terça-feira, 21 de março de 2017

O Futuro das Comunidades Judaicas na Europa


O Futuro das Comunidades Judaicas na Europa


por Rabino Lorde Jonathan Sacks

O ódio que começa com os judeus nunca termina com os judeus. Isto é o que quero que entendamos, hoje. Não foram apenas os judeus que sofreram com Hitler. Não foram apenas os judeus que sofreram com Stalin. Não são apenas os judeus que sofrem com o ISIS ou a Al Qaeda ou o Jihad Islâmico. Cometemos um grande erro se pensamos que o antissemitismo constitui uma ameaça apenas para os judeus.

Trata-se de uma ameaça, antes de mais nada, para a Europa e as liberdades que este continente levou séculos para conquistar. O antissemitismo não tem a ver com os judeus. Tem a ver com antissemitas. Tem a ver com pessoas que não podem aceitar responsabilidade por seus próprios fracassos e, ao contrário, têm que culpar um terceiro. Historicamente, se você fosse cristão à época dos Cruzados, ou alemão após a 1a Guerra Mundial, e visse que o mundo não tinha se saído da maneira que você acreditava que sairia, você culparia os judeus. Isto é exatamente o que está ocorrendo hoje. E tudo o que eu disser é pouco sobre quão perigoso isto é. Não apenas para os judeus, mas para todos aqueles que valorizam a liberdade, a compaixão e a humanidade.

O surgimento do antissemitismo em uma cultura é o primeiro sintoma de uma enfermidade, o sinal prematuro de aviso de um colapso coletivo. Se a Europa permitir que o antissemitismo floresça, isso será o início de seu fim. E o que pretendo fazer com estes breves comentários é simplesmente analisar um fenômeno repleto de incerteza e ambiguidade, pois necessitamos de precisão e compreensão para entender por que os antissemitas estão convencidos de que não o são.

Primeiro, definamos o que é antissemitismo. Não gostar de judeus não é antissemitismo. Todos nós conhecemos pessoas de quem não gostamos. Tudo bem, isto é humano; sem perigo algum. Segundo, criticar Israel não é antissemitismo. Em conversa recente com alunos de colégio, eles me perguntaram se criticar Israel era antissemitismo. Eu disse que não. E expliquei a diferença. Perguntei-lhes: Vocês acreditam que têm o direito de criticar o governo britânico? Todos levantaram o braço. Perguntei, então: “Quem acredita que a Inglaterra não tem o direito de existir?”. Ninguém levantou o braço. Então, agora vocês sabem a diferença, disse-lhes. E todos concordaram.

Antissemitismo significa negar aos judeus o direito de existir coletivamente como judeus com os mesmos direitos que os demais. Essa negação assume diferentes formas em diferentes eras. Na Idade Média, os judeus eram odiados por causa de sua religião. Nos séculos 19 e início do 20 eram odiados por causa de sua raça. Hoje somos odiados por causa de nosso Estado-nação, o Estado de Israel. O antissemitismo assume diferentes formas, mas segue sendo a mesma coisa: a ideia de que os judeus não têm o direito de existir como seres humanos livres e iguais aos demais.

Uma coisa que nem eu nem meus contemporâneos esperávamos era que o antissemitismo reaparecesse na Europa com o Holocausto ainda tão vívido em nossa memória. A razão para não o esperarmos foi o fato de a Europa ter empreendido o maior esforço coletivo, em toda a História, para assegurar-se de que o vírus do antissemitismo jamais voltasse a infectar o corpo político. Foi um empenho colossal de legislação antirracista, educação sobre o Holocausto e diálogo inter-religioso. Contudo e apesar de tudo, o antissemitismo retornou.

Em 27 de janeiro de 2000, representantes de 46 governos de países de todo o mundo se reuniram em Estocolmo para emitir uma declaração conjunta de recordação do Holocausto e de continuação da luta contra o antissemitismo, o racismo e o preconceito. E, então, veio 11 de setembro, e em poucos dias, as teorias de conspiração inundaram a Internet bradando que tinha sido obra de Israel e de seu Serviço Secreto, o Mossad. Em abril de 2002, em Pessach, eu estava em Florença com um casal judeu de Paris, quando eles receberam uma ligação do filho dizendo: “Mãe, pai, está na hora de deixar a França. Aqui já não é mais seguro para nós”.

Em maio de 2007, numa reunião privada aqui em Bruxelas, eu disse aos três líderes da Europa, à época, Angela Merkel, Presidente do Conselho Europeu; José Manuel Barroso, Presidente da Comissão Europeia; e Hans-Gert Pöttering, Presidente do Parlamento Europeu, que os judeus da Europa estavam começando a se perguntar se havia futuro para eles na Europa. Isso foi há mais de nove anos. Desde então, as coisas só pioraram. Já em 2013, antes de alguns dos piores incidentes, a Agência de Direitos Fundamentais da União Europeia revelou que quase ⅓ dos judeus da Europa pensavam em emigrar em virtude do antissemitismo. Na França, o número era de 46%; na Hungria, 48%.

Deixem-me perguntar-lhes algo. Quer sejam judeus, cristãos ou muçulmanos: vocês ficariam em um país onde fosse necessária a presença da polícia para protegê-los enquanto fizessem suas orações? Onde seus filhos precisassem de policiais armados para protegê-los, no colégio? Onde, se usassem um símbolo de sua fé em público, estariam arriscando-se a serem insultados ou atacados? Onde, quando seus filhos chegam à universidade, são insultados e intimidados em virtude do que ocorre em alguma outra parte do mundo? Onde, quando expressam sua própria visão da situação, são silenciados, aos gritos?

Isto está ocorrendo com os judeus em toda a Europa. Em cada um dos países da Europa, sem exceção, os judeus temem pelo futuro de seus filhos. A continuar assim, os judeus continuarão a deixar a Europa, até que, excetuando-se os fragilizados e os idosos, a Europa finalmente se tornará Judenrein, limpa de judeus.

Como isto aconteceu? Aconteceu da forma como os vírus sempre vencem o sistema imunológico humano, ou seja, por mutação. O novo antissemitismo é diferente do antigo de três maneiras. Já mencionei uma delas. Primeiro os judeus foram odiados por sua religião. Depois por sua raça. Hoje são odiados por seu Estado-nação. A segunda diferença é que o epicentro do antigo antissemitismo era a Europa. Hoje, é o Oriente Médio e é transmitido globalmente pelos novos meios eletrônicos. A terceira é especialmente perturbadora. Vou explicar. Odiar é fácil; difícil é justificá-lo publicamente. Ao longo da História, quando as pessoas buscavam justificar o antissemitismo, fizeram-no mediante recurso à mais alta fonte de autoridade de sua cultura. Na Idade Média, essa fonte era a religião. Tínhamos, então, anti-judaísmo religioso. Na Europa pós-Iluminismo, essa fonte era a ciência. Estas eram, então, as duas bases da ideologia nazista – o Darwinismo Social e o assim-chamado Estudo Científico da Raça. Hoje, a mais alta fonte de autoridade no mundo são os direitos humanos. É por isso que Israel – a única democracia em pleno funcionamento no Oriente Médio – com uma imprensa livre e um judiciário independente – é acusada, com regularidade, dos cinco pecados capitais contra os direitos humanos: racismo, apartheid, crimes contra a humanidade, limpeza étnica e tentativa de genocídio.

O novo antissemitismo teve tamanha mutação que qualquer um de seus adeptos pode negar que seja antissemita. Afinal, dirá, “Não sou racista. Não tenho nada contra os judeus ou o judaísmo. Meu único problema é com o Estado de Israel”. Mas num mundo de 56 países muçulmanos e 103 cristãos, há apenas um único Estado judeu – Israel – que constitui ¼ de 1% da extensão de terra do Oriente Médio. Israel é o único entre os 193 países-membros das Nações Unidas que tem seu direito à existência constantemente contestado, tendo, além disso, um país, o Irã, e muitos, muitos outros grupos, comprometidos com sua destruição.

Antissemitismo significa a negação do direito dos judeus de existirem como judeus, com os mesmo direitos que todos os demais. A forma em que se reveste, hoje, é o antissionismo. Há, naturalmente, uma diferença entre sionismo e judaísmo, e entre judeus e israelenses, mas esta diferença não existe para os antissemitas. Foram judeus – e não israelenses – as pessoas assassinadas em ataques terroristas em Toulouse, Paris, Bruxelas e Copenhagen. O antissionismo é o antissemitismo de nossos dias.

Na Idade Média os judeus foram acusados de envenenar os poços, disseminando a peste e matando crianças judias para usar seu sangue. Na Alemanha nazista, foram acusados de controlar a América capitalista e a Rússia comunista. Hoje, somos acusados de dirigir a ISIS e os EUA. Todos os antigos mitos foram reciclados, do Libelo de Sangue aos Protocolos dos Sábios de Sion. As caricaturas que inundaram o Oriente Médio são clones das publicados no Der Sturmer, um dos principais veículos de propagando nazista entre 1923 e 1945.

A arma fundamental do novo antissemitismo é assombrosa em sua simplicidade. Vejam: o Holocausto jamais deverá ocorrer novamente. Mas os israelenses são os novos nazistas; os palestinos são os novos judeus; todos os judeus são sionistas. Portanto, os verdadeiros antissemitas de nossos dias são, nem mais nem menos, que os próprios judeus! E não se trata de ideias marginais. Estão disseminadas em todo o mundo muçulmano, incluindo as comunidades na Europa, e estão, aos poucos, infectando a extrema esquerda, a extrema direita, os círculos acadêmicos, os sindicatos e, até mesmo, algumas igrejas. Tendo-se curado do vírus do antissemitismo, a Europa está sendo re-infectada por partes do mundo que nunca passaram pela autoanálise pela qual a Europa passou, assim que os fatos sobre o Holocausto se tornaram conhecidos.

Como tais absurdos chegaram a ser críveis? Estamos entrando em um campo vasto e complexo, e eu escrevi um livro sobre o mesmo; mas a explicação mais simples é a que segue. Quando coisas ruins acontecem a um grupo, seus integrantes podem fazer uma destas duas perguntas: “O que fizemos de errado?” ou “Quem nos fez isto?”. Todo o destino do grupo dependerá da pergunta que escolherem. Se perguntarem, “O que fizemos de errado?”, terão dado início à autocrítica essencial a uma sociedade livre. Se perguntarem “Quem nos fez isto?”, esse grupo se terá definido como vítima. E, a seguir, procurará um bode expiatório a quem culpar por todos os seus problemas. Classicamente, esse tem sido o grupo dos judeus.

Antissemitismo é uma forma de fracasso cognitivo que ocorre quando determinados grupos sentem que seu mundo está saindo do controle. Teve início na Idade Média, quando os cristãos perceberam que o Islã os vencera em lugares que eles consideravam seus, o principal deles, Jerusalém. Foi quando em 1096, a caminho da Terra Santa, os Cruzados primeiro se detiveram para massacrar as comunidades judaicas no Norte da Europa. No Oriente Médio nasceu na década de 1920 com o colapso do Império Otomano.

Na Europa o antissemitismo ressurgiu, na década de 1870, durante um período de recessão econômica e ressurgente nacionalismo. E está reaparecendo na Europa, atualmente, pelas mesmas razões: recessão, nacionalismo e uma reação contrária aos imigrantes e outras minorias. O antissemitismo ocorre quando a política da esperança abre caminho para a política do medo, que rapidamente se transforma em política do ódio.

Isto, então, reduz problemas complexos a simplicidades. Divide o mundo em preto e branco, vendo todas as falhas de um lado e todos os complexos de vítima do outro. Seleciona um grupo, entre centenas de criminosos, a quem culpar. O argumento é sempre o mesmo. Nós somos inocentes; eles são culpados. Daí se deduz que, para sermos livres, eles, os judeus ou o Estado de Israel, precisam ser destruídos. Assim se iniciam os grandes crimes.

Os judeus eram odiados por serem diferentes. Eram a minoria não-cristã mais visível em uma Europa cristã. Hoje, somos a presença não-muçulmana mais visível em um Oriente Médio islâmico. O antissemitismo sempre se tratou da incapacidade de um grupo de dar espaço à diferença. Nenhum grupo que adote essa linha jamais poderá, nem irá criar uma sociedade livre.

Portanto, terminarei aonde comecei. O ódio que começa com os judeus nunca termina com os judeus. O antissemitismo é contra os judeus apenas de forma secundária. Primariamente tem a ver com o fracasso de alguns grupos em aceitar a responsabilidade por seus próprios fracassos, e de construir seu próprio futuro com seu próprio esforço. Nenhuma sociedade que promoveu o antissemitismo manteve a liberdade, os direitos humanos ou a liberdade religiosa. Toda sociedade movida pelo ódio começa buscando destruir seus inimigos, mas termina destruindo a si própria.

A Europa, hoje, não é fundamentalmente antissemita. No entanto, permitiu que o antissemitismo penetrasse através dos novos meios eletrônicos. Falhou em reconhecer que o novo antissemitismo é diferente do antigo. Não estamos, hoje, de volta à década de 1930. Mas estamos chegando perto de 1879, quando Wilhelm Marr fundou a Liga de Antissemitas, na Alemanha; de 1886, quando Édouard Drumont publicou La France Juive; e de 1897, quando Karl Lueger se tornou prefeito de Viena. Estes foram momentos-chave na disseminação do antissemitismo, e o que precisamos fazer, hoje, é recordar que o que foi dito naquele então sobre os judeus está sendo dito, hoje, sobre o Estado Judeu.

A história dos judeus na Europa nem sempre foi feliz. O tratamento que esse continente deu aos judeus agregou certas palavras ao vocabulário humano: disputas, conversão forçada, Inquisição, expulsão, auto da fé, gueto, pogrom e Holocausto – palavras escritas com lágrimas e sangue judeu. E, com tudo isso, os judeus amavam a Europa e contribuíram para enriquecê-la com alguns de seus maiores cientistas, escritores, acadêmicos, músicos, formadores da mente moderna.

Se a Europa se deixar ser arrastada novamente por essa mesma estrada, essa será a história contada em tempos vindouros. Primeiro vieram atrás dos judeus. Depois dos cristãos. Depois dos gays. Depois dos ateus. Até que não houvesse nada da alma da Europa, a não ser uma lembrança distante, moribunda.

Tentei, aqui, dar voz àqueles que não têm voz. Falei em nome dos assassinados de Roma, Sinti, dos gays, dos dissidentes, dos deficientes mentais e físicos, e de um milhão e meio de crianças judias assassinadas em virtude da religião de seus avós. Em seu nome, digo a vocês: vocês sabem onde essa estrada acaba. Não se deixem arrastar por ela, novamente.

Vocês são os líderes da Europa. Seu futuro está em suas mãos. Se não fizerem nada, os judeus partirão, a liberdade europeia morrerá e haverá uma mácula moral no nome da Europa que toda a eternidade não bastará para apagar. Detenham-na, enquanto ainda há tempo.

Transcrição de um discurso do Rabino Lorde Jonathan Sacks na Conferência “O Futuro das Comunidades Judaicas na Europa”, no Parlamento Europeu, Bruxelas, em 27 de setembro de 2016.

Tradução Lilia Wachsman

Rabino Lorde Jonathan Sacks - Rabino Chefe das Congregações Hebraicas Unidas da Commonwealth e Av Beit Din (presidente) do Beth Din de 1991 a 2013. Em 2009, foi recomendado para um pariato vitalício, com assento na Casa dos Lordes, com o título de Barão Sacks de Aldgate na City of London. Desde que deixou o cargo de Rabino Chefe, o Rabino Sacks vem trabalhando como Professor de Pensamento Judaico na Universidade de Nova York, Professor de Pensamento Judaico na Yeshiva University e Professor de Direito, Ética e Bíblia no King’s College de Londres.

"Os megassalários da elite burocrata" , por Gil Castello Branco


O Globo

Em janeiro, de amostra de 287 desembargadores paulistas, 256 tiveram rendimentos líquidos acima de R$ 50 mil


É conhecida a história de Henry Ford, engenheiro americano que revolucionou a indústria automobilística. Criou a “linha de montagem”, aumentou a produtividade, reduziu custos e democratizou o automóvel. Pagava bem aos seus funcionários, mas repetia com frequência: “Não é o empregador quem paga os salários. Ele só os entrega. Quem paga os salários é o cliente.” Faz sentido...

A administração pública, porém, não funciona assim. A burocracia parece um fim em si mesma. Com o país em recessão e mais de 12 milhões de desempregados, as despesas com pessoal do governo federal podem ser as primeiras a extrapolar as regras da PEC do teto. Ou seja, para acomodar a expansão das despesas com os servidores, o governo terá que cortar em outros setores como obras, equipamentos, programas sociais etc.

Nada é mais grotesco, porém, do que os megassalários recebidos por uma minoria de privilegiados. O artigo 37, inciso XI, da Constituição Federal determina que as remunerações nos Três Poderes, bem como os proventos, pensões ou outra espécie remuneratória, percebidos cumulativamente ou não, incluídas as vantagens pessoais ou de qualquer outra natureza, não poderão exceder o subsídio mensal dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Nos municípios, o teto é o salário do prefeito. Nos estados, o subsídio do governador para o Executivo e dos desembargadores para o Judiciário, aplicável aos membros do Ministério Público, procuradores e defensores. Mais claro, quase impossível!

No Brasil, entretanto, diz-se que a Constituição não é para ser cumprida, e sim interpretada. Dessa forma, é considerada “extrateto” uma série de penduricalhos “legalmente” instituídos. A transparência também não é das melhores. A título de exemplo, em São Paulo, no maior tribunal estadual do país, as tabelas de detalhamento da folha de pagamento estão disponibilizadas em 201 páginas, em PDF e sem ordem alfabética. O contracheque dos magistrados paulistas tem como paradigma o valor de R$ 30.471,11. Em janeiro de 2017, entretanto, de uma amostra de 287 desembargadores, 256 tiveram rendimentos líquidos acima de R$ 50 mil, após todos os descontos. Uma desembargadora amealhou líquidos R$ 107.485,00.

O tribunal explica que “existem vantagens pessoais albergadas pelo princípio da irredutibilidade de vencimentos e que são pagas em consonância com as Resoluções 13 e 17 do Conselho Nacional de Justiça”. Além disso, “magistrados e servidores do Judiciário fazem jus a verbas indenizatórias (auxílios previstos em lei) e ao abono de permanência, que se agregam ao total da remuneração que não estão submetidos ao teto constitucional”. Enfim, tudo legal!

Em Brasília, cidade que está sob racionamento de água, em decorrência da falta de investimentos hídricos ao longo dos últimos anos, advogada da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) recebeu, em janeiro de 2017, remuneração de R$ 95.066,17. Em fevereiro, foram R$ 53.390,76. A empresa argumentou que não recebe recursos do governo e que a Lei Orgânica do DF lhe concede liberdade para fixar salários. O que a Caesb parece não entender é que o bolso é um só. Na prática, sejam recursos do DF ou das tarifas, quem os banca é o cidadão, sem água...

Aliás, esse episódio nos leva a uma questão relevante. É de suma importância que todos os estados e a União divulguem os salários dos funcionários das suas empresas, principalmente das monopolistas. Atualmente, poucos o fazem.

Conforme pesquisa do jornalista Pieter Zalis, da revista “Veja”, em setembro do ano passado, mais de 5.200 servidores ativos do Legislativo, Executivo e Judiciário ganharam acima do teto constitucional, sem contar os aposentados, pensionistas e marajás dos Três Poderes nos estados e municípios.

Para reduzir essa farra, em dezembro de 2016 o Senado aprovou três projetos de lei que deixam claro o que está ou não incluído no tal teto. Passa a ser ato de improbidade administrativa pagar acima do limite constitucional, e os órgãos ficam obrigados a divulgar as parcelas das remunerações em dados abertos, manipuláveis e bem detalhados. Até ontem, porém, dois desses projetos ainda não tinham relatores na Câmara e o terceiro foi apensado a um de 2009. Dá para perceber que aumentar despesas é muito mais fácil do que cortá-las.

Parodiando Henry Ford, não é o governo que paga os salários dos funcionários públicos. 

Ele apenas os transfere. Quem paga são os contribuintes. E o fazem indignados por bancarem salários de marajás, tão legais quanto imorais.

Pesquisadores israelenses desenvolvem método para pegar ladrões de smartphones


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Uma equipe de pesquisa israelense desenvolveu um método que deteta exatamente como você toca sua tela touchscreen em 14 segundos, de maneira a identificar que uma outra pessoa está usando seu telefone. Estudos mostraram que senhas de smartphone não são o bastante, podendo ser facilmente descobertas por hackers, uma vez que a maioria das pessoas escolhe senhas relativamente fáceis de adivinhar.
Anualmente, mais de 3,1 milhões de americanos são vítimas de furto de smartphone e 68% deles não conseguem recuperar todas as informações roubadas. Esse foi o motivo que levou pesquisadores da Ben-Gurion University a buscar um método de verificação que detetasse os padrões exatos de toque de cada pessoa. Liron Ben Kimon, da BGU, examinou as informações coletadas de 20 usuários por um período de duas semanas. Seu modelo é baseado em como os usuários tocam a tela enquanto utilizam o dispositivo – onde eles tocam a tela e quanto do dedo a toca. Além disso, o modelo de Ben Kimon leva em consideração qual o aplicativo em uso, uma vez que a forma como as pessoas tocam a tela varia de acordo com o aplicativo – por exemplo, você tocará a tela de maneira diferente quando digita uma mensagem de WhatsApp em comparação com quando rola o seu navegador para cima e para baixo. Ademais, como usuários frequentemente tocam suas telas acidentalmente, o modelo classifica um grupo de toques para identificar um usuário em contraposição a cada toque individualmente.
Outro fator considerado pelo modelo é o histórico de cada toque – o que foi feito no dispositivo 30 segundos antes do toque atual e, mais especificamente, quais áreas da tela o usuário tocou, quais botões pressionou e qual era o consumo de energia naquele momento. Os estudos mostram que usuários não autorizados podem ser identificados em 14 segundos, após menos do que 35 toques na tela (em média, um usuário toca a tela 35 vezes em 13,8 segundos). De acordo com os pesquisadores, um criminoso que deseje roubar informações de seu dispositivo certamente irá tocar a tela mais do que 35 vezes, pois alguém que não esteja familiarizado com seu telefone precisará tocar a tela com uma frequência maior para obter as informações. Como conclusão, Ben Kimon afirma que “diferenciar o usuário de acordo com a forma como ele toca na tela é um método de verificação que é difícil de simular, pois um ladrão não pode roubar o comportamento de outro usuário”.

sábado, 18 de março de 2017

A VERDADE, COMO LHE CONVÉM - Coluna Carlos Brickmann


15 de março

CARLOS BRICKMANN
Carlos Brickmann

Pois eis que agora, tantos anos depois do início da Operação Lava Jato, depois de impiedosamente atacado, Lula começa a repor a verdade dos fatos – a verdade dele, claro, mas quem disse que a verdade é apenas uma?

Agora sabemos, por seu depoimento, que Lula há três anos é vítima de um massacre. Pois nenhum político ou empresário, nem os Odebrecht, jamais lhe deu dez reais. E diz a verdade: ninguém lhe deu dez reais. 

Acusá-lo de tentar obstruir as investigações da Lava Jato, que absurdo! Afirma Lula que o senador Delcídio do Amaral “disse uma inverdade”, ao afirmar, em delação premiada, que haviam conversado sobre maneiras de convencer Nestor Cerveró a calar-se sobre o que sabia da Petrobras. Lula, aliás, nem conhecia Cerveró. É verdade, claro: é impossível exigir que o presidente da República conheça um funcionário de uma estatal, mesmo que seja de alto escalão, mesmo que a empresa seja a maior do país, mesmo que seja Cerveró. Lula deve tê-lo cumprimentado sem prestar muita atenção. Seria incapaz de reconhecê-lo– afinal de contas, por que iria prestar atenção num rosto tão comum, numa empresa tão grande? 

Lula diz também que fica profundamente ofendido com a insinuação de que o PT é organização criminosa. Só porque o “capitão do time” está preso, os três últimos tesoureiros do PT foram condenados, um presidente do partido também? Isso o ofende, claro: pois quem é o Brahma, o nº 1?

A verdade…

No depoimento, Lula disse que passou os oito anos de seu Governo sem participar de jantares e aniversários, “exatamente para não dar pretexto de aparecer àqueles que vêm tirar fotografia com celular para depois explorar essa fotografia”. Os maldosos lembram um belo jantar, em 4 de agosto de 2006, oferecido por ele no Jockey Club de São Paulo a empresários e políticos, para arrecadar fundos. Foram mil convites a R$ 2 mil cada; descontada a despesa, sobraria R$ 1,7 milhão. E, segundo o coordenador da campanha, Ricardo Berzoini, “é evidente que dá a oportunidade de diálogo do presidente com o empresariado e profissionais liberais”. Terá Lula dito uma inverdade? Não: ele disse que não participou de jantares. E esse, preparado pelo ótimo chef Charlô, não foi um jantar, foi um banquete.

…é uma mentira…

Houve também um almoço mais baratinho, em 13 de julho de 2006, no Restaurante São Judas, na rota do Frango com Polenta, no Grande ABC. Foram servidos dois tipos de frango (frito, com polenta frita; e à italiana, com molho de maionese); água, cerveja, refrigerantes. Lucro: R$ 495 mil. “É que Lula circula bem em todas as classes”, esclareceu Berzoini.

…que aconteceu

Lula disse, enfim, que não é contra a Operação Lava Jato. “Eu quero que a Lava Jato vá fundo para ver se acaba com a corrupção”. E não é que mais uma vez ele fala a verdade? Lula é a favor da Lava Jato, e só dela discorda num pequeno detalhe: andou pegando políticos companheiros e empresários aliados, que além de aliados sempre foram generosos. Se a Lava Jato esquecesse o PT, Lula seria 100% a favor. 

 A verdade…

Para completar o elenco de verdades pouco conhecidas, o ex-presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, disse ao juiz Sérgio Moro que “nunca falou de propina com Palocci”. Claro que não! Gabrielli sempre foi um executivo preocupado com a empresa. Até hoje, por exemplo, defende a compra pela Petrobras da Ruivinha, uma refinaria toda enferrujada em Pasadena, EUA. A empresa belga Astra Oil comprou a refinaria por US$ 42 milhões e a vendeu à Petrobras, pouco depois, por US$ 1,1 bilhão. Segundo o delator Agosthilde Mônaco de Carvalho, já antes da compra Gabrielli tinha indicado a Odebrecht para reformá-la. Um executivo tão preocupado com a empresa que antes mesmo de fechar um negócio já tinha decidido como iniciar a operação não iria conversar sobre propinas e pixulecos com um político importante como Palocci. Talvez tenham discutido a adequada destinação dos parcos recursos disponíveis.

…de cada um

O patriarca da empresa, Emílio Odebrecht, vê Antônio Palocci como um político especial – “não carreirista como a maioria, mas um homem inteligente com visão de estadista”. Emílio Odebrecht, com tantos anos de experiência no mercado, certamente sabe avaliar as pessoas; conhece a diferença entre o que um político acha que vale e seu valor real.

“A gente trocava muitas ideias sobre aquilo que era importante para o nosso Brasil”, narrou. De um lado da mesa, Emílio Odebrecht; de outro, Antônio Palocci. Assistir à troca de ideias entre ambos, conhecedores do mundo e do comportamento dos seres humanos, deve ser instrutivo, uma aula de economia, de gestão e de política. Um privilégio valiosíssimo.

COMENTEcarlos@brickmann.com.br

Twitter: @CarlosBrickmann

"Farinha do mesmo saco", por Ana Maria Machado


O Globo


A expressão popular lusitana refere-se a iguais que estão juntos como sendo vinho da mesma pipa. No Brasil, falamos em farinha do mesmo saco. Nos últimos dias, temos discutido políticos do mesmo caixa. Ou não?

Claro que sim. E claro que não. Também não são iguais os que os classificam de uma forma ou de outra. Não só pela autoridade de que se revestem ou por eventuais simpatias partidárias. O fato é que diferem uns dos outros. Igualmente são diversos entre si os jornalistas que reportam suas declarações — e não apenas pelos jornais para os quais escrevem ou por causa dos candidatos em que votam.

No entanto, é indispensável que o país neste momento debata essa questão. Dela não vão depender somente as decisões sobre fatos passados. Mas uma análise clara servirá para orientar medidas que ajudem a balizar uma reforma eleitoral que melhore o futuro. E a primeira coisa a fazer é discutir com clareza e transparência, lançando luz sobre o tema, de modo a que possamos entender o que se passa, sem deixar buracos de ratos nos desvãos mais escuros.

A esta altura, já deveríamos estar todos tão escolados que nem se precisaria repetir o óbvio. Mas os esquemas e mecanismos são propositadamente complexos, para embaralhar pistas. Então, insistir em alguns pontos básicos nunca é demais. Situações diferentes podem exigir punições diferentes.

1 — Ser mencionado por ouvir dizer, apontado por um delator, ou investigado não é a mesma coisa. E ser denunciado, acusado ou transformado em réu também é outra.

2 — Até recentemente, doação de empresa era perfeitamente legal até o limite de 2% de seu faturamento. Cada partido ou candidato podia pedir quanto quisesse e dentro desse limite. Desde que tudo fosse declarado, nenhum problema, por mais que se possa especular sobre os interesses de uns e outros na prática.

3 — Qualquer caixa 2 é ilegal, seja de grande empreiteira ou do botequim da esquina. É delito fiscal. Significa que um dinheiro não foi declarado e não pagou imposto. Tem punições previstas em lei, para quem o cometa. Mas em si ainda não é corrupção, embora possa se ramificar em vários crimes. Todos esses precisam ser expostos e castigados na forma da lei. O caixa 2 pavimenta o caminho para eles. Pode ocultar conflito de interesses e tráfico de influência. Pode ser forma de encobrir de um mandachuva a real preferência do doador, ou de ceder a achaque ou chantagem (ao que se sabe do Brasil profundo, práticas corriqueiras em prefeituras). Pode ser pagamento de propina por favores recebidos ou a receber — seja por meio de projetos de lei favoráveis, emendas a MPs e PECs, isenções fiscais, superfaturamentos, aditivos a contratos, e o mais que andamos descobrindo.

Nessas descobertas que horrorizam as pessoas de bem, vai se delineando o crime perfeito. Aparentemente, não surge como caixa 2, e até pode parecer inocente. A empresa (ou as empresas, em rodízio, conforme as regras que regem o cartel) recebe por uma obra ou serviço muito mais do que o necessário para executá-lo. Esse “a mais”, devidamente contabilizado no caixa 1 oficial, transforma-se em doação eleitoral legal e declarada. Ou seja, sai dos cofres públicos e vai para um partido ou candidato por mãos de uma empresa, mas no caminho é aprovado e legalizado pela Justiça Eleitoral que, sem desconfiar, atua como a lavanderia do dinheiro sujo.

Distinguir isso com clareza é essencial para não relevar práticas desse tipo. Juntar tudo no mesmo saco sem distinguir nuances atrapalha a democracia, porque engole a alteração de resultados eleitorais com base em mentiras, construídas em campanhas milionárias. E em mecanismos de cobertura midiática que vão além dos boatos, contranarrativas, fatos alternativos e outros exemplos de pós-verdade que assolam nosso tempo. Nesse sentido, um truque nivelador eficiente é o da falsa equivalência, que dá pesos iguais a coisas diferentes. Na campanha americana, para bater em Trump pelo conjunto da obra, espancou-se com igual força Hillary Clinton por seus e-mails. Os bem intencionados apoiadores de Bernie Sanders não admitiram trabalhar por ela. Trump acabou eleito.

Ainda agora, muitos dos que com razão caíram em cima da fala presidencial no Dia da Mulher, retrógrada e fora de moda, são os mesmos que ignoraram a piada ofensiva e asquerosa de Lula, dizendo que sua auxiliar de confiança Clara Ant achara que cinco policiais em sua casa eram um presente de Deus. Esta semana, um cronista chegou a citar o discurso de Temer sob a mesma pecha de selvageria e violência em que comentava o crime do goleiro Bruno.

A que serve essa veemência? É útil à democracia? Todo político é igual? A que salvador da pátria essa ira virulenta pode nos entregar?

Assim fica difícil. Mesmo se for tudo farinha do mesmo saco, o inteligente é distinguir farinha de trigo e farinha de joio. Desse modo, ganhamos eficiência para defender a democracia no imprescindível debate sobre reforma eleitoral. O que é outra conversa, que fica para outro artigo.

sexta-feira, 17 de março de 2017

As empresas de Assessoria Parlamentar de mãos dadas com os Grupos de Interesse



O Estado brasileiro extrai dos setores produtivos  da sociedade em torno de 41% de toda a riqueza por eles gerada. O ser humano sempre buscará atender a seus próprios interesses em primeiro lugar e da melhor maneira possível. E o resultado da soma dessas duas premissas é o comportamento típico do brasileiro em busca de seus objetivos, visto que ele já entendeu há décadas que a melhor forma de “se dar bem” na vida não é trabalhar e produzir bens e serviços genuinamente demandados pelos consumidores, mas sim buscar fazer jus a uma fatia maior deste enorme bolo de recursos concentrados nas diferentes estâncias governamentais.
É a lei do menor esforço (e risco) combinada com o demasiado poder político e financeiro dos entes estatais que acaba por gerar uma demanda de certos indivíduos por tratamento diferenciado (mais benéfico) por parte da administração pública. E tanto mais fácil torna-se atingir tal meta quanto maior for a expertise destas pessoas no jogo de bastidores da política e quanto mais livre for seu trânsito pelos corredores do poder.
E é justamente neste cenário de simbiose entre “grupos de pressão” (como bem os definiu F.A Hayek) e Estado que surgem as empresas de assessoria parlamentar. Observem o menu de serviços oferecidos por uma delas, notadamente aqueles em destaque, para começar a entender como a banda toca em Brasília e nas demais casas legislativas:
Interessante: o que esta empresa oferece, em síntese, são os meios para acelerar a aprovação de projetos de lei e diplomas legais congêneres que beneficiem setores econômicos ou categorias profissionais específicos. Ela possui as ferramentas, o know-how e os contatos que possibilitam o monitoramento e a aceleração do processo legislativo.
Tipo assim: os fabricantes de automóveis instalados no país estão bastante preocupados com a entrada de veículos produzidos no México, os quais estão superando em preço e qualidade aqueles aqui fabricados, devido aos custos minorados de produção no país da América do Norte. Solução paternalista: correr atrás de protecionismo em forma de normas emanadas do Congresso Nacional, tais como uma regra de “conteúdo nacional”, tributações diferenciadas ou artifícios similares que venham a encarecer os carros mexicanos.
O mesmo se aplica aos produtores rurais¹, vinicultores e a diversos outros segmentos do empresariado que adoram correr para debaixo da asa governamental tão logo algum estrangeiro ouse agradar os consumidores nacionais. E, para garantir que o Diário Oficial da União trará as boas novas rapidamente, contrata-se uma assessoria parlamentar, a qual manterá os interessados atualizados sobre o andamento processual da proposta que lhes agracia (e prejudica o restante da população), providenciando reuniões com Deputados e Senadores, provendo dados e estatísticas que possam convencer os legisladores da importância da proposição, e por aí vai.
Outros clientes fiéis deste pessoal influente são os sindicatos de categorias profissionais. Interessado em aprovar o pagamento de adicional de periculosidade para seus afiliados? Querendo obter jornada de trabalho menor para seus representados sem alterar a remuneração? Visando garantir uma reserva de mercado para uma determinada profissão? Pretende assegurar um aumento gordo para alguns poucos felizardos funcionários públicos em um momento de recessão no qual todos apertam os cintos? Então é hora de contratar uma assessoria parlamentar, a qual pavimentará o caminho para que sua casta seja privilegiada em relação a todos os demais trabalhadores do país.
E o que sobra para os empresários e cidadãos que não contam com tal capacidade de articulação junto àqueles que intervem não apenas na economia mas em todos os aspectos de nossas vidas? Contratar tais serviços especializados, afinal, não é livre de honorários. Sim, resposta correta: sobrou o bagaço da laranja. É um ciclo perverso com aqueles empreendedores e indivíduos mais humildes e desprovidos de influência política, o qual começa com os fiscos extorquindo o povo, continua com aqueles que sabem chorar melhor mamando maiores retribuições deste espólio, e termina com a escumalha desorganizada – desde o peão da obra até o Manoel da padaria da esquina com três empregados – pagando o pato por esta relação promíscua.
No conflito entre os vários grupos de pressão, não prevalecem, pois, os interesses daqueles mais pobres e numerosos; muito pelo contrário. O status de um grupo mais prestigiado, ao final e ao cabo, sempre resta ainda mais elevado sobre os demais. É o legítimo arranjo “o de cima sobe e o de baixo desce”, curiosamente esta uma acusação que o capitalismo costuma receber de seus críticos.
Convém enfatizar que esta empresa de consultoria não faz nada mais do que atender a demandas surgidas em decorrência de como as coisas funcionam em nosso país (o que não se restringe à capital federal, sendo este o modus operandi em assembleias legislativas e câmaras municipais também), explorando honestamente este nicho de mercado. Muito injusto, mas dentro da lei – como quase tudo em terra brasilis. A culpa não é delas, e sim da concentração de poder político e financeiro nas mãos de poucos e pilantras. Auxiliar interessados em obter “direitos” especiais a atravessarem o labirinto de engravatados dos plenários e chegarem àqueles portadores da caneta mágica que podem concedê-los não é crime nem contravenção, afinal.
Especialmente em tempos de crise econômica, “farinha pouca, meu pirão primeiro” – nem que isso implique em ficar amigo e bajular os donos do moinho, e ainda que seja necessário pagar para ser apresentado a eles.

Cavalos de Troia no Movimento das Mulheres - por Khadija Khan

  • Deve ser tão confortável marchar nos lugares seguros em Washington DC preconizando que mulheres que estão em lugares longínquos tenham seus órgãos genitais mutilados, se casem ainda na infância e sejam espancadas e violentadas em suas próprias casas. Essas mulheres vestidas com hijabs, que marcham em Washington DC, não têm que viver naquela "Utopia". Elas estão vivendo confortavelmente no "Ocidente infiel", protegidas daquelas barbaridades.
  • A cultura Ocidental que permite que mulheres gritem nos microfones sequer é a cultura na qual essas mulheres acreditam, muitas vezes é somente a ferramenta que elas usam para promover ideias totalitárias como antissemitismo, intolerância religiosa e imposição de conceitos teocráticos.
  • Será que Linda Sarsour realmente acredita que as pessoas enlouqueceram a ponto de desistirem de todas as liberdades civis que seus antepassados conquistaram através dos séculos meramente para poder fazer empréstimos sem juros?
  • A hipocrisia é que seu ousado estilo de vida nos EUA retrata que no fundo ela própria detesta as condições supressoras que ela promove para as mulheres pobres do mundo muçulmano que, na realidade, são elas que têm que aguentar. Vinda de uma sociedade muçulmana conservadora, sei que a cultura que ela anseia implantar jamais permitiria que ela lançasse esse tipo de ativismo sem a permissão de seus "defensores".
  • As vozes dissidentes dos oprimidos estão batalhando em duas frentes. Elas estão sendo esmagadas pelos seus próprios regimes totalitários e ao mesmo tempo pelos apologistas Ocidentais dos tiranos.
Por qual razão as mulheres que acreditam na igualdade de direitos para as mulheres, escolhem como porta-voz alguém que em um instante se gaba de sua suposta dissidência como sendo um ato de "patriotismo" e logo depois defende a mutilação dos órgãos genitais de outras mulheres? É como escolher um carrasco para fazer campanha contra a pena de morte ou nomear o chefe do ISIS para fazer campanha a favor de casamentos de pessoas do mesmo sexo.
Os princípios da "dissidência", dos quais elas dizem se orgulhar tanto e de tê-los tirado de fontes religiosas, são na realidade valores liberais e direitos humanos do mundo moderno - justamente os valores de direitos que, ao que tudo indica, elas aspiram destruir.
Na realidade o que elas querem é impor a Lei Islâmica (Sharia) no Ocidente. Lamentavelmente a sharia é flagrantemente antagônica aos valores e direitos humanos ocidentais.
Como é possível que cultos que acreditam no domínio de outrem se autodenominarem progressistas quando a sua mensagem, na íntegra, vai contra o espírito de tolerância e coexistência social?
Os defensores da sharia sempre enfatizaram que pretendem estabelecer uma forma "justa" de governo, baseada na lei divina e, aparentemente, para obter esse resultado, eles implantam aquele conjunto de leis - como por exemplo proibir debates ou críticas sobre as suas crenças ou a segregação de gênero - para destruir as democracias modernas.
Deve ser tão confortável marchar nos lugares seguros em Washington DC preconizando que mulheres que estão em lugares longínquos tenham seus órgãos genitais mutilados, se casem ainda na infância e sejam espancadas e violentadas em suas próprias casas - estando segura nos arredores da capital americana e ficar em silêncio sobre questões de abusos expressivos: flagelações, queimaduras com ácido, amputação de membros, decapitações, afogamentos ou enterro de pessoas vivas.
Essas mulheres vestidas com hijabs que marcham em Washington DC não têm que viver naquela "Utopia". Elas estão vivendo confortavelmente no "Ocidente infiel", protegidas daquelas barbaridades.
Os valores que elas estão desfrutando aqui são os valores do mundo iluminado e não têm nada a ver com a cultura que elas estão procurando impor aos outros.
A cultura que permite que mulheres como Linda Sarsour gritem nos microfones sequer é a cultura na qual essas mulheres acreditam, muitas vezes é somente a cultura que elas estão usando para promover ideias totalitárias como antissemitismo, intolerância religiosa e imposição de conceitos teocráticos através da infiltração ou da força.
A cultura que Sarsour diz aspirar permite mutilar mulheres, mas não permite que as mulheres falem alto, muito menos falar por meio de microfones. Por isso ela deve seus atuais privilégios à sua identidade americana.

A ativista muçulmana Linda Sarsour em um instante se gaba de sua suposta dissidência como sendo um ato de "patriotismo" e logo depois defende a mutilação dos órgãos genitais de outras mulheres. (Imagem: captura de tela de vídeo Seriously.TV)

Em 13 de Maio de 2015 Sarsour afirmou em um tuíte: "vocês saberão quando estiverem vivendo sob a Lei Islâmica (Sharia) quando de repente todos os seus empréstimos e cartões de crédito não terão juros. É bom, não é?"
Em 29 de abril de 2014 ela tuitou: "@RobertWildiris eu não tomo bebidas alcoólicas, não como carne de porco, vivo segundo os ditames islâmicos. Isso é tudo que a lei Sharia é".
Seria muito bom se os únicos requisitos da sharia fossem evitar o consumo de bebidas alcoólicas e a carne de porco, acontece que há uma imensidão de preceitos do que é e do que não é permitido, que se enquadram na categoria do "eu vivo segundo os ditames islâmicos".
A imensidão de normas que Sarsour nunca se preocupou em citar, mas que o mundo testemunha todo santo dia, estão presentes desde os palácios sauditas às cavernas do Afeganistão e de Raqqa.
A cultura que Sarsour deseja impor ao mundo - juntamente com as promessas do fim dos juros sobre empréstimos - não permite que mulheres interajam com homens desconhecidos, dirijam carros, andem de bicicleta, assistam a eventos esportivos, saiam de casa sem permissão, usem maquiagem e roupas que revelem suas silhuetas e muito menos falem em público.
As mulheres também precisam de quatro testemunhas masculinas para comprovar um estupro ou correr o risco de apedrejamento até a morte por "adultério".
Será que Sarsour realmente acredita que as pessoas enlouqueceram a ponto de desistirem de todas as liberdades civis e independência que seus antepassados conquistaram através dos séculos meramente para poder fazer empréstimos sem juros?
A hipocrisia é que seu ousado estilo de vida nos EUA retrata que no fundo ela própria detesta as condições supressoras que ela gosta de promover para as mulheres pobres do mundo muçulmano que, na realidade, são elas que têm que aguentar.
Em que medida essas mulheres vestidas com hijabs gostariam de passar algumas semanas sob os regimes totalitários sobre o quais elas gostam tanto de alardear?
Três meninas britânicas que foram atrás do chamamento do líder do ISIS Abu Bakr Al-Baghdadi se infiltraram na Síria para participarem da jihad, para no final se desesperarem ao perceberem o equívoco que cometeram. Acredita-se que uma já esteja morta.
Kadiza Sultana, Shamima Begum e Amira Abase, intoxicadas pela propaganda do ISIS, entraram na Síria para se juntarem à sagrada missão e virarem noivas do ISIS.
Ao que consta Sultana foi morta em um ataque aéreo russo, quando, apavorada, tentava fugir do ISIS, temendo extrema tortura e execução pública caso fosse capturada.
Ainda não se sabe o paradeiro das outras duas, fora os raros contatos relatados entre elas e suas famílias.
Sophie Kasiki uma menina francesa que também conseguiu escapar da fortaleza do ISIS em Raqqa juntamente com seu filho de quatro anos de idade, disse que ela arriscou a própria vida para tentar salvar a de seu filho. Ela definiu a via crucis de estar com o ISIS como "uma viagem para um inferno do qual parecia não haver retorno".
Samra Kesinovic uma menina austríaca de 17 anos foi, segundo consta, espancada até a morte por combatentes do ISIS ao ser pega tentando fugir, após ter sido "dada de presente" por seu parceiro a outro combatente do ISIS como escrava sexual.
A ironia é que Linda Sarsour e suas seguidoras dizem que amam o Hamas e os califados, como os criados por Abu Bakar al-Baghdadi ou pelos regimes sauditas e iranianos - mas claro, elas não vivem lá.
Sarsour foi, sem sombra de dúvida, colocada em primeiro plano por homens, para promover uma imagem tolerante que eles próprios não podem projetar no tocante aos direitos que eles proporcionam às suas mulheres.
Vinda de uma sociedade muçulmana conservadora, sei que a cultura que ela anseia implantar jamais permitiria que ela lançasse esse tipo de ativismo sem a permissão de seus "defensores".
Como pôde ela esquecer de mencionar que na Arábia Saudita e em inúmeros países muçulmanos esse tipo de ativismo custaria a uma mulher a sua família, sua honra e, provavelmente, a sua vida.
Um tribunal no estado de Washington suspendeu a proibição da entrada de pessoas de sete países de maioria muçulmana imposta pelo presidente Trump na semana passada.
Será que algum juiz ou pessoa influente ousaria refutar um decreto do, digamos, rei saudita, um conselho da sharia do Irã, um membro de uma família real de um país do Oriente Médio, um ditador militar ou os líderes do Hamas que Sarsour aparentemente admira tanto?
Não é possível sequer imaginar, em seus piores pesadelos, dissidência nesses territórios onde a sharia rege, mas claro, a dissidência é permitida nos EUA e no Ocidente onde as pessoas são livres e tem o direito de dizer o que pensam.
Estes não são os valores dos países exóticos que ela diz admirar, valores estes que foram conquistados arduamente com sangue pelos povos do Ocidente.
Esse caso de amor de via de mão única dos progressistas com extremistas jamais servirá ao objetivo de promover a igualdade entre as pessoas.
Na realidade isso poderia ser até contraproducente. No Egito os homens conservadores usaram as mulheres como manifestantes para derrubar o regime de Hosni Mubarak, mas uma vez que a Irmandade Muçulmana, que encabeçou o regime de Morsi, assumiu o controle, o mundo inteiro assistiu estarrecido quando viram que ele impôs a Lei Islâmica (Sharia) sobre todos - acima de tudo sobre as mulheres. Na sequência o regime de Morsi puniu as mulheres que protestavam contra a imposição da sharia no estilo iraniano.
Os mesmos imãs que atiçavam os ânimos nos bastidores da revolução do Egito, então decretavam fatwas (pareceres religiosos) para estuprar aquelas mesmas mulheres que tinham marchado nas ruas por seus direitos. De acordo com al Arabiyya:
"Um pregador salafista egípcio disse que se justifica o estupro e assédio sexual de mulheres que protestam na Praça Tahrir no Cairo, chamando-as de "cruzadas" que "não têm vergonha, medo e nem mesmo feminismo... Abu Islam acrescentou que essas mulheres ativistas estão indo à Praça Tahrir não para protestar, mas para serem abusadas sexualmente porque elas querem ser estupradas... E a propósito, 90% delas são cruzadas e os outros 10% são viúvas que não têm ninguém para controlá-las.."
Cerca de 80 mulheres foram molestadas em uma noite apenas, quando o governo Morsi foi derrubado e as pessoas saíram para celebrar a sua queda.
Essas são as visões que Sarsour está tentando passar.
Esses mesmos homens, aos quais estes progressistas e liberais estão querendo conferir poderes, uma vez empossados, declarariam essas mulheres apóstatas e infligiriam sobre elas as piores punições imagináveis pelos "crimes" que estão cometendo, promovendo um conjunto de valores que eles acreditam que trará harmonia ao mundo.
As vozes dissidentes dos oprimidos estão batalhando em duas frentes. Elas estão sendo esmagadas pelos seus próprios regimes totalitários e ao mesmo tempo pelos apologistas dos tiranos que as manifestantes estão fortalecendo - provavelmente sem ao menos perceber o tamanho enorme do mal que estão fazendo.
Khadija Khan é jornalista e cronista sediada no Paquistão.