sábado, 31 de dezembro de 2016

O LANCHINHO DE TEMER, O CARRAPATO E A BOIADA



Pedro Henrique Mancini de Azevedo

"
Ninguém gasta o dinheiro dos outros com o mesmo cuidado com que gasta o próprio." (Milton Friedman)

O último alvoroço causado nas redes sociais mais uma vez causou um embaraço para o presidente Michel Temer. Desta vez, o motivo foi a compra de alimentos de alto padrão para abastecer o avião utilizado pelo presidente, que somavam gastos superiores a R$1,7 milhões. Após repercussão negativa, o governo cancelou a licitação que ocorreria no dia 2 de janeiro do próximo ano.

É muito bom ver que a internet está mudando a política brasileira e mundial. Estamos vivendo uma verdadeira revolução da informação. Os nossos políticos estão acuados, pois finalmente a população está fazendo aquilo que sempre deveria fazer – vigiá-los de perto. Para se ter uma ideia do lanchinho de Temer, a licitação previa que um sanduíche de mortadela custasse R$16,45 a unidade. Um verdadeiro impropério. Mais absurdo ainda é saber que em 2006, o ex presidente Lula gastava neste mesmo lanchinho R$3,6 milhões - mais que o dobro de Temer.

Apesar de comemorar o fato de estarmos mais atentos a vida de marajás que a classe política vive, tenho a obrigação de colocar alguns pontos. Toda redução de gastos supérfluos como esses devem ser cobrados, criticados e divulgados assim como aconteceu nesse episódio, e não só quando estamos em momentos de crise. Mas sinto dizer que o corte desses gastos são mais simbólicos do que qualquer outra coisa.

É fato que quando o governo pede para cortar gastos ele também deve fazer um esforço para cortar da própria carne. Entretanto, o triste dessa situação é que isso não nem perto de resolver a nossa crise. Como uma imagem vale mais do que mil palavras, o gráfico demonstra como está distribuído o orçamento da União de 2015, elaborado pela ONG Auditoria Cidadã.
Longe de mim de compactuar com as ideias da ONG citada acima, pois a mesma elabora esse estudo com o intuito de incentivar o governo a promover um calote da dívida. Esse não é meu intuito. O que quero demonstrar é que existem dois grandes problemas no orçamento que saltam aos olhos de qualquer um – Juros e Dívida Pública; e Previdência.

Antes de falar sobre os juros é importante saber como o governo chegou a essa situação. Basicamente, existem 3 formas que o governo pode sanar suas contas. A primeira é aumentando impostos, e isso vem ocorrendo de forma sistemática desde o início do Plano Real. O Brasil saiu de uma carga tributária de 27% em 1995 para perto dos 36% em 2016. A segunda é a inflação. O governo gasta mais do que arrecada, e com isso emite moeda no mercado cobrando uma "taxa" por essa emissão. Essa taxa se chama inflação. E a terceira é emitindo títulos públicos. Esta última é onde entram os chamados juros sobre juros que destroem as nossas contas.

Com a implementação do sistema de metas de inflação, o governo se viu com uma certa impossibilidade de emitir moeda. Isso fez com que o perfil da dívida brasileira mudasse. Hoje, o governo ao invés de hiperinflacionar o mercado, emite títulos e os recompra com a promessa de que irá pagá-los algum dia. O problema é que como não paga nunca, surgem os chamados juros sobre juros. É o equivalente a um jogador viciado que continua apostando mais dinheiro mesmo quando está perdendo. O credor fica cada vez mais desconfiado e aumenta os juros progressivamente, fazendo com que o devedor fique ainda mais encalacrado. Por isso, é errado atribuir aos bancos os juros exorbitantes cobrados no Brasil. Os juros são altos porque os credores têm medo de calote, e como o governo brasileiro tem histórico de ser gastador e caloteiro...

Alguns devem estar se perguntando com que o governo gasta tanto. Seriam com os lanchinhos? Sim, ele gasta muito com isso como vimos anteriormente. Porém, como também já vimos no gráfico, o governo gasta muito com a Previdência (21,76%) - daí a necessidade de reforma, pois esses quase 22% são absurdos, já que temos apenas 8% da população acima de 65 anos. Já a outra grande fatia, chamada de Juros e Amortizações da Dívida não consegue ser paga porque o governo gasta muito com pessoal - que constitui cerca de 40% dos gastos do governo central. Contando com mais outros gastos semelhantes, estima-se que apenas 10% dos gastos do governo sejam discricionários (livres). É um entrave legal que engessa a capacidade do governo em cortar gastos, já que 90% dos gastos estão atrelados a Constituição e a leis específicas. É assustador saber que só se pode mexer em 10% dos gastos!

Sendo assim, reforço que devemos continuar divulgando as mordomias que os nossos governantes usufruem com o nosso dinheiro. Mas também é preciso dizer que hoje isso é um carrapato em meio a boiada. Não achem que os cortes não devem ser feitos por causa dessas mordomias; eles devem ser feitos apesar dessas mordomias. Está mais do que claro que o orçamento do governo não comporta o tamanho do Estado. Mas e a corrupção, pergunta o mais cético? Ora, vale o mesmo raciocínio. Muito do que já foi roubado não poderá ser resgatado; é custo afundado. E aí, por causa disso não faremos cortes e continuaremos na mesma? Então fechem as portas do país. Temos que apoiar as operações que estão em curso para que eles recuperem o que for possível e façam com que os criminosos sejam punidos. Torço para que todos eles fiquem sem um centavo. Mas também torço para que as pessoas entendam de uma vez que o país quebrou devido a uma ideia de Estado gigante que não deu certo. Vamos combater a corrupção, as regalias e também os gastos exorbitantes. Esse é o meu desejo para 2017. Feliz ano novo a todos!

PS.: É muita contradição de quem critica o lanchinho do Temer criticar a PEC do Teto de Gastos. A PEC existe para limitar esses gastos também, ora bolas! É a mesma contradição de quem critica a classe política e pede cada vez mais Estado. Precisamos começar a raciocinar.

Fonte: Blog do Puggina

Juiz embarga bens de filhos de Cristina Kirchner - É a família Lula hermana



Florencia e Máximo Kirchner - OPI Santa Cruz/Francisco Muñoz

O Globo


Medida preventiva inclui 16 propriedades, um veículo e as participações societárias em três empresas

BUENOS AIRES — Um juiz argentino decidiu nesta sexta-feira embargar os bens de Florença e Máximo Kirchner, filhos de Cristina Kirchner, herdados do também ex-presidente Néstor Kirchner e cedidos aos dois por Cristina Kirchner em março deste ano. A medida inclui 16 propriedades, um veículo e as participações societárias em três empresas. O pedido tinha sido feito pelos promotores Gerardo Pollicita e Ignacio Mahiques que também solicitaram o embargo do único terreno que resta à ex-presidente, cedido a Lazaro Baez.

Além disso, os hotéis Alto Calafate (da empresa Hotesur) e La aldea, de propriedade de Los Sauces, também foram embargados. A medida foi tomada como precaução, por supostas manobras de lavagem de dinheiro no caso Hotesur.

O embargo preventivo do patrimônio de Máximo e Florencia inclui os imóveis, um carro declarado pelo contador Victor Manzanares em US$ 153.615 e três participações societárias declaradas por US$ 13.723.686 no total. As três empresas — Hotesur, Los Sauces SA e CoMa SA — são investigadas em diferentes casos pela Justiça.

Segundo os promotores, há “fortes indicadores que demonstram a intenção dos investigados de diluir o patrimônio volumoso, para que não seja tutelado pela Justiça”. Para eles, o embargo preventivo é a melhor medida para “proteger os valores que eventualmente poderiam ser confiscados”.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

FAÇA O BEM, EM SILÊNCIO



Um vídeo no Facebook despertou minha atenção: no metrô, um grupo filmou o amigo cedendo o lugar para uma idosa. Até aí, tudo bem — mesmo sendo um direito da senhora, não custa nada ser gentil. Porém, ao final do vídeo, o bom samaritano vai ao encontro dos amigos e é recebido com festa. Seu gesto foi celebrado como um feito heroico!
Se eu estiver errado, por favor, me corrijam, mas desde quando ser educado, ser gentil se transformou em ato nobre, digno de plateia e aplausos? Ser educado e gentil é, no mínimo, uma obrigação do ser humano.
Infelizmente, estamos vivendo em um mundo raso. Devido à carência generalizada, muitas pessoas necessitam cada vez mais da aprovação alheia para se sentir bem. Os aplausos, os elogios e a admiração nos dão enorme sensação de prazer. Consequentemente, gestos que, até então, eram considerados simples, estão sendo banalizados.
Cobramos de políticos e autoridades, saímos às ruas sedentos por justiça. Destacamos que queremos um país melhor, porém nossas atitudes são artificiais: o exibicionismo continua o mesmo. Educação, gentileza, solidariedade e gratidão são virtudes do nosso caráter; compartilhá–las deveria ser um gesto espontâneo, único, sem a necessidade de ser viralizado por meio de vídeos ou fotos. Aliás, desde quando atos solidários precisam de propaganda?
Exemplos não faltam. Independentemente da religião ou credo, grandes líderes se preocupavam mais com a resolução de problemas coletivos do que apenas dos individuais. Dispensavam o olhar alheio. Fama, fortuna e poder pouco lhes importavam. Preferiam o anonimato a cem anos de aplausos.
Não nascemos sujeitos morais, tampouco, cidadãos, mas devemos nos tornar sujeitos morais e sermos educados para a cidadania. Isto é, refletir sobre os nossos valores ajuda a nos tornarmos melhores.
Ora, em um mundo no qual as aparências e a competividade são exaltadas como valores supremos, como esperar que nossos líderes — ou nós mesmos —, pratiquem a educação, a gentileza, a solidariedade? A resposta não é simples. Entretanto, os maiores exemplos estão aí para ser seguidos, não apenas para ser citados. O egoísmo ainda é uma tendência acoplada a nós. O altruísmo, por outro lado, é uma cultura a ser cultivada.
Gestos banais não podem ser vistos como um luxo, ou seja, dar o lugar a uma velhinha não tornar você um bom samaritano!

O que é Leninismo?

Posted: 07 Jul 2016 04:32 AM PDT

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O que é o Leninismo, distinguindo-o do simples Marxismo? É uma doutrina de força absoluta e violência, com o objetivo de implantar uma ditadura de classe. Lenin, em 1920, definiuditadura da seguinte forma: “No conceito científico, ditadura, significa, nem mais nem menos, o Poder ilimitado, repousando inteiramente na violência sem limite e sem ser restringido por qualquer lei ou regras absolutas. Nada mais que isso”. É por isso que o chefe da Cheka (antecessora do KGB), Felix Dzerhinski, disse, em seu primeiro discurso: “Não pensem que estou à espreita de formas de justiça revolucionária. Não temos necessidade de justiça agora”.   
A perseguição de Lenin aos revolucionários sociais, que no final de contas estavam trabalhando para os mesmos fins, estava baseada na idéia de Karl Marx da necessidade da ditadura e da violência, que por sua vez se fundamentava na decepção pessoal de Marx pelo insucesso da Revolução de 1848. Assim, pois, ele considerava a perseguição e a prisão sem restrições dos social-democratas, como uma necessidade para a salvação da revolução. Quando, nas eleições de novembro descobriu que os bolcheviques estavam em minoria (bolcheviques, 9 milhões; revolucionários sociais, 20 milhões; num total de 36 milhões) e rejeitou o pedido dos ferroviários em prol de um governo de coalizão, 5 membros do Comitê Central pediram demissão e 11 dos 15 Comissários do Povo predisseram o “estabelecimento de um regime irresponsável”.
No Leninismo estavam presentes os seguintes elementos:
- detenções desumanas e aprisionamento dos socialistas não bolchevistas e dos líderes dos lavradores (1918-1922);
- Repressão aos Sindicatos (“Todo este inútil sindicalismo deve ser atirado na lata de lixo” - Lenin);
- Proibição de greves (1920, 1921, 1922 e Congresso do Partido);
- Direção central das fábricas (1921);
- Tiroteio contra trabalhadores desarmados (10 de janeiro de 1918);
- Subjugada a rebelião de trabalhadores e marinheiros (Kronstadt, 1921);
- O princípio de manter famílias como reféns (Rebeldes de Kronstadt, 1921);
- Atribuir a greve dos trabalhadores ao “trabalho dos intervencionistas coligados e dos espiões franceses” (1921);
- Opressão da Oposição Trabalhista e exigência de cessação de toda oposição dentro da liderança do Partido (1921);
- Exílio para a Sibéria e trabalhos forçados àqueles que forem ”reconhecidos como perigosos para a estrutura soviética”.
Desse modo Stalin teve muito com o que se guiar quando quis basear-se no “marxismo-leninismo”. A real contribuição do Stalinismo, distinguindo-se do marxismo-leninismo, consistiu em reforçar a unidade do Partido e o assassinato de toda oposição, o que Lenin não cometeu. Kruschev denunciou o Stalinismo, mas manteve os princípios do Leninismo.
Em suma, o Leninismo encarava o terror como uma medida necessária durante o período da revolução, na expectativa de uma sociedade sem classes, que logo surgiria. O Stalinismo olhava o terror como uma medida permanente “depois que o socialismo fosse concluído”. Há também aí uma diferença essencial: Lenin matou todos os seus inimigos; Stalin todos os seus amigos.
Há também uma diferença entre stalinismo e Alcaponismo: ambos assassinavam os cúmplices de seus crimes, mas Stalin foi mais longe e assassinou seus colaboradores de confiança – Yagoda, Yezhov – e amigos de toda a vida – Yenikdidze, Orjonikidze -, o que Al Capone nunca fez.
O marxismo não admite o papel do indivíduo. O Comitê Central negou formalmente que tivesse sido o trabalho de uma só pessoa sua revolução de 30 de junho de 1956, depois da denúncia de Kruschev: “Imaginar que uma só personalidade, mesmo tão proeminente como a de Stalin pudesse mudar toda a nossa ordem política e social, significaria entrar em profunda contradição com os fatos, com o marxismo e com a verdade...”. 

Se Marx se revolvesse em sua sepultura pelo que Stalin fez ao trabalhador, seria também uma forma de revolução silenciosa, porém não necessariamente mais macabra do que aquela que se realizou sobre a terra.
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O texto acima é o resumo de um dos capítulos do livro “O Nome Secreto”, da coleção “Espírito do Nosso Tempo”, de autoria de Lin Yutang, editado pela Editora Itatiaia Ltda, em 1961.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

FONTE - http://www.alertatotal.net/2016/07/o-que-e-leninismo.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+AlertaTotal+%28Alerta+Total%29

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Futebol e filosofia de botequim


by Fernão
Meu pai fazia uma análise “sociológica” do desempenho dos países nas grandes competições internacionais e dos esportes nacionais como retratos da essência de cada povo que era “infalível”. O futebol era onde ele fechava as suas grandes sínteses dos “caráteres nacionais”.
Eu aprendi com ele esse viés e hoje é automático, qualquer jogo que vejo la me vêm essas elucubrações.
O nosso futebol tem por essências o improviso e o espírito de equipe. É o contrário do futebol americano que fuciona na definição de metas (a cada “jarda” de jogo tem uma lá, desenhada no chão) e a organização meticulosa de um plano para “supera-las” (combinado e definido “em segredo” a cada jogada a partir de uma coleção de jogadas previamente ensaiadas). É o retrato da “governança corporativa” que eles inventaram lá na virada do século 19 para o 20 e que, nas primeiras décadas do século passado, trasformaram em modelo para tudo que fazem. Chato e sem imaginação mas eficiente...
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No tempo em que o Pelé fazia esses gols aí em cima, quando fomos os melhores do mundo, o Brasil era pura espontaneidade, alegria e improviso, temperado com solidariedade e “espírito de equipe”. Quando eu comecei a viajar pelo país no final dos anos 60, o “sertão” era na esquina. De Araçatuba, mais ou menos, para oeste e para norte, mudava-se de Era. Ia-se dentro de um mato só até muito além do Equador. Não tinha estradas, não tinha cercas, não tinha hospitais, não tinha polícia, não tinha nada.
Não tinha Estado!
Quem vivia naquelas latitudes sabia que viver era se virar com o que estivesse à mão na hora e que, por isso mesmo, todo mundo tinha de improvisar e de se ajudar. Todo mundo andava armado e com as armas à mostra porque também a lei era um trabalho coletivo mas o ambiente era totalmente descontraido. Todo mundo se respeitava; todo mundo te recebia sem te conhecer; todo mundo parava nos caminhos para ajudar alguem em dificuldade; todo mundo hospedava todo mundo e dividia o que tinha pra comer com quem chegasse do nada indo pra lugar nenhum.
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Todo mundo jogava junto porque não tinha outro jeito de jogar.
Hoje esse Brasil acabou. Ninguém faz mais nada; compra feito. Ninguém toma iniciativa nenhuma, fica esperando que o Estado venha lhe dar de mamar.
Na pontinha “culta”, saímos do Brasil da USP dos franceses para o Brasil da universalização dos comportamentos do “bas fond” carioca de que a televisão fez lei do Oiapoque ao Chuí. Da pureza quase primitiva ao deslassamento da ultra-civilização em voo direto e sem escalas. Aquela liberdade essencial e inocente do Brasil sem fronteiras virou, não a liberdade para, mas a obrigação de esculhambar ... e ser esculhambado. A violência é filha disso. A violência é isso, melhor dizendo. Ela e o resto vão aumentar ou diminuir juntas. Não dá pra arrumar uma coisa sem arrumar a outra.
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O problema é que o Brasil de hoje não tem a menor ideia do que foi o Brasil de ontem de onde ele veio, ou melhor, de onde ele foi atirado para este de hoje. É que está no pacote da presente ditadura da violência e da ignorância travestida de "correção política" sob a qual vivemos apagar qualquer traço daquele passado das escolas, da História e da memória nacionais. O passado com que as pessoas, perdidas no espaço, tentam em vão se enraizar hoje é uma falsificação. Nunca existiu.
Isso vai mudar. Já tá começando a mudar. Quando mudar mesmo, viramos uma nova síntese do que são os dois extremos, como é hoje o futebol europeu. E até lá? Até lá, vamos como estamos: tem por aí, salpicados, esses campeões individuais das modalidades olímpicas, uns “cantores sertanejos” da força física fabricados, fugitivos da miséria, puro esforço, persistência, superação. Ou gênios. São os rebentos do nosso “protestantismo” reciclado (e dinheirista).
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Tem também os esportes coletivos de quadra, como o vôlei. São exceções à regra; o lado saúde da praia, conexão com o imemorial que é dos poucos espaços cuja intimidade o Estado (e a TV) não conseguem dominar. O vôlei é o retrato da classe média meritocrática sobrevivente; o pouco que sobrou de tudo quanto ainda “joga junto” entre nós.
Mas o futebol "esporte das multidões", esse deslassou. Tem os cartolas (a reboque da e rebocando a política) recobrindo tudo como cascas de feridas. E tem os jogadores. Quando surge um que nasce abençoado, logo passa a achar que é a torcida que deve a ele e não o contrário. Querem ser feitos; não querem fazer. Estão mais preocupados com o “look” do que com a bola. Os jogos são penosos, sem alegria. As reformas/trocas-de-técnicos são cosméticas. Não resolvem. Não querem resolver. Não vão ao essencial. E a corrupção continua comendo...
O Brasil do povão está no meio de um caminho mas não sabe pra onde. Não jogamos mais nada!
FONTE - https://vespeiro.com/2016/07/19/futebol-e-filosofia-de-botequim/

A LIÇÃO DO PAPELEIRO


por Percival Puggina. Artigo publicado em 

 A rua Salvador França, em Porto Alegre, forma uma rampa acentuada ao se aproximar da avenida Protásio Alves. Há poucos dias, em hora de tráfego intenso, eu andava por ali, lomba acima. A lentidão do trânsito evidenciava haver, adiante, algum obstáculo na pista. De fato, pouco além, avistei um carrinho de papeleiro, muito carregado e com volumosos excessos laterais. A carga era tão desproporcional que me interessei em ver como se fazia a tração de todo aquele peso. Um cavalo? Dois homens? Não. Era um homem só, e bem magro. Puxava sua carga caminhando de costas, fazendo o maior uso possível do próprio peso, jogando-se para trás.
 Ao ultrapassá-lo, senti vontade de parar, descer e expressar àquele ser humano meu reconhecimento ao valor moral que transmitia. Mas seria impraticável em meio ao tráfego. Decidi que o faria aqui, narrando o fato e traduzindo em palavras a silenciosa lição que proporcionava.
A mesa do papeleiro é pobre e pouca. Há frestas em sua insalubre moradia. Agasalho escasso, extenuante o trabalho. Não conhece férias e não recebe hora extra. Bem perto de onde mora está o traficante com dinheiro no bolso e correntes de ouro no pescoço. Se é de justiça tratar desigualmente os desiguais, a tolerância e a indulgência, em nome da luta de classes, para com os crimes praticados por indivíduos supostamente pobres são uma ofensa ao papeleiro da Salvador França. Todo modo de ver a lei penal como lei do "opressor" contra o "oprimido", todo garantismo que assumidamente desprotege a sociedade são ofensivos ao seu trabalho honesto.
Assumindo como ganha-pão uma tarefa de tração animal, ele ensina o quanto a vida, mesmo comprometida diariamente com penosa rotina, pode ser dura sem deixar de ser humana e digna. Enquanto, naquele dia, arrastava sua carga ladeira acima, o papeleiro esbofeteava, sem saber, a face de cada corrupto e de cada corruptor. Ensinava a quantos fazem e aplicam a Lei, que a pobreza a merecer proteção social e institucional é a pobreza do homem bom, nunca - nunca! - por si mesma, a pobreza do malfeitor, do traficante, do ladrão, do homicida, do estuprador (que até estes voltam rapidamente às ruas!). Degenerado é degenerado, criminoso é criminoso, independentemente do extrato de renda. O lugar de quem vive do crime é a cadeia, senhores.
Por isso, falando em nome de muitos, de poucos ou apenas no meu próprio, gostaria de conhecer a natureza do delito que certos homens da Lei nos imputam, leitor. Ao dar liberdade a quem tem que estar preso, esses falsos justiceiros condenam todos os demais à insegurança e à restrição da liberdade. Escrevam o que pensam, senhores! Sustentem suas teses marxistas abertamente nos jornais! Venham à luz do dia com suas doutrinas! Não se escondam nas páginas dos processos, nas dissertações acadêmicas e nos conciliábulos dos que pensam igual! Afinal, desarmados pelas exigências que cercam a posse de qualquer arma, agora estamos encarcerados por grades de proteção e temos as mãos contidas pelas algemas da impotência cívica.
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* Percival Puggina (71), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.
FONTE - http://www.puggina.org/artigo/puggina/a-licao-do-papeleiro/8005

Futebol, concentrações e a cultura paternalista no Brasil

SOBRE O AUTOR

Ricardo Bordin

Atua como Auditor-Fiscal do Trabalho, e no exercício da profissão constatou que, ao contrário do que poderia imaginar o senso comum, os verdadeiros exploradores da população humilde NÃO são os empreendedores. Formado na Escola de Especialistas de Aeronáutica (EEAR) como Profissional do Tráfego Aéreo e Bacharel em Letras Português/Inglês pela UFPR. Também publica artigos em seu site:https://bordinburke.wordpress.com/