domingo, 5 de janeiro de 2014

Pequenas lições para 2014 - GAUDENCIO TORQUATO


O ESTADÃO- 05/01

O ano que se inicia será um dos mais competitivos das últimas décadas. Principalmente na esfera da política. As razões apontam para o esgotamento do nosso modelo de fazer política, a partir de velhas práticas de campanhas. O desenho é carcomido pela poeira do tempo: são raros perfis identificados com mudanças; formas de cooptação eleitoral se inspiram nos eixos históricos do fisiologismo e do corporativismo, sendo tênue o engajamento do eleitor pela via doutrinária; eleitos, via de regra, acabam distanciando-se das bases, deixando de lado compromissos assumidos; a representação parlamentar, em função do poder quase absoluto do presidencialismo, torna-se deste refém, obrigando-se a repartir com o Poder Executivo funções legislativas; em decorrência da ausência de programas doutrinários, imbricam-se interesses de lideranças e partidos, não se distinguindo diferenciais entre eles, condição essencial para qualificar o voto. A impressão final é a de que o retrato desfigurado está a merecer urgente retoque, se não em todas as nuances da moldura, pelo menos em partes que ofereçam aparência asséptica ao edifício político. Fichas sujas, por exemplo, não podem continuar no mapa eleitoral.

Os ingredientes que entrarão na composição da nova tintura hão de absorver a química de setores e categorias mais participativas, exigentes e dispostas a enfrentar a resistência de defensores de obsoleta arquitetura política. É oportuno lembrar que a pirâmide social não mais se assemelha a um triângulo estático. Os lados que o integram, a partir da base, mostram-se dispostos a sair da letargia, depois de décadas convivendo com a batelada de vírus políticos. Os movimentos sociais e a ocupação das ruas, no ano que findou, sinalizam a intenção de reencontrar o tempo perdido. A coletividade parece descer do céu da abstração para ser uma força na paisagem, fazendo valer sua determinação, princípios e valores voltados para qualificar a vida política. O curto dicionário abaixo poderá servir de baliza para milhares de candidatos na tentativa de aprimorar suas relações com a comunidade nacional.

Estado e Nação
O Estado, infelizmente, está bastante distante da Nação com que os cidadãos sonham. A Nação é a Pátria que acolhe os filhos, que se irmana na fé e na esperança de um futuro melhor; é o habitat onde as pessoas constroem os pilares da existência, constituem o lar, prezam antepassados, cultivam tradições. O Estado é a entidade técnico-jurídica, com seu arcabouço de Poderes, pressionada por interesses díspares e dividida por conflitos. Aproximar o Estado da Nação, formando o espírito nacional, constitui a missão basilar da política. Essa meta precisa ser o centro da agenda do homem público.

Representação
A representação política é missão, não profissão. É a lição de Aristóteles. Resgatar o verdadeiro papel da política – trabalhar pela polis - significa clarificar o papel do representante, as demandas das comunidades, as soluções para a melhoria dos padrões da vida social. A política não é um balcão de negócios. As angústias urbanas se expandem na esteira do crescimento populacional. As periferias não constituem massa de manobra para exploração por parte de siglas, líderes popularescos e oportunistas. Carecem de ações de efeito duradouro, não de quinquilharias e coisas improvisadas. Migalhas poderão alimentar o povo por certo tempo, nunca por todo tempo. Um representante do povo preocupa-se com metas, programas permanentes, medidas estruturantes.

Identidade
A identidade é a coluna vertebral de um político. É a soma de sua história, de seu pensamento, percepções e feitos. Um erro, que o tempo corrigirá, é construir a imagem incongruente com a identidade. Camadas exageradas de verniz corroem perfis. Dizer a verdade dá credibilidade. Os novos tempos condenam a hipocrisia, a simulação. Corretos são conceitos como lealdade, fidelidade, coerência, sinceridade, honestidade pessoal e senso do dever.

Discurso
O discurso deve abrigar propostas concretas, viáveis, simples. E, sobretudo, factíveis. A população dispõe de entidades que a representam. Resta ao político procurar tal universo. O povo quer um discurso sincero. Promessas mirabolantes, planos fantásticos, obras faraônicas, de tão banalizadas, já não despertam interesse. Até as monumentais arenas esportivas entram na lista de suspeições.

Grito das ruas
O grito das ruas se faz ouvir nos espaços dos Poderes em todas as instâncias. Expressam a vontade de uma nova ordem social e política. Urge abrir os ouvidos e a mente para interpretar o significado de cada movimento. Quem não fizer esse exercício, sairá do cenário. Uma linguagem comum se forma nos centros e fundões do país. O povo sabe distinguir oportunistas de idealistas.

Sabedoria
Sabedoria não significa vivacidade; mescla aprendizagem, compromisso, equilíbrio, busca de conhecimentos, capacidade de convivência, racionalidade. Não é populismo. Espertos que procurarão vender “gato por lebre” poderão ser cozidos no caldeirão do voto.

Transparência
A era do esconderijo está agônica. Esconder (mal) feitos é um perigo. A corrupção, mesmo dando sinais de sobrevida, é atacada em muitas frentes. Grandes figuras foram (e continuarão a ser) punidas. Denúncias sobre negociatas agora são objeto da lupa dos sistemas de controle. O público e o privado começam a ter limites controlados.

Simplicidade
Despojamento, eis um apreciado conceito. Lembrem-se do papa Francisco. Ser simples não é arrumar crianças no colo, comer cachorro quente na esquina ou gesticular para famílias nas calçadas. Simplicidade é o ato de pensar, dizer e agir com naturalidade. Sem artimanhas e maquiagens.

Lição final de José Ingenieros: “cem políticos torpes, juntos, não valem um estadista genial”.

O caldeirão dos 'nervosinhos' - ELIANE CANTANHÊDE


FOLHA DE SP - 05/01

BRASÍLIA - O ano começou fervendo, com sensação de 50 graus no Rio, previsões tórridas na economia e borbulhas na política. Caldeirão perfeito para Copa e eleições.

Mantega tratou de jogar água na fervura anunciando na primeira semana do ano que, ufa!, o governo deve fechar 2013 superando a meta do superavit fiscal em R$ 2 bilhões.

Segundo ele, o anúncio, que costuma ser no final de janeiro, foi antecipado para "acalmar os nervosinhos". Cá para nós, também foi para contrabalançar outros resultados: o Brasil teve o menor saldo comercial em 13 anos; o melhor investimento de 2013 foi o dólar, que entrou 2014 em forte alta; e, segundo manchete do UOL na sexta, o valor da Petrobras encolheu pela metade desde 2010.

E vem aí o anúncio do pibinho, com agentes do governo, e de fora do governo, tremendo diante da perspectiva de rebaixamento do Brasil nas agências de risco. Sem falar nas críticas sobre os jeitinhos e as plataformas de petróleo para reduzir o estrago (inclusive político) do resultado da balança comercial.

Na política, o PMDB ataca o parceiro PT, repetindo um script manjado em ano eleitoral. Os ministérios do PT seguram as emendas peemedebistas, os do PMDB ameaçam retaliar com a mesma moeda, todos se xingam em público. Tudo isso no calor das disputas estaduais. Aliados em Brasília, os partidos de Dilma e do seu vice Temer estão em guerra em Estados como Rio, Bahia, Rio Grande do Sul, Ceará, Maranhão e Amazonas.

E vem aí a reforma ministerial, ateando fogo à base aliada e com os palanques desmontando o tripé feminino do Palácio do Planalto: Gleisi Hoffmann concorre ao governo no Paraná, Ideli Salvatti vai para o Senado em Santa Catarina. Os substitutos deverão ser homens e do PT. Mas a guerra com o PMDB continua.

Dilma e Mantega vão precisar de bem mais que RS 2 bilhões a mais de superavit para acalmar tantos e tão esquentados "nervosinhos".

Abstinência programada - JOÃO BOSCO RABELLO


O Estado de S.Paulo - 05/01

O aumento do IOF em 1,5 mil por cento e a suspensão das desonerações de impostos marcam o fim da política econômica expansionista, iniciada em 2008, base da sustentação eleitoral dos governos Lula e Dilma.

O governo começa a ter de sacrificar posições, como a de preservar integralmente a aprovação da classe média, para não arriscar perdas na faixa do eleitorado mais importante numericamente.

Por isso, um IOF maior, que tira o humor do eleitor mais bem informado, e pouca ou nenhuma alteração em desonerações concedidas a setores como o de eletrodomésticos.

Carros mais caros, sem qualquer contrapartida na chamada mobilidade urbana, também danificam o patrimônio eleitoral da presidente Dilma Rousseff nos grandes centros urbanos, em que pese a distância que ainda separa os atos de seus efeitos.

O país entra no ciclo da abstinência, que o governo administra homeopaticamente para graduar a retirada da anestesia consumista.

O endividamento das famílias e a inflação em viés de alta, fatores até aqui negligenciados pelo governo Dilma por conveniência eleitoral, impuseram a rendição antes do início formal da campanha.

Não são, certamente, o resultado e o timing esperados pelo governo, embora o primeiro fosse óbvio e o segundo uma arriscada aposta que empurra a conta de truques e maquiagens para 2015.

Jornais estrangeiros já registram esse momento, com o enfoque de uma vida mais cara para a classe média brasileira em 2014.

Lembram a insustentabilidade, este ano, da administração de preços feita pelo governo, em 2013, como no caso da energia elétrica e dos transportes públicos.

No exterior, a camisa de força imposta à Petrobrás é também contabilizada como uma bomba-relógio incontornável.

A empresa fez duas correções nos preços dos combustíveis em 2013, lembram especialistas, mas precisará ir além disso para viabilizar seu Plano de Investimentos.

O governo deveria se preocupar com um aspecto inerente aos processos de correção de rumos: a economia cobra maior velocidade na arrumação da casa do que se levou para desorganizá-la.

Como tudo é feito para que o mal ocorra em 2015, a conta lá será grande para quem vencer.

Como resume o ex-secretário da Receita, Everardo Maciel, a conjuntura não permite otimismos: inflação alta, manipulação de preços, crescimento baixo, desequilíbrio fiscal, endividamento das famílias "são males cuja superação vão requerer ciência, tempo e determinação, temperados pela boa política".

Tempo de previsões - BELMIRO VALVERDE JOBIM CASTOR


GAZETA DO POVO - PR - 05/01

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu”, diz o Eclesiastes. É tempo das previsões. Não consigo deixar de trazer aos meus pacientes leitores as previsões que economistas, analistas, pais e mães de santo, videntes, cartomantes, quiromantes, leitores de borra de café e de entranhas de animais, jogadores de búzios e palpiteiros em geral de minha inteira confiança elaboraram para 2014.

Vamos começar pelos economistas. Aliás, escaldados, os mais prudentes já desistiram há muito tempo de fazer previsões econômicas para o Brasil com prazo superior a uma semana. Explico: o Banco Central publica semanalmente um boletim chamado Focus, nos quais cerca de 100 especialistas do mercado financeiro, grandes empresas e meio universitário reveem suas projeções da semana anterior. Assim, o risco de erros grosseiros diminui sensivelmente; mas a utilidade de fazer projeções para qualquer coisa que dependa do que irá acontecer nos próximos meses também diminui. Um exemplo: em janeiro de 2013, o Focus previa crescimento da produção industrial de 3,2%, balança comercial com US$ 15 bilhões de superávit e dólar a R$ 2,10. O produto industrial vai crescer a metade disso, o superávit comercial não passará de US$ 2,5 bilhões e o dólar encostou em R$ 2,40. Quem apostou nas previsões iniciais descobriu que, como regra geral, o governo Dilma continuará a se inspirar em Groucho Marx, que costumava perguntar aos seus incrédulos interlocutores: “Que você prefere: acreditar em mim ou nos seus próprios olhos?”

Se tivesse preferido acreditar nos próprios olhos, teria descoberto que o país não está crescendo; ao contrário, quando o PIB cresce menos do que a população, ela está empobrecendo. E que não é verdade que o mundo todo também não está crescendo: a economia americana terá um aumento superior a 4% em 2013, a economia europeia já saiu da recessão, a asiática vai bem, obrigado, e a latinoamericana só não vai bem porque a Argentina e a Venezuela vão de mal a pior, enquanto o Brasil anda de lado.

Teria descoberto também que a balança comercial e as contas externas, que o doutor Meirelles deixou pingando azeite, com superávits colossais e reservas internacionais crescentes, já estão voltando à velha rotina: em 2013, o Brasil gastou US$ 80 bilhões a mais do que gerou e logo, logo, estaremos colocando a culpa dos apertos cambiais brasileiros nos gringos, esses malditos...

De resto, as previsões repetem os anos passados: José Sarney prometerá abandonar a vida pública em 2025 para abrir caminho para a renovação da política nacional; as obras para a Copa do Mundo não ficarão prontas e custarão duas vezes e meia mais do que era previsto; a transposição do Rio São Francisco será adiada mais uma vez; dezenas de pessoas morrerão por falta de UTIs, centenas de outras morrerão nos corredores de hospitais à espera de uma vaga e milhares pernoitarão em filas para conseguir uma consulta especializada ou um exame para o segundo semestre de 2015. Milhares de dólares e reais serão encontrados em cuecas e meias em aeroportos e balas perdidas matarão vários inocentes.

Ah, e é claro: as universidades públicas entrarão em greve por tempo indeterminado; quando a greve acabar, os professores e funcionários fingirão repor os dias parados e compensar o atraso do calendário escolar. Se os alunos sairão mais ignorantes ou não das universidades, é outra conversa.

O exemplo de Michael Bloomberg - ELIO GASPARI


O GLOBO - 05/01

Prefeito de Nova York gastou US$ 650 milhões do próprio bolso e a mulher de Volcker alugava quarto em casa


Depois de governar a cidade de Nova York por 12 anos, o bilionário Michael Bloomberg pegou o metrô e foi para casa. Além de uma grande administração, deixou um exemplo. Durante o tempo em que ocupou a prefeitura gastou US$ 650 milhõesdo próprio bolso. 

Sabia-se que voava em jatinhos e helicópteros de sua propriedade (alô, Sérgio Cabral). Sabe-se agora que seu gosto por aquários no gabinete custou-lhe US$ 62,4 mil. O café da manhã e almoços frugais para a equipe saíram por US$ 890 mil. Uma viagem ao exterior custou US$ 500 mil (alô, Cid Gomes). Seu salário na prefeitura era de um dólar por ano.

Com uma fortuna avaliada em US$ 31 bilhões, Bloomberg gasta como quer. Já deu um bilhão à universidade onde estudou. (No ano seguinte à sua formatura, quando era um duro, deu cinco dólares.) Começou a vida no papelório, deixou a Salomon Brothers com US$ 10 milhões e fundou o império de meios de comunicação que leva seu nome.

Para quem gosta de depreciar o Brasil, ele seria um exemplo de políticos que faltam por aqui. É verdade, mas o casal Clinton está milionário e suas origens são semelhantes às de Bloomberg, sem que tenham produzido um só parafuso. Lyndon Johnson endinheirou-se na política e seus mensalões fariam corar o comissariado petista.

A diferença entre o serviço público americano e o brasileiro está no exemplo. Indo-se para o século 19, Dolley Madison, mulher do presidente James Madison, a primeira locomotiva social de Washington, morreu em absoluta pobreza, eventualmente ajudada por um escravo liberto que trabalhara para ela na Casa Branca. Em 1979, quando Paul Volcker foi nomeado presidente do Federal Reserve Bank, perdeu 50% de sua receita e foi morar numa quitinete de estudante em Washington. Sua mulher ficou em Nova York e equilibrou as contas alugando um quarto de seu apartamento.

No Brasil foram muitos os milionários que passaram por governos. Nenhum soltou a bolsa da Viúva. Em muitos casos as fortunas foram acumuladas por inexplicáveis multiplicações ocorridas durante o exercício dos cargos. Exemplo como o de Bloomberg, nem pensar.

CASA CIVIL

Está dura a competição dentro do comissariado pela substituição de Gleisi Hoffmann na chefia da Casa Civil.

A doutora Dilma tem dois nomes sobre a mesa: Carlos Gabas, ministro interino da Previdência Social, e Aloizio Mercadante, titular da Educação.

Um ascendeu dentro da máquina do serviço público para a qual entrou em 1985, por concurso. O outro emergiu do aparelho partidário, tendo sido fundador do PT, elegendo-se deputado e senador.

Se um dos dois for escolhido, a decisão terá dado o tom de um eventual segundo mandato da doutora Dilma.

O PENTE DE RENAN

O senador Renan Calheiros pagou R$ 27,4 mil à FAB pelo uso indevido do jatinho que o levou de Brasília ao Recife para um implante de 10.118 fios de cabelo. Isso dá R$ 2,70 por fio, deixando-se de lado os serviços médicos do procedimento.

Toda vez que o doutor ajeitar a cabeleira, deverá contar os tufos que saírem no pente. A cada 268 fios que caírem, terá perdido o equivalente a um salário mínimo.

INFRAERO INVICTA

A Infraero é invencível. Em dezembro de 2012, quando os aeroportos do Rio viraram umas saunas, ela dizia que o sistema de ar-refrigerado seria consertado no dia seguinte.

Agora que o Galeão passou pelo mesmo problema, ela informou que o ar-refrigerado funcionava normalmente, salvo nas áreas onde há obras, pois lá ele está desligado.

Tem solução. Basta desligar a refrigeração do presidente da Infraero quando há passageiros que pagam suas taxas no calor.

NO MURO

A entrada do PSDB no governo de Eduardo Campos é um fato maior do que parece. O tucanato pernambucano é liderado por Sérgio Guerra, ex-presidente do partido, e há algum desconforto no PSDB nordestino com a disposição mostrada por Aécio Neves em relação à sua candidatura.

TARSO XIAOPING

O comissário Tarso Genro produziu um interessante artigo intitulado "Uma Perspectiva de Esquerda para o Quinto Lugar". É uma reflexão em torno da sua visão para o futuro do Brasil, com ambiciosas referências ao modelo político e econômico da China. Espremendo, resulta no seguinte: "O 'levantar âncoras' poderá ser uma nova Assembleia Nacional Constituinte, no bojo de um amplo movimento político -por dentro e por fora do Parlamento- inspirado pelas jornadas de junho: com partidos à frente sem aceitar a manipulação dos cronistas do neoliberalismo, abrigados na grande mídia".

O doutor diz que "se quiséssemos enquadrar nas categorias do marxismo tradicional o que ocorreu na China após os anos sessenta, poder-se-ia dizer que a Revolução Cultural como forma específica de revolução política 'permanente' foi sucedida por uma 'Nova Política Econômica' (a NEP leninista), de longo prazo, que tende a se tornar economia 'permanente'." Comparar a revolução do companheiro Deng Xiaoping com a NEP de Lênin é uma licença poética. Uma, houve. A outra, teria havido. Lênin lançou-a em 1921, sofreu o primeiro derrame em maio de 1922, saiu do ar sete meses depois e morreu em 1924. Em 1928 a NEP foi abandonada, e o Estado leninista marchou para a "revolução cultural" de Stálin.

MORENGUEIRA NO PLANALTO

Em ano de campanha acontecem coisas estranhas. No lusco-fusco das festas de fim de ano acontecem coisas ainda mais estranhas. O repórter André Borges revelou que o Ministério dos Transportes alterou o edital do leilão de 2.100 linhas de ônibus interestaduais. Na sua versão inicial, cada consórcio deveria ser liderado por empresas experimentadas no setor, podendo agregar fundos de investimento ou mesmo empresas estrangeiros. A mudança, permitida pelo Planalto, mudou a canção. Nela entrou "Piston de Gafieira", imortalizada pelo velho Moreira da Silva:

"Quem está fora não entra

Quem está dentro não sai"

Engessaram o leilão, cristalizando o oligopólio do sistema de transportes interestaduais. Bloquearam a entrada de estrangeiros e impediram que o setor seja oxigenado por capitalizações do mercado financeiro (com suas auditorias). Os transportecas justificam a mudança dizendo que ela privilegia as empresas com experiência. Nada mais verdadeiro. Em matéria de experiência, a crônica desse setor confunde-se com as trevas das concessões de serviços públicos. Em 1994, o deputado Camilo Cola, dono da Itapemirim, tinha patrimônio de US$ 154 milhões e declarava R$ 10 mil de renda mensal.

Desde 1993 o governo promete leiloar as concessões de linhas de transportes interestaduais. Passaram-se 21 anos e nada. As empresas, felizes, rodam com autorizações especiais do governo. Vale lembrar que os concessionários de transportes públicos lidam com grandes pacotes de dinheiro vivo.

Debate sem censura - HENRIQUE MEIRELLES


FOLHA DE SP - 05/01

Entramos em 2014 com o noticiário carregado pelo debate eleitoral antecipado por governo e oposição. É a oportunidade para travar um bom debate sobre como assegurar nos próximos anos as taxas de crescimento prevalentes na década passada. Mas traz também o risco de o debate econômico ser dominado totalmente pelo debate eleitoral.

Há hoje peculiar convergência entre partes divergentes na análise das razões do crescimento da década anterior e o papel da situação econômica internacional. Interessa a muitos, por razões opostas, atribuir à economia internacional a forte expansão da década passada ou o baixo crescimento atual. Outra distorção conveniente é apontar a implementação de um modelo de incentivo ao consumo e o boom das commodities como responsáveis pelo crescimento de 2003 a 2010. Os fatos, porém, divergem das versões.

Os termos de troca (valor médio das mercadorias exportadas pelo Brasil) começaram a subir o suficiente para influenciar a economia a partir de 2006/2007, e o boom ocorreu em 2009/2010, após as medidas anticrise adotadas por outros países.

Foi o forte ajuste monetário e fiscal a partir de 2003 que estabilizou a economia e estabeleceu condições para a expansão econômica. A estabilidade propiciou a alta do crédito e do investimento, deprimidos pelos anos de instabilidade (monetária, fiscal e cambial). O desemprego elevado proporcionou mão de obra à economia em expansão.

Nos primeiros anos, o câmbio desvalorizado beneficiou as exportações de manufaturados, até que o impressionante aumento dos saldos comerciais, do investimento e da credibilidade da política econômica ocasionou gradual valorização do real.

Este ciclo durou até a crise de 2008 e 2009, quando houve, aí sim, a primeira mudança importante de modelo no período, com uso de política fiscal para estimular o consumo e avanço dos bancos públicos. Importante notar neste contexto que todas as medidas monetárias e cambiais adotadas pelo Banco Central em 2008 e 2009 foram revertidas já em 2010, com normalização da liquidez e da política monetária.

A compreensão correta de eventos fundamentais e tão próximos temporalmente do debate atual é essencial para a recuperação do crescimento. Por isso é preciso neste momento travar o debate econômico baseado nos fatos, independentemente do debate eleitoral, que passa pelos temas econômicos com distorção natural e inevitável.

A manutenção da realidade histórica no conhecimento coletivo é fundamental para traçar o rumo de uma política econômica que restaure o nível de crescimento e leve o Brasil a patamar compatível com o potencial do país.

A indústria baqueia - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 05/01

Nos últimos três anos, o governo Dilma acreditou em que estivesse adotando as melhores políticas de incentivo à indústria. Os resultados foram medíocres. Em 2011, a indústria cresceu apenas 0,3%, seguido de desempenhos também ruins em 2012 (-2,7%) e 2013 (+1,6%).

O diagnóstico geral esteve reconhecidamente equivocado. Não foi por falta de consumo interno que a indústria se ressentiu e segue se ressentindo. A indústria enfrenta dois problemas graves conjugados: falta de competitividade e incapacidade de inserção na rede global de suprimentos.

Quase sempre que são chamadas a opinar, um bom número das cabeças preocupadas com o futuro da indústria avisa que, com esse câmbio, com o real valorizado perante o dólar, não há setor produtivo que consiga prosperar. É uma meia-verdade. O buraco fica ainda mais embaixo.

A indústria brasileira não tem competitividade por duas principais razões: primeira, porque enfrenta um custo Brasil insuportável, na medida em que quase tudo é mais caro por aqui. Até há alguns anos, o governo tratava de compensar com mais câmbio - mais desvalorização do real - esse baixo poder de fogo, mas esse é um recurso limitado porque importações de máquinas, de matérias-primas e de peças mais caras em reais também asfixiam uma indústria que precisa inserir-se mais profundamente nos mercados. Em segundo lugar, porque tanto o governo Lula quanto o governo Dilma não deram importância à abertura de mercados para a indústria, uma vez que descuidaram da negociação de acordos comerciais. Hoje, a maioria dos concorrentes do Brasil está amarrada a acordos de comércio e, por eles, as prioridades vão para indústrias de outros países.

Não foi apenas com mais câmbio que o governo tentou dar mais força para a indústria. Desonerou as folhas de pagamentos, providência que deve ter beneficiado o setor em cerca de R$ 40 bilhões; reduziu impostos para a indústria de veículos, de materiais de construção, de aparelhos domésticos e de mobiliário; derrubou os juros básicos, a fim de azeitar o crédito; criou reservas de mercado por meio da extensão do estatuto do conteúdo local para um grande número de setores, especialmente o dos fornecedores de equipamentos de petróleo; e impeliu o BNDES para empurrar com créditos subsidiados os campeões do futuro.

Assim, o resultado decepcionou porque uma política industrial só funciona quando há confiança e os fundamentos da economia estão equilibrados.

Os próximos anos serão atrozes para a indústria. Apenas o setor de veículos enfrentará em 2015 uma capacidade ociosa de cerca de 1,5 milhão de unidades. Ao longo deste ano toda a indústria deverá enfrentar o aumento da competição da indústria americana (e de outros países) que será fortemente beneficiada com uma redução substancial dos custos da energia, graças à revolução do xisto.

Há sinais de que os dirigentes, afinal, parecem ter acordado para a necessidade de um choque capitalista que recoloque a indústria nos grandes negócios globais. O problema é saber se haverá disposição para fazer o que tem de ser feito, sobretudo em 2014, ano eleitoral.