quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

CHOQUE DE GESTÃO - MÔNICA BERGAMO


FOLHA DE SP - 08/01

São Paulo é um dos Estados com maior número de municípios que ainda não assumiram a manutenção da rede de iluminação pública no país, como determina a Constituição. Apenas 145 das 645 cidades paulistas fizeram a transferência para a administração municipal no prazo estipulado pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).

CHOQUE DE GESTÃO 2
A data limite fixada para o fim de 2013 foi prorrogada para dezembro de 2014. De acordo com a Aneel, apenas 65% dos municípios brasileiros cumpriram a determinação. Além de São Paulo, os Estados mais atrasados são Minas Gerais, Pernambuco, Ceará, Amapá e Roraima. As prefeituras alegaram dificuldade na criação da Contribuição de Iluminação Pública para custear o serviço.

CHOQUE DE GESTÃO 3
A capital paulista é um dos municípios que fizeram a transição. Criou uma empresa pública, a Ilume. Outros optaram pela terceirização. A Secretaria de Estado de Energia preparou cartilha para auxiliar os gestores municipais no processo. A maioria dos prefeitos empurram com a barriga a criação da taxa.

TERRA E AR
A família Guinle deu mais um passo para provar na Justiça que a União rompeu os termos da doação da área que abriga o aeroporto de Cumbica. Em 1940, o terreno foi doado por eles ao Ministério da Guerra para ser um aeródromo militar. O imbróglio começou após o aeroporto ter 51% de seu controle privatizado.

TERRA E AR 2
Em 9 de dezembro, a família registrou ata em cartório para documentar o caso. "Eles (a União) queriam desqualificar a escritura de doação dizendo que era antiga. A ata torna os fatos incontroversos", diz Fabio Goldschmidt, advogado dos Guinle. A Advocacia-Geral da União afirma "que é indevida a tentativa de reverter a doação da área".

TERRA E AR 3
Os herdeiros querem entrar com ação contra a União e a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) até março.

PEIXINHO
o mais novo piloto do clã Piquet, Pedro, 15, vai disputar sua primeira corrida de carro neste fim de semana. Ele está na Nova Zelândia para competir na Toyota Racing Series, categoria de formação disputada em cinco etapas. Será o mais novo do grid de largada.

PEIXINHO 2
Recuperado da cirurgia cardíaca feita no ano passado, Nelson Piquet embarcou com o filho logo após o Ano-Novo. O herdeiro do tricampeão de F-1 leva na bagagem resultados no kart, como o troféu FIA Academy na Itália em 2013, espécie de mundial para jovens.

MEDIDA CERTA
Preta Gil passa temporada no spa Sete Voltas, desde o dia 2, acompanhada do namorado, Rodrigo Godoy, do amigo e apresentador Gominho e de uma assessora. Após perder 7,9 kg no "Medida Certa", a cantora aderiu à dieta de 800 calorias por dia, com muita soja. Myriam Abicair, dona do spa, diz que a hóspede famosa não quer ouvir falar em exercícios, enquanto o namorado malha e não tem restrição alimentar.

DE ESPARTILHO
Adriana Alves vai encarar duas personagens de época no cinema em 2014. Namorada do chef Olivier Anquier, a atriz foi escalada para "Helena", adaptação da obra de Machado de Assis, com direção de Sérgio Araújo. Em "Dona Beja", de Débora Torres, fará o papel de Dona Crioula.

BRINDE NA PAULISTA
Os empresários Sérgio Kalil e Lygia Lopes receberam convidados anteontem no aniversário de 20 anos do restaurante Spot, nos Jardins. O ex-jogador de futebol Raí e a namorada, Viviane Lescher, o ator Tato Gabus Mendes, a blogueira Julia Petit e a designer Nasha Gil foram ao coquetel. A stylist Flavia Brunetti, o cineasta Arnaldo Jabor, os atores Tuna Dwek, Claudio Curi e Linda Conde e o DJ Felipe Venancio também estiveram na comemoração.

CURTO-CIRCUITO
A peça "Pedro e o Capitão" retoma temporada hoje, às 20h, no CCBB-SP. Em cartaz até 19/1. 16 anos.

Fabrício Carpinejar lança o livro "Vida em Pedaços" na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Amanhã, às 19h.

A turnê do Guns N' Roses no país vai passar por Belo Horizonte (22/3), Brasília (25/3), São Paulo (28/3), Curitiba (30/3), Florianópolis (1/4) e Porto Alegre (3/4).

Russos estão chegando - ANCELMO GOIS


O GLOBO - 08/01

A Fifa está esperando para a Copa do Mundo de 2014, aqui, a chegada de uns 55 mil mexicanos, 50 mil ingleses, 40 mil italianos, 30 mil holandeses e 25 mil russos.
A maioria fará algum tipo de escala no Rio.

Os alcaguetes
A Comissão da Verdade do Rio localizou, no Arquivo Público do Estado do Rio, uma lista de 411 funcionários públicos que, além dos salários, receberiam um dindin por fora para dedurar inimigos da ditadura.
Na lista, entre os alcaguetes, recrutados pelo Dops, está o policial Mariel Mariscotte, acusado de ser do Esquadrão da Morte.

Acadêmicos da seca
O presidente da Cedae, Wagner Victer, estava, sábado, na quadra da União da Ilha do Governador, quando Letícia Martins, rainha do carnaval do Rio em 2014, aproximou-se e disse:
— A casa da minha mãe, em Belford Roxo, está sem água faz tempo!

Mãe boa
Luana Piovani, a atriz e mãe do pequeno Dom, está cada vez mais envolvida com o universo infantil. A bela começa a ensaiar, na próxima semana, seu novo espetáculo para crianças.
Com texto de Adriana Falcão e direção de Gabriel Villela, a peça “Mania de explicação” vai contar a história da menina Isabel, que gosta de inventar novos significados para as palavras.

No mais
Na mitologia nórdica, o mundo tem nova data para acabar: 22 de fevereiro de 2014.
Mas o apocalipse já começou pelo Maranhão de Sarney.

A Igreja se mexe
Papa Francisco mandou mensagem de saudação aos participantes do 13º Encontro Nacional das Comunidades Eclesiais de Base, que vai de hoje até sábado, em Juazeiro do Norte, no
Ceará, terra do “Padim Ciço”.
É a primeira vez que um Papa faz isto.

Como se sabe...
As CEBs, por causa de sua ligação com a luta política no passado, foram satanizadas pela cúpula da Igreja.

A voz da favela
Vários eventos estão sendo organizados para celebrar o centenário de Carolina Maria de Jesus (1914-1977). Trata-se da autora do livro “Quarto de despejo”, que foi traduzido para 13 línguas.
Em abril, ela será homenageada no VI Colóquio Mulheres em Letras, em Minas. A abertura será feita pelo historiador José Carlos Sebe Bom Meihy, autor do livro “Cinderela negra: a saga de Carolina Maria de Jesus”.

Em tempo...
Negra e catadora de papel, ela foi descoberta para a literatura pelo coleguinha Audálio Dantas, numa favela onde hoje fica o estádio da Portuguesa, em São Paulo.

Batalha das Canoas
O Comitê Rio450, como aperitivo das comemorações pelos 450 anos da cidade do Rio, ano que vem, realizará, sexta agora, um evento em plena Baía de Guanabara, na altura do Flamengo. 
De um barco, dom Orani Tempesta, o arcebispo do Rio, fará orações e jogará flores ao mar em memória de índios, portugueses e franceses que morreram na famosa Batalha das Canoas, em 1566.

Mãozinha...
Reza a lenda que durante a Batalha das Canoas a imagem de São Sebastião teria aparecido em meio à fumaça, afugentando os bravos índios tamoios, aliados dos franceses.

A vida não é justa
A Editora Agir vai lançar, este ano, o segundo livro da série “A vida não é justa”, da juíza Andréa Pachá.
O primeiro, com histórias de encontros e desencontros numa Vara de Família, vendeu, até agora, 30 mil exemplares.

Estrela solitária
Uns apaixonados torcedores do Botafogo se juntaram e criaram, como se sabe, o grupo Botafogo Sem
Dívidas, que trabalha para ajudar o clube a pagar o que deve à Receita Federal. Em um dia, a turma conseguiu arrecadar R$ 17 mil.
Agora, só faltam uns R$ 129 milhões.

Cena carioca
Um casal que visitava, sexta passada, o Museu Imperial, em Petrópolis, na Região Serrana do Rio, ficou impressionado com uma cadeirinha de arruar, aquele meio de transporte de tração humana muito comum por aqui nos séculos XVII e XVIII. A mulher soltou:
— Nossa! Cabiam duas pessoas aí? Mas é muito apertado.
E o marido:
— E você ainda reclama da Fiat Uno. Há testemunhas.

Cuidado com seus projetos - MARCELO COELHO


FOLHA DE SP - 08/01

No centenário da Primeira Guerra Mundial, o perigo das previsões merece ser lembrado


Previsões e planos, duas coisas comuns nesta época do ano, costumam sofrer depressa o desmentido dos fatos. Raras vezes esse desmentido foi tão brutal, contudo, quanto na Primeira Grande Guerra, cujo início faz cem anos agora em 2014.

Comecei a ler um pouco sobre o assunto, para depois resenhar os livros que estão programados para a efeméride. Pelo que andei vendo, um bom ponto de partida é o estudo de Barbara Tuchman, publicado pela primeira vez em 1962.

Chama-se "The Guns of August" e representou uma virada nas interpretações sobre o período. Ela relativiza, por exemplo, a importância do famoso assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando em Sarajevo --tantas vezes mencionado, numa síntese que nunca explica muita coisa, como sendo o "estopim" da Primeira Guerra.

A autora de "A Marcha da Insensatez" (Bestbolso) dá ênfase a toda a verdadeira máquina infernal de preparativos militares, tanto da Alemanha como das demais potências, que tornava qualquer ameaça de conflito praticamente impossível de reverter. Na narrativa de Tuchman, planos desse tipo se chocam com as previsões, que eram muitas também. Como em todo ano novo, 1914 encenou dramaticamente a ironia entre o que se quer que aconteça e o que se pensa que vai acontecer.

Nunca entendi por que o famoso filme de Jean Renoir sobre a Primeira Guerra se chamava "A Grande Ilusão". Que ilusão? A de que pessoas de diferentes nações são diferentes entre si? A de que a amizade entre um alemão e um francês pode superar rivalidades? A ilusão é a paz? Ou a ilusão é a guerra?

Graças ao livro de Tuchman, aprendi que "A Grande Ilusão" é o título de um estudo escrito pelo inglês Norman Angell (1872-1967). A obra fez sensação na "belle époque".

Demonstrava-se, ali, a improbabilidade absoluta de uma nova guerra europeia. Os recursos técnicos e humanos à disposição de cada país eram tão vastos que qualquer conflito seria suicídio: mesmo a nação vitoriosa emergiria dele totalmente arruinada e destruída. Num mundo interessado no lucro, quem apostaria em prejuízos de tal monta?

O livro saiu em 1910. Ninguém menos do que o chefe do Conselho de Guerra do Império Britânico, Lord Esher, entusiasmou-se com a tese e tratou de divulgá-la em palestras e cursos. Uma das figuras máximas do militarismo alemão, o marechal Von Moltke (1800-1891), já enunciara ideias semelhantes. As guerras por vir jamais seriam curtas, e o seu preço, mesmo para o país vencedor, seria catastrófico.

Enquanto as previsões iam nessa toada, os planos caminhavam em sentido contrário. Ou melhor: levando em conta os mesmos fatos, conduziam a uma conclusão oposta.

Sabendo-se que todas as potências eram fortíssimas, e que uma guerra longa e custosa poderia acontecer, o único método para garantir a vitória consistiria em atacar de uma vez, o mais cedo possível...

Beneficiando-se de uma ofensiva-surpresa, que passasse por cima da Bélgica, tão fraca e tão neutra, os alemães contavam chegar a Paris em questão de semanas. Do lado francês, o Estado-Maior concluía, em 1913, que "só a ofensiva conta".

Estabelecido o dogma militar, parece pesar pouco a vontade dos participantes no momento em que o drama se aproxima. Esta, pelo menos, é a interpretação de Barbara Tuchman, que narra um episódio arrepiante com o Kaiser alemão.

Não se tratava, evidentemente, de nenhum pacifista. Mas a guerra entre Alemanha e Rússia já estava declarada, e era do interesse de qualquer estrategista evitar que França e Inglaterra entrassem no conflito. Para os alemães, sempre seria um pesadelo dar conta de duas frentes --a do Oeste e a do Leste-- ao mesmo tempo.

Surge uma chance. Eram cinco horas da tarde do dia 1º de agosto de 1914 quando aparece, em Berlim, um telegrama em código informando que os ingleses estavam dispostos a manter-se neutros na guerra, caso os alemães se comprometessem a não atacar a França.

Mas todos os planos para o ataque já estavam em movimento. O Kaiser hesita: e se for um blefe? E se os franceses atacarem antes do mesmo jeito? Conversa com seu chefe de Estado-Maior.

Moltke, o Jovem (sobrinho daquele marechal do mesmo nome que previa ruína e exaustão para os vencedores), já não tinha paciência para com os palpites do imperador. Como se lê em "Os Três Imperadores", de Miranda Carter (Objetiva), Guilherme 2º desde cedo manifestava grande vaidade intelectual, achava que entendia de tudo.

Moltke chorou ao ver aquelas tentativas apaziguadoras do Kaiser. Era hora de deixar a guerra para os militares, que entendiam do assunto. Assim foi feito.

Previsões e planos para 2014? Por vezes, não fazer nada já é uma iniciativa e tanto.

Mary Poppins, Sherlock e um filme datado - ARTUR XEXÉO


O GLOBO - 08/01

P.L.Travers era o pseudônimo com que a escritora australiana Helen Lybdon Goff assinava a série de romances infantis protagonizados por Mary Poppins. Não me lembro de Mary Poppins ser um personagem de sucesso no Brasil antes do lançamento do filme da Disney em 1964. Mas, na verdade, Travers escreveu, entre 1934 e 1989, oito livros sobre a babá voadora, todos muito populares na Grã-Bretanha. Walt Disney passou 20 anos tentando comprar os direitos de adaptação para o cinema das aventuras de Mary Poppins, mas a escritora nunca fechou negócio. Ela temia que uma adaptação hollywoodiana mudasse a personalidade de seus personagens, não queria que o o possível filme fosse um musical e rejeitava qualquer tentativa de transformar seus livros num desenho animado. Mas, em 1961, a vida financeira de Travers não estava muito saudável e ela vendeu os direitos, com a condição de que teria que aprovar o roteiro. Em 1961, saiu de Londres, onde estava radicada desde 1924, e passou duas semanas em Los Angeles trabalhando com Disney na pré-produção do filme. “Walt nos bastidores de Mary Poppins”, que estreia no Brasil no dia 7 de fevereiro, conta o que teria acontecido nessas duas semanas.
Com Tom Hanks no papel de Wald Disney (ele está muito bem, melhor que em “Capitão Phillips”, e deve ganhar uma indicação para o Oscar de melhor ator coadjuvante) e Emma Thompson como P.L.Travers (ótima, indicação garantida para melhor atriz, mas vai acabar perdendo o Oscar para Cate Blachet em “Blue Jasmine”), o filme tem muito pouco a ver com o título que recebeu no Brasil. “Saving Mr. Banks”, o original, é uma referência ao “pai’ das histórias de Travers, um personagem inspirado em seu próprio pai. O filme mostra duas narrativas. Na primeira, os tais bastidores de Mary Poppins do título brasileiro. Na outra, a infância de Travers, na Austrália, com o pai alcoólatra, a mãe sofredora e uma tia que era a Mary Poppins em pessoa. Nos bastidores, Travers trabalha para salvar no roteiro a imagem de seu personagem e, no fim das contas, salvar a imagem do próprio pai.
“Walt nos bastidores de Mary Poppins’ é sensível como poucos filmes dessas temporadas de Oscar sabem ser. Se superar a esquisitice do título brasileiro, o espectador certamente vai se emocionar.
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O ano mal começou e a televisão britânica já tem um fenômeno de audiência em 2014. O país parou no dia 1º para ver o primeiro episódio da terceira temporada de “Sherlock”, a série de TV que traz para a Londres de hoje o personagem de Arthur Conan Doyle. “Sherlock” é um sucesso de audiência desde sua estreia em 2010. Mas o episódio da semana passada tinha um apelo a mais para atrair 9,2 milhões de espectadores (a maior audiência do programa desde seu lançamento). Afinal, a última vez que Sherlock foi visto, no último episódio da segunda temporada, ele estava... morto. Isso foi há dois anos. Portanto, há dois anos os espectadores consideravam a série encerrada. A curiosidade era justificada. Como os roteiristas resolveriam o caso? Como Sherlock ressuscitaria? O episódio apresentou três alternativas para a ressurreição de Sherlock. Nenhuma convenceu muito o público. Ninguém entendeu muito bem qual das três deveria ser considerada a verdadeira. Mas o programa bombou.
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Não vou bancar o chato e dizer que não gostei de “A grande beleza”, o filme italiano que vem conquistando público e crítica. Não fiquei embasbacado, como todo mundo, mas gostei do filme. Diante da dieta de filmes americanos tolos que a gente se sente na obrigação de ver nesta época do ano só porque estão dizendo que talvez eles sejam candidatos ao Oscar, “A grande beleza”, provável candidato a melhor filme estrangeiro, é um refresco. O problema é que... é tão anos 60! A estética, as questões, a crítica, a Itália, tudo parece saído de um filme que foi visto 50 anos atrás. Bem, muita gente que está babando o filme não tinha nem nascido 50 anos atrás. Tudo bem que se deslumbrem com o que aparentemente é novo. Mas as locadoras de vídeo, as emissoras de televisão a cabo, a pirataria na internet estão aí para cobrir esse buraco. “A grande beleza” é tudo isso que estão dizendo. Mas é também irremediavelmente velho.
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Outro dia, falando de Coccinelle, falei também de calças rancheiras. Foi isso que valeu o e-mail do leitor Allan Assrany: “Aqui em Belo Horizonte, as rancheiras eram conhecidas como calças faroeste, e o Colégio Santo Agostinho, além de proibir o seu uso, colocavam um irmão na entrada para levantar um perna de nossas calças e averiguar se não usávamos keds (tênis, só mais tarde).”
Esse negócio de irmão levantar a perna da calça de aluno, hoje em dia dá processo.
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Leio que, após uma menina de três anos cair de uma altura de sete metros dentro do Galeão, fiscais do Procon visitaram o aeroporto e descobriram que o ar condicionado não funciona, que os elevadores estão parados, que o bebedouros não têm água, que a esteira que liga o Terminal 1 ao 2 tem uma canaleta quebrada... Vem cá, precisava ocorrer um acidente para o Procon descobrir o que qualquer carioca já sabe há alguns anos?

Como as festas nos devoram - ROBERTO DAMATTA


O Estado de S.Paulo - 08/01

Passado o período das "festas", vivemos um típico retorno às rotinas de um necessário conformismo humano diante da "realidade" - trabalho, problemas, preocupações...

Há algo básico nesse processo: o fato de que até segunda ordem a maioria vive sem nenhum brilho ou representa um papel de destaque na vida social. A festa (como o esporte que é o seu lado mais oficioso) obriga a uma fabricação fora do "real" - não seria melhor gastar em segurança, saúde e escolas? Por isso, elas inventam objetos e lugares especiais, preferencialmente de cabeça pra baixo, sobretudo no caso dos sistemas muito bem marcados por uma séria consciência de lugar, como é o caso brasileiro.

Sem o famoso "bolo de aniversário" ao gosto do aniversariante e com seu nome nele gravado a chocolate, como era o meu caso, não pode haver o teatro que alguns chamam de "ritual". Objetos e comidas especiais levam ao uso de roupas e adereços que distinguem papéis e pessoas. Mesmo sem conhecer, sabemos quem é o aniversariante por sua roupa e sua posição na mesa. É ele e é dele o dever privilégio de apagar as velas do seu bolo, que será devidamente comido por todos os convidados.

Diz um velho axioma que todas as culturas replicam seus valores em suas manifestações, mesmo as mais humildes. São essas redundâncias que promovem as certezas, como dizia Edmund Leach; ou essas invariantes, no linguajar de Lévi-Strauss. Réplicas idênticas a si mesmas que vão do mais sério ao mais vulgar. Dou um exemplo: no Brasil, as festas têm que ter música; comemos misturando a comida. O detestável "bandejão" é uma invenção americana, na qual tudo é sempre individualizado. No uso das máscaras, desmascaramos a ilusão elitista de que somos alienados.

Seria preciso remarcar que o tema oculto das festas de aniversário, com as quais internalizamos a ideia de "idade" e de pertencimento a uma família (cuja obrigação é produzir a festa), tem tudo a ver com a comensalidade comunitária do canibalismo cristão? Nele, Cristo se une ao pão e ao vinho e os distribui dando a cada um, no ato de comer em conjunto, a mesma comida, a consciência precisa de seu pertencimento a ele e a toda a coletividade nele focada e por ele criada.

Comer a mesma comida é essencial para pertencer. No aniversário, somos obrigados a "comer" o bolo do Juquinha, o qual é um símbolo do próprio aniversariante, que, por sua vez, se delicia comendo com gosto o maior pedaço de si mesmo; depois de, como um velho Deus, soprar para apagar as velinhas que marcam as suas "primaveras". Eis o tema do comer, do devorar, do englobar e do assentar o outro dentro de si mesmo como um ato de comunhão ou um gesto de superioridade. Eis de volta o canibalismo fundacional que significa, entre muitas coisas, o dar-se em sacrifício a uma pessoa ou grupo - o extremo do altruísmo. Ou, como remarcou Freud, tomar consciência dos limites que nos tornam humanos. Morrer apaixonadamente por amor e matar heroicamente por amor. Fiquemos nessa paisagem.

As festas exigem locais e, no caso dos rituais de passagem de ano - de um tempo em que toda a humanidade aniversaria - a praia (mediadora entre a terra firme e fechada por propriedades e o mar aberto, líquido e sem fronteiras visíveis) e os fogos de artifício acentuam o orgasmo formidável, embora, é claro, fugaz. Eles são explosões benéficas que fazem parte do que imaginamos como "graça" ou "milagre". O morrer-nascendo ou o nascer-morrendo da consciência explosiva de alguma coisa como acontece quando escapamos de um perigo ou entramos num templo, juntam ou rejuntam esses polos que a rotina e o princípio da realidade distinguem de modo absoluto. No caso, o nascer como oposto do morrer, justo o que se pretende negar na passagem de um ano a outro porque o que se almeja é, obviamente, um belo futuro e não o fim do mundo. Marcamos 2013 sem deixar de querer que 2014 seja uma adição numa série infinita.

Os fogos de artifício enfatizam o fim sem negar o começo. As bombas se repetem para eliminar as distâncias entre o "ser", o "ter sido" e o "vai ser". Elas são ajudadas pelos fogos e, pela presença das celebridades que, cantando e dançando, brilham e trabalham para nós, dignificando vidas comuns.

Os famosos precisam de nós, tal como os deuses precisam de devotos. O que seria de um cantor sem um auditório? Os santos, as celebridades, os muito ricos e poderosos, abrem-se ao encontro e recebem de volta aquela vida trivial que também é deles, mas que a fama tem o papel de esconder. O grande feiticeiro sabe que não faz nada, exceto quando encontra o impotente sofredor que, com uma fé absurda, o procura em busca de cura.

Em toda festa, nos sujeitamos a uma contaminação ampliada pela eventual presença dos famosos. Nas comemorações, juntamos o velho com o novo, a vida com a morte, o superior com o inferior e com ajuda do nobre e mero álcool e dos "fogos de artifício" (fogos de mentira, porque os de verdade, matam); cortamos a água do grandioso rio do tempo que corre sem parar e não pode ser pisada duas vezes.

Outro valor se alevanta - ZUENIR VENTURA


O GLOBO - 08/01
Na semana em que Portugal perdeu o seu gênio do futebol, o Pantera Negra Eusébio, tomei conhecimento da importância de outro português, que pode estar promovendo uma revolução em área diferente, na medicina, mais precisamente no diagnóstico de câncer. É o cientista Tiago Brandão Rodrigues, de 36 anos, pesquisador da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, que chegou aos jornais e à televisão, não só de seu país, por ter desenvolvido uma técnica de ressonância magnética que aumenta a sensibilidade do equipamento tradicional em até 100 mil vezes, permitindo maior eficácia na detecção e tratamento de tumores. Logo depois de publicada a revelação na revista científica Nature Medicine , a notícia espalhou-se pela imprensa europeia e conferiu ao autor da inovação uma inesperada notoriedade.
Com nosso complexo de superioridade em relação aos nossos ancestrais, não sei se vamos engolir esse sucesso sem uma boa dose de inveja. Em relação a Eusébio, a quem eles chamam de rei , foi sempre fácil aceitar sua glória porque temos Pelé, o rei dos reis, com quem ele jamais quis rivalizar, como Maradona tenta, por exemplo. Mas quanto a esse jovem cientista, não sei, ainda mais que há lá quem acredite que ele possa vir a ser um possível candidato ao Nobel, onde estamos perdendo por 2 x 0: em Literatura, com José Saramago, ganhador do prêmio em 1998, e em Medicina, com Egas Moniz, em 1949. É bem verdade que nesse último caso houve controvérsia. Depois de indicado quatro vezes pela descoberta da angiografia cerebral, que tornou possível localizar neoplasmas, aneurismas, hemorragias, ele acabou sendo laureado pela discutível lobotomia, uma brutal intervenção cirúrgica no cérebro para o tratamento de doenças mentais como a esquizofrenia. A técnica, que foi muito popular principalmente nos EUA, deixou de ser praticada em 1960, banida pelas organizações médicas. Familiares de pacientes lobotomizados chegaram a tentar anular a atribuição do Nobel a Egas Moniz.

No caso do aperfeiçoamento da ressonância magnética, porém, parece não haver risco nem contraindicação, só benefícios.

Em mais de 40 anos morando na Zona Sul do Rio, estas últimas semanas foram as primeiras em que evitei caminhar no calçadão de Ipanema sob o inclemente sol deste verão, como costumava fazer religiosamente. Pode não significar nada para os indicadores meteorológicos oficiais, mas para meu sistema térmico foi um marco, um triste e inédito acontecimento. Para piorar, havia o mau cheiro do mar e a má aparência de uma estranha espuma atribuída às algas e que, mesmo sem fazer mal à saúde, como alegaram as autoridades ambientais, enfeava a paisagem, com seu aspecto viscoso e sua cor amarelada. Pena dos turistas nacionais e estrangeiros que vieram pelas praias.

Na dúvida, não ultrapasse - MARTHA MEDEIROS


ZERO HORA - 08/01

Basta alguém mencionar a expressão “on the road” para nos seduzir. Cair na estrada? Nem é preciso chamar duas vezes, convite aceito. Lá vamos nós de mochila, boné e óculos escuros, em boa companhia, escutando música vibrante e com um enorme mapa nas mãos – sim, de papel, nada de GPS e aplicativos, onde fica o romantismo das velhas aventuras?

Sempre fui fascinada por estradas. As que atravessam cordilheiras, as que cruzam desertos, as que se avizinham de plantações, as que costeiam o mar, as que passam em meio a pequenos vilarejos, as de terra, as asfaltadas, as estreitas, as desafiadoras, as que parecem que vão dar em lugar nenhum – mas sempre dão.

Estrada é movimento, liberdade, beleza, poesia. Sem falar no erotismo que ela insinua – não sei se por causa das curvas ou do quê.

Estamos na temporada mais festejada do ano: sol, praia, férias, e elas, as estradas. Mas corta! Onde estão o cenário, as cenas de filme, o charme? Estamos falando de BR-101, BR-116, RS-040 e demais vias lotadas de veranistas afoitos e caminhoneiros cansados, de carros velozes e de outros que já deveriam ter sido aposentados, de gente que corre demais e que, na dúvida, aí mesmo é que ultrapassa. Dã.

Lembro de escutar uma história sobre um cara que, ao ver um carro se aproximando na pista contrária bem no momento em que ele estava ultrapassando, em vez de recuar, acelerava ainda mais, enquanto berrava para quem vinha: “Vai se ferrar, vai se ferrar!!” (o verbo não era exatamente ferrar).

Muito engraçado. Mas eu não gostaria de pegar uma carona nessa piada.

Não importa quem é o imprudente, se o motorista de lá ou de cá, se quem vem ou quem vai, se quem é defensivo ou agressivo: basta um deslize e todos se ferram. Todos. Um pneu que estoura de repente, um irresponsável que bebeu antes de dirigir, um alucinado que pisa fundo para homenagear o Schumacher, um impulsivo que toma decisões sem pensar, um ansioso que não tolera perder 10 minutos e segue pelo acostamento, um que acredita que os outros motoristas têm bola de cristal e por isso não vê necessidade de acionar o pisca-pisca, outro que mal distingue se o carro que está 50 metros à frente está indo ou vindo.

Estrada é movimento, liberdade, beleza e poesia – mas quando vazia, quando estamos em locais onde a sinalização é espetacular e o asfalto parece um tapete, quando não há pressa em chegar, quando não há fluxo intenso, quando não prevalece a cultura da superpotência em quatro rodas, quando estamos a passeio, e não armados para uma guerra. Não na temporada de férias num país onde a imprudência ganha as manchetes dos jornais toda segunda-feira de manhã, depois das ultrapassagens arriscadas do final de semana.

Pegar a estrada é eletrizante, com certeza. Mas, motoristas, duvidem mais.