quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Lula teme que investigações sigilosas sobre lavagem no BB, dedurada por motorista, reacenda o Rosegate



Edição do Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Jorge Serrão - serrao@alertatotal.net

Tão ou mais preocupado que a “onda Marina Silva”, programada para derrotar Dilma Rousseff, o Presidentro Luiz Inácio Lula da Silva ganhou um temor adicional que pode reativar a bomba que parecia desarmada no processo da Operação Porto Seguro – que, estranhamente, corre em “segredo de Justiça”. Lula teme que seu grupo seja contaminado pelas denúncias feitas ao Ministério Público Federal pelo ex-motorista do presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendini, agora alvo de uma investigação, também sigilosa, sobre indícios de lavagem de dinheiro.

O pavor de Lula é que Sebastião Ferreira da Silva, conhecido como “Ferreirinha”, também foi motorista da sua melhor amiga Rosemary Noronha, a ex-chefe de gabinete do escritório da Presidência da República em São Paulo, investigada por tráfico de influência. Dirigindo há seis anos para Bendini, Ferreirinha revelou à procuradora federal Karen Kahn que realizou vários pagamentos em dinheiro vivo a pedido do presidente do BB. O motorista também testemunhou ter visto Bendini carregar sacolas de dinheiro para encontros com empresários. Um caso concreto, relatado por Ferreirinha, envolve a entrega de uma bolsa lotada de maços com notas de R$ 100 ao empresário Marcos Fernandez Garms.

Ferreirinha tem a memória viva de muitos esquemas petistas. Em 2002, ele trabalhou para a campanha presidencial de Lula – na época do conturbado assassinato de Celso Daniel. Em 2003, ele passou a dirigir para a repartição de Rosemary, que funcionava em um dos andares do prédio do Banco do Brasil, em São Paulo. Em 2007, Ferreirinha teria brigado com a poderosa Rosemary, mas não foi despedido. Acabou virando motorista de Bendini. Agora, Ferreirinha conduz o ex-chefe para as complicações com o Ministério Público Federal.

Novamente um motorista coloca em risco os poderosos da República Sindicalista do Brasil – onde a história se repete como farsa. Na Era Collor, o presidente foi ferrado pelo motorista Eriberto. Agora, por ironia literal do nome, quem pode ferrar a cúpula petista é o Ferreirinha... Este filme BB de Rosemary pode acabar muito mal...

Pesquisa feita pra você?

Ilan Goldfjn, economista chefe do Itaú-Unibanco, enviou ontem um paper aos investidores internacionais do banco com a manchete: “Marina Silva Takes the Lead in Presidential Polls”

Além de comemorar que a Marina assume a liderança nas pesquisas para à Presidência (o que não foi oficialmente confirmado por nenhum instituto), só faltou o Ilan dizer aos investidores internacionais:

“A candidatura da Marina Silva parece feita para você”...

Lagartixa no vaso


Nada a acrescentar

A não ser pela excelente performance do jornalista Carlos Nascimento, em tratamento contra um câncer, no comando do debate presidencial SBT-Folha de ontem, os tais “debates” nada acrescentam como indicadores de soluções dos candidatos para o Brasil.

Marina e Aécio ficaram na mesma, enquanto Dilma novamente ficou exposta para o desgaste que vai derrotá-la.

Outro ponto positivo foi apresentar o programa no começo da noite, facilitando a vida do torcedor-eleitor que precisa acordar cedo para trabalhar...

Encontrão


Simples, assim...

Proposta clara de programa de governo defendido pelo economista Armínio Fraga, em entrevista á Folha de São Paulo de ontem:

“Nossa estratégia já está bem mapeada. Começar com uma reforma política, uma reforma administrativa, e colocar na mesa uma proposta já bem amarrada de reforma tributária. Fazer uma blitz na infraestrutura, mobilizar capital privado e, com isso, deslanchar uma primeira etapa do investimento no Brasil que nos parece ser urgente. Em paralelo, acho que temos que declarar a guerra ao custo Brasil. O tema da Previdência é importante, mas ele se presta também ao populismo. A nossa posição é que esse tema precisa ser debatido. Mas tenho de fazer um preâmbulo, se não imediatamente o PT vai falar: ´Eles vão arrochar os salários, vão arrochar os aposentados´. Isso tudo é mentira. Mas é, assim, nós não temos medo de discutir. Na medida em que as pessoas vivem mais, você tem de pensar na idade de aposentadoria e na viabilidade atual do sistema. Outra coisa estranha são as pensões. E acho que também merece ser discutido, sem prejuízo de quem já tem o benefício. E outros temas: como um país que está com desemprego baixo tem um aumento colossal no seguro-desemprego? São ótimos temas, mas para falar deles é preciso fazer um discurso antes, senão você vai ser acusado de assassino das velhinhas, o que obviamente não é o caso”.

Armínio Fraga já foi escalado como ministro da Fazenda, caso Aécio Neves conquiste o milagre de superar a “onda Marina” e vença eleição.

Marinei...


Auto-engano

No livro “Auto-engano” (Companhia das Letras), do economista Eduardo Gianetti da Fonseca, um dos gurus econômicos da Marina, uma reflexão que deveria valer para os incautos que desejam embarcar na candidatura presidencial socialista apenas para tirar o “PT fora”:

“O enganador auto-enganado, convencido sinceramente do seu próprio engano, é uma máquina de enganar mais habilidosa e competente em sua arte do que o enganador frio e calculista”.

Ou seja: o enganador é um mitomaníaco que embarca nas suas próprias mentiras, e as usa para tentar convencer os demais...

Conversões eleitorais




© Jorge Serrão. Edição do Blog Alerta Total de 2 de Setembro de 2014.

A LEI DO CHIFRE LIVRE


Coluna do Carlos Brickmann

Carlos Brickmann

Carlos Brickmann


Como dizia Tancredo Neves, voto secreto é um perigo: dá uma vontade enorme de trair. Isso nos tempos de Tancredo. Hoje, com a subida de Marina, a traição é aberta, dispensa o sigilo. E a maior vítima é justo o neto de Tancredo.

Até o coordenador da campanha de Aécio, senador Agripino Maia, já jogou a toalha e propõe o apoio a Marina no segundo turno. O governador tucano de Goiás, Marconi Perillo, favorito para a reeleição, é tão ligado a Aécio que nem se sente obrigado a confirmar essa amizade fazendo campanha. Em São Paulo, Alckmin e Serra, favoritos para o Governo e o Senado, são Aécio desde criancinhas. Lamentarão, tristonhos, a derrota de seu candidato. Tucano tem memória longa: os dois lembram do empenho de Aécio quando foram candidatos à Presidência, e o retribuem. Até em Minas, onde Aécio é rei, o PR liberou seus 18 prefeitos para apoiar o petista Fernando Pimentel, líder nas pesquisas contra o tucano Pimenta da Veiga. E em Minas a situação era especial: o PR nacional está com Dilma, mas os mineiros tinham acordo com Aécio e Pimenta da Veiga. A decolagem de Marina mudou tudo: agora, o PR volta a ser fiel, com Dilma, ou trai o governismo, com o PT para governador e Marina para a Presidência.

Aécio é a maior vítima, mas não a única. No Rio, os petistas de Lindbergh Farias e os peemedebistas de Pezão migram para Garotinho, do PR (que diz que está com Dilma). No Paraná, falta pouco para a petista Gleisi Hoffmann ter de carregar as próprias malas.

Em eleições, quem não recebe votos ganha chifres.

Tentando reagir

Há sucessivas reuniões tucanas estudando uma eventual reação de Aécio Neves (desde 2002, esta é a primeira eleição em que o PSDB pode ficar fora do segundo turno). As pesquisas abalaram Aécio, que acabou indo mal no debate SBT-Folha-Jovem Pan; e ainda não se sabe o que tentará fazer para recuperar-se.

Há quem tema o pior: que, além de ficar fora da disputa, Aécio perca também em Minas, onde o petista Fernando Pimentel lidera com folga contra Pimenta da Veiga. Nesse caso, o PT teria abrigo em Minas para os companheiros, hoje regiamente pagos, eventualmente desalojados do poder federal (a ministra Miriam Belchior, por exemplo, além dos salários, ganha R$ 19 mil para participar de uma reunião por mês no Conselho da Petrobras). Alguns sugerem que Aécio esqueça o Brasil e se concentre em Minas, para garantir pelo menos sua base.

Medo pela culatra

A campanha contra Marina vai dar efeito contrário, tal a prepotência dos adversários. Por que o país não pode ter um governante que acredita que o mundo foi criado em sete dias? Se isso não influir no caráter laico do Estado, qual o problema? Lembra os EUA, antes de Kennedy, quando se achava que eleger um católico minaria as bases do país. Ou o Califado Islâmico, que exige obediência total às leis muçulmanas. Compará-la a Collor? A Jânio? Por que não a Itamar, que também não tinha base partidária e mudou o Brasil? Ameaçá-la com um golpe, como o governador cearense Cid Gomes? Ele diz que não lhe dá dois anos de Governo: “será deposta”.

Com adversários assim, Marina vira ídolo.

O foguete

Marina tem raiz no PT, foi devota de Lula e sua ministra, fez barbeiragens em nome do radicalismo ambientalista. Sua ascensão não pode ser explicada só pelo carisma (que existe) nem pela comoção (real) do acidente que matou Eduardo Campos. O fenômeno Marina tem a ver com a novidade de uma candidata que não escorrega na numeralha que nada significa (“fiz 85 mil hospitais, 120 milhões de km de estradas”, etc.) e com algo que atinge cada um de nós: a economia.

A inflação há anos beira o teto, os aposentados têm aumentos incapazes de acompanhar os preços e inferiores aos dos assalariados da ativa. Pela 14ª vez consecutiva, o relatório Focus, do Banco Central, reduziu a perspectiva de crescimento em 2014. As contas externas vão mal, com o pior saldo desde agosto de 2001.

Ninguém come contas externas, mas o mal-estar dá para sentir.

Preções

E, enquanto o caro leitor enfrenta problemas para pagar as contas, o custo desta campanha eleitoral ultrapassa R$ 71 bilhões, conforme levantamento da revista Congresso em Foco. São pouco menos de 25 mil candidatos; e os gastos são 30% maiores que o da campanha anterior, com praticamente o mesmo número de disputantes.

Traduzindo: preços mais altos, mais disposição para gastar.

O preço da Justiça

Com o aumento pedido pelo Supremo Tribunal Federal, cada ministro brasileiro receberá praticamente os mesmos vencimentos da Suprema Corte americana. Com três diferenças: a população americana é 50% maior que a brasileira, o país é bem mais rico e o pagamento ao ministro é tudo o que ele recebe. No Judiciário americano, só há carro oficial para uma pessoa: o presidente da Suprema Corte. Todos os demais ministros, desembargadores, juízes, cuidam do próprio transporte. No Brasil, a partir dos tribunais de Justiça, todos os desembargadores e juízes têm carro, motorista, gasolina, manutenção, seguros, tudo por conta do Estado generoso e rico. Só em São Paulo há cerca de 400 desembargadores.

carlos@brickmann.com.br

www.brickmann.com.br

BOM DIA, CROÁCIA

bola-do-futebol-do-futebol-com-bandeira-da-croácia-35759291Edir José


Conheçam um pouquinho da Croácia, ouvindo a Ode à Alegria, da 9ª de Beethoven, arranjada para rock, com belas imagens do país. Quatro minutos lindos…

O massacre de Srebrinica, na Bósnia muçulmana, foi promovido pelos sérvios. Os croatas nada tiveram a ver com isso!


A IGUALDADE, SEM COR NEM IDEOLOGIA


MauroPereiraA coluna de Mauro Pereira


Antes, um intróito do Magu: Mais um cometimento deste que, sem desmerecer nenhum outro colaborador, todos imprescindíveis para estes coeditores, talvez seja nossa maior pena. Sem dúvida, a superior capacidade de nossos sagazes leitores lhes permite entender tudo. Só quis comentar por causa da produção cheia de falhas da Educação Brasileira que, para a maioria dos formados(?) não lhes permitirá alcançar a intelecção total do formoso texto. A compensar, talvez alguns, diante disto, se esforçarão por atingir, posteriormente e por esforço próprio, a derrubada dos altos parâmetros da “restrição interpretativa” e a aquisição do pleno conhecimento do vernáculo incomum que este redator apresenta, no que classifico de “um prazer em ler”. Pode até ser que alguns dirão que Magu é bajulador. E admito, sim, sou, quando me deparo com um redator conhecedor do léxico escorreito…


Dia desses ao assistir um vídeo dando conta da opinião corajosa de um jovem negro extravasando sua indignação com o indisfarçável viés eleitoreiro dos programas governamentais de cotas que beneficiam os brasileiros afro-descendentes, minha alma se encheu de júbilo e eu tive a certeza de que nem tudo está perdido nesse Brasil devastado nos últimos onze anos e oito meses pelo advento do lulopetismo. Ainda há luz a clarear nossa trajetória rumo à igualdade suficientemente capaz de não permitir que caiamos definitivamente no obscurantismo político e ideológico que tanto tem nos atormentado desde 1º de janeiro de 2003.

Sinceramente, eu ainda não consegui entender a criação do Ministério da Igualdade Racial, órgão governamental disfarçado de secretaria que traz no próprio nome a chaga do racismo, pois se partimos do pressuposto de que há raças a serem igualadas, mesmo que inadvertidamente estaremos concordando que existem ao menos duas raças distintas convivendo em solo brasileiro. Presumindo-se que uma delas seja a humana, fica a pergunta inescapável: qual será a outra a ser equiparada? A resposta eu não sei, talvez a ministra Luíza Bairros saiba. Eu só sei que sou branco por pura casualidade e brasileiro por mero capricho geográfico. Mas sou humano por imposição da raça. Da única raça, a humana!

Não podemos deixar de descartar, também, a pouca vontade, principalmente das duas últimas chefes daquela Pasta, de evitar um recrudescimento no relacionamento entre brancos e negros. Sem importar-se com as conseqüências, a então ministra Matilde Ribeiro não se constrangeu nenhum pouquinho ao afirmar que “não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. Racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural”. Já Luíza Bairros não deixou por menos e disparou: “Isso [ocupação de espaço pelos negros] provoca reação. Para muitas pessoas, parece perda de espaço. Isso demonstra como ser branco, na sociedade brasileira, implica em determinados privilégios em detrimento dos direitos dos negros em geral”.

Por mais que eu procure ser isento, me parece, no entanto, que as declarações infelizes dessas duas senhoras denotam a vontade de, antes de promover a igualdade, exercer a vingança.

Embora tenha procurado suavizar o tom provocativo, ainda assim é possível perceber o ranço racista que tem embasado a atuação desse ministério desde a sua criação. Foi assim com a ex-ministra Matilde Ribeiro que exortava o negro a se insurgir contra o branco e está sendo assim com Luíza Bairros que consegue enxergar padrões diferenciados de atrocidade na mesma miséria que flagela e mata os dois, sem distinção. E, pelo entrosamento entre o ministério e a presidência da República, tudo indica que assim será enquanto o PT estiver no poder, aumentando o vazio social que segrega e humilha não pela cor da pele, mas pela falta de moradia digna, pela ausência de uma educação de alto nível que privilegie o saber e dignifique o mérito, pela devastadora falência do sistema de saúde. Pela implacável e precária condição de vida sub-humana que infelicita milhões de brasileiros e vem deixando um aviltante rastro de sofrimento ao longo do caminho.

Acredito que seria muito mais produtivo se a ministra se despisse de sua fantasia de justiceira irrevogável e concentrasse toda a sua energia e recursos financeiros na promoção da igualdade social como único instrumento capaz de reparar distorções evitando, desta forma, que erros do passado possam justificar um acerto de contas no presente, com repercussões catastróficas no futuro.

Ao criar um ministério racista a partir da sua nomenclatura, segregacionista na ação e eleitoreiro na filosofia, o governo federal deu início a uma viagem insólita trafegando perigosamente pela contramão do bom senso. Flerta de modo perigoso com o imponderável, pois a igualdade do modo que está sendo proposta, dependendo dos interesses de quem a patrocina e do grau de tolerância de quem a administra, pode fugir do controle e transformar-se em núcleo oficial do ativismo racial escancarando a porta que dá entrada para o doloroso processo da perda da identidade que mantém unida uma nação e que facilita o acesso ao caminho mais curto para a desordem social. Jamais será cômico, pois tem tudo para ser trágico.

A igualdade entre os brasileiros só será alcançada a partir do momento em que as autoridades se derem conta que a brincadeira de governar já foi longe demais e passou a hora de abandonarem o sonho de tutela que as move, mas que a sociedade abomina e jamais lhes outorgou. O que os negros, e os brancos, menos precisam é da fabricação em série de mitos de araque que só se sustentam na propaganda oficial regada a bilhões de reais e cuja sobrevivência está condicionada à intensidade da miséria que prostra e alicia, nem, muito menos, do surgimento de heroínas de última hora em busca de notoriedade. O que os brasileiros necessitam é de um governo mais compromissado com a garantia de uma educação de qualidade que nivele por cima a garantia de oportunidades iguais, sem o cancro do paternalismo eleitoreiro nem a chancela preconcebida da inferioridade intelectual. Os brasileiros clamam é por um governo menos comprometido com a bandalheira e com a corrupção.

Por mais que se esforcem, as ministras em tempo algum conseguirão colocar sobre meus ombros o peso de uma tragédia cuja responsabilidade nunca foi minha, menos ainda me transformar em cúmplice da insensibilidade que sempre foi delas. Jamais farão me sentir constrangido por ser branco, quanto mais envergonhar-me dos negros, e negras, que eu tenho a honra e o privilégio de ter como amigos, que não se permitem afastar um milímetro sequer das suas raízes, mas não abrem mão do talento natural que os identifica e ultrapassa em muito as fronteiras do business pigmentado da consciência companheira e se complementa por inteiro no orgulho de serem brasileiros. Todos os dias. Tampouco irão persuadi-los de que sou eu o inimigo a ser abatido.

Seus argumentos vazios são incapazes de me convencer que minha tez mais aclareada me faz diferente de outro patrício. O que nos diferencia é o caráter, pois a retidão não é exclusividade nem do branco nem do negro. Minha fé inabalável na possibilidade tangível de um futuro mais venturoso é saber que nesse quesito o povo brasileiro, desprezada a inútil relevância da cor, é infinitamente mais confiável do que aqueles que o governam.

As injustiças têm que ser sanadas, sem que para isso se busque a implantação do rancor e da discórdia. Uma abjeção não justifica a outra. Sob a mesma bandeira que dá guarida à nossa brasilidade saberão conviver em paz, negros, brancos, amarelos e vermelhos. Apesar das Matildes, das Luízas e dos Luizes!

OBRA-PRIMA DO DIA (ARQUITETURA) Um tesouro da arquitetura medieval na Lombardia, Itália


A 'Gratiarum Cartusia' (Mosteiro de Nossa Senhora das Graças), mais conhecido como Certosa di Pavia, começou a ser erguido em 1396 por ordem de Gian Galeazzo Visconti para servir de mausoleu para sua família. Trata-se de um complexo histórico monumental que compreende um mosteiro e um santuário. Abaixo, a nave central da Abadia.

    
Sob o comando de diversos arquitetos, ficou em obras do século 15 ao 16. Em seu pátio interno (abaixo), à direita fica o antigo palácio dos Duques de Milão e à esquerda o estúdio dos escultores encarregados da decoração.


Durante todo esse tempo foi adquirindo estilos variados, do gótico-tardio ao renascimento, e exibe inovações arquitetônicas e artisticas de muitos mestres de seu tempo. 

Foram três as comunidades religiosas que ocuparam e administraram a abadia: logo no início a dos Cartuxos; depois passou para a Cisterciense; e mais tarde, por um breve período, para a Beneditina. Depois da unificação do Reino da Itália, em 1866, a Certosa di Pavia foi declarada monumento nacional e como quase todos os outros bens artísticos e eclesiásticos do reino, passou a ser propriedade do Estado. Desde 1968 está aos cuidados dos monges cistercienses.



Apesar de nunca ter sido terminada, sua fachada é apreciadíssima pela riqueza da decoração. A metade inferior, de decoração mais rica, foi executada entre os anos de 1473 e 1499 pelos irmãos Mantegazza e pelo arquiteto-escultor Amedeo, proveniente de Bergamo, e seu aprendiz Briosco. Já a parte superior é obra do arquiteto-escultor Cristoforo Lombardo, que foi quem terminou a construção em 1560. 

Durante todo o tempo em que foi construída, e mesmo depois, o mosteiro foi sendo constantemente enriquecido e por isso se constitui em testemunho histórico das artes na Lombardia.



A igreja é em cruz latina com três naves, abside e transepto que receberam como cobertura abobadas apoiadas em colunas ricamente decoradas (acima).

                                                   Túmulo de Gian Galeazzo Visconti

A Sacristia, no início constituída por duas partes, o Capítulo e a Biblioteca, foi transformada num local único e é decorada com afrescos da autoria de Pietro Sorri, que já havia decorado a cúpula do transepto. O seu estado de conservação é admirável.
A Biblioteca, inicialmente destinada a reunir os livros litúrgicos necessários às celebrações diárias, a partir de meados do século 17 passou a reunir textos profanos por orientação do padre Matteo Valerio (1634-1637), importante figura da literatura italiana e autor da Memorie della Certosa di Pavia, instrumento fundamental para a reconstrução da história do mosteiro entre 1487 e 1645. Abaixo, estátuas em mármore sob um afresco que retrata o momento em que Gian Galeazzo doa a Certosa à Madona.



Hoje, na Biblioteca da Certosa di Pavia encontram-se apenas os livros referentes à Liturgia e partituras musicais que seguem o ano litúrgico e que são um verdadeiro tesouro para os estudiodos da música medieval. Os outros livros foram divididos entre a Biblioteca Nacional em Milão e a Biblioteca Universitária de Pavia.

                                                         Vista lateral da Abadia  

Certosa di Pavia, Lombardia, Itália

Cartas de Berlim: Berlim não fica na Alemanha, por Albert Steinberger


Já ouvi esta frase diversas vezes e ditas por pessoas de diferentes regiões da Alemanha. A minha primeira reação sempre foi de choque. Afinal de contas a afirmação vai contra tudo o que aprendi nas minhas aulas de Geografia. Mas a explicação que geralmente sucede tal afirmativa costuma fazer sentido.
A Alemanha tem culturas regionais muito fortes. Até 1871, nem existia um país unificado por aqui. O que entendemos por cultura germânica no Brasil costuma ser os costumes da região da Baviera.
Aquela cena típica de um alemão de Lederhose (aquela calça/bermuda de couro) entornando um caneco de um litro é bem distante do meu dia-a-dia, apesar da Oktoberfest estar se aproximando.
Berlim é a cidade diferente da Alemanha. Na época do muro de Berlim, uma cidade dividida. Ou no caso de Berlim Ocidental, ilhada, já que ficava completamente cercada pela Alemanha Oriental.
Naquela época, muitos jovens de toda a República Federativa alemã se mudavam para Berlim, porque o serviço militar não era obrigatório. Isto ajudou a cidade a ter esta cara tão marcada pela contestação e a contracultura. 
Aqui é onde, na Alemanha, as regras são mais passíveis de serem quebradas e é aceitável até mesmo se atrasar. Mas nunca mais do que 15 minutos. Até dirigindo, os berlinenses são diferentes.
Entre as infrações mais comum por aqui, estão o estacionamento em fila dupla e o excesso de velocidade dentro das cidades.
E depois da reunificação, a cidade atraiu ainda mais investimento e pessoas de toda a Alemanha e de todo o mundo. A identidade de Berlim é, por isso, uma coisa difícil de se estabelecer.
A piada, inclusive, é que se você mora em Berlim há mais de dez anos, você já tem o direito de se intitular berlinense.
Para mim, ainda faltam oito invernos até que eu possa dizer, Ich bin ein Berliner (eu sou um berlinense), seja lá o que isso seja.

Moradores de Berlim Oriental se aglomeram em cima do muro que separava as duas Alemanhas, 10-11-1989 - Foto: Andreas von Lintel / AFP 

Albert Steinberger é repórter freelancer, ciclista e curioso. Formado em Jornalismo pela UnB, fez um mestrado em Jornalismo de Televisão no Golsmiths College, University of London. Atualmente, mora em Berlim onde trabalha como repórter multimídia para jornais, sites e TVs. Escreve qui todas as terças-feiras

Dúvidas sobre a democracia de Marina Silva


O Globo
Pelas próprias características do tema, propostas econômicas tendem a ser mais objetivas. A candidata Marina Silva (PSB) não poderia ser mais clara em pontos básicos de seu programa de governo, neste campo: restaurará o chamado “tripé” — metas de inflação, responsabilidade fiscal e câmbio flutuante —, para estabilizar a economia; formalizará a autonomia operacional do Banco Central, com mandato fixo para diretores; metas fiscais destinadas à União e instituição do Conselho de Responsabilidade Fiscal com a missão de auditá-las, entre outros itens.
Já no campo político, o texto do programa de Marina não tem a mesma objetividade, é perigosamente vago. Admita-se que também o tema contribui para algum devaneio. Mas não necessariamente.
É óbvio que todos os partidos e candidatos se autointitulam democratas. E não há por que duvidar deles. O xis da questão é saber o entendimento do candidato sobre os mecanismos de funcionamento do regime de democracia representativa, estabelecido na Constituição.
Reconhece-se, e não apenas no Brasil, que este tipo de regime — o melhor já criado até hoje — deve passar por aperfeiçoamentos, para aproximar as ruas dos centros de decisão, mas sem abalar o sistema de representação. 
Nos Estados Unidos, por exemplo, estados decidem por plebiscitos uma série de questões objetivas locais, em que cabem respostas binárias — sim ou não. (Daí ter sido um equívoco da candidata Dilma Rousseff, no debate da Bandeirantes, citar os plebiscitos americanos para justificar consultas populares no Brasil sobre temas intrincados como a reforma política).
Marina Silva e o PSB se propõem a fazer uma “democratização da democracia”. A candidata precisa esclarecer o que é isso. Até porque seu berço ideológico é o mesmo de frações do PT que namoram métodos de “democracia direta” desenvolvidos nos laboratórios do bolivarianismo chavista — arranjo de poder em grave crise na América Latina.
Constam do programa da candidata algumas platitudes: “a política precisa absorver a mensagem de reconectar eleitos e eleitores”; “vamos ampliar a participação, a transparência e a ética e, ao mesmo tempo, tornar mais eficiente o funcionamento das instituições republicanas (...)”. Isso com a ajuda da internet, como, de fato, pode ser.
Falta clareza. Em específico, sobre o papel do Legislativo nesta “democratização da democracia”. Este ponto é estratégico até porque Marina Silva se tornou forte candidata numa trapaça do destino, sem que tenha partido próprio. O PSB apenas a hospeda.
Sem comparar pessoas, a experiência histórica é negativa quando candidatos pensam poder prescindir da estrutura partidária. O que se agrava caso, sob o pretexto de se dar mais legitimidade às decisões, fundamentos da democracia representativa sejam adulterados.