sábado, 26 de janeiro de 2013

MILLOR FERNANDES



Millôr Fernandes
Millôr Fernandes

IL NOME DELLA ROSA (*)



Marc Aubert
Um jovem noviço chegou ao mosteiro e deram-lhe a tarefa de ajudar os outros monges a  transcrever os antigos cânones e regras da Igreja. Ele ficou surpreso ao ver que os monges faziam o seu trabalho a partir de cópias e não dos manuscritos originais. o nome da rosaFoi falar com o abade e explicou que, se  alguém houvesse cometido um erro na primeira cópia, esse erro propagar-se-ia em todas as cópias posteriores. O abade respondeu-lhe que há séculos copiavam da cópia anterior, mas que achava bem relevante a  observação do noviço. Na manhã seguinte, o abade desceu até as profundezas da caverna na cave do mosteiro, onde eram conservados os manuscritos e pergaminhos originais que não eram manuseados há muitos séculos. Passou-se a manhã, a tarde e depois a noite, sem que o abade desse sinais de vida. Preocupado, o jovem noviço decidiu descer e ver o que tinha acontecido. Encontrou o abade completamente descontrolado, com as vestes rasgadas, a bater com a cabeça ensanguentada nas veneráveis paredes do mosteiro. Espantado, o jovem monge perguntou: – Abade, o que aconteceu?
- Aaaaaaaahhhhhhhhhh!
CARIDADE!
CARIDADE!
Eram votos de “CARIDADE” que tínhamos de fazer.
E não de  “CASTIDADE”!
(*) O nome da rosa.

LISTA DO HOLOCAUSTO


Magu
Amanhã completarão 68 anos que o exército soviético derrubou os portões do campo de extermínio de Auschwitz,  revelando as atrocidades feitas contra os hebreus, por  esse motivo, o fato passou a ser considerado o Dia da Memória, para que  horrores do holocausto não sejam esquecidos e assim dificultando que voltem a acontecer. Motivo que faz mais importante o texto que segue abaixo.
Gueto de Varsóvia
Gueto de Varsóvia
Esta história foi transmitida pela cadeia de tv CBS no programa 60 minutos, sobre um arquivo secreto alemão que contem um tesouro de informações sobre 17,5 milhões de vítimas do holocausto. O arquivo se encontra na cidade alemã de Bad Arolsen. É gigantesco, e contém 16 mil estantes com milhões de páginas de documentos e, até há pouco, estava proibido para o público. Mas o governo alemão concordou neste princípio de ano, abrir os arquivos ao mundo. Scott Pelley, da CBS News, viajou com três sobreviventes judeus, que foram capazes de encontrar seus próprios registros. É uma peça incrivelmente comovente, ainda mais pungente, na seqüência da reunião de negadores do Holocausto no Irã e os discursos de negação da ONU.
A CBS está tratando de obter os dados da história da pessoas que sofreram e que tem um especial interesse por este tema, passados mais de 60 anos desde a  Segunda Guerra.
A notícia está sendo comemorada, pela memória de  seis milhões de judeus, 20 milhões de russos, 10 milhões de cristãos e 1.900 sacerdotes católicos que foram assassinados, massacrados, violados, queimados, mortos por fome e humilhados pelo governo alemão e russo da época, sendo que os povos buscam, por essa forma, reencontrar-se, agora, mais que nunca, com o Irã atacando, alegando que o holocausto é um mito. Assim, é imprescindível que o mundo não esqueça este terrível acontecimento.

Lincoln, Roosevelt, Kennedy



Helio Fernandes
O presidente John Kennedy já foi polêmico e controverso, agora cada vez vai descendo mais na escala histórica, até desaparecer completamente, o que acontecerá com o tempo. Se trato dele aqui, é em atenção a um pedido de Ivan Borodin, muito bem colocado.
 Kruschov e Kennedy, em 1961
E se no título destas notas coloco seu nome junto com Lincoln e Roosevelt, é porque muita gente e não apenas no Blog tem essa impressão. Ivan diz que não compara os dois primeiros com Kennedy, mas fica evidente que seu respeito, quase admiração pelo presidente assassinado, o que é um direito seu e de qualquer um.
Mas não corresponde à mínima realidade, nem como presidente nem como cidadão. Nasceu aristocrata, viveu aristocrata, nos quase três anos que esteve na Casa Branca, continuou como aristocrata. O que era sua vocação e seu estilo de vida, todo guiado e financiado pelo pai, enriquecido de forma colossal com o contrabando de bebida.
O cidadão John Kennedy jamais trabalhou. Não precisava, dizem seus defensores. Mas também jamais questionou a fortuna ilícita, que bancou toda sua vida de jovem doidivanas, que só pensava em mulheres. Trajetória adúltera e comprometedora que manteve depois de casado, e até publicamente como presidente do maior país do mundo.
PRESIDENTE AOS 43 ANOS,
INSENSATO DESDE OS 20
Como bom aristocrata, estudou em Harvard, não deixou nome ou nenhum destaque, além do fascínio e da atração sobre as colegas, isso rigorosamente indiscutível. Concebamos ou concordamos: vá lá, era rico não precisava trabalhar, jovem, bonito e atraente, muito justo (?) que aproveitasse a juventude. Mas continuasse sem qualquer mudança, nem quando foi presidente?
Ganhou do favorito Nixon em 1960, por margem tão pequena, que os votos que o pai conseguiu com os sócios da máfia foram importantes.
No livro “Como se faz um Presidente”, o jornalista Theodore White, que cobriu as duas campanhas (de Nixon e Kennedy) faz considerações interessantíssimas. Mas o que quero mostrar são os números que ele cita. Apesar do voto não ser obrigatório, houve grande repercussão, talvez por causa do primeiro debate na televisão. Embora a televisão estivesse “engatinhando”.
Segundo White, votaram 60 milhões de cidadãos. Pelos dados oficiais, Kennedy ganhou com diferença de 120 mil votos. Decodificando para facilitar a leitura e a compreensão: 10 por cento são 6 milhões de votos, 1 por cento, 600 mil, 0,2% (um quinto de 1 por cento) e chegamos aos 120 mil votos da transformação de um cidadão incomum, num presidente comum.
A PREOCUPAÇÃO COM OS NEGROS
E A “QUASE” GUERRA NUCLEAR
Esses dois assuntos são específicos e diretamente pedidos, no texto de Ivan Borodin. Como aristocrata e com a vida de ricaço, recebendo assiduamente na mansão de Massachusetts (antes da eleição), nada a ver com os negros. Nem sabia (e confessou) que não tinha a menor ideia do que aconteceu nos EUA depois da morte de Lincoln.
Não conhecia a 13ª emenda à Constituição, promulgada ainda em 1865, logo depois da morte de Lincoln. Essa emenda foi praticamente ignorada, embora se destinasse a agradar os Estados do Sul e reintegrá-los na União.
Quase 100 anos depois, os Estados do Sul continuavam inconquistáveis, só na campanha Kennedy veio a saber disso, nem visitou nenhum desses Estados. Aí tinha uma justificativa. Na Convenção Democrata, seu adversário para a indicação era o senador Lyndon Johnson, do Sul, considerado o maior coordenador dos EUA.
Às duas da madrugada, derrotando Johnson e Kennedy procurando um vice, ele e o irmão Robert (ainda não senador), exaustos, conversavam no restaurante enorme mas vazio. De repente, John pergunta: “Lyndon Johnson está nesse hotel?” Robert responde rápido, perguntando: “Você vai fazer o que eu estou pensando que você vai fazer?” Ia.
John: “Telefone para ele, pergunte se nos recebe agora, é a única chance de conquistarmos os votos do Sul”. Pela primeira vez, John pensava nos negros. Robert ligou, Johnson atendeu, percebeu logo o que era, respondeu: “Podem subir, não ia dormir”. Não dormiu e foi vice da chapa.
Lyndon era o vice ideal. Dominava o Senado, tinha enorme prestígio em todos os Estados do Sul. Como vice não se intrometia, não frequentava as festas palacianas. Ajudava o presidente, sempre que era solicitado. Assumiu com a morte (assassinato, até hoje inexplicável) do presidente, foi importantíssimo na reintegração dos negros, o que não avançava desde 1866.
JOHNSON PEDE Á SUPREMA CORTE
O FIM DAS RESTRIÇÕES AOS NEGROS
Em 1964, num requerimento oficial, Johnson pede à Suprema Corte que “libere os negros”. Foi atendido logo, com o fim da discriminação nos ônibus escolares, depois em todos os meios de transporte e nas outras privações, incluindo o impedimento de frequentar restaurantes de brancos. Os metrôs tinham vagões para negros, acabaram, viajavam em qualquer lugar. Como se vê, Kennedy não teve nenhuma participação.
A SUPOSTA GUERRA NUCLEAR
Em 1962, em pleno governo Kennedy, um avião americano, voando baixo, detectou a montagem do que parecia ser mísseis, em Cuba. Montaram um sistema de verificação, eram mesmo mísseis. Começou então uma guerra de 14 dias nos bastidores. Os generais americanos e soviéticos, insensatos, apostavam na guerra. Kennedy e Kruschov “conversavam” através de emissários surpreendentes, sabiam que a guerra nuclear seria o fim deles e do mundo, de acordo com as afirmações repetidas de Einstein.
Então, por sugestão de Kruschov, que estava em dificuldades com seus generais, Kennedy deu a famosa entrevista à televisão, “exigindo a retirada dos mísseis de Cuba”. Os soviéticos fingiram “resistência”, levaram a questão para a ONU, mas quase imediatamente cumpriram as “exigências” dos EUA.
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PS – Muitos, nos dois países e até em outros, acreditaram nessa guerra nuclear, que não haverá jamais. É tão destruidora que não poderá existir.

Momento Cultural: “Por você” – Barão Vermelho (vídeo)




PSICANÁLISE DA VIDA COTIDIANA Vinicius de Moraes, 100 anos



CARLOS VIEIRA
- Acredita na responsabilidade do poeta para com sua época?
-Claro. Sobretudo com relação aos jovens. Não sei se perfeita ou imperfeitamente, acho que deixei minha contribuição à literatura do meu tempo, do meu país. Um poema como “O Operário em Construção”, por exemplo, é uma contribuição. Não sou um ser particularmente político, porque não tenho vocação. Sou um cara de esquerda e devo carregar o ônus de ser um cara de esquerda num mundo de direita. Um mundo tão injusto... 
(Entrevista de Vinicius à Edla van Steen.)
Apaixonado, amoroso, outro “poeta gauche” da nossa Literatura; romântico, tenebroso, generoso, simples, um homem da rua, dos bares, da praia e das rodas de samba.” O branco de alma mais preta do Brasil”, como se dizia, o único; avesso à gravata e ao ideal do funcionário público esperando a aposentadoria para viver a vida.
Vinicius é corpo, corpo trêmulo de gritos de amor e de protesto. Amante, sempre e sempre, a ponto de afirmar um dia ao responder à pergunta de Edla: namorar, para você, significa tanto? Significa tudo. Eu sou muito mais sensual do que sexual. O namoro é mais importante do que a trepada. Todo o envolvimento, a beleza, a coisa... Trepar é ótimo, mas é uma espécie de ponto final, né? Namorar é que é bom. Sou vidrado no erotismo, sabe? 
Esse ano, em 19 de outubro Vinicius faria cem anos. Aliás, outro dia, Rubem Braga, um dos nossos maiores cronistas, também fez cem anos. Tão lírico quanto Vinicius! A Feira de Parati irá comemorar os 120 anos de Graciliano Ramos. Enfim, quanta homenagem, caro leitor, a homens que deixaram uma obra poética, literária, com profundo sentido social também. E é a isso que vou me referir hoje. Não ao “poetinha” Vinicius, que de poetinha nada tinha além do apelido afetivo. Foi, e é um dos nossos grandes poetas românticos e modernos. 
Minha inspiração nasceu após ler um belo livro – “O Traço, A Letra E a Bossa, Literatura e Diplomacia em Cabral, Rosa e Vinicius”, livro de Roniere Menezes, lançado pela Editora da Universidade Federal de Minas Gerais em 2011. O livro é uma versão, com algumas modificações, da sua tese de doutorado em Literatura Comparada. É daí que extraio meu improviso para mostrar e homenagear Vinicius, como um pensador social, um homem que também conheceu Os Sertões desse nosso país, assim como Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto. 
“O olhar para baixo, para o simples sertanejo, remodela a percepção do poeta e possibilita-lhe a construção de um pensamento mais terno em relação ao Brasil. O homem comum, a arte popular, os ambientes periféricos passam a ser o objeto da sua literatura”, frisa Roniere em seu livro. 
Fica claro e evidente no texto citado, que Vinicius de Moraes teve uma profunda transformação na sua maneira de ver um Brasil para ele era desconhecido. Acompanhado de escritor Waldo Frank, escritor norte americano de linha socialista, o nosso poeta conhece o Nordeste e o Norte do Brasil. Toma contato com um Brasil bem diferente das grandes cidades do sul, que não ostenta a vida burguesa da vida carioca e paulistana. Agora, a miséria, a fome, o sertanejo, as opressões dos Coronéis e a gritante diferença das classes sociais não pararia de sangrar no coração apaixonado, romântico e idealista de Vinicius. Roniere cita o poeta:”Tenho a impressão de que, de repente, descobri que tudo era besteira. Tomei conhecimento da realidade brasileira. E quando terminei a viagem, tinha mudado completamente a minha visão política... “Quando vi, ao lado de Waldo Frank, a terrível realidade brasileira do Nordeste e Norte do Brasil, (...) em questão de um mês dei uma guinada tão violenta para o outro lado que só mesmo a madurez e a experiência deveriam depois colocar em seus termos de equilíbrio.” 
O “Sertão” de Vinicius de Moraes passa a ser então, as favelas, os marginalizados, a angústia de sobrevivências das prostitutas, os meninos de rua e a miserabilidade das favelas da cidade grande, o Rio de Janeiro. Escreve Roniere:”O distanciamento de Vinicius em relação ao espaço em que transitava desde a infância possibilita-lhe um aprendizado profundo sobre o Brasil... Vinicius encontra sua alma brasileira na periferia nordestina, lapida-a nas boates de jazz dos Estados Unidos e de Ipanema. Mescla essas influencias às advindas de suas andanças pelas favelas do Rio de Janeiro... Assinala ser a arte incapaz de salvar o homem: pode, contudo, produzir outro homem, mais gentil e respeitoso para com o próximo. Nesse contexto, refere-se a Carlos Drummond e a Manuel Bandeira, este, a quem afetivamente Vinicius sempre o chamava de “seu pai”. 
É esse o Vinicius que quero mostrar ao leitor; não o nosso poeta das canções e poemas amorosos e românticos, mas um homem que como toda pessoa sensível, apaixonada, inquieta e sofrida, nasce com a “angústia existencial” da compaixão pela condição humana marginalizada. 
“Orfeu da Conceição”, “A Rosa de Hiroxima”, “Balada do Mangue”, “Valsa á mulher do povo”, Lavadeiras dos Subúrbios”, e tantas outras obras do nosso poeta, atestam que, além de boêmio, homem de mil paixões e nove casamentos, do músico e letrista de canções eternas, do “diplomata sem gravatas”, esse poeta maior deixou em sua literatura um “canto de guerra” ás Injustiças Sociais e uma esperança de um Brasil mais justo socialmente. 
Deixo com o leitor, versos de alguns poemas, nessa homenagem: 

“...Não posso/ Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro./ Contem-lhe que há milhares de corpos a enterrar.../ Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo./ E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo/ A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo/ Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema.../ Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, e voltado para todos os caminhos/ Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.” ( A Rosa de Hiroxima ). 

“...Pobres flores gonocócicas/ Que à noite despetalais/ As vossas pétalas tóxicas!/ Pobre de vós, pensas, murchas/ Orquídeas do despudor/ Não sois Loelia tenebrosa/ Nem sois Vanda tricolor:/ Sois frágeis, desmilinguidas/ Dálias cortadas ao pé/ Corolas descoloridas/ Enclausurada sem fé,/ Ah, jovens putas das tardes/ O que vou aconteceu/ Para assim envenenardes/ O pólen que Deus vos deu.” ( Balada do Mangue ). 
Caro Vinicius de Moraes, li num conto de Mia Couto, “ A viagem da cozinheira lacrimosa” que sei, gostaria de conhecê-lo, um coisa assim: “Pisara um chão traiçoeiro e subira pelas as alturas para esses lugares onde deixa a alma e se trazem eternidades.”
SARAVÁ, MEU POETINHA!!!
Carlos.A.Vieira, médico, psicanalista, Membro Efetivo da Sociedade de Psicanálise de Brasilia e de Recife. Membro da FEBRAPSI e da I.P.A - London. 

A crise dos reféns na Argélia: O ataque terrorista foi ‘serviço interno’ que saiu pela culatra – diz Jeremy Keenan



Jessica Elgot (The Huffington Post)
Para um dos maiores especialistas mundiais em militantes islamistas no Sahara, a crise dos reféns na Argélia pode ter sido ‘serviço interno’, aprovado pelos serviços de inteligência da Argélia, que acabou dando errado.

O professor Jeremy Keenan, da Escola de Estudos Orientais e Africanos, disse ao The Huffington Post na Inglaterra, que o Batalhão “Assinado em sangue” de Mokhtar Belmokhtar sempre manteve laços muito próximos com os serviços secretos da Argélia, apesar de Belmokhtar ter sido oficialmente “condenado à morte”, in absentia, naquele país.
Para o professor Keenan, é “quase impossível” que militantes armados atravessassem, sem serem vistos, os quase 2.000 quilômetros de deserto, se não tivessem autorização tácita para avançar.
“O deserto é pontilhado de postos de segurança militares. Teria sido impossível passar por todos eles. E o campo de gás In Amenas era um dos locais mais fortemente protegidos em toda a Argélia. Apesar disso, aqueles homens chegaram até lá e entraram. É preciso explicar como isso aconteceu.”
O professor Keenan lembra que havia muita especulação segundo a qual os serviços de inteligência da Argélia estariam planejando um ataque terrorista de pequenas proporções, para chamar a atenção do ‘ocidente’ para as repercussões de uma ação militar no Mali.
Mas, depois que o governo da Argélia autorizou a força aérea francesa a usar o espaço aéreo da Argélia para bombardear o Mali, o grupo de Belmokhtar virou-se contra os argelinos.
“Não há mais dúvidas de que os serviços de segurança planejaram um pequeno ataque terrorista, a ser levado a cabo por eles, não por algum terrorista, para assim criarem uma situação na qual pudessem dizer ao resto do mundo ‘nós bem que avisamos: se vocês atacarem o Mali, o terror atacará em toda a região. Temos razão e podemos controlar a região.’ Verdade é que os serviços de segurança há vinte anos organizam esse tipo de falso ataque terrorista naquela região.
ERRO DA ARGÉLIA
O regime argelino é altamente dissimulado e esse tipo de ação é bem típica deles. Acho que um grupo recebeu autorização para atravessar o país, porque os serviços de segurança da Argélia imaginaram que haveria ‘coisa pequena’, uns poucos tiros contra um ônibus ou um posto policial, coisa desse tipo.
Assim se consegue explicar por que foram liberados para cruzar o país. Mas acho que o feitiço virou contra o feiticeiro: os terroristas voltaram-se contra os serviços de segurança da Argélia e golpearam furiosamente, forte e fundo, a própria Argélia.”
Para o professor Keenan, o grupo que atacou é, quase com certeza, comandado por Belmokhtar, também conhecido como o “Príncipe Caolho”. Belmokhtar foi dado por morto ano passado (teria sido assassinado por grupos rebeldes do norte do Mali), mas reapareceu agora, numa vídeomensagem em que assume a responsabilidade pelo ataque no Mali.
Os especialistas creem que o ataque ao campo de gás foi longamente planejado ao longo de vários meses antes do início da ofensiva francesa contra o Mali.
“Sabe-se que Mokhtar Belmokhtar deixou o Mali há duas ou três semanas. É perfeitamente possível, portanto, que tenha liderado a ação: é o estilo dele, são os mesmos meios que costuma mobilizar, vê-se a marca de sua longa experiência, conhece como ninguém aquele território. Tenho certeza de que não está lá pessoalmente. Mas não há dúvida de que são seus homens”, diz o professor Keenan:
Muitos, na Argélia, entendem que o governo traiu o país, ao autorizar a França a usar o espaço aéreo argelino para alcançar o Mali. O grupo que atacou a usina está sendo elogiado. Tenho conversado com contatos meus na Argélia. Todos estão absolutamente furiosos.
SEM ESCOLHA…
Os argelinos de fato não tiveram escolha. Em nenhum caso poderiam dizer ‘não’ à França. Mas o governo, simultaneamente, faz muita propaganda antiocidente pela televisão. Assim mantém ‘a rua’, pode-se dizer, satisfeita. Mas, por trás dos panos o governo argelino trabalha ‘dos dois lados’. Agora, afinal, o povo parece estar percebendo.
Suspeito que haverá reação monumental contra o governo. Reação ‘da rua’ argelina. Não há quem não tenha suspeitas sobre o que realmente aconteceu ali. Muitos se convencerão que foi ‘trabalho interno’. E muitos outros sentirão que o serviço de inteligência fracassou e não impediu a entrada de grupos terroristas no país deles. Que provocaram dano ao país.”
Para o professor Keenan, o ataque terrorista terá efeito descomunal, no longo prazo, na política de toda a região. Os efeitos aparecerão já muito depois de os reféns resgatados terem deixado o país.
“A resposta da Argélia parece ter sido de extraordinária fúria, de arrogância cega. Entraram com muita força, porque, de fato, foram engambelados. E tinham de mostrar poder.
Haverá vastíssima repercussão, sempre com portas fechadas, especialmente no que tenha a ver com a atuação dos serviços de inteligência. É o evento mais grave que se vê ocorrer na Argélia, há muitos, muitos anos.
Até hoje, a segurança de estrangeiros sempre foi garantida. Jamais antes houve ataque contra instalação de extração de gás e petróleo. É evento sem precedentes na história da região. Governos e serviços secretos não sabem como reagir.”