valores, omitir informações de colegas são alguns exemplos

Camila Lam, de 

Wikimedia Commons
Homem nervoso com a mão na cabeça
A tensão de conviver com um profissional ambicioso demais não é saudavel
São Paulo – Para se obter sucesso na carreira, é indispensável demonstrar ambição e proatividade. Entretanto, há limites. “Há empresas em que o profissional é treinado para ser o mais competitivo possível, mas esse tipo de cultura tem um preço: as equipes se desmancham, o clima fica pesado e o trato social fica de lado”, afirma Bernardo Entschev, CEO da De Bernt Entschev Human Capital.
Para Jacqueline Resch, sócia-diretora da empresa de recrutamento Resch Recursos Humanos, a ambição é o combustível essencial para conquistas, mas é preciso evitar que esta se torne predatória, fazendo com que o profissional aja deixando de lado seus valores e a ética.
Profissionais que levam ao pé da letra a missão de alavancar a carreira a qualquer custo acabam plantando discórdia e se indispondo com os colegas. Algumas atitudes podem até passar despercebidas, mas especialistas alertam que não são sustentáveis a longo prazo.
Confira abaixo os principais sinais:
Individualismo exacerbado
Profissionais que não valorizam a contribuição de pares ou subordinados e gostam de controlar todas as ações tendem a ter um gosto de colecionar créditos.
Realizar um trabalho sozinho, mesmo sabendo que o resultado seria melhor se as demandas fossem partilhadas também é um sinal de que há algo errado.
Algumas culturas estimulam a competição (leal) no trabalho. Esconder informações que interessam a colegas e, principalmente, à empresa simplesmente para obter vantagem com a falha de outros não é perdoável.
Assumir resultados que não são seus
Reportar ao chefe que você fez todo o trabalho sozinho pode trazer glórias. Momentâneas. Sacrificar a equipe, quando é evidente que a demanda só foi realizada com a ajuda de todos, só contribuirá para o isolamento do profissional.
“As pessoas emocionalmente estruturadas começam a se proteger desse indivíduo que não preza a ética e o trabalho em equipe”, diz Jacqueline.
Agir agressivamente
Gritar, esmurrar a mesa, perder totalmente a compostura quando alguma demanda não saiu do jeito que imaginava são atitudes compreensíveis em casos extremos. Mas quando estas fazem parte da rotina e a tensão se espalha pelo ambiente corporativo, o profissional precisa de ajuda.
“Nessas situações, o feedback é importante. Ainda mais se as atitudes de uma pessoa estão prejudicando a equipe. Uma coisa é querer resultados agressivos, outra é você ser agressivo”, afirma Entschev.

5 dicas para tornar a sua rotina de trabalho mais apaixonante


Especialista ensina quais são as atitudes que podem acabar com o tédio – e a falta de sentido – no seu expediente

Dreamstime
Mulher executiva pulando e sorrindo
Aceitar desafios e se abrir para aprender são atitudes que ajudam a tornar a rotina de trabalho mais interessante
São Paulo – Há quem faça dos dias úteis uma verdadeira contagem regressiva para que o fim de semana chegue logo. Motivo? A paixão por aquilo que faz já se foi há muito tempo. No lugar, sobraram uma sucessão de tarefas e horas entediantes, sem muito sentido como um todo.
Mas, de acordo com especialistas, é possível mudar este cenário e se apaixonar pelo seu trabalho novamente – mesmo que sua carreira não esteja entreas mais felizes. Confira cinco dicas práticas para você tomar ainda hoje e começar a próxima semana, o mês e (para alguns) até o ano, com uma nova perspectiva sobre a maneira como você lida com os dias que compõem a sua carreira:
1. Assuma a própria pele
De acordo com os especialistas, o primeiro passo para transformar a sua rotina de trabalho e torná-la digna de olhos brilhantes é compreender a si mesmo.
Você precisa definir claramente quais são seus talentos e paixões. Em outros termos, aquilo que você faz com excelência e o que move você.

“Muitas pessoas querem ser algo que não conseguem, fingem ser o que não são e passam a viver na mentira”, diz a psicoterapeuta Claudia Riecken, presidente da Quantum Assessment.“Você tem que ser de verdade. Tem que se aceitar e se sentir à vontade na própria pele”.
2. Faça amigos
Essa é a base, segundo a especialista, para que você possa ter um bom relacionamento com as pessoas que passam boa parte dos dias úteis ao seu lado.

Segundo a especialista, aceitar seus colegas de trabalho  e manter um relacionamento harmonioso com eles é outra atitude essencial para que sua rotina profissional seja mais leve.
“A ideia é integrar o sentido da amizade com o propósito do trabalho em si. Não é separar, fazer da amizade o oásis e o trabalho, o deserto”, diz.
3 Assuma desafios
Ciente de seus talentos, não tenha medo de assumir os desafios que aparecerem na sua área de atuação. “Estar na zona de conforto não é problema, é importante estar confortável em algumas situações. O perigoso é ficar estagnado”, afirma a especialista.

De acordo com ela, os desafios profissionais assumem um papel de mola propulsora de qualquer carreira.
“Eles animam seu espírito e corpo para se desenvolver”, afirma. “Se você não colocar seus talentos no mundo, eles viram sintomas que podem ser desde uma dor de cabeça até um trabalho que não é mais apaixonante”.
4. Esteja pronto para aprender
Neste processo, tenha disposição para aprender. “Uma aprendizagem nova nos faz sentir mais preparado para a vida. É quase como se fosse um prêmio por estar aberto para o desenvolvimento”, afirma a especialista.
5. Tome a iniciativa
Agora, não espere apenas por políticas da área de recursos humanos para melhorar a sua rotina. Deve partir de você a iniciativa para tornar o seu trabalho mais motivador.

“O mundo precisa de pessoas que estejam dispostas a mudar o ambiente. A assumir a postura de líder, independente da posição que ocupa”, diz a especialista.

4 lições da tragédia do Rio para quem investe em imóveis


Fazer seguro e vistoriar o imóvel de tempos em tempos são precauções essenciais

FotoReporter/Vladimir Platonow/ABr
Desabamento no Rio de Janeiro
Poeira do desabamento de prédios no Rio: mortos, desaparecidos e prejuízos
São Paulo – Os trágicos desmoronamentos ocorridos nesta quarta-feira no Centro do Riolembram aos proprietários de imóveis que os riscos desse tipo de investimento ultrapassam o sobe-e-desce da oferta e da demanda. Imóveis são bens físicos; expostos, portanto, a problemas estruturais e outros danos muitas vezes causados por quem não tem nada a ver com o empreendimento. Fora isso, há pessoas morando, trabalhando e visitando o seu investimento, e elas devem ser protegidas e reparadas caso o pior venha a acontecer.
No Centro do Rio, um prédio comercial chamado Edifício Liberdade desabou, levando ao chão dois prédios vizinhos. Aparentemente, o motivo foi um problema na execução de uma obra que ocorria no Edifício Liberdade. O que fazer no caso de um estrago de tamanhas proporções? E se o seu imóvel for danificado por causa da ação de terceiros? “Em casos como o do Rio, o investidor deve lembrar que existe o risco de perder completamente o seu investimento”, diz o economista Luiz Calado, autor de um livro sobre investimento em imóveis.
Veja a seguir as quatro lições que o investidor em imóveis deve aprender com a tragédia do Rio:
1. Faça seguro da sua propriedade
Seguros para imóveis têm excelente custo-benefício e protegem o bolso dos proprietários de verdadeiras facadas, uma vez que os sinistros costumam custar bem caro. No Brasil, é obrigatório por Lei que todo condomínio tenha um seguro denominado Cobertura Básica Ampla, que protege a estrutura do edifício e os móveis das áreas comuns contra incêndio e destruição total ou parcial, não importando a causa. O condomínio que não tiver este seguro deve ser multado em um doze avos do IPTU a cada mês sem seguro.
No caso que ocorreu no Rio, todos os prédios que desabaram estarão cobertos, caso tenham seguro. É importante lembrar, porém, que apenas o condomínio está segurado; as unidades – salas comerciais e apartamentos, bem como seu conteúdo – precisam de um seguro próprio.
As coberturas, nesse último caso, são inúmeras. A básica inclui incêndio, explosão e fumaça, mas em algumas seguradoras é possível contratar coberturas para impacto de aviões e veículos terrestres, vendaval, alagamento e até desmoronamento. Para casas e apartamentos residenciais, o valor do seguro não costuma custar mais do que 1% do valor do imóvel.
Uma cobertura importante dos seguros imobiliários é a de Responsabilidade Civil, que cobre danos causados pelo segurado a terceiros. Por exemplo, se a marquise da sua casa desabar e ferir um pedestre, esse seguro cobre os gastos hospitalares e até mesmo as despesas para responder a um eventual processo judicial
Há coberturas interessantes até mesmo para inquilinos. Se você aluga o imóvel para desempenhar uma atividade profissional ou se trabalha em casa, pode ser bom contratar um seguro de lucros cessantes caso venha a ficar sem seu ganha-pão. “No Rio, se fecham a rua onde ocorreram os desmoronamentos, até o comerciante que nada tem a ver com a história terá de deixar de trabalhar e vai ficar sem faturar”, lembra Luiz Calado.
Portanto, ao investir em um imóvel comercial ou residencial, contrate um seguro e observe o ambiente em que ele está inserido para escolher as coberturas. É uma área de alagamento? Com grande incidência de vendavais? Exposto ao tráfego intenso da rua? Próximo a um aeroporto? Perto de imóveis velhos, que corram risco de desabamento?
2. Acompanhe as obras no empreendimento
Mesmo que o investidor não more ou trabalhe na propriedade, é essencial acompanhar ou ter alguém que acompanhe eventuais obras no empreendimento. Toda obra tocada por um engenheiro deve ser registrada no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA) do estado, assim como o profissional responsável. A obra também deve dispor de todas as licenças cabíveis, conforme o que é determinado pelo Plano Diretor da cidade.
No caso do Rio, especialistas suspeitam que o Edifício Liberdade teria sofrido um dano na estrutura por conta de uma obra realizada por uma empresa ali instalada. De acordo com a prefeitura carioca, a situação do imóvel junto ao órgão era regular, e aquela obra, por sua natureza, não precisava de licenciamento. Mesmo assim, uma irregularidade passou: a obra não tinha registro no CREA-RJ.
Portanto, quem pensa que ter um imóvel vizinho a um imóvel comercial afasta o risco de obras executadas de forma irregular ou amadora está enganado. Embora os CREAs não tenham função fiscalizadora, os engenheiros são obrigados a informar o órgão de todos os procedimentos, com especificações técnicas. Caso haja algum problema, o CREA poderá punir profissionalmente o engenheiro registrado, o que por si só confere uma segurança a mais à obra.
O proprietário também deve estar de olho em eventuais sinais que possam indicar danos à estrutura, como rachaduras e dificuldades de abrir e fechar portas sem explicação aparente. No Edifício Liberdade, pessoas que trabalhavam no local chegaram a relatar que viram areia caindo dentro do prédio, por cima do elevador. Mesmo no Palace II, edifício que desabou no Rio de Janeiro em 1998, foi um morador que notou um dano em um dos pilares de sustentação após acordar com um estrondo e um tremor, o que levou os moradores a evacuarem o prédio. Nesses casos, a Defesa Civil deve ser acionada imediatamente.
3. Visite seu investimento periodicamente
Com ou sem obra, o investidor que aluga seu imóvel para terceiros deve se lembrar de visitá-lo periodicamente para se certificar de que não há nada estranho acontecendo. No Edifício Liberdade também foram levantadas suspeitas de uma explosão por conta de vazamento de gás, de corrosão e infiltração da laje de cobertura e até de sobrepeso por conta de depósito de entulho.
Ao vistoriar o empreendimento, o proprietário deve observar se há cheiro de gás, rachaduras, portas que passaram a fechar com dificuldade, inclinações no solo, infiltrações, entre outros sintomas indicativos de que há algo errado. É importante verificar também se há obras em imóveis vizinhos ou obras públicas nos arredores. “Uma obra de metrô, por exemplo, é um risco grande para um imóvel”, diz Luiz Calado.
Se algo de estranho for notado na estrutura, a Defesa Civil deve ser avisada. “Infelizmente não temos a cultura de levar o perigo muito a sério”, critica Agostinho Guerreiro, presidente do CREA-RJ.
Caso haja uma obra particular em um prédio vizinho, é uma boa ideia verificar se ela está pelo menos regular, na tentativa de se proteger de maiores desastres. Para saber se a obra e o profissional responsável estão registrados no CREA do estado, basta entrar em contato com o órgão e informar o endereço do imóvel. Para saber se a obra está regular junto à Prefeitura, a Defesa Civil é o canal.
4. Diversifique
Os três prédios que desabaram no Rio de Janeiro eram vizinhos e estavam expostos ao mesmo risco. Um único evento foi suficiente para que os três desaparecessem. A “lei” da diversificação dos investimentos vale também para os imóveis. Não invista em imóveis localizados no mesmo bairro ou região de uma cidade. Mesmo no caso dos fundos imobiliários, procure aqueles que são expostos a diferentes tipos de risco – um bom pagador de aluguéis, um fundo mais ativo e um que tenha vários imóveis em carteira.
“Imagine um sujeito que fosse dono de unidades em dois daqueles prédios que desabaram? Ao diversificar, o investidor se protege tanto da degradação da área quanto desse tipo de desastre”, lembra Luiz Calado.
Nos fundos, todo esse trabalho está por conta do gestor
Quem investe em fundos imobiliários terceiriza todo esse trabalho de acompanhamento do dia a dia do investimento. Os gestores já garantem o seguro, a regularização das obras, seu acompanhamento e, se fizer parte do perfil do fundo, também a diversificação.
A Brazilian Mortgages, gestora de mais de 30 fundos imobiliários, detalha o processo de execução de uma obra regular – seja uma benfeitoria, seja para a concessão de um financiamento à produção: as etapas começam em um estudo de viabilidade feito por uma empresa de engenharia, passando por uma avaliação das condições que possibilitem a obra, visitas mensais à obra e relatórios de medição e evolução do projeto.

Tragédia de erros


A reintegração de posse da área conhecida como Pinheirinho, em São José dos Campos, foi a materialização da mais completa tragédia de erros ocorrida nos últimos tempos. Em diversas frentes:

1) O governo estadual seguiu a ordem judicial, como lhe cabia fazer, sem tomar o devido cuidado prévio de criar as mínimas condições materiais e humanas para acolher os desabrigados e proporcionar-lhes condições decentes de sobrevivência. A Prefeitura Municipal de São José dos Campos divide com o governo estadual o troféu de omissão e incompetência.
2) O governo federal, através do seu coroinha das boas causas, o ministro Gilberto Carvalho, correu a criticar a ação da reintegração de posse, dizendo que teria sido melhor agir de outra forma, sem dizer qual seria essa outra forma (desobedeceria a ordem judicial?). Mais uma vez, como ocorreu no episódio da Cracolândia, insinuou que o governo federal teria uma solução pacífica e boa para todos, guardada em alguma gaveta. Não disse qual seria a solução e muito menos porque ela não saiu da gaveta para ser posta na mesa.
3) A imprensa, desde o primeiro momento, não foi sequer capaz de noticiar com precisão e muito menos de esclarecer o que significava o conflito de jurisdição entre a justiça federal e a justiça estadual em torno da ação de reintegração de posse. Nos primeiros momentos da ação policial na área ocupada, a impressão que se tinha era a de que a PM estava descumprindo a ordem da justiça federal e agindo arbitrariamente por decisão própria. Além de não conseguir sequer acompanhar cronologicamente a sucessão de ordens e contra ordens da Justiça, a imprensa foi incapaz de contextualizar a própria situação do Pinheirinho, de explicar qual é a origem da posse da área, como foi que o megaespeculador Naji Nahas se tornou seu dono, de quem a comprou, quando e como a comprou , o que é uma massa falida, quais são os direitos de uma massa falida, qual é o valor da área, de como se deu a ocupação da área por aquelas pessoas, quais foram as tentativas de acordo entre as partes envolvidas durante os 8 anos de ocupação. A imprensa tampouco foi capaz de dimensionar o verdadeiro papel do líder do acampamento, o diretor do sindicato dos Metalúrgicos, Valdir Martins de Souza, o Marrom, militante do PSTU, na história do conflito e nas frustradas tentativas de acordo.
4) As chamadas “redes sociais” contribuíram notavelmente para a infantilização do debate sobre a ação de reintegração de posse, dando livre curso a um debate ideológico obscurantista e a um constrangedor festival de desinformação, com alguns lances patéticos de má-fé e ignorância factual sobre princípios básicos que regem a ordem jurídica do País. Para uma boa parte da simplória militância ideológica de esquerda, tratou-se simplesmente de uma maldade do governador tucano, que tomou a terra dos pobres para entregá-la de volta ao ricaço Naji Nahas, que , evidentemente, deve tê-la roubado de alguém. Na cabeça da torcida instalada na arquibancada ideológica, uma ação tão truculenta só poderia produzir vítimas. Na falta de um massacre concreto, inventou-se um, e um advogado dos invasores, falando em nome da OAB, desandou a denunciar mortes que não aconteceram. E a agência oficial de notícias do governo, irresponsavelmente, espalhou a notícia pelo país, sem dar-se ao trabalho de checar se era verdadeira ou não. No dia seguinte foi só publicar: o advogado fulano de tal não confirmou as mortes que ele divulgou ontem. Vida que segue, como se nada tivesse acontecido.
 Sandro Vaia é jornalista. Foi repórter, redator e editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, diretor de Informação da Agência Estado e diretor de Redação de “O Estado de S.Paulo”. É autor do livro “A Ilha Roubada”, (editora Barcarolla) sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez. E.mail: svaia@uol.com.br

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Usando os mesmos métodos que usa no Brasil, a Igreja de Edir Macedo já é voz importante na política de Moçambique:


Lábia Universal

Por Rowan Moore Gerety
FONTE: REVISTA CARTA CAPITAL

As autoridades dão um tratamento opaco aos processos criminais contra a Iurd, afirma ativista de direitos humanos. Foto: Rowan Moore Gerety
Poucos lugares do planeta fornecem terra mais fértil para uma mensagem de cura e prosperidade do que Moçambique. Com 90% da população tentando sobreviver com menos de dois dólares por dia, com metade das crianças sofrendo com desnutrição crônica, o país africano tornou-se um poderoso centro de captação de adeptos para a Igreja Universal do Reino de Deus, a Iurd.
Um exemplo do poder que a neopentecostal brasileira adquiriu em Moçambique ocorreu numa manhã de setembro de 2011. A Iurd promoveu o chamado “Dia de Decisões” (ou “Dia D”), um megaculto realizado no Estádio Nacional de Maputo, capital moçambicana. Teve como objetivo promover curas e demonstrações de fé e, claro, atrair novos fiéis. A igreja reuniu 42 mil pessoas no local e ainda viu outras 30 mil se aglomerarem do lado de fora, acompanhando via telão. As pessoas carregavam rosas nas mãos, símbolo do evento. A compor a massa estavam, entre ou-tros desesperados, jovens vítimas de poliomielite com suas bengalas, camponeses idosos descalços e vendedores ambulantes a sonhar com uma recompensa maior.
O megaculto marcou um ano lucrativo para a Iurd em Moçambique. O canal de televisão da igreja, a TV Miramar, ratificou-se como a líder de audiência. O seu apóstolo, Edir Macedo, foi recebido pelo presidente, Armando Guebuza. O chamado “Cenáculo da Fé”, um megatemplo para cultos, foi inaugurado em Maputo. E, por último, a concentração de populares no Dia D, que contou com a presença do primeiro-ministro Aires Ali e da ministra da Justiça, Benvinda Levy, entre outros figurões da política local.

Durante 20 anos de existência em Moçambique, a Iurd cresceu sempre além das expectativas e apesar das vozes contrárias de seus críticos. Nos primeiros anos da expansão, a Iurd enfrentou o então ministro de Cultura e Desporto, Mateus Katupha, que criticou o uso de instalações esportivas para eventos religiosos (enquanto seu atual sucessor presenciou o Dia D in loco). Em meados dos anos 1990, o falecido Carlos Cardoso, estrela do jornalismo moçambicano, publicou uma série de editoriais dizendo que a Iurd constituía uma empresa, ao invés de uma igreja, e como tal, deveria ser sujeita a impostos. -Concorrentes do canal Miramar – a TIM e a STV – têm feito reportagens sobre ex-fiéis da Iurd que entregaram as suas casas à igreja, na esperança de recompensas divinas.
Até hoje, epítetos como “Pastores Ladrões” e a “Igreja de Burla” (fraude), em homenagem à Universal, ecoam nos transportes públicos em Maputo. Descontentes com a igreja de Edir Macedo existem aos borbotões.
Num grupo de coral de outra igreja, a reportagem encontrou três personagens que lamentam ter participado dos quadros da Iurd. Graça entregou um crédito bancário no altar da Iurd para resolver um conflito com seu marido. Selma, que procurou seu filho durante 20 dias na Suazilândia e, aconselhada por um pastor, doou 1,2 mil dólares à igreja antes de tomar conhecimento do seu assassinato. E Felicidade, que interrompeu a construção da sua casa e deixou 25 sacos de cimento no quintal da igreja para se beneficiar de uma bênção anônima.
As três senhoras recordavam as exortações, entrevistas individuais e visitas à casa feitas pelos pastores da Universal, prática posteriormente considerada pelas três como mecanis-mo de manipulação.
Apesar das críticas, a Iurd estabeleceu-se como um ancoradouro na corrente principal da sociedade moçambicana. Nenhuma das queixas-crimes apresentadas contra a Iurd já logrou uma decisão judicial. A TIM e a STV cobram alto pelo enquadramento dos spots da Iurd em suas programações. A imprensa independente, apesar dos comentários ocasionalmente mordazes contra ela, deixa-se subsidiar pela propaganda. Um anúncio recente mostra um grupo de fiéis levantando retratos do presidente Guebuza durante uma “oração pela paz” da Iurd.
Tensões antigas com membros do gover-no foram resolvidas por meio de uma sutil simbiose com a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), o partido no poder. “Certo, há muitos críticos”, assentiu José Guerra, fundador e presidente da Iurd em Moçambique. “Mas a Igreja fica mais cheia todos os dias.”
Para o Dia D, a estratégia de coerção da Universal assumiu o estilo das campanhas eleitorais. Caminhões com alto-falantes percorreram de forma constante os bairros de Maputo durante dois meses, tocando uma quizomba (música típica) sob encomenda.
A base da publicidade era um pôster, onipresente nas paredes e nos esgotos de Maputo, demonstrando o poder cura-tivo da fé: um par de pés coberto de repugnantes lesões (“Antes”) e, do outro lado, outro par, saudável e sem mancha nenhuma (“Depois”). “Meu nome é Armando”, anunciava o cartaz. “Sofri com feridas nos pés durante muito tempo. Mas, no dia em que tomei a decisão de participar de uma concentração de fé, fui curado e hoje estou livre.”
A Iurd foi a primeira igreja evangélica a se implantar em Moçambique, depois da longa e devastadora “Guerra de Desestabilização” (1976-1992).
A memória da antipatia marxista à religião, durante os primeiros anos da independência e do catolicismo paternalista do estado colonial, permitiu que a Iurd encontrasse um povo aberto a uma nova forma de expressão religiosa. Ganhou adeptos com o mesmo discurso existente no Brasil: a flexibilidade das suas orações, a ausência de regras fixas para os fiéis e, acima de tudo, pela grandeza da sua promessa de transformação pessoal.
Para cativar os fiéis, a Universal utiliza-se das mesmas mandingas e talismãs típicos das religiões afro de Moçambique, justamente as que tanto criticam por, na visão da própria Iurd, promoverem “feitiçaria”. A utilização de um óleo abençoado e um tratamento espiritual à base de envelopes com dicas a seguir (e pedidos de donativos) são de praxe. “Eles entendem de feitiçaria e tradição africana muito bem. Dão incensos, pulseiras e todas as coisas que um curandeiro dá”, afirma o Pastor Claudio Mulungo, da concorrente Igreja Maná.
A Igreja Universal, como a própria admite, tem a ousadia de prometer milagres a quem tiver a ousadia de pedi-los com convicção – muitos deles ambíguos e presenciados pela reportagem.
E todos os “milagres” do Dia D tenderam ao “infalível” frente às câmeras do Miramar. Um idoso com dores crônicas nas pernas conseguiu correr e tornou-se, nas palavras do pastor acompanhante, um paraplégico curado. Quando voltou a sentar, o senhor me confiou, em voz baixa, que seus pés recomeçaram a doer. Na lógica da Iurd, não “ser abençoado” ou não se beneficiar de um milagre qualquer significa um sacrifício insincero, uma fé insuficiente por parte do fiel. Os milagres malogrados (como o de um rapaz em cadeira de rodas, acorrentado a um cateter, a quem o testemunho público nem foi proposto, apesar do esforço feito para se levantar) não são divulgados. O mais importante é mostrar o sentimento do possível, de acreditar numa inversão da pers-pectiva calvinista: quem for um crente perfeito terá recompensa sem limite.
Dois dias antes do Dia D, Alice Mabota, presidente da Liga Moçambicana de Direitos Humanos (LDH), folheou o Código Penal, detendo-se no crime de burla – obtenção dos bens de outrem por meios fraudulentos.
A aplicação da lei a donativos religiosos poderia estabelecer um prece-dente polêmico: os partidários da Iurd defendem-se de acusações de burla por invocarem a livre e espontânea vontade dos doadores. Porém, existem casos na Iurd, afirma Mabota, que se aproximam de contratos verbais.
O escritório de serviços paralegais da Liga em Maputo recebe, com regularidade, reclamações de burla contra a Iurd, mas os queixosos sempre desistem antes de levar os seus casos à Procuradoria. Algumas disputas laborais da Iurd (por dispensas ilícitas, dívidas à segurança social, discriminação entre moçambicanos e brasileiros) foram resolvidas por acordos de indenização em favor de ex-funcionários da igreja, que já gastou mais de 100 mil dólares com isso. Várias grandes empresas estrangeiras em Moçambique já foram penalizadas dessa forma. Porém, os poucos processos de crime já iniciados contra a Iurd, segundo Mabota, são reféns de uma instrução opaca por parte da Procuradoria.
“Em um Estado normal, (esses casos) receberiam uma decisão. Mas aqui, não. É por causa do poder de influência da igreja através do medo.” As atividades da igreja de Edir Macedo em Moçambique não parecem ter suscitado o menor interesse das autoridades tributárias. “Aqui, em Moçambique”, disse Felicidade, antiga integrante da Universal, “eles (a Iurd) fazem e desfazem, porque o nosso governo aceita.”
Alice Mabota enumerou vários membros influentes do governo adeptos da igreja de Macedo. “Por que nossos dirigentes a frequentam?”, interrogou-se.
“Para mim, é o governo a cuidar de si mesmo. Quando chega a hora de votar, eles vão mobilizar todo o povo da Igreja Universal para votar neles.”
Ela vê um padrão de exploração no discurso de esperança ilimitada e sacrifício material promovido pela Universal. “O que é que vão decidir no Dia D?”, perguntou-me, dias antes do evento: “Vão decidir ter marido, vão decidir ter emprego, vão decidir serem ricos. Acha que é verdade? Mas como dizer a uma pessoa que não tem instrução para não acreditar nisso se deseja tanto acreditar?”.
No Dia D, após a “hora dos milagres”, a multidão foi instruída para voltar para casa com as suas rosas, que atrairiam todo o ruim, todo o mal no ambiente, para depois as levarem a uma Igreja Universal no domingo seguinte, a fim de serem incineradas. “As coisas mudam pouco a pouco”, concluiu Amélia, uma fiel que esperava para partir na boleia de um caminhão.
“Não vale a pena mudar de igreja só por não ver um milagre todos os dias. O Dia me mostrou que Deus existe”, insistiu. Mas eu liguei dias depois para Amélia e, até hoje, sua rosa ficou em casa.