quinta-feira, 19 de julho de 2012

'Chinaglia pediu que eu não revelasse mensalão', diz Jefferson Ex-deputado e atual presidente do PTB afirma ter sido procurado pelo deputado petista e hoje líder do governo para ficar calado e preservar mandato


18 de julho de 2012 | 22h 20

Débora Bergamasco, de O Estado de S. Paulo
Às vésperas do julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF), o ex-deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, diz que Arlindo Chinaglia (SP), então líder do governo, ofereceu uma "saída pela porta dos fundos" para que não seguisse com a denúncia que abalou o governo petista em 2005.

Ex-deputado Roberto Jefferson assume presidência do PTB - Ed Ferreira/AE
Ed Ferreira/AE
Ex-deputado Roberto Jefferson assume presidência do PTB
Pela proposta, Jefferson entregaria a presidência do PTB ao então ministro Walfrido dos Mares Guia (hoje no PSB). Depois, seria escalado um "delegado ferrabrás" para tocar o processo e um relatório pelo não indiciamento do petebista.
"Acharam que eu ia me acovardar. Me confundiram com o Valdemar Costa Neto. De joelho eu não vivo, eu caio de pé", disse Jefferson ao Estado antes da Convenção Nacional do PTB, nessa quarta-feira, 18, em Brasília. Durante mais de três horas, discursos enalteceram a "coragem" do ex-deputado por denunciar o maior escândalo do governo Lula.
A reunião do PTB foi feita para mostrar ao Supremo que Jefferson não é um "qualquer" e que goza de prestígio em seu partido. Ideia do advogado do réu petebista, Luiz Francisco Corrêa Barbosa, que sugeriu antecipar o evento, previsto para novembro, e transformá-lo em "convenção-homenagem".
Carlinhos Cachoeira deveria falar tudo o que sabe à CPI?
Ele é um homem de negócios, não é um homem público. O político tem o patrimônio moral, que é a imagem, para preservar. Ele é chamado de bicheiro, seus negócios nunca foram, assim, muito dentro da lei. Será que ele está zangado? Tem mais é que se preservar mesmo.
Ao denunciar o mensalão, o sr. queria preservar sua imagem?
Claro. Me foi oferecida a troca: eu sairia da presidência do PTB, a daria ao Walfrido. Seria nomeado um delegado ferrabrás para o processo. E o relatório seria pela minha absolvição, pelo não indiciamento. Quer dizer, eu viveria de joelhos, sairia pela porta dos fundos. Eu falei: "Não vou, não. Entrei pela porta da frente e vou sair pela porta da frente. Ou vocês arrumam isso que vocês montaram ou vou explodir isso". Não toparam e foi o que eu fiz. Acharam que ia me acovardar, que eu tinha jeito de Valdemar Costa Neto (presidente do extinto PL, hoje PR, e réu do mensalão), que ia renunciar para depois voltar. De joelho eu não vivo, caio de pé. Fiz o que tinha que fazer. Fui julgado errado pela turma do PT.
Quem fez essa proposta?
O líder do governo (Arlindo) Chinaglia foi à minha casa e fez a proposta. Eu disse: "Não tem a menor chance de dar certo. Não vai para frente".
Arrependeu-se?
Não. Não dá para dar uma de galo mutuca e fugir. Vai olhar o neto no olho como? "Vovô foi acusado, renunciou para não ser cassado..." Isso é conversa de vagabundo, tô fora.
Como avalia o impacto do julgamento nas eleições municipais?
Prefiro agora do que em 2014. Está na hora de ser julgado. O João Paulo Cunha (candidato pelo PT em Osasco) é o único que pode se prejudicar agora.
Haverá surpresa?
Para mim, a sentença que virá – absolvendo ou condenando – é que ninguém mais pode abusar. Quem é processado sofre, todos devem estar sem dormir, como eu. Digo por mim, o processo em si já é uma punição.
De 2005 para cá, houve mudança na postura política brasileira?
Ah, mudou. Até a própria mudança do Lula para a Dilma. O Lula era tolerante com esses abusos, a Dilma, não. O sinal amarelo está aceso para todos. Agora tem que deixar tudo claro. Quando chega uma doação, a gente quer saber de onde vem, quem está mandando, o que ele quer. Antes, se vinha dinheiro, vinha dinheiro.

Toffoli votará no julgamento do mensalão


Ricardo Noblat - 

19.7.2012
 | 7h35m
O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal,  já comunicou à namorada, ex-advogada de um dos 38 mensaleiros, que participará do julgamento do mensalão, a ter início no próximo dia dois de agosto.
Ela não gostou da notícia. Acha que a decisão de Toffoli o desgastará - e a ela também.
Toffoli foi advogado de campanha de Lula em 2002. Depois assessor do ex-ministro José Dirceu na Casa Civil. Mais tarde Advogado Geral da União.
Não há na lei nada que o obrigue a se declarar impedido de votar no caso do mensalão. Declarar-se suspeito seria questão de foro íntimo.

A morte não terá domínio, por Luis Fernando Veríssimo


Enviado por Luis Fernando Veríssimo - 
19.7.2012
 | 9h02m
GERAL


Li que Samuel Becket dizia que quem morria passava para outro tempo. Não queria dizer outro mundo, com um presumível outro clima. Referia-se ao tempo do verbo. Entre todas as mudanças provocadas pela morte havia essa: o morto passava irremediavelmente ao pretérito.
Era bom pensar assim. A morte acontecia no mundo antisséptico das palavras e das regras gramaticais, nada a ver com a decomposição da carne. O “é” transformava-se em “era” e “foi”, e pronto. A migração do morto, em vez de ser da vida para o nada, era só entre categorias verbais.
A vida vista como uma narrativa literária nos protege do horror incompreensível da morte. Podemos nos imaginar como protagonistas de uma trama, que mesmo quando não é clara indica alguma coerência, em algum lugar.
O próprio Becket só escreveu sobre isso: a busca de uma trama, qualquer trama, por trás do aparente absurdo da experiência humana. E um enredo, ou um sentido que faça sentido, só pode ser buscado na narrativa literária, no encadear de palavras que leva a uma revelação, mesmo que esta não explique nada, muito menos a morte.
E se falar, falar, falar sem cessar, como fazem os personagens do Becket na esperança de que aflore algum sentido não der resultado, pelo menos está-se fazendo barulho e mantendo a morte afastada.
A literatura tem essa função, a de uma fogueira no meio da escuridão da qual a morte nos espreita. Ou de uma matraca contra o silêncio final. Vale tudo, mesmo a garrulice incoerente de um personagem do Becket, contra a escuridão e o silêncio.
Num poema que fez sobre seu pai moribundo Dylan Thomas o insta a reagir ferozmente contra o esvaecer da luz — “Rage, rage against the dying of the light” — e a não se entregar à morte sem uma briga.
Não sei se o Becket encontrou o consolo que procurava pelos seus mortos na ideia de que tinham apenas mudado de tempo de verbo, mas imagino que, como Dylan Thomas na sua poesia inconformada, tenha recorrido à literatura como um meio de negar à morte o seu triunfo. Ninguém morre. Há apenas uma revisão na narrativa da sua vida para atualizar o tempo dos verbos.
Outra vez Dylan Thomas: “And death shall have no dominion”, e a morte não terá domínio. 

Diz-se que quem morreu “já era”, o que é o mesmo que dizia o Becket com mais sensibilidade. Mas Becket queria dizer mais. Os personagens de narrativas literárias mudam do tempo presente para o tempo passado, mas continuam no mundo, mesmo que no mundo restrito dos livros e das estantes. Salvo, talvez, os cupins e as traças, nada ameaça a sua perenidade. “São” eternamente.

Os riscos da absolvição dos mensaleiros

Publicado no Blog S-E-2

Posted: 18 Jul 2012 01:44 PM PDT
Mensaleiros
A esperança dos bons brasileiros de que aconteça um julgamento imparcial e deveras justo dos mensaleiros será frustrada e não adianta torcer, rezar ou apelar para os deuses do Olimpo STF, como fazem a CUT e os vermelhinhos em defesa dos réus.
Lewandowski já pediu, em seu relatório, a diminuição de eventuais penas caso haja - e eu acho improvável – a zebra de uma condenação de Dirceu e sua gangue. Toffoli, comprometido até os gorgomilos com a matilha da estrela vermelha não será impedido de julgar e, imagino com minha mente doentia, pode ser o pivô de alguma manobra para se protelar o início do julgamento.
Espera-se que os trabalhos prolonguem-se por mais de um mês, o que significa a aposentadoria de dois ministros nesse intervalo, Celso de Melo e Peluso. Isto pode redundar na interrupção dos trabalhos até que sejam nomeados seus substitutos pela presidente, algo que não depende de prazo legal, mas dos interesses pessoais, partidários, comerciais, ideológicos e sabe-se lá quantos outros.
Com 40 réus arrolados, centenas de testemunhas e milhares de páginas, é óbvio que o tempo necessário para se passar todo o processo, para a felicidade dos advogados de defesa, será enorme. Fora os quilométricos votos justificados dos juízes, que um dia aprenderão que se reduzirem as justificativas dos seus votos estarão fazendo um grande serviço a favor da celeridade do Judiciário.
Com todos esses percalços e mais os possíveis que não consigo sequer imaginar, há ainda o risco enorme – ou quase certeza – da absolvição dos processados. Risco não pela absolvição em si, que é uma questão jurídica, mas pelo que ela poderá provocar.
Não fica a dúvida na cabeça de qualquer cidadão em pleno exercício de sua sanidade mental que existem juízes irremovíveis em sua intenção de liberar a camarilha e isto são favas contadas. Estes até devem ter vontade de acelerar o julgamento num ano eleitoral e é aí que descansa alerta o perigo.
Absolvidos, os bandidos baterão no peito e se arvorarão como injustiçados, vítimas do PIG e da imprensa capitalista comprada pelos oposicionistas. Tornar-se-ão cabos eleitorais santificados e fortificados, raivosos e revanchistas avalizados para alavancarem seus candidatos ou suas próprias candidaturas, como Delúbio, candidato a deputado federal por Goiás, o principal assessor do chefe da quadrilha, José Dirceu.
O próprio Dirceu, se absolvido, poderá recorrer à Justiça para anular sua cassação, alegando que esta se deu por conta de crimes que o STF dirá não existirem.
Este sujeito, mesmo cassado e processado, com seus direitos políticos suspensos, em qualquer momento deixou de fazer política partidária, tráfico de influência, lobby, intromissão dos Poderes da República, mormente no Executivo, ao ponto de indicar e fritar ministros. De fato, o único direito político cassado foi o de candidatar-se a cargo eletivo, todos os demais têm sido exercidos à exaustão e impunemente.
Livre das imputações, será o King Kong liberto para açambarcar o país com suas garras de rapina, liberado para repetir e continuar às claras todas as falcatruas que vem praticando na surdina dos jornais e no escurinho dos gabinetes.

©Marcos Pontes

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Troca de banco em financiamento imobiliário deve ficar 60% mais barata



Postado por: Redimob  |  16/07/2012 09:55:33
Fonte: Agência de Notícias Jornal Floripa


Quando entrar em vigor, a nova regra para a transferência de financiamento imobiliário de um banco a outro deve reduzir em cerca de 60% os custos ao consumidor, segundo estimativas de consultores ouvidos pela reportagem.
A chamada portabilidade é um instrumento que permite mudar o empréstimo de um banco para outro que ofereça condições mais vantajosas, como juros menores e prazos maiores.
Hoje, no entanto, as despesas com cartórios para fazer essa migração, assim como a demora do processo, desestimulam os consumidores.
Os custos totais para o tomador do crédito ficam em cerca de 1% do valor do imóvel, segundo estimativas de mercado, e precisam ser pagos à vista.
Com a nova norma aprovada na última semana pelo Senado, os custos cairão para 0,4%, em média.
A alteração, inserida na mesma medida provisória que reduziu a remuneração da poupança, depende de regulamentação do CMN (Conselho Monetário Nacional) para começar a valer.
PONTOS ALTERADOS
Em linhas gerais, a regra elimina a necessidade de quitação do empréstimo vigente --feita com recursos da nova instituição financeira-- e de registro de novo contrato, tudo isso em cartório.
O financiamento será simplesmente transferido de um banco para outro, assim como a alienação do bem.
Isso será feito por meio de uma averbação (um tipo de declaração) no cartório, que poderá ser feita eletronicamente.
Esse procedimento mais simplificado já é adotado na migração de financiamentos de veículos.
A nova regra não impede, no entanto, que a instituição financeira para a qual o empréstimo será transferido solicite certidões atualizadas do imóvel ou mesmo uma nova vistoria --procedimentos pagos pelo tomador do crédito.
Na avaliação de Marcelo Prata, presidente do Canal do Crédito, site que funciona como buscador de taxas em diferentes bancos, a redução de custos e prazos favorece a portabilidade, mas há pontos que devem ser discutidos com os bancos.
"Uma questão a ser debatida é se será estipulado um período mínimo a partir do qual a portabilidade será permitida", diz Prata.
"É preciso que as medidas sejam positivas para consumidores e bancos, para que as instituições financeiras permaneçam estimuladas a conceder crédito."
O executivo destaca ainda que tonar a portabilidade mais fácil e barata pode incentivar as instituições financeiras a melhor as condições dos empréstimos para manter os clientes.
"O crédito imobiliário é um produto que ajuda o banco a fidelizar o cliente por um longo período", afirma.

Decisões judiciais contra blogueiros pautam a discussão da blogosfera nacional


by Fábio Pannunzio

Por Guilherme Sardas
Em 2010, uma medida liminar da Justiça do Paraná proibiu o repórter e apresentador da Band, Fábio Pannunzio, de fazer qualquer referência a uma quadrilha de estelionatários, com  atuação internacional, que vinha denunciando em seu blog pessoal. Meses depois, com o grupo desbaratado pela mídia formal, e devidamente preso, a liminar seria revogada pelo TJ do estado e arquivada por unanimidade.
Durante o período de restrição, Pannunzio uniu-se à jornalista Adriana Vandoni, do blog “Prosa e Política”, que estava – e continua – impedida de comentar ou emitir opinião de juízo sobre as inúmeras ações de improbidade administrativa envolvendo o presidente da Assembleia do MT, José Riva. “Como nós dois estávamos censurados, passei a veicular as denúncias do Riva, e ela, as denúncias da quadrilha. Isso chama permuta de censura”, explica Pannunzio.
Segundo Adriana, as decisões judiciais que vêm legitimando sua mordaça, como a negativa de um agravo de instrumento no TJ de MT, teriam forte influência da atuação de Riva nos bastidores da Justiça local. “A Justiça do MT é absolutamente comprometida com ele. Para você ter ideia, a alegação de um dos desembargadores que me negou o agravo é que eu estava ferindo o direito de privacidade do político ao falar dos processos que ele responde.”
A situação é apenas um exemplo do quadro de crescente judicialização da censura a que a blogosfera brasileira vem sendo submetida e que levou figuras como o ministro Carlos Ayres Britto, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), a manifestar recentemente sua preocupação com o assunto, recorrendo ao pensador francês Alexis de Tocqueville, para defender que “os excessos da liberdade se corrigem com mais liberdade”.
Os fatos e os números mostram a facilidade de se remover conteúdos da internet brasileira. Segundo o Committee to Protect Journalists (CPJ), no primeiro semestre de 2011, o Brasil foi o campeão mundial de remoção de conteúdo, com 224 ordens da Justiça remetidas ao Google. Para Thiago Tavares, diretor-presidente da ONG SaferNet Brasil, a situação exige a criação de um observatório para as decisões judiciais da blogosfera. “Em alguns segmentos do Judiciário, me parece que há certa interpretação exacerbada da legislação em que se invertem um pouco o direito à informação e o ferimento da honra e imagem da pessoa. Em ano de eleição, a remoção de conteúdo cresce exponencialmente”, explica.
A experiência de Pannunzio é emblemática para a maior vulnerabilidade do blogueiro no país. “Em 31 anos de profissão na TV, fui processado uma única vez. Já no blog, foram seis processos. A figura do blogueiro é muito mais frágil do que a empresa de comunicação.”
Chapa-branca ou oposição?
Não são apenas os abusos jurídicos que têm aquecido a discussão. No final de maio, a cidade de Salvador recebeu o “3º Encontro dos Blogueiros Progressistas”, grupo de jornalistas e não jornalistas, que vêm reivindicando a liberdade de atuação na blogosfera como alternativa à atuação da grande mídia.
O evento contou com a gravação de um vídeo do ex-presidente Lula, que exaltou a atuação dos blogs como alternativa ao setor de comunicações do país, segundo ele, “concentrado em poucas empresas, poucas famílias e poucos lugares”. Entre os articuladores do evento, Franklin Martins, antigo ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social do governo Lula e um dos principais defensores do marco regulatório da mídia no país. O grupo tem o apoio dos jornalistas Paulo Henrique Amorim, Rodrigo Vianna, Luiz Carlos Azenha, Altamiro Borges, entre outros.
Para Borges, que preside o Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé, democratizar a rede é um dos principais desafios da blogosfera. “Há, sim, a judicialização da censura, processos que desgastam e levam o profissional à bancarrota, mas há também a dificuldade da democratização da comunicação no Brasil, porque hoje há uma monopolização da mídia brasileira, comandada por sete famílias. É uma aberração democrática”, diz.
Pannunzio rechaça a tese de que os blogs são alternativas essenciais a um suposto “monopólio da grande imprensa”. E ainda critica: “A maioria dos blogueiros que defendem essa tese é da imprensa formal. Começa por aí a contradição deles. Além disso, são parte de um grande projeto de comunicação de pessoas que integravam o governo Lula. Como é que um jornalista de qualquer mídia abre mão de fiscalizar para começar a bajular o poder, a defender a impunidade de gente envolvida com a corrupção, como vem acontecendo?”.
Para Ricardo Noblat, blogueiro político de O Globo, a cisão ideológica dos blogs não é problema – “Sempre vai existir quem é mais próximo do governo e quem é oposição”. A discussão mais delicada, segundo ele, é outra. “O que eu acho complicado é o titular de um blog receber por anúncio veiculado ali. É óbvio que a participação no faturamento publicitário vai implicar conflito de interesse”, afirma. Em meio à asfixia jurídica e às arestas ainda não aparadas da blogosfera brasileira, que a liberdade seja, de fato, a única solução para seus próprios excessos.

Ódio à mulher - por Pilar Rahola



 
Pilar Rahola já foi vice-prefeito (vice-alcadeza) de Barcelona, faz trabalhos jornalísticos e corajosamente defende os direitos humanos na Espanha e no mundo, fazendo grande crítica aos fundamentalistas. Já esteve pelo menos duas vezes em Porto Alegre.
 
Cada dia há mais mulheres em nosso país (Espanha) que passeiam embutidas em negros cárceres téxteis, muitas com apenas uma
abertura para ver o mundo, ou até sem ela.
Ontem me encontrei com uma delas no centro de Barcelona e a fiquei olhando, tentando vislumbrar a vida que latia sob este fanatismo feudal a que era relegada. Porém não pude ver nada, porque diante de mim só havia um manto negro que agredia meu olhar e me recordava que, para milhões de mulheres, o século XXI vive no século VIII.
É claro, ao seu lado estava seu macho, vestido com jeans, passeando seu troféu humano pelas ruas da Europa, muito seguro de seu domínio.
Nos olhamos rapidamente, e os desprezos mútuos se cruzaram como se fosse uma linguagem impossível.
Ele devia pensar que eu era uma libertina insubmissa, carregada de pecados, como todas as infiéis, e eu pensei que ele era um pobre desgraçado, incapaz de gozar a extraordinária força de uma mulher livre, tanto que necessitava tê-la como a uma escrava. Em algum momento pensei nos deuses negros que habitam seu cérebro fanático, e lamentei que não tivesse conhecido algum deus de luz.
 
A questão, no entanto, não é a minha anedota pessoal, cada dia vemos mais recorrentes por estas paragens em proliferação.
Onde ficou a famosa decisão de não permitir os "niqabs" em muitas cidades? Por aí estavam muitos policiais que, provavelmente, não faziam nada. E não creio que ninguém tenha feito nada em nenhum lugar deste país, perdidos na "grandiloquente", porém incapaz retórica política.
Enquanto isso o fenômeno integrista cresce subterraneamente, como se fosse uma grande mancha de azeite se alastrando sem parar. Não parece estranho, por exemplo, que em um só ano tenham sido abertas 28 mesquitas novas, segundo os dados do "Observatório Religioso do Ministério"? E isso apesar da moratória de alguns municípios. E não é de admirar que a Catalunha tenha 242 mesquitas, enquanto a Andalucia tenha 180 ou Madrid 106? E isso sem contar com as mesquitas-garagem, que não estão legalizadas, nem catalogadas.
 
Sabendo disso, não deveríamos nos perguntar porque crescem sem parar tantas mesquitas e por outro lado não se desenvolvem centros  que ensinem cultura, história, identidade, senão por outra vontade que o conhecimento?
 
Me dirão alguns que se trata de religião e temo ter que desmentí-los. Não se trata de religião. Trata-se de muito dinheiro, proveniente de ditaduras islamitas - estas tão "amigas" - que dedicam seu enorme poder financeiro a potencializar um islamismo rigoroso, medieval e antiocidental. Trata-se, pois, de tecer uma sólida rede de centros religiosos que  pegam e enganam no discurso fundamentalista a todos os cidadãos muçulmanos que estão em terra infiel.
 
É claro que nem todas as mesquitas respondem esta idéia, mas as que não fazem parte delas ficam segregadas.
E o que nós fazemos?
Ficamos caladinhos olhando para outro lado. Não seria o caso de acordarmos deste cuchilo?